sexta-feira, 30 de abril de 2010

O Maio que aí vem


Aí vem Maio, para nós, católicos, o mês de Maria. Talvez pelas flores, como diz o ditado "Mês de Maio, mês das flores; Mês de Maio, mês dos amores".
Mês de Maria e mês dos santos. Senão vejamos: logo no primeiro dia do mês, a sociedade celebra o dia do trabalhador; a Igreja celebra São José, na sua profissão de operário. E ligado a Maria e, talvez, às flores, logo no dia dois, por ser o primeiro domingo do mês, celebramos o dia da mãe. Dia seguinte o do grande Apóstolo Filipe, aquele que pediu a Jesus que lhes mostrasse o caminho para o Pai e a quem Jesus respondeu: "Quem me vê, vê o Pai". Dia de São Filipe e de São Tiago, bispo de Jerusalém. Passamos uns dias e temos, a 12 de Maio, a festa de Santa Joana Princesa, filha de D. Afonso V. No dia seguinte , outra festa portuguesa, a de Nossa Senhora de Fátima, no 93º aniversário da primeira aparição, este ano com a presença do Papa, que vem a Portugal. No dia 14 celebra a Igreja São Matias, que integrou o grupo dos Doze, substituindo o Traidor. Já a rematar o mês temos ainda, no dia 26 de Maio outro são Filipe, o de Neri, que fundou a Congregação do Oratório e, curiosamente, onde nasceram as Oratórias, da música clássica. Termina o mês no dia 31 com a festa da visitação de Nossa Senhora a sua prima Isabel. Aos Domingos temos as festas móveis deste tempo da Páscoa: a Ascensão a 16 e o Pentecostes a 23.
Mês de Maio, mês de Maria, Mês do Rosário. Aqui deixo um spot publicitário para os que ainda não aderiram a esta oração mariana. Para mim, rezar o terço é rezar a vida nas contas que vou passando. E bom mês de Maio!






quinta-feira, 29 de abril de 2010

Santa Catarina de Sena


Hoje, toda a Igreja celebra a festa de Santa Catarina de Sena. Nós, Dominicanos, de maneira especial. Catarina foi uma Terceira Dominicana, do século XIV, Virgem, Doutora da Igreja e co-Padroeira da Europa. Celebrei duas Missas. A primeira com as Irmãs Dominicanas de Santa de Sena, que vivem no Hospital de Sant'Ana, na Parede. Uma pequena comunidade com uma presença de 100 anos no hospital, junto dos doentes, como Santa Catarina, aos 23 anos que se dedicou a tratar dos doentes e dos moribundos. Além de ser dia da sua Padroeira, uma irmã celebrava as suas bodas de ouro de consagração. A segunda foi no Convento, porque hoje parte um dos nossos irmãos para fazer o caminho francês de Santiago de Compostela, que lhe demorará um mês.
Em jeito de partilha, aqui fica o que disse hoje às Irmãs sobre Santa Catarina de Sena:

