quarta-feira, 31 de março de 2010

A lua nova


Aproxima-se a Páscoa. A minha Páscoa. Sinto que está perto o meu fim. São muitas as incompreensões e as rejeições. Três anos em que andei pela Judeia e Galileia a anunciar o Reino de Deus e eles a pensar que eu quero ser rei desta terra. Fiz milagres, curei, ressuscitei pessoas, fiz-me próximo e fui censurado por fazer milagres ao sábado, por perdoar os pecados... pensavam eles que eu não podia fazê-lo. Nunca quiseram ver em mim o Filho de Deus. Querem um Messias guerreiro e eu sou um Messias de paz. E agora rezo, nesta última noite, antes de tudo acontecer, para que o Pai que me enviou, me dê força para conseguir suportar tudo. Já mandei reservar a sala para amanhã me despedir dos meus amigos que estiveram sempre comigo... Pedro, homem rude, sempre preocupado comigo, acha que é forte, que se resolve tudo à força... pobre Pedro. Espera-lhe um final parecido ao meu. Tiago, o mais próximo. E a mãe que queria que ele se sentasse à minha direita... temperamento forte, decidido, bastante conhecido por estas bandas... João, o mais novo. Sempre protegido. O mais vivo, destemido, diria até ousado... conversamos muito os dois quando os outros, cansados, adormecem. Filipe, dos primeiros. Galileu como eu. Preocupado com os outros, com medo que falte alguma coisa, como naquele dia com a multidão cheia de fome. Foi ele que me apresentou uns gregos há pouco tempo. Mateus, homem culto, que teve uma integração difícil no grupo por ter sido cobrador de impostos. E Judas, o triste Judas. Sempre preocupado com o dinheiro. Escolhi-o mas desconfio dele. Anda estranho. Calado, ausente... passa-se alguma coisa.
Não sei se perceberam o que lhes tenho dito. Andam tristes. Falam baixo para eu não ouvir. Rezo por eles, para que se mantenham unidos. A minha mãe vem também à festa da Páscoa. Não nos vemos há mais de um ano. Sempre preocupada comigo, se estou bem... preocupações de mãe.
Sinto que não tenho alternativa. Está muita gente na cidade. Há dias, ao entrar aclamaram-me como se fosse um rei. Não adiantava mandá-los calar. Felizmente a guarda não lhes fez mal. Mas sinto que estou a ser controlado, apesar de sair todos os dias da cidade para poder estar mais à vontade. Marta, Maria e Lázaro. Bons amigos. Lázaro está a recuperar bem.
Têm sido anos alegres; não ter onde dormir, ter que trabalhar, gastar as nossas forças ao serviço de Deus. De vez em quando sente-se o cansaço. Outras vezes a solidão. Que sintam sempre a minha presença.
A lua está bonita. Nova. As amendoeiras já rebentaram, as figueiras já espreguiçam as primeiras folhas. Cabritos por todo o lado. Está tudo pronto para a Páscoa. Até eu estou pronto para cumprir a vontade de Deus, seja ela qual for e como for. Deus está comigo. E isso basta-me.

segunda-feira, 29 de março de 2010

Uma surpresa








Hoje, na sacristia, tive uma surpresa: ofereceram-me os dois primeiros volumes do Diário de Miguel Torga! Andava à procura deles há tanto tempo e hoje, quase miraculosamente, foram-me oferecidos por uma amiga. E com os dois volumes ainda uma antologia poética de Miguel Torga, organizado pelo próprio. Trazer este tema para aqui não é para agradecer publicamente a esta amiga a prenda - muito lhe tenho a agradecer! - mas é reparar na atenção e na dedicação que os amigos nos têm e que muitas vezes não damos conta. Para mim, este primeiro volume de Miguel Torga, que ainda se tem de abrir à moda antiga, há-de ficar marcado como a "prenda da sacristia". Partilho com ela e convosco a dedicatória deste primeiro volume e a sua primeira página que é um poema. Diz assim a dedicatória: "Cada dia deixamos uma parte de nós próprios no caminho". O poema chama-se "santo e senha":






"Deixem passar quem vai na sua estrada.
Deixem passar
Quem vai cheio de noite e de luar.
Deixem passar e não lhe digam nada.

Deixem, que vai apenas
Beber água do Sonho a qualquer fonte;
Ou colher açucenas
A um jardim que ele lá sabe, ali defronte.

Vem da terra de todos, onde mora
E onde volta depois de amanhecer.
Deixem-no pois passar, agora

Que vai cheio de noite e solidão.
Que vai ser
Uma estrela no chão
".

sábado, 27 de março de 2010

À sombra da Cruz


Jesus, quando decide ir para Jerusalém, sabendo para o que ia, disse aos seus discípulos: "Vamos subir a Jerusalém e o Filho do Homem vai ser entregue aos sumos-sacerdotes e aos doutores da Lei, que o vão condenar à morte. Hão-de entregá-lo aos pagãos, que o vão escarnecer, açoitar e crucificar. Mas ele ressuscitará ao terceiro dia".

Entendo esta passagem como um aviso anual para mim. Cada ano, para não dizer cada dia, o Senhor pede-nos atenção, força, coragem, esperança, confiança, fé, não para morrermos por ele, como lhe chegou a dizer Pedro, mas para morrer com ele para depois com ele ressuscitarmos. A cruz é sombra nos dias quentes, é cajado quando andamos cansados, é fonte quando sentimos a sede de Deus, é amor quando sentimos a indiferença ou o desprezo dos outros. A Cruz é bússola quando a nossa vida parece andar desorientada, é espelho quando confrontamos a nossa vida, é glória quando nos sentimos ou somos humilhados.

