terça-feira, 31 de agosto de 2010

Apresentações


Após uma viagem matutina e rápida, cheguei a Roma. Fui com o meu Provincial, os dois de Portugal que estamos no Capítulo: ele por ser quem é e eu por ter sido eleito no último Capítulo Provincial. Chegados a Roma - o avião trazia alguns bispos, encontrámos alguns padres e até uma família que eu conhecia! - tínhamos a indicação que algum frade, de hábito, estaria à nossa espera. E assim foi. Estavam dois estudantes, um de Itália e outro de Malta a fazer a recepção. Fomos os primeiros daquela leva mas, num instante se juntaram outros: um de Chicago, um do Chile, três da Colômbia e uma monja irlandesa, que nos irá pregar uma conferência. Chegaram também dois franceses - extra-capítulo - que vêm fazer um filme sobre o tema. Para quebrar o gelo e a timidez, toca de ir falando ora em inglês ora em espanhol até que chegámos ao sítio do Capítulo. Atribuição de quartos (o meu quarto fica no quarto andar, onde está o Mestre da Ordem, o ex-Mestre da Ordem e alguns provinciais e definidores... cheira-me que o próximo Mestre da Ordem provavelmente é o que vive à minha frente...), almoço e tarde livre. Ao entrar no quarto deparo-me com as ferramentas que já tinha em cima da secretária: o livro das orações, a minha identificação, uma pasta com santinhos, medalhinhas, dvd's e postais, outra pastinha com os horários e as normas de funcionamento do Capítulo e listas de participantes e distribuições dos frades pelos vários temas e grupos linguísticos (as três línguas oficiais da Ordem são o espanhol, o inglês e o francês) e uma pasta para meter tudo lá dentro, e um envelope que dizia: "O mundo do Rosário com a Ordem dos Pregadores".
Ao final da tarde, tempo para ir para a recepção entregar as cartas testemunhais que são como que uma acreditação junto do Capítulo. Como somos 170 pessoas entre frades, irmãs, tradutores etc. etc., falamos com uns, outros são-nos apresentados e outros ainda ficaram por conhecer. Ao jantar fiquei numa mesa com frades totalmente da América latina: um do Brasil, três da Argentina e um do Equador. Curiosamente dois deles são dos serviços centrais da Ordem que agora terminam mandato: o Secretário Geral e o Sindico. Conversa puxa conversa, Portugal para aqui, Portugal para ali e um dos frades diz-me que está a fazer uma tese de doutoramento sobre um português do século XVIII que escreveu um Tratado sobre a Natureza e outro frade está a terminar o doutoramento em fr. Luís de Granada, provincial de Portugal. Aonde chega a lusofonia!
E agora é tempo de descansar. O Capítulo vai ser puxado. Amanhã já começa a sério, ou não tivéssemos de acordar às 6.30h!

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Próximo destino: Roma


Parto amanhã para Roma. Para uma reunião de três semanas. Muita gente faz aquele sorriso malandro como quem diz: chama-lhe reunião... mas é verdade. Amanhã começa o Capítulo Geral dos Dominicanos, em Roma. Cada três anos há um Conselho Geral e neste tem um objectivo claro: eleger o próximo Mestre da Ordem. O Mestre da Ordem é o representante máximo dos Dominicanos, eleito em Capítulo Geral, por nove anos. A sua missão é a do governo e da presença. Deve governar a Ordem, com a ajuda dos Assistentes e Promotores, mas deve também visitar os irmãos nas suas províncias e apostolados. Podem perguntar-se se são precisas três semanas para eleger o Mestre da Ordem. E a resposta, obviamente, é que não. Aliás, se tudo correr bem, no próximo domingo já aqui falarei do novo Mestre da Ordem. Depois temos que trabalhar. Durante estes últimos meses os que vão ao Capítulo receberam os vários relatórios para podermos falar e discutir sobre as prioridades, desafios e problemas da Ordem. Destes Capítulos costumam sair umas Actas para toda a Ordem, orientadoras para a nossa vida e espitiualidade dominicana.
É a primeira vez que vou a um Capítulo Geral. E, como não sei bem ao que vou, além da roupa levo trabalho e leitura para fazer: O Saltério (livro dos Salmos), material para preparar umas conferências sobre são Mateus, um livro do ex-grande-Mestre da Ordem, fr. Timothy Radcliffe, "Why go to Church? The drama of the Eucarist", na versão espanhola (há também uma em português) e um livro profano, "Vindima", de Miguel Torga, que queria ler neste mês de Setembro, mês das vindimas.
Acho que não vou conseguir fazer tudo, mas espero, pelo menos, adiantar alguma coisa. E espero também ir dando notícias do que se passa lá por Roma e das minhas impressões.
Como já tenho pedido, mas agora com mais insistência, orate pro me.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