Falar de Santa Catarina parece fácil mas não é. Falar da sua vida sim, é fácil, até porque ela está bem documentada, mas sobre o que ela viveu, que nós podemos vislumbrar quer pelas suas cartas quer pela sua mística, torna-se, pelo menos para mim, difícil.
Quando preparei esta homilia pensei: fazia-nos falta, neste nosso tempo, uma mulher como Catarina de Sena. Porque não foi uma mulher de convento. Ou, então, se quisermos, soube fazer da sua vida e do seu convento uma casa de pregação, intervindo em todas as áreas da sociedade, desde os presos, passando por monjas e padres, até o próprio Papa e aos políticos. Temos uma mulher de Deus interessada nas coisas dos homens. Uma mulher que procurou conhecer a presença de Deus nela e dela em Deus, através da contemplação da “doce primeira Verdade”.
Temos, na curta vida de Catarina – viveu apenas 33 anos – dois momentos: um, primeiro de vida de austera penitência, quer em sua casa quer na sua cela da Ordem Terceira de São Domingos na qual entrou, baseada na oração, penitências e jejuns até que, aos 23 tem uma visão de Cristo, o seu Esposo, que lhe diz: “Não vais viver mais como antes vivias. A salvação de muitas almas assim o requer. A partir de agora deixarás a tua cela e andarás pelos povos salvando almas. Eu estarei sempre contigo; levar-te-ei e trazer-te-ei; ensinarás a minha doutrina tanto aos grandes como aos pequenos; aos sacerdotes e aos religiosos, da mesma maneira que aos simples fiéis. Dar-te-ei uma sabedoria e um falar ao qual ninguém poderá resistir; levar-te-ei à presença dos Pontífices, dos governantes da Igreja e dos povos para que confundam a soberba dos grandes”. E aqui começa o segundo momento da vida de Santa Catarina. Percebe que mais importante que a cela do seu convento é a cela interior do coração como ela irá mais tarde ensinar a um monge muito atarefado: constrói uma cela na mente da qual nunca possas sair, a cela interior do teu coração. E ela explica que cela é esta a cela do coração: “Esta cela é um quarto íntimo que o homem leva consigo por toda a parte. Nela se adquirem as virtudes perfeitas e reais, especialmente a humildade e a ardente caridade”.
Desta vida pública de Santa Catarina gostava de destacar duas dimensões: a primeira é a de Catarina de Sena como mulher de Igreja. Catarina quer a união da Igreja, que então estava desunida pelo cisma do ocidente. Das suas cartas – mais de 300 – ditadas por Catarina que não sabia ler, algumas são endereçadas ao Papa, o “doce Cristo na terra”, em que lhe pede para voltar a Roma, que era sinal de iria pegar no rebanho desunido. Além do Papa, Catarina escreve a monjas, padres, religiosos também, sempre exortando-os ao conhecimento de Deus e aos meios de alcançarem a sua santificação.
A segunda dimensão é a de Catarina, mulher da política. Escreve também aos políticos pedindo-lhes aquilo que ela mais precisa: a paz. Numa das suas cartas, dirigidas a um político, Catarina vai dizer que governar é perseverar na justiça: “quem não pratica a justiça a partir de si mesmo jamais conseguirá aplicá-la aos outros”. Numa outra carta irá dizer que a justiça nasce do amor: “A justiça é uma bela virtude, que realiza a paz entre o homem e o seu Criador, entre cidadão e cidadão. A justiça brota da fonte do amor, brota da perfeita união que se alicerça em Deus e no homem”.
Celebramos Santa Catarina de Sena, Doutora da Igreja e Co-Padroeira da Europa. Percebemos bem porquê: penetrou nos mistérios de Deus e iluminou o mundo, sobretudo a Europa com a luz de Cristo.
Já no fim da sua vida, Catarina, dita a sua última carta endereçada a fr. raimundo de Cápua, seu confessor e director espiritual. Nessa carta deixa-lhe alguna conselhos que podem ajudar-nos também a nós, pedindo, desde já, a sua intercessão:
Pensai que Deus quer renovar a vossa vida. Eliminando todo sentimento humano, dedicai-vos inteiramente à pequena barca da Igreja. Pouco tempo ficareis na cela conventual, mas quero que leveis convosco e useis a cela do coração. Vós o sabeis: enquanto estivermos dentro dela, os inimigos não nos atingirão, e toda a vossa actividade estará orientada e ordenada segundo Deus. Peço-vos também que amadureçais o vosso coração com santa e verdadeira prudência. Que vossa vida seja de exemplo para os leigos, não vos conformando com os costumes do mundo. Renovem-se e refloresçam a humildade perfeita, a generosidade para com os pobres e a pobreza, que sempre cultivastes. Em qualquer função ou cargo que Deus vos coloque, não diminuais o esforço. Mas aprofundai-vos no vale da humildade, alegrando-vos com os sofrimentos. Procurai na cruz a sede das almas, dedicai-vos a uma oração humilde, fiel e contínua, fazei vigílias, celebrai a missa diariamente, sendo possível. Fugi das conversas levianas e ociosas; sede e mostrai-vos maduro no falar, em tudo".

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Lição de amor







Estão os dois no mesmo hospital, por doenças diferentes, em pisos diferentes, mas une-os o mesmo amor: estão casados há 58 anos. E ele visita-a. Ela na cama, ele na cadeira de rodas. Ela pouco reage mas ele fala-lhe, deixa cair as lágrimas, dá-lhe a mão e pediu-me que, na semana que vem, fizessemos a celebração do 59º aniversário (Deus volendo).
E aqui se vê que o amor é mais forte que as tristezas, que o sofrimento e que a doença. As fotografias já o insinuavam, mas duas mãos que se apertam têm mais força.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Ser Dominicano


O Dominicano é um homem de oração:
fala com Deus e de Deus;
reza no quarto, no coro, sozinho e em comunidade;
reza pelos que sofrem, pelos pecadores, sendo ele o primeiro;
dá graças a Deus pelos bebefícios recebidos e pede pelos que nada têm.