Amanhã começamos uma semana intensa de celebrações. Vamos meditar o mistério da Paixão do Senhor. Que o mistério da Cruz ajude na nossa caminhada para Deus. E que Deus nos ajude a levarmos a nossa própria cruz.
À citação bíblica junto uma outra, do grande místico do século XX, São Frei Maria Rafael sobre a Cruz: "Feliz, sou mil vezes feliz, quando, aos pés da Cruz de Cristo, lhe conto só a Ele, as minhas aflições, lhe ofereço as minhas profundas alegrias de sentir-me querido dele, lhe entrego, outras vezes, a minha alma aflita e dolorida ao ver-se tão só na tribulação, rogo ao pé do madeiro com as lágrimas da minha penitência..., e canto e choro, e..., não sei mais senão pedir-lhe amor..., amor para esperar..., amor para sofrer, amor para gozar..., e há momentos em que nada do mundo me interessa, nem os homens nem os animais, nem as trevas nem o sol...; há momentos nos quais até o homem me esquece..., queria morrer abraçado à Cruz de Jesus, beijando as suas chagas, afogando-me no seu sangue divino, esquecido de todos e de tudo".


(o desenho é original de São Maria Rafael)

sexta-feira, 26 de março de 2010

As raves do padre Joaquim


Comecemos por explicar a palavra rave: festa que acontece fora dos centros urbanos, com longa duração.
Nos meus tempos de Seminário era director espiritual o P. Joaquim. Estamos a falar dos anos 1995-1998. E eram famosas as raves do sr. P. Joaquim. Eram quase secretas. Sabíamos que era só para padres, à noite, numa sala do Seminário (não sei se não seria a sala do corvo), com petiscos variados, entre os quais os jaquinzinhos, certamente por homenagem ao aniversariante. Nunca se via nenhum padre a entrar nem a sair e, como era já no final do ano lectivo - dizem as más línguas - que era aí que se sabiam as novidades das nomeações que o Bispo iria fazer em Julho.
Alguns de nós mais atrevidos, festa passada, íamos ao frigorífico, já madrugada, dar conta dos restos. Não tenho memória do que teria sido o repasto; lembro-me só dos queijos e dos benditos jaquinzinhos.
E, quando estas raves se davam (só aconteceram duas no tempo em que por lá andei), pensava eu: quando for padre vou também fazer raves. Achava piada o aniversário de um padre poder juntar outros padres amigos... quanto mais não fosse, era um motivo de encontro.
Com os anos e agora que já sou padre, desapareceu-me o encanto das raves... Prefiro umas "primeiras vésperas" com dois ou três confrades e, com calma e moderação, petiscar e beber qualquer coisa, sem muito barulho, em que o motivo não é a mesa mas a pessoa.
Não escrevo isto porque faça anos... escrevo porque me lembrei das raves. Porque será?

quinta-feira, 25 de março de 2010

A Anunciação do Anjo

Hoje, na Missa escutámos dois textos lindíssimos: o primeiro, da profecia de Isaías que anunciava: "Eis que uma virgem conceberá e dará à luz um filho, que será chamado Emanuel". No Evangelho, relato simples mas profundo, a anunciação do Anjo a Maria: "Conceberás e darás às luz um Filho a quem porás o nome de Jesus". E mais à frente a resposta de Maria "Eis a escrava do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra".
Nas duas leituras aparecem dois nomes diferentes: Isaías diz que o filho da Virgem será chamado 'Emanuel' - Deus connosco; o Anjo diz que o Menino se vai chamar 'Jesus' - Deus salva. Dois nomes com a mesma missão. A Anunciação do Anjo, e com ela a encarnação de Jesus, quer-nos dizer a proximidade de Deus para connosco humanos. Por isso, este Menino é verdadeiramente Deus connosco. Mas, ao vir viver connosco tem uma missão concreta: salvar-nos. Por isso, este Menino é o nosso Salvador.
Hoje é um dia de festa. Porque esta foi a prova definitiva do amor de Deus para connosco. Deus não nos abandona à nossa sorte. Deus está connosco. Depois, sabermos que Jesus nos compreende, que viveu como nós, em tudo como nós excepto no pecado. Por isso ele compreende as nossas angústias e sofrimentos porque também os teve.
Finalmente é dia de festa por Maria. Da sua boca saiu o sim da humanidade. Que Deus venha até cada um de nós. Que a palavra e a vontade de Deus se cumpra em nós.
A oração da noite deste dia termina com uma oração a Nossa Senhora chamada, em latim: Alma Redemptoris Mater. Em português o texto é este: Santa Mãe do Redentor, / Porta do céu, Estrela do mar, / socorrei o povo cristão / que procura levantar-se do abismo da culpa. / Vós que, acolhendo a saudação do Anjo, / gerastes, com admiração da natureza, / o vosso santo Criador, / ó sempre Virgem Maria, / tende misericórdia dos pecadores.
Nos finais do século XVI Tomás Luís de Victoria musicou este moteto. Aqui fica com algumas imagens alusivas ao mistério que hoje celebrámos.