De humilitate



Encontro-me com o Evangelho do próximo domingo e confrontamo-nos: "Quando fores convidado para um banquete nupcial, não tomes o primeiro lugar" e ainda "Quem se exalta será humilhado e quem se humilha será exaltado". A tentação é olhar à minha volta para não olhar para mim. E já isto é falta de humildade. Mas olhemos para o mundo. Podemos servir-nos das fantásticas revistas cor-de-rosa que, no verão, estão cheias de festas e conversas. E vemos como gira o mundo: faz-se uma festa em honra de fulano, fotografam-se todos os convidados, dois a dois, para que não fique ninguém escondido, e não estranhamos ausências porque as estrelas brilham. Se Jesus fosse a uma festa destas certamente que teria atitudes 'socialmente incorrectas'.
Assim anda o mundo, assim ando eu e, talvez comigo, muitos outros que gostariam de ser mais humildes.
Mas o que será a humildade? Uma definição? Um estilo de vida? Uma utopia? Creio que é tudo isto e mais alguma coisa. Deixo aqui um conjunto de textos que, ao longo da história da Igreja, foram dando contornos a esta virtude. Antes, porém, dizer que a palavra vem de húmus, solo, pouco elevado... Não sendo uma atitude exclusivamente cristã - ainda bem que a encontramos fora dos muros do cristianismo - os cristãos têm o grande trabalho de, também neste caminho, seguir a Jesus, manso e humilde de coração. Aqui fica, então, uma pequena selecção de textos:
1. São Paulo (séc. I): "Tende todos o mesmo pensar, a mesma caridade, uma só alma, um mesmo sentimento; nada façais por rivalidade ou vanglória, mas cada um, por humildade, considere os outros superiores a si, não atendendo aos seus próprios interesses, mas aos dos outros. Tende entre vós os mesmos sentimentos que havia em Jesus Cristo, o qual, sendo de condição divina, não reivindicou o direito de ser igual a Deus, mas aniquilou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, tornando-se semelhante aos homens; e tido pelo aspecto como homem, humilhou-se a si mesmo, fazendo-se obediente até à morte, e morte de cruz!"
2. São Bento (séc. VI): "Se queremos atingir o cume da suprema humildade e chegar rapidamente àquela celeste altura à qual se sobre pela humildade da vida presente, necessário se torna, pela ascensão das nossas obras, erguer aquela escada que em sonhos apareceu a Jacob, pela qual se viam anjos a descer e a subir. Sem dúvida que outra coisa não significa para nós aquele descer e subir, senão que pela soberba descemos e pela humildade subimos". São Bento fala depois dos doze degraus da humildade e termina dizendo: "Ora, uma vez subidos todos estes degraus da humildade, depressa atingirá o monge aquele amor de Deus que, sendo perfeito, expulsa o temor".
3. Isaac e Nínive (séc. VII): "Não há ninguém que tenha discernimento e que não seja também humilde; e ninguém que seja humilde se não tiver discernimento. Não há ninguém que seja humilde se não é também pacífico, nem ninguém que seja pacífico se não é humilde. Não há ninguém que seja pacífico, se não é também alegre. Existe uma humildade que vem do temor de Deus, e uma que vem do amor de Deus. Há quem se tenha tornado humilde pelo temor de Deus, e há quem se tenha tornado humilde pelo amor de Deus. Ao primeiro, acompanha-o a compostura dos membros, a ordem dos sentidos e um coração sempre contrito; ao outro, porém, uma grande simplicidade e um coração que floresce e que não se pode conter".
4. São Francisco de Assis (séc. XIII): "Salve, rainha sabedoria, o Senhor te guarde por tua irmã, a pura simplicidade! Senhora santa pobreza, o Senhor te guarde por tua irmã, a humildade! Senhora santa caridade, o Senhor te guarde por tua santa irmã, a obediência! Santíssimas virtudes todas, guarde-vos o Senhor, de quem procedeis e vindes a nós".
5. São Tomás de Aquino (séc. XIII): "Deve dizer-se que como diz Isidoro, «humilde equivale a próximo, ao húmus», ou seja, preso ao que é mais baixo. Isso acontece de dois modos. Em primeiro lugar, por um princípio extrínseco, quando, por exemplo, alguém é rebaixado por outrem, e então a humildade tem carácter de castigo. - Em segundo lugar, por um princípio intrínseco. E isso pode ocorrer, às vezes, em bom sentido, quando, por exemplo, alguém, à vista dos próprios defeitos, se considera pequeno, como Abraão, ao confessar a Deus: «vou ousar falar ao meu Senhor, eu que não passo de pó e cinza». E, nesse caso, a humildade é uma virtude. Mas, outras vezes, pode ser em mau sentido, quando, por exemplo, «o homem não entende a sua dignidade e compara-se aos animais insensatos e assemelha-se a eles»".
6. Santa Catarina de Sena (séc. XIV): "Qual árvore de muitos galhos, a caridade possui numerosos filhos. Como as árvores recebem a vida de suas raízes enterradas no solo, assim a caridade se nutre da humildade, e o discernimento é um dos filhos ou rebentos da caridade (...) Homem sem humildade é homem sem discernimento. O seu agir baseia-se no orgulho, da mesma forma que o discernimento vem da humildade (...) Quem tem discernimento, seja qual for o seu estado de vida - patrão, prelado ou súbdito - trata sempre o próximo com amor. Caridade e discernimento estão intimamente ligados; ambos se enraízam no solo da verdadeira humildade, que é o fruto do auto-conhecimento".
7. Santa Teresa de Jesus: "Uma vez estava eu considerando porque razão era Nosso Senhor amigo desta virtude da humildade, e logo se me pôs diante - a meu parecer sem eu considerar nisso, mas de repente - isto: é porque Deus é a suma Verdade, e a humildade, é andar na verdade. E é muito grande verdade não termos coisa boa de nós mesmos, senão a miséria e sermos nada; e, quem isto não entende, anda em mentira".
8. Santa Teresinha do Menino Jesus (séc. XIX): "Senhor, conheceis a minha fraqueza; todas as manhãs tomo a resolução de praticar a humildade e à noite reconheço que cometi ainda muitas faltas de orgulho; ao ver isto sou tentada a desanimar mas sei que o desalento é também orgulho, quero pois, ó meu Deus, fundar a minha esperança só em vós; já que tudo podeis, dignai-vos fazer nascer na minha alma a virtude que desejo. para alcançar esta graça da vossa infinita misericórdia repetirei muitas vezes: «Ó Jesus, manso e humilde de coração, fazei o meu coração semelhante ao vosso!»".
9. Beato Charles de Foucauld (séc. XX): "Procurai progredir diariamente em amor, em virtude; se te detens, andas para trás... trabalha, pois, constantemente, e examina-te com frequência para saberes a quantas andas: a maneira de saberes se cresces, se progrides no amor divino e em todas as virtudes, é verificares em que medida estás a crescer em humildade e em amor ao próximo... Se cresces nestas duas coisas, isso é prova certa de que cresces em perfeição total...".
10. São frei Maria Rafael (séc. XX): "Vou observando que a virtude mais prática para ter paz, na vida de comunidade, é a humildade. (...) A humildade enche de paz o nosso trato com os homens; com ela não há discussão, não há inveja, não há ofensa possível...".
(A Virgem da humildade, Fra Angelico)