O Dominicano é um homem de comunidade:
vive da comunidade e para a comunidade;
gosta de dar e receber, de partilhar a vida;
quer bem aos seus irmãos mesmo se pensam diferente;
perdoa e pede perdão com humildade;
entrega a sua vida nas mãos dos seus irmãos e implora deles misericórdia.

O Dominicano é um homem de estudo:
estuda para pregar a Verdade do Evangelho;
o seu estudo é oração e contemplação;
é um estudo fecundo, para servir a Igreja e o mundo;

O Dominicano é um homem de pregação:
fala de Deus aos homens;
prega a justiça e a paz como os profetas;
anuncia o Evangelho como os apóstolos;
prega com a Bíblia numa mão e o jornal na outra;
tem a Graça da Pregação e prega o Evangelho da Graça;
com a sua pregaçaão exorta, converte, liberta e consola;
prega com paixão a compaixão de Deus;
prega com a própria vida porque a sua vida é já pregação.


(Esta imagem é de Matisse. Pintou-a num mural de azulejos para uma casa de Irmãs Dominicanas. Diz-se que, quando estas viram a obra final fizeram-lhe notar que São Domingos não tinha rosto, ao que Matisse terá respondido: cada dominicano deve ser, hoje, o rosto de são Domingos.)

terça-feira, 20 de abril de 2010

Ser consagrado




Para mim, ser consagrado é ser como o Bom Samaritano da parábola que Jesus contou. Estar atento ao mundo e aos seus problemas, estar próximo de quem precisa de um conforto de Deus. Servir, dar, distribuir, levar Deus aos outros. Estar disponível. Não passar ao lado. Uma realidade? Não. Um desafio.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

O Bom-Pastor


Ofereceram-me, ontem, uma imagem de Cristo Bom Pastor. Também, ontem, começou a semana de oração pelas vocações que terminará no próximo domingo, chamado do Bom-Pastor. O tema desta semana é "O testemunho suscita vocações". Para mim é uma das mais belas imagens que poderíamos ter de Jesus, apesar de hoje já poucos saberem o que é um pastor. Saber que Deus cuida de mim... pode parecer beatice, mas é conforto. E os padres poderem ser bons pastores à imagem de Cristo, Bom Pastor? Um desafio.

Nesta semana, ao rezar pelos bons pastores, rezo também pelo mau testemunho dos maus pastores: não só os da pedofilia, mas os intolerantes, dominadores, que se acham donos do rebanho. E rezo também pelas ovelhas, as que se afastaram pelo mau testemunho dos maus pastores e pelas que, apesar de tudo continuam no rebanho, porque conhecem a voz do seu verdadeiro pastor.
Todos precisamos de rezar e de que rezem por nós. E, que todos nós, cada um à sua maneira, seja bom pastor para o seu próximo. Ámen.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Três velas



Estou em Fátima. Num fim-de-semana com as Irmãs Dominicanas de Santa Catarina de Sena. Venho falar-lhes de crise de vocações e como podemos continuar a ser sinal de esperança e aprender a envelhecer e até a morrer.
Mas vir a Fátima, para mim, tem os seus rituais e as suas tradições. Um deles é o de acender três velas. Não sei porquê. Sei que o faço há metade dos anos da minha vida; sei que são três, e que nelas estão sempre muitas intenções.
Outra coisa que gosto de ver em Fátima são as azinheiras. Diferentes das oliveiras e das carrasqueiras, as que rodeiam o Santuário estão grandes, troncos com musgo, folhas verdes e mais largas que as da oliveira, hoje molhadas porque em Fátima, hoje, choveu muito.
Mas hoje despertou-me outro detalhe: o canto dos melros. Ao final da tarde, quase por toda a área do Santuário, se ouvem melros a cantar. Bem escreveu o autor do Livro da Sabedoria quando disse que pelas criaturas se pode chegar ao Criador.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Os fumos sagrados