Anunciações



Hoje é o dia da anunciação do Anjo a Nossa Senhora. Dia importante porque foi a partir daqui que a humanidade percebeu o quão próximo Deus está de cada um de nós. Um Deus que se faz homem, que quis habitar connosco, para nos conhecer melhor e compreender as nossas alegrias e angústias. Foi também o primeiro dia da gravidez de Nossa Senhora. De hoje a nove meses será dia de Natal. Hoje, para mim, foi também um dia de anúncios. Não de um anjo mas do meu irmão que me entrou no quarto para me dizer que vou ser tio pela segunda vez! Já há muito que a minha sobrinha andava a pedir aos pais... mas da última vez até foi por favor: "Ó pai, por favor, dá-me um irmão!" Estou contente. Foi um bom dia da anunciação.

segunda-feira, 22 de março de 2010

A casta Susana e a mulher adúltera


Hoje, na Missa, foi lida a extensa passagem do livro de Daniel, chamada "casta Susana". Para quem não sabe a história ela é fácil de contar: Susana era uma mulher bonita, cobiçada, e que era casada com um homem rico e importante. Tinha, à frente, de sua casa jardins e piscinas. Um dia apeteceu-lhe tomar banho no jardim. Mandou as criadas fechar os portões mas, é molestada por dois anciãos, que tinham ficado dentro do jardim. Querem que Susana se entregue a eles ou então vão lançar um boato de que ela estava com um jovem. Susana não tem um dilema. É óbvio, por isso é casta, que opta pela verdade: "prefiro cair nas vossas mãos sem fazer nada do que pecar contra o Senhor". Gritaria puxa gritaria, os criados abrem as portas do jardim e os velhos começam a dizer que a apanharam com um jovem que entretanto fugiu. Faz-se o julgamento e Susana é condenada. Enquanto caminho apara a morte reza a Deus queixando-se de que Deus bem sabe que ela está inocente. Deus escuta-a e um rapaz, Daniel, começa a gritar dizendo que ele estava inocente da morte daquela mulher. Parou tudo, retoma-se o julgamento e Daniel vai ser o juiz. Manda separar os velhos e apanha-os numa pergunta simples: se a viram "embrulhada" com um rapaz... foi debaixo de que árvore? Um vai responder: um lentisco, o outro: um carvalho. E assim apanharam os velhos que, segundo a lei de Moisés, sofrem o mesmo castigo que iam aplicar a Susana. É uma história bonita, exemplar, que manda mensagens para todos: que não devemos mentir, que não devemos precipitar-nos em julgar e que não devemos ceder ao mal mesmo que isso nos cause a morte.
Esta é uma história do Antigo Testamento. No Novo Testamento temos outra, parecida pelo que tem de oposto com a da Susana. Não é casta mas prostituta (pode ser uma conclusão precipitada... o Evangelho diz que é uma mulher apanhada em flagrante adultério), também condenada, vão para a apedrejar, mas antes perguntam a Jesus como é que ele decidiria. Jesus opta pelo silêncio e começa a escrever no chão. Insistem com ele e Jesus diz aquela frase que todos nós conhecemos: Quem não tiver pecados, atire a primeira pedra. E diz o Evangelho que foram todos embora "a começar pelos mais velhos". Esta história acaba bem porque Jesus não condena esta mulher, pede-lhe para que não volte a pecar.
Há dois pormenores que me põem a pensar nestes dois episódios e que não consigo arranjar uma resposta que me satisfaça: porque é que aparecem os "velhos" como os maus da fita? No primeiro relato difamam Susana, no segundo, quando ouvem o que Jesus lhes diz, saem calados. O outro pormenor é que, curiosamente, nos dois textos se fala da lei de Moisés, há um julgamento e aparece alguém que não deixa que haja morte... Se não é coincidência o que será?

(Estes dois textos estão na Bíblia. O primeiro no livro de Daniel, capítulo 13 até ao final do capítulo 15; o segundo, no Evangelho de São João, no capítulo 8, até ao versículo 11)

Os lírios





Já se notam os efeitos da Primavera. Temperaturas mais quentes, as árvores e plantas começam a rebentar e a libertar os seus perfumes. No claustro do convento já nasceram os jarros, despontam as novas folhas da laranjeira e, este ano, com lírios que, mesmo não sendo os bíblicos, nos ensinam que a beleza está na simplicidade.

Rebentaram pela primeira vez. Brancos. Naquele canto do claustro onde antes estiveram rosas. É inevitável olhar para eles e não lembrar do elogio que Jesus lhes fez: "Olhai como crescem os lírios do campo: não trabalham nem fiam! Pois eu vos digo: Nem Salomão, em toda a sua magnificência, se vestiu como qualquer deles". É bom ter lírios no claustro e ter olhos para poder olhar para eles.