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Ainda Feirão


Acabou o fresco, acabou a calma, acabaram as caminhadas nos caminhos toscos, acabou a paisagem verde e o chilrear das andorinhas às sete da manhã. Regresso a Lisboa. Mudança drástica: as paisagens são os prédios e os estádios, o fresco que vem é da ventoinha, as caminhadas são entre carros e buzinas, e às sete da manhã ouve-se o barulho dos carros a passar na avenida.
Mas é assim a vida. Fazer o quê? Lembrar os tempos bons. No entanto, para mim, Feirão não acaba. Não tenho pena nem saudades; para o ano, Deus querendo, lá estarei de novo, e isso mata-me as saudades. Agora é tempo de arquivar as fotografias e publicar no Youtube a meia dúzia de músicas de Igreja que gravei.
Mas a música de Resende não é só de Igreja. Se perguntarmos aos mais velhos como eram os serões dos meses quentes, respondem com saudade: ó sr. padre, era nas vessadas e nas cegadas e nas vindimas: trabalhava-se a cantar. À noite, vinha-se dos campos, arrumavam-se as coisas e ia-se para a eira dançar e cantar: uma concertina ou um violino fazia a festa: as chulas, as contradanças, as desgarradas, os malhões... coisas tão normais que agora só vemos dançar nos ranchos folclóricos. Passava-se fome mas era-se alegre. E tudo dançava e havia festa. Outros tempos, dizemos nós, hoje.
Há tempos, comprei um cd de 'Música regional portuguesa'. Um excelente trabalho de recolha de Michel Giacometti e Fernando Lopes-Graça. E lá vinha a Chula de São Pedro de Paus - Resende!Fico confuso quando se fala deste e daquele como 'homens da cultura'. Não consigo entender a cultura como um uma fabricação individualista de ideias... nem a consigo conceber como uma espécie de elite de pessoas ou de ideias onde manifestações mais populares não podem entrar e são catalogadas como 'de segunda' ou "mais ligadas à antropologia"... Pobre cultura a de um país quando não é capaz de incluir a sua rica variedade de manifestações culturais, sejam elas mais ou menos elaboradas.

sábado, 21 de agosto de 2010

Deus ajuda quem madruga


Seis da manhã, toca o relógio. Dois minutos depois toca o sino a Trindades. Começam a ouvir-se os guizos das vacas. Vêm 'junguidas'. Vão para a arranca da batata. O pai, velho, e o irmão; a filha, o genro e três netos. Lá vão eles, estrada fora, com o mata bicho tomado, para perto do Penedo Gordo onde, dias antes, conseguiram que o fogo não lhes chegasse às terras onde tinham as batatas e o milho. Por lá estiveram todo o dia. Ao final da manhã veio a única mulher da família, com o seu filho mais novo, para fazer o almoço e levarem-no ao local do trabalho. Continuou o trabalho tarde fora e eis que chegam agora, extenuados, perto das oito da noite, uns à frente dos outros. Á frente, por um atalho, a mulher, outra vez com o filho mais novo para adiantar o jantar; pela estrada o pai com o irmão para se irem lavando; e, a terminar a procissão, ouve-se o chiar do carro. As vacas no seu passo vagaroso, cansadas ou moles, nunca o saberemos, e o condutor a tocá-las para que se apressem.
Passam poucos minutos das nove horas da noite. O sino volta a tocar a Trindades. Em casa, com jantar quase pronto, o velho pai, entoa as orações de sempre nesta hora da noite. Também não saberemos o que lhes passa na cabeça. Não sabemos se rezam por rotina, por devoção ou por outro motivo. Uma coisa, sim, sabemos: Deus ajuda quem madruga.