No domingo passado, perguntaram-me no fim da Missa, o porquê do incenso e porque é que a umas coisas se incensam de uma maneira e a outras de outra. Prometi escrever sobre o assunto e cá vai.
É uma ideia errada a de que os turíbulos (defumadores de metal presos a três correntes onde se queimam grãos de incenso) começaram por se usar nas igrejas para eliminar maus odores. Esta ideia, muito ligada ao Botafumeiro da Catedral de Santiago de Compostela - aí sim poderia estar incluído esse objectivo - é muito circunstâncial. A principal razão, anterior ao cristianismo e até ao judaísmo, é a de adoração às divindades. Há registos das religiões orientais em que se fala de queimar resinas e outras plantas aromáticas em louvor das divindades.
Mas podemos atribuir, na Igreja Católica, a origem do uso do incenso ao povo judeu. Na Bíblia temos algumas narrações deste ritual de queimar incenso em honra do Senhor. Baste-nos como exemplo o que se narra no Livro do Êxodo sobre a construção do Templo em que se prevê o altar dos perfumes - o lugar onde se queimava o incesno aromático.
No cristianismo, é pelo século IV que aparecem os primeiros rituais de queimar o incenso nas Eucaristias. A razão é obvia: com a liberdade de culto e o fim da perseguição dos cristãos e com a construção livre das igrejas, torna-se mais fácil enriquecer as cerimónias litúrgicas.
O uso do turíbulo, que ao longo dos séculos conheceu várias formas, não é só um objecto onde se queimam os grãos de incenso. O ritual tem a sua dignidade: não é balançado nem arremessado; é apresentado, elevado e conduzido em direcção da pessoa ou udo objecto que se quer incensar.
O sentido espiritual do incenso é duplo: por um lado é um ritual de adoração às coisas sagradas e por outro o fumo do incenso é comparado às nossas orações que sobem até Deus. É assim que se reza no salmo 140: "Suba até vós a minha oração como incenso / elevem-se munhas mãos como oblação da tarde".
São várias as celebrações onde se pode usar o incenso. Normalmente usamo-lo em celebrações de grande solenidade.
Quem e o que é que se incensa? Antes de mais a Deus. A Ele se eleva o fumo do incenso. Por isso, tomando por exemplo a celebração da Missa, se incensa logo no início o altar, a cruz, e a imagem de algum santo, se for caso disso. Na Páscoa, por exemplo, pode-se incensar o Cirio Pascal, sinal da presença de Jesus Ressuscitado na sua Igreja. Depois o livro dos Evangelhos. É a Palavra de Deus que merece a nossa veneração. Finalmente incensa-se o pão e o vinho, matéria do sacramento da Eucaristia que se vai tornar o Corpo e Sangue do Senhor.
Um outro grupo de incensações é o das pessoas. Também nós somos incensados porque fazemos parte do povo sacerdotal. O primeiro a ser incensado é o que preside à assembleia; depois os sacerdotes que com ele concelebrem e finalmente o povo.
Pode fazer-se a pergunta: mas então não é só a Deus que se incensa? Porque é que se incensam as pessoas? Respondo com outra pergunta: E nós não somos templos onde Deus habita?
Antes do Concílio Vaticano II havia regras muito precisas sobre o modo de incesar. Caíram em desuso a partir do Concílio. Agora não uma regra definida, embora os usos e costumes tentem manter-se fiéis ao que se fazia antes.
Normalmente com o túribulo aparece uma caixa de seu nome naveta (porque se parece com uma nave) onde se guardam os grãos de incenso. A fotografia ilustra um pouco os dois objectos.
Pessoalmente gosto de usar o incenso. Além de enriquecer a celebração, sinto que toda a assembleia que está ali comigo fica envolvida naquela nuvem perfumada que sobe para Deus. Pena que algumas pessoas vejam no incenso uma tentativa do "regresso ao antigamente".