sábado, 20 de março de 2010

Dias do pai



Ontem foi dia do pai. E hoje o meu pai faria anos se fosse vivo. Tenho recordações muito antigas do meu pai: lembro-me de ele me levar às cavalitas, de estarmos os dois em casa enquanto a minha mãe trabalhava (de vez em quando os horários não coincidiam). Lembro-me de me perguntar se tinha muita fome ou pouca, lembro-me dos nossos pratos preferidos... Lembro-me de ir levar-me à escola no primeiro dia de aulas... isto tudo antes de nascer o meu irmão. Depois há quase um hiato em que não me lembro de quase nada. O meu pai mudou de emprego, foram mais frequentes os horários em que, quando ia para a escola estava o meu pai a chegar a casa ou o contrário. Depois, como saí cedo de casa (aos 19 anos), mais raramente estava com a minha família. E em vez das visitas a casa, começou a ser mais frequente ir vê-lo ao hospital, a estar mais presente nos jantares de domingo à noite. E uma terceira etapa começou quando o meu irmão também saiu de casa. Aí voltei quase à infância: mais proximidade, desabafos, conversas já de amigos, férias juntos... etapa esta que durou até ao seu funeral.
Não me lembro de oferecer coisas ao meu pai no dia do pai. Não sei se era normal nas escolas fazer-se alguma prenda para dar aos pais como agora. Lembro-me, sim, das prendas de anos, sobretudo já de adulto.
Não acho piada a celebração de dias separados. Devia haver um "dia dos pais" e não um dia só para o pai e um dia só para a mãe. O meu pai não era a mesma pessoa sem a minha mãe nem a minha mãe sem o meu pai. E nós, filhos, também não seriamos os mesmos sem o pai ou sem a mãe.
Num dia da semana passada, falava com um amigo meu sobre o ter saudades dos mortos. Eu não tenho. Não sei porquê. Já tinha pensado nisso antes e até já me tinha questionado se seria normal não se sentir saudades de quem se ama...
Recentemente li um livro de Agostinho da Silva e, numa passagem, li isto: "As saudades, sabe, eu não tenho saudades das pessoas de quem gosto, pois estão sempre comigo, como é que vou ter saudades delas? Mesmo que estejam a muita distância. De maneira que essa coisa da saudade para mim não existe (...) Saudades seria alimentar uma ausência, mas eu nunca estou ausente de lá, eles nunca estão ausentes de mim, como é que vou ter saudades?" Acho que estou de acordo.
(este marcador foi-me dado ontem, na Missa do Colégio de São José - Ramalhão)


quarta-feira, 17 de março de 2010

Arquitecturas e engenharias


Tenho andado ausente da blogosfera porque têm sido dias de muita correria. Mas, sobretudo, de vários contactos. Contactos com engenheiros e arquitectos. Engenheiros para ver se nos ajudam a resolver de uma vez por todas, as burocracias camarárias do licenciamento da igreja conventual. Depois também ajuda entre engenheiros e arquitectos por causa de infiltrações, pinturas, restauros do convento. Eu, que não percebo nada, só posso dar graças a Deus pelas ajudas que vou tendo para poder resolver algumas questões institucionais.
Mas isto é só o exterior. Também nesta semana começaram as confissões nos colégios. Também graças a Deus que não estou só: somos quatro padres que estamos nestes dias a confessar crianças, num colégio, a caminho para a Páscoa.
No início desta semana recebi um mail de Tolentino Mendonça. Escrevia-me assim: "Esteve um dia muito bonito. A Páscoa acorda o mundo para a sua beleza". Isto de ser poeta é mesmo assim. Até um mail pode ser lugar de poesia (Samuel Coleridge, poeta do século XVIII, definiu o poeta como aquele que coloca as melhores palavras na melhor ordem). Pois é, a Páscoa está aí. Já se fazem as procissões dos Passos com os sermões do encontro. Eu também começo a preparar a Páscoa "material". Com o meu amigo Rodrigo, arquitecto, estivemos esta manhã a ver algumas peças (mobiliário) para usar na Páscoa. Deus queira que tudo se consiga. Mas sobretudo poder contar com ele, e ver nascer de uma folha branca e de uma caneta preta, um princípio de projecto!
E é assim que vão passando os meus dias, tentando conciliar todas as coisas para de todas elas tirar proveito e a todos aproveitar.