Música sacra popular

A tarde de ontem foi de recolha de "versos antigos que não vêm nos livros". Ao longo destes dias, na Missa, elas foram cantando estes cânticos que, apesar do sentimento extremo da letra e da música, não deixam de nos tocar pela sua simplicidade.
Cânticos aprendidos de cor, lá pelos anos sessenta, pelo sr. Padre Filipe ou pelo sr. Padre Acácio. As letras ficavam escritas na memória e não desapareceram, lá estão, bem conservados.
Aqui deixo um dos cânticos. Talvez não se consiga perceber muito bem a letra - é a pronúncia cerrada da serra - mas aqui ficam estas vozes, não tratadas, puras, como o ar que aqui se respira e límpidas, como a água que se bebe.

video

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

A aldeia de Cotelo

Cotelo fica ao lado de Feirão. No entanto, pertencem a concelhos e freguesias diferentes. Feirão é freguesia do concelho de Resende e Cotelo pertence à freguesia de Gosende, concelho de castro Daire. É a minha terra paterna. Foi lá que o meu pai nasceu. Nunca tive muitas afinidades com aquele povo. Quando lá íamos no Verão era só mesmo para cumprir o preceito de cumprimentar os meus avós e tios que lá estavam. Tudo mudo desde que sou padre. Agora vou lá todos os dias e, às vezes, mais que uma vez ao dia. Hoje foi dia fotografar os santos da capela, dedicada a São Domingos e a Santa Bárbara.

Inocente, disse-me assim um senhor: ó senhor padre Filipe, para haver tanta devoção aqui a são Domingos é porque ele andou por cá! E eu respondi: ele não sei, mas alguns dos dele sim.

Para mim Cotelo não tem a mesma força sentimental que Feirão. Mesmo o meu pai sempre puxou mais para Feirão; mas tenho que ter em conta o que me disse hoje uma senhora: olhe que o senhor padre é metade de lá (Feirão) e metade de cá (Cotelo). Tenho que dar a mão à palmatória.



(cruz á entrada da Capela, com os cinco instrumentos da paixão)

(Imagem de São Domingos, padroeiro da Capela e do Lugar)

(Santo António)

(Nossa Senhora do Rosário)

(São José)

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

À procura do tamanqueiro... entre outras coisas

1. Ontem andei pelo concelho de Resende. Como não há café em Feirão, aproveitamos para ir conhecer outras terras. Fomos a Paus e a São Marinho de Mouros, que já é vila. Aldeias situadas nos vales da serra de Montemuro, com o rio Bestança pelo meio, como se fosse uma risca a separar os dois lados, rio que vai desaguar ao Douro. Consegui ver a igreja graças ao sacristão, que ma foi abrir por ser quem era. De uma beleza única, com os conhecidos quadros de Grão Vasco e a arquitectura românica. Não se compreende como se faz propaganda da vila e ao chegarmos lá damos com as portas da igreja fechadas.












2. Hoje foi dia cheio. Depois da Missa da manhã, todos os dias às 8 horas, uma grande caminhada até um santuário que fica a cerca de seis quilómetros, o Santuário do Senhor do Fojo (refúgio). Este era o meio do percurso. Acompanhada por uma senhora de Cotelo, a terra do meu pai, lá continuámos a nossa caminhada, falando da vida, mais ela do que eu, desta vez pelos caminhos antigos. O almoço foi com o Pároco daqui e com um outro padre de aqui perto. Não os conhecia nem eles a mim. Um almoço muito simpático, de contrastes pastorais entre o Norte e Lisboa.
A tarde foi dedicada ao artesanato da região. Uma tia minha numas coisas de decoração para a casa e eu a teimar com uns tamancos. Nesta região os tamancos são calçado de trabalho e até de casa. De madeira e couro, ferrados com borracha, servem para aquecer, para ir às lojas dos animais e andar na rua no inverno, com a chuva e com a neve. E lá fomos à procura dos tamanqueiros. O mais conhecido era o de Matancinha, que morreu. De lá deram-nos a indicação que talvez em Magueijinha ainda encontrássemos. Sim senhor, o senhor Isidro faz mas só por encomenda, não estava em casa e não tinha couro. Que em Lamego sim, que os havia. E lá fomos a Lamego à procura dos benditos tamancos. Na velha rua da olaria lá os encontrámos. Não tão bons como os de antigamente mas o melhor que agora se consegue.
Vão cá ficar para os usar por cá. Certamente que não lhes vou dar o uso original. Mas vão servir para mais alguma coisa para além da decoração.
Cai a noite. Os cães uivam. Feirão desapareceu. O nevoeiro encobriu-o.







terça-feira, 17 de agosto de 2010

Tudo por causa de letras mal escritas





A culpa é dos avaliadores. Eu tenho oitenta e dois anos e sei ler, graças a Deus, mas vejo mal. E eles escrevem a folha à mão e a gente não lhes percebe a letra”. Era assim que a tia Alzira – chamemos-lhe assim – protestava, a bater com a enxada no chão, com uma vizinha com quem partilhava a água do povo para a rega. Tinha visto mal. Pensava que a água era dela mas não. Acalmou a zaragata quando a interrompi e perguntei se lhe podia tirar uma fotografia. “Pode sim senhor”. E parou para posar. Depois de lhe agradecer lá foi ela a reclamar a caminho da junta de freguesia. Por um lado ia confirmar se sempre era verdade que estava enganada; por outro, botando as culpas aos tais avaliadores que, com aquelas letras mal escritas, confundem a tia Alzira.