terça-feira, 13 de abril de 2010

O outro lado


Ontem, na minha Comunidade, celebrámos uma Missa por alma do fr. Vicente, que faleceu no passado dia 3. No final da homilia li um texto que encontrei entre as suas coisas. O texto é de Santo Agostinho, imaginariamente escrito por um cristão que, passando as barreiras da morte, agora goza da presença de Deus.
Cada um de nós, dos que vê partir, fica com as suas memórias. Eu, deste frade, tenho as minhas.
Partilho o texto encontrado:
A morte não é o fim...
Sempre acreditei na ressurreição, simplesmente passei para o outro lado.
O que fomos uns para os outros continuaremos a sê-lo sempre.
Tratem-me sempre pelo nome que sempre me trataram.
Falem de mim como sempre o fizeram.
Continuem a rir daquilo que sempre rimos juntos
e cantem o que sempre cantamos juntos.
Pensem em mim e rezem por mim, porque a lembrança também é presença.
Quando estiverem tristes pensem em mim,
chamem por mim pelo meu nome,
que eu estarei lá para vos ajudar e consolar
e vão ver como é bom terem-me do lado de cá.
Espero por todos, não estou longe, só do outro lado do caminho.
Na plenitude do Nosso Senhor Jesus Cristo.

sábado, 10 de abril de 2010

Os outros mudam... e nós também

Foi bom revê-lo onze anos depois. A imagem de então agora é diferente. Não sei quem mudou, talvez os dois, ou talvez nenhum. Hoje foi possivel conversar, rir juntos, coisa que no passado não aconteceu. E foi mais que tolerância. Hoje foi sanado o passado. Talvez lhe devesse dizer mas fica aqui escrito.

Bendita manhã


O tempo, esta semana, tem-nos dado dias radiosos. Cada manhã, assomamo-nos à janela, e vemos um céu azul e um sol limpo e alegre. E a mim lembra-me aquela manhã em que Jesus sai vitorioso do túmulo. Cada manhã lembra-me a vida nova, cheia de luz, que Deus me quer dar para que as trevas se afastem. Cada manhã percorro os passos da Madalena, dos discípulos de Emaús, de Maria e dos Apóstolos. Todos eles, desorientados com a notícia da Ressurreição não sabem que fazer. E Jesus aparece-lhes, sem que eles o reconheçam.
Bendita manhã que nos trazes a notícia de que a noite passou, de que o Morto ressuscitou e de que a alegria voltou ao nosso mundo e ao nosso coração.
Bendita manhã que me convida a cantar Aleluias, a fazer dobrar os sinos em compasso de Páscoa, a sentir o calor do Ressuscitado.
Bendita manhã que se torna, em cada dia, um desafio ao testemunho. A sentir em mim as marcas da cruz, agora gloriosas, e a dizer ao mundo que afinal ele não está na cruz mas em mim, em ti, onde nós o pensemos. Bom dia!

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Olhos embargados


Senhor,
como haveríamos de te reconhecer,
se os nossos olhos não vêem o para além do corpo,
e a nossa inteligência para além do racional?

Não te reconhecemos
porque temos os olhos embargados de lágrimas,
e o coração dorido das experiências que magoam,
das amizades corrompidas,
do fraco testemunho
e da nossa pouca fé.

Mas há uma voz e um gesto,
que os olhos e os ouvidos reconhecem;
e ouvimos o nosso nome,
dito por ti,
naquele timbre,
o timbre do amor,
que nos faz estremecer,
e voltar ao amor.

Há um gesto,
o da entrega e da partilha,
em que te reconhecemos como pão de vida,
corpo ressuscitado.

Nesta noite eu te peço a luz
que me faz ver para além do visível,
para além do racional,
para além de mim próprio.

Então as lágrimas converter-se-ão em sorrisos,
a tristeza em alegria
e volta o coração a arder
no fogo do teu Amor.

A ti Ressuscitado,
que iluminas o caminho de Emaús,
ilumina também a minha vida
para que te reconheça
não só no pão e no vinho,
mas também na partilha de irmãos. Ámen.

Os novos Santos Óleos


Todos os anos, por estes dias, faço a distribuição dos Santos Óleos para os vários sítios onde são necessários: Convento, Hospital e ainda a Comunidade das Irmãs do Ramalhão. Este ano calhou no dia de hoje.
Estes Óleos, vindos da Sé, benzidos pelo bispo, em quinta-feira santa, são três: Catecúmenos, Crisma e Enfermos. Dizemos óleos mas, na verdade são azeites. Os dos catecúmenos e dos enfermos são puros, enquanto que o óleo do crisma, o mais "importante" e mais que benzido é consagrado, tem uma mistura de perfumes e, portanto, torna-se um azeite perfumado. Não é por acaso é que é azeite. É o suco da oliveira, que contém todas as virtudes. Foi usado para muitas coisas, como para iluminar (as candeias de azeite), e até para curar. No mundo bíblico era usado para ungir os reis, sacerdotes e profetas. Actualmente os óleos são usados para circunstâncias muito especiais: o dos catecúmeos para os que vão ser baptizados; o Crisma para a unção pós baptismal, para o Sacramento do Crisma e nas ordenações de padre e bispo; o dos enfermos é usado para ungir os doentes.
Antigamente, esta bênção era feita em latim, e cantados uns versos muito bonitos que descreviam o que significavam. Aqui fica uma tradução "sofrível", do que se cantava em procissão com os Santos Óleos depois de serem abençoados:

Ó Redentor, aceitai o cântico dos que vos louvam em coro.
Escutai, juiz dos mortos,
única esperança dos mortais
escutai a voz dos que vos trazem
os primeiros dons da paz.
A árvore, fecunda de sublime luz
produz este óleo para ser consagrado,
e que o povo aqui traz
em oferta ao Salvador do Universo.
Junto ao altar, implorando com humildade
está o Pontífice com a sua veste;
ele exerce o seu ofício
na consagração do Santo Crisma.
Digno Soberano da Pátria eterna,
consagrai este óleo
símbolo da vida
contra o poder do demónio.
Pela unção do Santo Crisma,
renovai o género humano
para que seja restabelecida
a glória da dignidade pedida.
Quando a alma se lava na fonte santa,
a falta desaparece,
quando a fronte é ungida,
fica cheia dos dons do Espírito Santo.
Vós que saístes do seio do Pai,
e abençoastes o seio da virgem,
retirai da morte e iluminai
os que são ungidos com o Crisma.
Que este dia seja para nós
de alegria pelos séculos dos séculos
seja santo pelos dignos louvores
e que dele não nos esqueçamos.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Ressuscitou, Cristo, minha esperança



Senhor,
vivemos dias gloriosos.
A tristeza converteu-se em alegria,
a morte em vida,
a dor em gozo,
o desespero em esperança.
Cristo, minha esperança, ressuscitou!
Assim dizia a Madalena,
chorando de alegria,
assim dizia para si
e para os que por ela passavam.
Cristo, minha esperança, está vivo!
Digo eu, hoje, nesta noite clara
da tua Ressurreição.
A partir daquela noite,
tudo tem sentido e nova cor:
o sol e a lua, as flores e os animais,
toda a humanidade e o seu destino,
tudo tem novo sentido.
Um novo rumo para a minha vida
é o que me pedes.
Viver como tu: ressuscitado.
Ó Cristo da esperança,
que a luz da tua santa Ressurreição,
ilumine a minha vida,
para que te possa amar mais
e dizer a todos que tu, além de vivo,
estás no meio de nós. Ámen.

In memoriam


Faleceu, no sábado passado, um irmão da minha Comunidade. Assim de repente. Homem sempre bem humorado, com o seu feitio muito especial, de grande carácter, admirado e reconhecido pelos vários sítios por onde passou, desde Moçambique, hospital da prisão de Caxias, paróquia de Caxias, Comunidade neocatecumenal que o apoiou e nos apoiou muito nestes últimos anos da sua maior debilidade.
Foi também o primeiro frade que morreu desta minha comunidade desde que sou prior.
Foi ontem o funeral.
Depois de alguém morrer chegam as partilhas de quem viveu com ele, situações engraçadas, os inevitáveis "coitadinho do fr. Vicente", que são culturais e não de sentido literal.
Uma coisa que ontem me disseram foi que ele gostava muito de uma canção dos neocatecumenais e que andava a pedir que se cantasse quase todas as semanas. E como não há acasos, a música chama-se "leva-me ao céu". Não consegui encontrar a música mas tenho a letra.
Em memória deste homem de quem cuidei - mal ou bem, não sei - aqui fica a letra desta música que ontem se cantou no final da Missa e na procissão a caminho da sepultura:
Leva-me ao céu,
ó Senhor.
Porque morrer,
É certamente o melhor,
estar contigo.

Uma coisa te rogo,
somente essa te peço,
não duvidar nunca do teu amor,
não duvidar nunca de ti,
estar contigo.

Leva-me ao céu,
ó Senhor.
Porque morrer,
é certamente o melhor,
estar contigo.