sábado, 13 de março de 2010

Precisa-se de um final feliz


Amanhã, na Missa, vai ser lida, no Evangelho, a parábola do filho pródigo. Todos sabemos quase de cor esta "história": um pai com dois filhos, o mais novo pede-lhe metade da herança, sai de casa, gasta o dinheiro todo; aflito e sem amigos vai ter que trabalhar duro para conseguir algum dinheiro para sobreviver. Entretanto, ao ver os porcos comer bolotas - ele nem isso podia comer - pensa na casa do pai. Que mesmo sendo criado estaria melhor do que a guardar porcos. Decide ir ter com ele. Um dia o pai vê-o ao longe, corre ao encontro do filho, certamente terá chorado, beija-o, abraça-o, manda-o tomar banho e vestir-lhe boa roupa, manda matar animais para fazer uma festa para celebrar o regresso tão desejado deste filho perdido. O filho mais velho, sempre responsável, cumpridor, que fez tudo sempre tão bem feito, quando vem do trabalho ouve barulhos de festa. Um criado diz-lhe o porquê. O filho amua. Acha o pai injusto porque devia castigar o filho e recusa-se a entrar. E lá vem o pai, outra vez, ao encontro deste filho. Para lhe falar ao coração. Que não deve haver orgulho, ressentimentos, que mais importante que o irmão ter gasto a fortuna, foi ele ter-se arrependido, regressado a casa. Não valia a pena castigá-lo porque as circunstâncias da vida encarregaram-se de o fazer. E aqui acaba a história. Podemos presumir que este filho, mesmo carrancudo e contra a sua vontade, vai obedecer ao pai. E aqui temos uma história feliz.
Mas às vezes a vida tem finais infelizes ou só no último momento é que se consegue dar a volta à infelicidade.
Vejamos esta história que tem tudo para ser realidade: imaginemos que não é um pai mas uma mãe. Nesta história o filho "mau " vai ser o velho que, aparentemente sem porquê nem para quê, de repente, corta relações com os pais e com o irmão, vai viver para longe e nunca mais dá notícias. E a mãe vai esperando que o filho volte, que explique o porquê da mudança de comportamento e de casa. E os dias vão passando e a mãe adoece. Doença grave, daquelas que chamamos terminais e o filho não volta. Sabe que a mãe está mal, mas não aparece. E a mãe sofre. Porque já não tem forças para ir ver o caminho a ver se o filho volta... Podemos pensar que há orgulho nas duas partes, que tanto mãe como filho podiam arranjar caminhos de reconciliação, o filho mais novo podia fazer de ponte, o pai poderia também procurá-lo. Mas não. Não é inércia, não é má-vontade, queremos fazer tudo para arranjar um final feliz. Mas também nos sentimos impotentes. Queremos arranjar um final feliz a esta história senão ela acaba em tragédia, como as gregas ou a da rua das flores para nos ser mais familiar. O que fazer? O autor da história não consegue arranjar um fim para esta parábola. Começa a ficar nervoso. Enredou-se demais na história. Parece-lhe realidade. Tornou-se um narrador observador. Sabe de tudo como o omnisciente mas, de repente, escapou-lhe o fio da narração. Pode apagar uns parágrafos, pensar no final e encaminhar a história para esse final. Mas apagar não pode, estaria a contrariar a inspiração, seria como vergar ferro frio. E angustia-se. Bloqueia. Sai de casa como quem quisesse tentar sair da história. Mas não consegue. Tudo tão vivo. Já não é parábola, já é problema dele. Não é a mãe nem nenhum dos filhos, vizinho não pode ser porque os vizinhos não sabem o que se passa naquela casa. Enquanto caminha, tarde de Março que já aquece, decide ir visitar um casal amigo. Vai contar-lhes a história como sendo real. Não vai dizer que é escritor nem que se pôs a cismar nesta situação como se de um problema de álgebra se tratasse e não consegue chegar ao resultado. Não. Vai dizer que conhece um amigo que é amigo da mãe doente que espera o filho. É claro que os amigos vão logo pensar que pode ser um problema da família dele ou próxima a ele e que quer ajuda para resolver o desentendido. Mas enfim, é uma maneira prática de, pelo menos, nos distanciarmos da história. Os amigos percebem a angústia do narrador. E ele acaba por contar a história até ao limite porque a história parou, está tudo suspenso como se carregássemos no botão "pause" do comando, uma imagem parada: a mãe doente, na cama, com lágrimas nos olhos. A amiga responde: que situação complicada. O amigo não fala. Também é de poucas falas. O convidado olha para os dois. Sente-se impotente. faz-se silêncio. Muda-se de conversa. Afinal o motivo da visita era por causa do amigo que recuperava de uma operação. Está tudo bem, já espera ir à missa no domingo, retomar o estudo da História da Igreja, já vai no século III, está a fazer uma análise paralela do Império Romano com o Cristianismo. Ficou no papa São Caio. Foi ele que estabeleceu que ninguém pode ser bispo sem antes ser diácono e padre. E foi passando o tempo. O narrador ouviu com alguma atenção a história da História da Igreja, achou interessante, um dia com mais tempo vai até ler o trabalho e apronta-se para ir embora. Já à saída da porta, depois das despedidas, diz-lhe o amigo: Olhe, vamos rezar por essa família. Vamos rezar à nossa maneira: não que Deus dobre o coração do filho mais velho mas que Deus dê força à mãe para aceitar o final que a história tiver. O narrador agradece. Regressa a casa. Pelo caminho pensa em tudo e, finalmente, decide introduzir um outro personagem na história: Deus. Deus há-de tocar o coração de algum dos da família. Afinal Deus é um narrador omnisciente e omnipresente.
Para um leitor ateu esta história tem um final infeliz; para o leitor crente esta história não poderia ter melhor fim: Deus entrou na história. Deus pode dar sentido ao que não tem sentido. E o narrador deu-lhe o seu lugar, deu-lhe a caneta e o livro para que Ele termine a história. Certamente se Deus a termina, ela terá um final final feliz.

quinta-feira, 11 de março de 2010

Quarenta e oito anos



Faz hoje quarenta e oito anos que foi restaurada a Província Portuguesa da Ordem dos Pregadores (Dominicanos). Quando dizemos isto, algumas perguntam: só? É verdade. Oficialmente só, desde a Republica. No entanto a presença dos Dominicanos em Portugal é bem antiga e está bem datada: Serra de Montejunto (Santarém), 1217 (ainda em vida de São Domingos). Como qualquer Ordem Religiosa, no século XIX, mais precisamente em 1834, são extintos quaisquer casas de religiosos, num decreto assinado por Joaquim António de Aguiar, que ficou na história com a alcunha de "mata-frades". Mas 11 de Março de 1962 é, ao mesmo tempo, um ponto de chegada e igualmente um ponto de partida. De chegada porque já desde os finais desse mesmo século que o incansável fr. Domingos Frutuoso, padre diocesano que se faz dominicano, e que depois será bispo de Portalegre, vai juntando algumas vocações que vão vingando e fazendo reflorir a Ordem Dominicana em Portugal. É esta data um ponto de partida porque o desafio continua ainda hoje, com muitas exigências, poucas vocações, mas tentando ser fiel ao espírito de São Domingos e das grandes missões da Ordem e da Província. É dia de dar graças a Deus por esta estrada que, apesar de interrompida, ainda não vê a meta. De pedir perdão pelas incongruências e pelos maus testemunhos. De rezar por aqueles que deram a sua vida por esta Província. De reflexão sobre a nossa missão actual na Igreja e no mundo.
Acrescento do dia 12: Ontem não consegui colocar um vídeo do fr. José Maria, a quem entrevistei, sobre o que se passou há 48 anos e sobre a sua caminhada. Felizmente já o podem ver:

quarta-feira, 10 de março de 2010

Várias coisas do dia de ontem



Às vezes não é só a vida que é feita de retalhos. Até um dia pode ser como aquelas mantas tão coloridas de retalhos, como as que a minha avó fazia no tear. Não eram quadrados de diferentes tecidos e cores cosidos entre si, mas aquela trama colorida, que ia passando na urdidura, ora nos fios pares ora nos ímpares de onde compassadamente, com paciência e atenção, saía a pesada manta de tear.
Pois assim foi o meu dia de ontem. Vários sítios, algumas pessoas, poucas conversas... que aqui vou tecer.
Foi dia de celebrar missa no Colégio do Sagrado Coração de Maria, em Arroios. às 8.30h o que supõe sair do convento, o mais tardar, uma hora antes. O metro leva-me quase lá mas o quilómetro que tenho que percorrer confirma os cinco graus que o termómetro tinha indicado. Missa para os alunos do 8º ano. Plena adolescência. Eles e o seu mundo. Nota-se que é uma idade diferente. Há Missa não por ser dia de ir ou por ser Quaresma. Estas Missas que lá vou celebrar são o terminar de uma formação humana e cristã para os sensibilizar para a solidariedade. Na visita que fizeram ao Centro das Galinheiras que desenvolve naquele bairro periférico e pobre da cidade de Lisboa, um trabalho de atenção e dedicação a crianças e idosos. Muito deste trabalho é possível graças às Irmãs que lá vivem e aos voluntários que dedicam algum tempo da sua vida a esta causa.
Missa celebrada há agora tempo para o já habitual café com alguns dos professores. A conversa de ontem foi bastante interessante: a pastoral nos colégios. Aqui teria muito que escrever, não da conversa mas do que vou vendo pelos colégios por onde vou passando.
Mas ainda há muito para andar. Faço a pé um percurso que muito me agrada: da Praça do Chile até à baixa. Não é muito. Avenida larga, com gente muito diferente, lojas de revenda misturadas com bancos e cervejarias, aqui vende-se roupa ali vendem-se tachos e panelas e mais à frente está uma mercearia. É uma rua movimentada, quer de carros quer de pessoas, entro para ver a igreja dos Anjos. Fico admirado com o silêncio e com a talha dourada que cobre toda a igreja. Continuando a descer a rua, rapidamente chego à mouraria. E decido entrar por aquelas ruas empedradas, não niveladas, a tão cantada rua do capelão, rua onde morreu a "fundadora" do fado, Maria Severa Onofriana. Ali morreu, com apenas 26 anos, como indica a placa que, por a rua ser tão estreita, quase não se vê. E aonde vai dar a rua do Capelão? À sua igreja. Igreja do Socorro. Aparentemente fechada. Felizmente há uma pequena porta, a da sacristia, que está aberta. Apresento-me à sacristã e peço-lhe para me mostrar a igreja. Desfaz-se em cortesias, vamos falando da igreja e do povo, e quando lhe pergunto se vai muita gente à Missa diz-me: "Olhe senhor padre, isto já não é como dantes: agora é só castanhos e chineses". Pois é, agora a mouraria já não é aquele bairro castiço das fogueiras de Santo António e do fado à janela. À janela vemos agora as venerandas senhoras, de muita idade que estão à janela para não estar em casa fechadas; assim sempre apanham o ar fresco da manhã. A igreja, vim a saber ao almoço, foi primeiramente um mosteiro de monjas dominicanas - bem me estranhou aquele claustro - depois pertenceu aos Agostinhos - daí a grande devoção ao santo e os azulejos da sacristia - e, finalmente, foi colégio dos jesuítas. Da sua presença pouco resta a não ser a tradição oral: daqui partiu São Francisco Xavier para as missões.
Subo a rua para depois descer umas enormes escadas. Aliás, na mouraria há muitas escadas! Desço as "Escadinhas da Saúde". Não por elas fazerem o milagre de curar mas porque vão desembocar no largo da Capela da Senhora da Saúde. Por falar em saúde, uma paragem na farmácia para a compra dos medicamentos da minha maleita, só ali se vendem!, e continua a pé até aos restauradores onde apanho o metro que me traz a casa.
À tarde continua a tecelagem. Mais calma, sem sair do convento vou decidindo coisas que estavam pendentes ou a arrastar-se no tempo. No final da tarde vem falar comigo um arquitecto amigo para vermos alguns problemas relacionados com a igreja e com o convento. Há ainda tempo para fazer umas traduções - sou péssimo tradutor! -, Missa comunitária (só agora que escrevo é que me lembro que já tinha celebrado Missa de manhã!, vejam o meu estado!) e, depois do jantar, embora sem muita vontade mas para evitar ao máximo a sedentarização, a tradicional caminhada de quase cinco quilómetros pelos arredores do convento. Há ainda tempo para terminar de traduzir uns parágrafos, leituras calmas e orações finais para que "O Senhor omnipotente nos dê uma noite tranquila, e no fim da vida uma santa morte. Ámen".
P.S. (de Post-Scriptum): ontem à noite, durante a minha caminhada deparei-me com um anúncio: "Nascer de novo, porque não?", e pensei: anuncio da Igreja Católica para este tempo da Quaresma! Boa ideia! Mas não... era o anúncio do azeite oliveira da serra!
(Esta fotografia tirei-a da net: é a entrada da rua do capelão)