Este traço de aparente fumo é a neblina que paira sobre o ribeiro que passa aos pés de Feirão, e o outro que vem lado oposto, o rio Balsemão. Até que se encontram. Esta névoa matinal faz o percurso aéreo destas águas que correm mansas para uma barragem recém construída, onde nestes dias de fogos o helicóptero vai abastecer para fazer o seu trabalho.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Domingos e Diários


Aqui fica o que tenho vivido nestes últimos dias.
1. Domingo. Ontem senti o que é a vida de um pároco de aldeia. Porque estou a substituir o de Feirão, que aproveitou eu estar cá para fazer uns dias de férias, ontem celebrei em três das quatro paróquias que lhe estão confiadas: Feirão, às 8.45h, Oliveira do Douro, às 10.15h e Ramires, às 11.30h. Estas duas últimas são vizinhas, mas ir de Feirão a Oliveira do Douro são simplesmente 24 km em curvinhas atrás de curvinhas e meia-hora, bem medida, de caminho. Feirão pertence ao concelho de Resende e Oliveira ao de Cinfães. A ponte do rio Cabrum, que vai afluir ao Douro, faz a passagem dos concelhos. Oliveira do Douro fica num alto, mas faz jus ao nome: vê-se o lindo Douro, manso, no seu leito. Celebrei as três Missas, todas seguidas e confesso que, quando me sentei para almoçar, estava cansado. É ainda de registar a imagem de São Domingos que lá encontrei. Ainda tive de explicar a uns senhores o significado do cão aos pés de São Domingos.
2. Fogos. Perguntam-me se não há fogos por aqui. Esta fotografia foi tirada enquanto escrevo. Do terraço de minha casa vejo três fogos. Há bastantes fogos por aqui. A maior parte nos montes. Às vezes vemos as cinzas as pairar sobre nós e o cheiro da lenha a queimar.
3. Como um cordeiro levado ao matadouro. Esta manhã vi matar um cordeiro. Fui visitar uns pastores que fazem criação de ovelhas e cordeiros. Sempre tive curiosidade em ver matar os cordeiros. E é bem verdadeira a profecia de Isaías que ouvimos em sexta-feira santa: “Foi maltratado, mas humilhou-se e não abriu a boca, como um cordeiro que é levado ao matadouro, ou como uma ovelha emudecida nas mãos do tosquiador”. De facto, elas não reagem. Ao contrário dos outros animais, este cordeiro que vi hoje, parecia que sabia ao que ia: deixou-se apanhar, deixou-se sangrar e morreu sem qualquer violência.
4. Diário. Terminei de ler, esta manhã, o terceiro volume do Diário de Miguel Torga. Poemas sempre belos, reflexões inteligentes. Partilho convosco o que ele escreveu sobre o Diário que escrevia: “A ideia de um diário íntimo, de tripas na mão, é uma ideia romântica. (…) Um diário não é necessariamente um perpétuo ma culpa. Pode ser um simples memento, um exercício espiritual, um caderno de apontamentos, tudo o que se queira. Que nele haja sempre um derrame de pecados e maceração, parece-me absurdo. Pela minha parte, não sou delator, nem meu, nem dos outros. Não tenho nada a esconder do leitor, a quem nunca vendo gato por lebre, mas quero ter mão em mim, evitando-lhe o espectáculo de uma exibição confrangedora. Há recantos do ser e da vida que precisam de silêncio”. Sensato.