Ó que bom,
ó que doce,
foi para mim o teu amor,
ó que bom,
ó que doce.

sábado, 3 de abril de 2010

Compasso de espera



Não vale a pena chorar por Cristo.
Choremos antes por nós.
Choremos porque os nossos pecados são ainda muitos,
choremos porque o mal continua a ser mais forte que o bem.
Choremos porque somos do grupo dos fracos,
que o Evangelho narra.
Choremos porque somos como Pedro,
que na hora da verdade prefere a mentira.
Choremos como João,
que se vê sem o seu Senhor.
Choremos como Maria,
que, apesar de ver também aqui a vontade de Deus,
vê também o corpo macerado do filho que gerou no seu ventre.
Deixemos que as lágrimas caiam,
sem medo de as mostrar.
Choremos lágrimas de esperança,
a mão de Cristo virá resgar-nos.
Choremos lágrimas de amor,
porque o túmulo fechado é continuação do amor de Deus por nós.
Choremos por nós que esperamos a luz forte da Ressurreição.
Choremos por nós enquanto Cristo, no sepulcro,
vai resgatar a humanidade cativa nos infernos.
Choremos lágrimas de consolação,
porque o dia da Passagem chega apressado.
Nesse dia,
as lágrimas converter-se-ão em alegria,
o luto em cor,
o vazio em plenitude.
Enquanto esperamos a aurora da feliz notícia rezemos:
"Senhor, ilumina meus olhos na luz do teu dia, e que um canto de paz me desperte da morte".


sexta-feira, 2 de abril de 2010

Que palavras nesta noite?


Senhor,
entrámos na noite do grande silêncio.
O mesmo silêncio de há dois mil anos:
o silêncio de Maria depois de ter o seu filho morto nos braços,
o silêncio dos discípulos com as ilusões desfeitas sobre o seu Mestre,
o silêncio de um túmulo escavado na rocha, perto do lugar da morte.
Noite e silêncio.
Hoje, diante do mal, do sofrimento e da tragédia,
só o silêncio pode ser fecundo e consolador.
Se houver palavras a dizer,
serão as de solidariedade por quem sofre.
Já não há vestígios de morte:
a cruz foi retirada,
Maria retirou a coroa de espinhos,
estancou o sangue do lado,
João traz-lhe o lençol de linho para embrulhar o corpo do Senhor,
José de Arimateia já comprou os perfumes e preparou o túmulo.
Hoje o silêncio é mais forte que as palavras.
E nós esperaremos também em silêncio a grandiosa notícia
de que a morte não foi a palavra final,
de que a cruz, afinal, tem sentido,
de que Cristo sai vivo do sepulcro.
Ajuda-me, Senhor,
a sair dos meus túmulos,
dá-me força para fazer rolar a pedra da libertação
dá-me coragem para te anunciar com a minha vida.
E que também eu sinta a força da tua luz,
para poder viver como ressuscitado. Ámen.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

O dom da mansidão


Senhor,
nesta noite em que só o luar ilumina
esta noite de trevas e de espadas,
ilumina-me o teu rosto calmo e sereno,
diante dos traidores e dos que te julgam.
Travas a violência com o perdão,
a guerra com a paz,
o barulho com o silêncio.
Nesta hora de agonia,
em que os mais próximos adormecem,
mas sentes o consolodo anjo,
quero pedir-te pelos que são injustiçados,
pelos que são vítimas da guerra e da violência,
pelos que andam por caminhos sem saída.
Nesta noite e nesta hora,
em que dás a maior prova de amor,
sentes o frio da traição e do abandono.
Nesta noite e nesta hora em que rezas ao Pai,
ouves já as vozes do terror que vêm para te prender.
Nesta noite e nesta hora és julgado por Anás, Caifás e Herodes,
tu que nunca julgaste nem condenaste ninguém.
Senhor, nesta noite e nesta hora,
ensina-me o dom da mansidão.
A ter paciência, a saber ouvir,
a calar quando o impulso quase obriga a falar.
Venha em minha ajuda o anjo consolador,
que me abraça e me devolve a confiança.
Nesta noite e nesta hora,
dá-me forças para te testemunhar e nunca te trair.
Nesta noite e nesta hora,
eu te peço perdão e misericórdia,
pelo que devia ser e não sou,
pelo que devia dar e não dou,
pelo que devia fazer e não faço.
Que a aurora me devolva a alegria,
ou ainda a tristeza por mais um dia;
Mas que venha a paz de coração,
ó Cristo da humildade e da mansidão.