segunda-feira, 8 de março de 2010

As mulheres da nossa vida



Hoje é dia da mulher. Não é preciso ser-se muito egoísta para nos lembrarmos daquela que é a grande mulher da nossa vida: a nossa mãe. A coragem em nos ter dado à luz, os trabalhos e canseiras na educação para que não nos faltasse nada, o amor que transformavam as obrigações em doações, as nossas mães são umas heroínas embora não entrem nas listas das mulheres mais famosas ou influentes da sociedade. Falo a partir da mulher da minha vida, a minha mãe. Sei e acredito que para algumas pessoas a referência às mães não é a melhor, a começar por talvez terem sido abandonadas ou por algum corte de relações mais tarde, ou ainda por terem chegado à conclusão que a mãe, afinal, não foi quem lhe deu o pão mas quem lhe deu a educação.
Na minha vida há duas mulheres para um lugar: a minha mãe e a minha avó. Não é necessário haver briga nem conflito. Cabem as duas. As duas me deram o pão e a educação. As duas me pegaram ao colo, as duas foram confidentes (aqui tenho que reconhecer que a minha avó foi mais), as duas sempre apoiaram os meus projectos de vida. Mas a minha avó sobressai no que toca a vocação e religiosidade. Se hoje sou padre a ela o devo, não tenho dúvida. Se não deixei de praticar na adolescência foi pelo seu exemplo e acompanhamento... A minha avó morreu há já quase oito anos e, curiosamente, a minha mãe acabou por ocupar o lugar dela. É ela agora que faz o papel perdido da minha avó. E, por isso, para mim, é a grande mulher da minha vida.
Mas neste dia, porque só reconhecer duas mulheres na sua vida é mau sinal, tenho que aqui lembrar todas as mulheres que são para mim exemplo de vida, delicadas e dedicadas, com mais ou menos protagonismo, que interessa isso, como se pudesse algum dia haver concorrência ou concurso sobre quem é a mulher mais mulher... Elas não são importantes por terem sido pintoras de renome ou escultoras, mulheres da política ou da religião. Elas são importantes porque são mulheres.
Em homenagem a elas, sobretudo às da minha vida, aqui deixo excertos do poema "elas" de Maria Velho da Costa, que me foi dado a conhecer por uma amiga, também ela excelente mulher que agora se preocupa em servir Deus nos irmãos:
"Elas são quatro milhões, o dia nasce,
elas acendem o lume.
Elas cortam o pão e aquecem o café.
Elas correm esbaforidas para não perder o comboio, o barco.
Elas pousam o cesto e abrem a porta com a mão vermelha.
Elas lavam. Elas carregam ao colo.
Elas batem à máquina palavras que não entendem.
Elas arquivam por ordem alfabética duas mil fichas e vinte e cinco ofícios.
Elas olham para o espelho muito tempo.
Elas choram.
Elas fizeram greves de braços caídos. Elas brigaram em casa para ir ao sindicato e à junta.
Elas souberam dizer salário igual e creches e cantinas.
Elas foram pedir para ali uma estrada de alcatrão e canos de água.
Elas disseram à mãe e à sogra que isso era dantes.
Elas ouviram falar de uma grande mudança que ia entrar pelas casas.
Elas choraram no cais agarradas aos filhos que vinham da guerra.
Elas choraram de ver o pai a guerrear com o filho.
Elas tiveram medo e foram e não foram.
Elas levantaram o braço nas grandes assembleias.
Elas diziam tu às pessoas com estudos e aos outros homens.
Elas acendem o lume.
Elas cortam o pão e aquecem o café esfriado.
São elas que acordam pela manhã as bestas, os homens e as crianças adormecidas”.

(Esta pintura é de Picasso)





sexta-feira, 5 de março de 2010

Sexta-feira de Quaresma


As sextas-feiras da Quaresma são dias de abstinência. É um dia "sagrado", que nos lembra aquela sexta-feira em que Jesus morreu na Cruz. E que bom seria que fossem também dia de abstinência de más acções, de violências, de mais austeridade e de partilha. Se calhar ainda estamos longe destas abstinências - eu por mim falo - e por isso vamo-nos contentando com o não comer carne, que é mais fácil de cumprir.
Há já alguns anos que nas sextas-feiras da Quaresma, pelas 15 horas, hora em que Jesus morreu, tenho o cuidado de parar, fazer silêncio e de rezar um pouco, normalmente a hora intermédia da Liturgia das Horas. E depois oiço, enquanto estou no quarto, uma Paixão de Cristo. Vou variando entre as três de Bach (Mateus, Marcos e João) e uma de um Dominicano, André Gouzes, de São João. Daqui a pouco vou ouvir a de São João, versão Bach. Que começa logo com uma oração do fiel que se dispõe a meditar os passos da Paixão do Senhor: "Senhor, nosso Rei, cuja glória resplandece em toda a terra! Mostrai-nos, pela Vossa Paixão, que Vós, o verdadeiro Filho de Deus, mesmo passando pelas grandes humilhações, sereis glorificado para sempre". E assim vai cantando o coro, durante nove minutos, repetindo compassadamente a palavra Herr (Senhor), como se fosse um grito, um pedido insistente à não distracção, à presença activa nos caminhos da dor de Cristo, caminhos fecundos, necessários para chegar à Cruz que, para nós, há-de ser sempre sinal de glória.
Este ano as sextas-feiras, para mim têm ainda uma outra ligação com a dor e o sofrimento. É dia de ir ao hospital. E ali estão eles, os Cristos do presente, uns dando sentido ao seu sofrer, outros rejeitando e questionando Deus com a pergunta sem resposta: Porquê?. Mas para mim são o mesmo rosto de um Cristo que sofre, no seu corpo, as dores da doença cruel que os ataca. A partir de hoje, e durante as próximas sextas-feiras vou também atender em confissão as pessoas que me procurarem. Que outra coisa posso eu partilhar com quem me procura senão a misericórdia de Deus? E assim vou vivendo as sextas-feiras da quaresma pedindo a Deus que sejam úteis a mim e quantos comigo hoje se cruzarem.