sábado, 14 de agosto de 2010

A História de uma Cruz


Março de 1960.
A cruz lá está, à beira do caminho, a indicar a quem passa que ali morreu naquele ano invernoso a tia Carminda. A indicar e a pedir orações. Que outra coisa poderia a cruz pedir senão que rezássemos por quem passou a vida a pedir?
A tia Carminda, filha das tristes ervas, com dois filhos, também eles da mesma origem, era pobre e pedinte. Não pedia para ela, pedia para os filhos. Um andava ao dia, a trabalhar para quem o rogasse, e o outro na escola, tentando aprender algumas letras e alguns números.
A mãe, outra coisa não sabia fazer. Não havia dinheiro nem para gado nem para comida. Era mais pobre que outras famílias que tinham ao menos umas ovelhitas ou um bocado de terra onde cultivar uma mão cheia de batatas ou de cebolas.
Esta mulher, o destino assim tinha traçado, era pobre. Pobre e pedinte.
Todos os dias, ainda antes do sino tocar as Trindades, ela saía, com o seu saco de serapilheira, remendado num canto com um tecido às flores, para ir de ladeia em aldeia fazer o que sabia: pedir. E ao final da tarde, quando o sol começava a declinar, regressava toda à pressa para dar de comer à sua única riqueza: os dois filhos.
Era a vida desta mulher, a vida de todos os dias. Nas aldeias vizinhas toda a gente a conhecia: a tia Carminda de Cotelo.
Raramente se atrasava. Às vezes o mau tempo não a deixava chegar a casa; os filhos estavam já habituados, sobretudo nos dias de grandes invernias, que se a mãe não viesse, não lhe tinha acontecido nada. Era só o mau tempo.
Saiu ela naquele sábado, 26 de Março, como era costume, para ir pedir para as costas de Resende: São Martinho de Mouros, Fazamões, Felgueiras, até Feirão, freguesia de passagem para ir e para vir. Apesar de a conhecerem e de serem muito pobres, alguma coisa lhe haveriam de dar. Era dia de inverno. Uma chuva miudinha moeu toda a manhã.
Andou ela errante por aquelas terras e lá tiveram pena da pedinte. Deram-lhe um punhado de castanhas, meia dúzia de batatas, umas maçãs… uma broa…
Ao fim da tarde pôs-se a caminho do regresso. Chegou noite a Feirão. Chovia mais forte, como acontece nos finais de tarde, a adivinhar uma noite de tempestade. Passou ao cruzeiro de Feirão e a magnífica que estava à janela, ao vê-la disse-lhe: Ó tia Carminda, ainda vai hoje para Cotelo? Olha que chove muito. Venha mas é cear connosco, e já cá fica para a Missa de amanhã. Não aceitou. Levava cheio o saco das esmolas e queria ir dar de comer aos ricos filhos que tinham andado o dia todo ao Deus dará. E pôs-se a caminho pelo atalho da Regadinha, o mais rápido apesar de molhado. E lá foi ela, já noite, pensando que, não chovendo muito, num instante se lá punha. Mas o caminho enganou-a. Mal entrou no caminho, daqueles caminhos que são pedras mal ajeitadas, umas mais altas que as outras, o melhor que se conseguia fazer pelos homens da terra que eram lavradores e não pedreiros, não andou mais de meio quilómetro quando, com a pressa, caiu num rego de água. O saco ficou na ponta do caminho a impedir que o rego de água escoasse. Ela, não se conseguia levantar e gritar era escusado. A chuva, as dores, a água que não escorria, e não houve nada a fazer. Ali morreu afogada.
Os filhos estranharam a mãe não ter vindo, mas, como já se disse, não era a primeira vez. Lá passaram a noite com uma côdea que tinha sobrado, e com o resto do caldo que tinha ficado na panela.
No dia seguinte, domingo, o povo de Cotelo que, como não é freguesia, não tem missa na aldeia, pôs-se a caminho da missa mais perto, em Feirão, às oito. E quando estão a entrar no povo vêm um corpo morto no chão. Quem seria quem não seria, ao virarem-ma – ela tinha caído de costas – viram que era a tia Carminda. Mandaram um miúdo a correr que viesse avisar o povo que ela estava morta. Acorreu muita gente. Mandou-se chamar quem de direito para lhe passar a certidão de óbito. Ali se rezou pela alma. Dali se levou para Cotelo e se fez o funeral. E ali se colocou a cruz para que se saiba, enquanto houver lembrança, que uma pedinte ali morreu e para que se reze pela alma, porque rogar a Deus pelos vivos e defuntos é obra de misericórdia que agrada ao Senhor.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Feirão em imagens

Todas as manhãs um passeio. Hoje foi de Feirão às Dornas, um povo que fica detrás do Penedo Gordo, a minha vista de todas as horas. Aqui ficam algumas fotografias sobre esta freguesia.
(Um campo de milho)




(Uma casa típica de Feirão. Em baixo as lojas, em cima as casas)




(A flor da abobreira. E lá andam, as incansáveis abelhas a tratar da vida delas... e da nossa!)




Um pastor - da minha idade - que vem do monte.





(esta é uma das vistas panorâmicas de Feirão)




(Silvão, de onde se apanham as maiores amoras e as mais doces)

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Sobre a poesia contemporânea



Os poemas de hoje não têm regra. Os sonetos são obsoletos, nem têm que rimar.
Agora procurar palavras para que haja cadência não faz sentido. Medir as frases é tempo perdido. As quadras são provincianas ou paroquiais, como agora se diz para significar poucochinho.

O antigo passou.

O que conta agora e sempre contou é dizer de forma bela, mais ou menos ordenada, as emoções, as razões. O tema continua o mesmo: a existência.

O poeta escreve por si, é uma necessidade sua. Simplesmente escreve. E impõe a sua regra.

Deixa agora gravado numa folha ou na memória de uma máquina ou ainda num pequeno cartão, os poemas que a vida lhe vai ditando.



(esta imagem encontrei-a na net. Só consegui descobrir que se chama "casa do poeta")

domingo, 8 de agosto de 2010

Um mosteiro de clausura



Aqui o dia começa com o tocar do sino, às 6.30h e termina com o mesmo toque às 22h. Estes sinais, dados a partir do sino do claustro, indicam que começa o silêncio nocturno. Este mosteiro, situado na colina dos Remédios, tem actualmente 8 monjas, uma delas acamada, com quase sem anos. Uma comunidade envelhecida, para quê esconder, mas que tenta manter todas as regras e tradições da espiritualidade dominicana. O dia é pautado pela oração. Quando o sino toca manhã cedo, mesmo antes dos sinos dos remédios tocarem a Trindades, estas irmãs começam o seu dia. É tempo de ir cantar a Deus os louvores matutinos. Tudo cantado. Às sete horas já estão elas na capela para rezar Laudes, depois a hora de meditação que termina com a Hora de Tércia. Entretanto começa a Missa, todos os dias à mesma hora, aos domingos com mais assembleia, e assim entregam a Deus as primeiras horas do seu dia. Só depois das acções de graças da Missa é que vão para o refeitório para o pequeno-almoço, frugal e rápido. Vem depois o trabalho. Cada uma no seu ofício, desde a cozinha à lavandaria ou da limpeza da casa ao fabrico das hóstias, cada uma vai cumprindo, conforme as suas possibilidades, o seu dever de trabalhar. De vez em quando tocam à porta. Entregas, correspondência, benfeitores… e lá está a roda, objecto característico dos mosteiros para dar e receber. Antes do almoço, novo encontro na capela para as orações do meio-dia: Terço e Hora Sexta. Findas as orações da capela, dão a volta ao claustro em fila por ordem de profissão, até chegarem à porta do refeitório, onde rezam o salmo 129 – o De Profundis – pelos Irmãos e Irmãs que estão já junto de Deus. O almoço é em silêncio. Porque nem só de pão vive o homem, lê-se durante a refeição algum texto espiritual, alguma parte da Regra, para que também esses textos alimentem e reforcem a vida cristã.

Vem depois o recreio. Obrigatório. Todas as Irmãs se reúnem na sala comum para saberem de notícias, para falarem e distraírem-se com algum trabalho manual.

Volta o sino a tocar para um novo encontro na capela. Outro Terço e Hora de Noa e tempo de meditação comunitária. Volta-se depois para os trabalhos. Os mesmos ou outros que sejam necessários fazer. O lanche é informal.

Já no fim do dia, quando o sol começa a deixar no céu as marcas do entardecer, quando o mundo começa outro ritmo – o de ir para casa depois de um dia de trabalho – volta o sino a tocar para a Oração de Vésperas. Como em todos os ofícios, há regras, maneiras de estar, um lado do coro começa, o outro responde; no final de cada salmo, todas, de pé, se inclinam profundamente ao Glória, em honra da Santíssima Trindade.

Mais um tempo de silêncio e outro Terço, para que, cada dia, em Comunidade, se reze o Rosário, oração tão querida e tão própria da Ordem Dominicana.

Vem depois o jantar, em tudo igual ao almoço mas mais rápido. Depois de outro tempo de recreio, toca o sino novamente, para um último momento de oração: Ofício de Leituras e Completas. Esta última oração – as Completas – são comovedoras. Se por um lado lembram a noite, o cansaço e o nosso pecado, nesta oração da noite pede-se perdão ao Senhor e aos Irmãos pelas faltas cometidas ao longo do dia. Aqui mantém-se um ritual das origens da Ordem que é a procissão com o canto da Salve e do O Lumen. A Salve é a Salve Rainha, cantada em latim, num tom próprio dos dominicanos. Enquanto se canta a priora asperge cada irmã, com água benta, gesto secular que se repete desde que um frade viu, durante este cântico, Nossa Senhora que aspergia cada frade com água benta. E depois o O Lumen, um cântico, também em latim, dedicado a São Domingos, Pregador da Graça.

Saem depois as Irmãs, em fila, cada uma para a sua cela. A priora volta a aspergir cada cela e cada irmã. No final, toca uma última vez o sino. Para dizer que o descanso chegou e, com ele, o silêncio.

E eu, que estou cá com elas? Faço tudo igual? Não. A sensação é a de que estamos sempre do outro lado, para cá das grades. Em todos os lugares comuns há grades. Creio que a única explicação que actualmente pode haver é a do sinal exterior de separação com o mundo. Não são presidiárias nem existem as grades para as defender ou que seja. Simplesmente para se perceber que das grades para lá tenta-se viver de uma maneira diferente. Por isso, eu, do lado de cá, rezo com elas as horas principais. As refeições tomo-as sozinho – é o que mais me custa, habituado eu a almoçar e jantar sempre com companhia. Encontro-me com as Irmãs, falo com a priora e com mais quem queira falar comigo.
Não é uma vida estranha. É uma vida diferente.
Uma coisa é certa: aqui o barulho é desnecessário, incomoda. Aqui o silêncio é bom, puro, como o ar que aqui se respira.

sábado, 7 de agosto de 2010

Trás da Sé


Estou em Lamego. Após uma viagem relativamente rápida - antigamente demorava-se quase meio dia para cá chegar - eis-me nas berças. E como cheguei à hora do almoço, decidi almoçar num pequeno restaurante; pequeno, bom e barato.
Trás da Sé. Podia ser um lugar de encontro combinado (encontramo-nos atrás da Sé), mas é o nome deste restaurante. As paredes, de pedra tosca, que sobressaem do cimento, estão pintadas de branco, verde, vermelho e azul. Tem também pendurado umas cabaças seca, a servir de decoração e ainda umas flores secas espalhadas. isto acima de nós. Ao nosso nível, quando nos sentamos, vemos mensagens escritas em papel próprio, centenas, lavradas pelos comensais que por aqui passam. Cores variada, línguas varidas: inglês, francês, alemão e até em português, não estivessemos nós na nossa terra. Este restaurante já vem indicado nos guias turísticos, não me admira, por isso, que veja entrar turistas estrangeiros, de guia turístico na mão, a pedir uma mesa para almoçar. Completamente cheio. Felizmente que, como vou sozinho, me arranjam logo mesa, mesmo à entrada. Virado para a Sé. As pedras velhas, escuras, desgastadas, o castelo lá em cima a marcar presença, os turistas na rua á espera de mesa livre...
A ementa é pobre. E pobre aqui é qualidade. Porque nestas zonas, que sempre foram pobres, até na gastronomia, podemos deliciar-nos com os sabores autênticos dos alimentos. Ementa pobre e pouco variada. É a típica desta terra. Desde o borrego, às trutas, cabidela, arroz de feijão com salpicão... a escolha é rápida, o almoço também porque almoçar sozinho não tem interesse e saio de lá satisfeito pela calma da viagem e por ter chegado ao destino. Como vim para o Mosteiro das Irmãs Dominicanas, onde vou ficar esta noite, trouxe-lhes, da pastelaria do lado "Gradinhas do Convento" para fazer pendant. São uns bolos secos, em forma de grelha, grade, que servem perfeitamente para a ocasião. Até as grades podem ser doces.
Como este post resvalou para a culinária espero não ter cometido o pecado da gula...