(esta pintura é do Fra Angelico, Dominicano, que se encontra no Fogg Art Museum, Cambridge)

quarta-feira, 3 de março de 2010

Farisaísmos


O Novo Testamento não elogia nada este grupo religioso que se achava dono da Lei e das leis e que implicavam com quem não a cumpria. Vemos na vida de Jesus grandes discussões, confrontos entre interpretações da Lei e das leis. Jesus chamou-os de raça de víboras, hipócritas, túmulos caiados de branco, por fora muito apresentáveis mas podres por dentro. Mas se eles aparecem no Novo Testamento não é para ficarmos a conhecer a raça deste grupo. Aparecem-nos como exemplo do que não devemos ser. "Tende cuidado" é o que diz Jesus de quando em vez sobre as atitudes dos fariseus.
Escrevo sobre os fariseus porque, infelizmente eles continuam vivos e activos e... católicos! Tenho vindo a ser "confrontado" com atitudes farisaicas destes fariseus que fecham aos homens o Reino do Céu e que ficam à porta e não entram nem deixam entrar (ler Mt 23, 13). Podem pensar: estou a exagerar. Já não há zelosos extremosos pela defesa das leis humanas da Igreja. Pode ser. Pode ser que esteja a ser como o Dom Quixote: onde Sancho Pança vê moinhos, Dom Quixote vê gigantes. Mas não creio. Conto-vos o que me aconteceu ontem, numa reunião de pais, em que se falava do problema dos divorciados re-casados na Igreja. Como é fácil de ver há bastantes situações de pessoas a quem o amor da relação simplesmente acabou. Por vezes uma das pessoas do casal é literalmente abandonada pela outra. É um problema. Diante disto vem a voz do fariseu que diz: azar, não tens direito a reconstruir a tua vida; reza e tenta viver da melhor maneira esse amor mutilado. (Não vou aqui escrever o que Jesus diria mas tenho a certeza que não daria uma resposta destas...). Outra situação de re-casamento pode ser a situação de maus tratos (que os há!) e em que o amor com que aquele casal casou acabou e às vezes se transforma em ódio. E aqui vem outra vez a voz do fariseu que diz: aguenta. Todos os casais passam por crises. Casamento também tem sofrimento. Não te podes divorciar.
Há mais situações, talvez piores do que estas, mas fico-me por aqui de situações.
O que é verdade é que as pessoas que passam por este drama não casaram para sofrer nem para ficarem privadas de amor. E voltaram a casar. Infelizmente casei pela segunda vez, diz uma das que refez a sua vida. Infelizmente, não por ter casado segunda vez mas porque a Igreja não a aceitou nesta condição e ela sente-se mal. Estás excomungado! grita a voz farisaica. Não, diz a voz do discíplulo de Jesus. Acima da lei humana há o Evangelho. E o fariseu boicota qualquer explicação que tente libertar do complexo de pecado e excomunhão que a lei eclesiástica está a massacrar. O discípulo quer lembrar o que leu na Bíblia: que onde há amor aí está Deus. Que onde há amor não há pecado. Os "incompreendidos" estão contentes com esta palavra de esperança enquanto que o fariseu levanta-se e pede para sair. Que sabe bem qual é a lei e que o discípulo não a está a defender. Que o discípulo não tem autoridade para suavizar a lei. E acaba o confronto. O discípulo fica triste por estes fariseus que não percebem que as leis mudam mas o Evangelho não. Os fariseus não se importam com a felicidade das pessoas. Os fariseus só querem que a lei se cumpra, doa a quem doer. Os fariseus dão graças a Deus porque na sua família não há desvios. Os fariseus alegram-se com o sofrimento dos outros.
Que Deus limpe o farisaísmo que há em cada um de nós.

segunda-feira, 1 de março de 2010

O verde


Falo hoje do verde. Não pela grande vitória do Sporting mas pelo verde que pude contemplar - foi mais que ver - nas planícies do Alto Alentejo. Estive no sábado em Estremoz com uma passagem rápida, já ao final do dia, pela Cartuxa de Évora para entregar um trabalho que um amigo meu lhes fez. Mas foi a simplicidade de Natureza, num sábado de grandes chuvas, uma casa lá longe, um chão verde molhado, algum gado a pastar e muitas oliveiras que encheram os meus olhos.

Comprei hoje um livro que procurava há já uns dias: A alegria de ser padre, do Cardeal dominicano Schönborn. São as conferências que ele pregou em Setembro passado em Ars a mil e duzentos padres de todo o mundo. Não sou clericalista. No entanto, não me posso esquecer que sou padre. Vai ser a minha leitura espiritual para estes dias de Quaresma. Deixo-vos uma oração que encontrei logo nas primeiras folhas, oração de Santa Teresinha para ganhar ânimo e coragem para o dia-a-dia (o título da oração no original é "Oração para obter a humildade"):
"Senhor, tu conheces a minha fraqueza; cada manhã, tomo a resolução de praticar a humildade e, à noite, reconheço ter cometido ainda muitas faltas de orgulho; ao verificar isto, sinto-me tentada a desanimar, mas eu sei que o desânimo também é orgulho. Assim, quero, ó meu Deus, pôr toda a minha esperança em ti".


(esta fotografia, de um monte alentejano, é do João Nunes da Silva. Tirei-a do seu blogue)