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Preparativos


Ao som dos Concertos de piano de Rachmaninov entro nos preparativos para os próximos dias. Saio amanhã para Lamego, para o Mosteiro das Irmãs Dominicanas de clausura onde, com elas, celebrarei a festa de São Domingos, no próximo Domingo. De lá para Feirão. Com a minha mãe em quinze dias de férias - na realidade não são grandes férias porque irei substituir o pároco de lá para ele poder ter férias - para desfrutar do habitual: as vistas da serra de Montemuro, as pessoas, o fresco do final da tarde... enfim, quando estamos onde gostamos tudo tem o seu toque especial. (Esta fotografia foi tirada do terraço da casa da minha família. A este monte chamamos Penedo Gordo).
Levo trabalho. Em Setembro estarei em Roma, no Capítulo Geral dos Dominicanos. Vamos eleger o próximo Mestre da Ordem e delinear prioridades e desafios para os próximos três anos. Nos últimos meses fui recebendo de Roma os relatórios que terei de ler nestes dias para que o trabalho de casa vá feito.
Como sempre, nos dias antes de alguma saída, apetece-me ficar. A mala, a lista das coisas, o que me espera... Ainda por cima que agora aqui tudo está tão calmo... Mas tudo isto se vence porque sou como o caracol: levo a casa comigo.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

O que ando a fazer


Vivo dias felizes.
Calmos.
De descanso. Sem deslizes.

Na sombra do meu quarto,
leio, estudo e escrevo,
também rezo.
Oiço música calma,
antiga ou moderna,
profana ou sagrada
seja ela louvada.
Cadências que me fazem voar,
sonhar...

Vivo o silêncio;
muito, forte e bom,
que não é demasiado e é habitado.
Os sons que me chegam são puros,
brancos como os pensamentos,
ou as paredes do claustro
que refrescam o calor de Agosto.

O que ando a fazer? Nada.
Simplesmente a viver.
(Paisagem de Verão, Jan Van Os, séc. XVIII)

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Símbolos


Assumi o encargo de celebrar a Eucaristia, esta semana, a Irmãs não-dominicanas, que estão a promover um campo de férias vocacionais. São doze raparigas que aceitaram o desafio de, durante uma semana, reflectirem sobre a vocação, o que não quer dizer que possam vir a ser freiras, mas também pode ser que sim.
Cada dia valorizam uma cor, a de hoje era o azul, reflectem sobre uma atitude, hoje calhou a da confiança e enriquecem um momento da Eucaristia, que hoje foi o do ofertório. Foi-lhes pedido que deixassem no altar um símbolo que lhes dissesse algo e que explicassem. Desde o fio que as Irmãs usam, passando pelos óculos, carteiras, pulseiras e relógios, cada uma foi explicando o porquê desse objecto. Eu, como fui apanhado de surpresa, vali-me de um clipe (aquela pequena peça metálica que usamos para prender papéis) para lhes dizer que assim como o clipe une papéis, assim a nossa vida deve ligar e estar unida a Deus e aos outros.
Como o Evangelho falava de Pedro que, ao caminhar nas águas, teve medo e perdeu a confiança em Jesus, aqui fica uma gravura de Alessandro Allori, 1590. Realce-se o gesto de estender a mão. Sinal de confiança.

domingo, 1 de agosto de 2010

Sobre o Pai-Nosso


Na sequência do Domingo passado, em que escutávamos Jesus, no Evangelho de Lucas, a ensinar os discípulos a rezar, que resultou na oração do Pai-Nosso, recebi um texto simples, sem autor - embora desconfie de quem seja, que me fez pensar no bem que nos faz rezar o Pai-Nosso e ir conformando a vida com o que rezamos. Aqui fica o texto que recebi:

Não digas «pai», se a cada dia não te comportas como um filho.
Não digas «nosso», se vives isolado no teu egoísmo.
Não digas «que estais nos céus», se só pensas nas coisas terrenas.
Não digas «santificado seja o vosso nome», se não o honras.
Não digas «venha a nós o vosso Reino», se o confundes com coisas materiais.
Não digas «seja feita a vossa vontade», se não a aceitas quando é dolorosa.
Não digas «o pão nosso de cada dia», se não te preocupas com quem passa fome.
Não digas «perdoai-nos as nossas ofensas», se manténs rancor contra o teu irmão.
Não digas «livrai-nos do mal», se não tomas posição contra o mal.
Não digas «ámen», se não compreendeste nem levaste a sério a palavra do Pai-nosso.


(Este mosaico, da igreja de São Marcos em Veneza, é do século XIII. Uma virgem em oração.)