sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

O novo arco-íris (homilia)


Esta manhã, quando saí de casa para fazer umas compras para a Comunidade, ao descer as escadas, vi um céu escuro e o arco-íris a sustentá-lo. Um arco-íris forte e completo. Quando vejo um arco-íris lembro-me sempre do episódio onde ele aparece pela primeira vez na Bíblia – depois do dilúvio – e o significado que Deus lhe dá: um sinal de aliança entre Deus e os humanos. Curiosamente este é o mesmo significado para as três religiões monoteístas (judeus, cristãos e muçulmanos).
Pode parecer fora de contexto esta minha alusão ao arco-íris desta manhã, mas creio que não é de todo descabida. Porque as leituras que escutámos nesta nossa celebração falam dos mesmos temas presentes na simbologia do arco-íris: revelação, aliança, fidelidade…
Este tempo de Natal é um tempo de luz. Uma luz que brilhou no meio da noite, uma luz que é contemplada pelos pastores e adorada pelos Magos. Uma luz que se revela no nosso mundo e na nossa história. Por isso este tempo é também um tempo de revelação. Com Jesus, o Criador torna-se criatura, a eternidade entra no nosso tempo, o Imortal torna-se mortal, a glória de Deus esconde-se na carne humana de um menino chamado Jesus. Tudo isto resume-se no versículo do Evangelho que escutámos: “O Verbo fez-se carne e habitou entre nós”. E a nossa fidelidade nasce desta revelação e da aliança que somos chamados a fazer com Deus, porque Deus veio, Deus vem para nós.
Jesus é o novo arco-íris, ou seja a aliança nova e definitiva de Deus com os humanos. Aliança que exige fidelidade da nossa parte: fidelidade a Deus e fidelidade ao Evangelho.
Hoje é o último dia do ano. Mesmo que para alguns este dia seja mais um e como um dia mais, é um dia que, para nós cristãos, deve colocar-nos numa dupla atitude: de perdão e de Acção de graças. E, assim como depois do dilúvio apareceu o arco-íris, como sinal de um recomeço, de uma nova hipótese, este último dia do ano deve ter esta componente mais penitencial: reconhecermos que nem tudo neste ano de 2010 foi bem.
É também de acção de graças porque, em cada fim-de-ano, temos também muito a agradecer a Deus. Mesmo que com acidentes de percurso, a fidelidade a Deus fez-nos chegar hoje aqui para reconhecermos que de Deus vêm todas as graças, todos os dons e que nele está a nossa felicidade.
É também um dia de formularmos os nossos votos de um Bom Ano. E, para nós cristãos, o que é um ano bom? Será certamente se descobrirmos no dia-a-dia a oportunidade que Deus nos dá para nos realizarmos como indivíduos e como sociedade e de trazemos ao nosso mundo os sinais e a mensagem de Jesus através da amizade, da ajuda, do diálogo, do perdão e da felicidade.
(Imagem: Jacob Cats, Paisagem de outono com arco-íris, 1779)

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Balanço anual


Entre o fim-do-ano e o ano-novo, empresas e lojas fazem o seu balanço. A Igreja também o fez nas suas instâncias próprias. O Papa, no passado dia 20, fez o balanço institucional: o pesadelo, que não foi pesadelo, foi mesmo realidade, do abuso de menores por parte de padres católicos, o bom êxito do Sínodo dos Bispos para o Médio Oriente, as viagens e a beatificação do cardeal Newman, foram os temas principais do discurso do Papa. Dias mais tarde, foi a vez do Porta-Voz do Vaticano fazer também ele o balanço da actividade do Papa, dizendo que foi o melhor ano do pontificado: as «intervenções exemplares» do Papa em relação à pedofilia com a atitude de "prontidão em ouvir, compreender, participar no sofrimento", as cinco viagens internacionais, uma das quais a Portugal, uma exortação apostólica (Verbum Domini) e o best-seller da entrevista concedida ao jornalista Peter Seewald (Luz do mundo) foi o que mais se destacou em 2010.
Também a Agencia Fides fez o seu balanço. Este organismo do Vaticano vocacionado para as Missões, diz-nos que este ano morreram 23 missionários católicos, vítimas de assassínio ou de assalto/sequestro. São dados preocupantes, que ajudam a pensar na Mensagem do Papa para o dia Mundial da Paz que este ano tem como título "Liberdade religiosa, caminho para a paz".
Nós por cá, todos bem. O Arcebispo de Braga também fez, recentemente, a sua avaliação do estado da Igreja em Portugal: a visita do Papa a Portugal como um acontecimento histórico e em relação ao "Repensar a Igreja em Portugal", projecto audacioso a ver pelo título, que creio vir na sequência da visita dos Bispos a Roma em 2008, as coisas estão mais perras: ainda só fizeram o instrumento de trabalho que está a ser analisado pelos bispos. Depois umas pinceladas pelo interior da Igreja e pela análise política, contas feitas, não dá saldo negativo, e os votos para 2011 são de que "se concretize um modelo de sociedade diferente, alicerçado na fraternidade e na justiça".
Se descermos mais, a nível local/diocesano, não temos muita informação, excepto previsões sobre o 2011, com o fado cantado e recantado da crise...
Mas a ideia de pararmos no fim do ano e fazermos uma avaliação séria do que foi a nossa vida ao longo do ano, além de benéfica é útil, porque nos faz olhar para o passado, ver o presente e projectar o futuro. Gosto sempre de recordar nestes dias, a frase de S. Francisco de Sales: "É necessário abandonar o passado à misericórdia de Deus, o presente à fidelidade, o futuro à divina Providência". E caminhar na alegria e na esperança, apesar dos apesares. E que todos tenhamos um bom ano de 2011, tão bom quanto possível.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

A morte dos inocentes


Que Herodes não era flor que se cheirasse sabia-o toda a Judeia. Não vamos aqui desconsiderá-lo até porque ficou o com cognome de "o Grande". Mas era cruel. E, de certa maneira, um rei imposto pelo Império Romano, o que não agradava nada ao povo judeu. O seu grande problema, com o qual convivia diariamente, era o da legitimidade: não era da descendência de David. Por isso sentia o sabor amargo de não ser reconhecido pelo povo. E, às tantas, isto tornou-se uma obsessão; para que o seu reinado não fosse questionado nem sequer retirado do posto, mandou queimar alguns arquivos genealógicos onde estavam as linhagens mais nobres dos judeus.
por isso o medo era mútuo: de um lado o povo tinha medo de Herodes porque estava em nome do Império Romano e, por outro, Herodes tinha medo do povo e por isso mandou construir uma fortaleza, em Massá, para fugir caso aparecesse alguém da descendência de David, a linhagem real.
O reconhecimento de grandeza vinha-lhe das grandes construções que fez, profanas e religiosas. E tanto construía templos para os deuses pagãos como, por vaidade, construiu o templo judaico de Jerusalém. Mas, como na vida de qualquer mortal, nem tudo são glórias. Herodes casou com dez mulheres, matou dois filhos e, depois, foi um filho que o veio a envenenar...
Mas nestes entretantos nasceu Jesus. Sim, Jesus. O rei dos judeus, da descendência de David. Corria o boato em Jerusalém, por causa de uns magos que se tinham perdido, e procuravam ver o rei que tinha nascido. É claro que, Herodes, ao ouvir falar de um rei que tinha nascido, da descendência de David, ficou apavorado. O seu poderio estava em questão. Como se sentiu enganado pelos magos, que não lhe disseram onde estava o Menino, furioso, ordena o massacre de todos os rapazes com menos de dois anos. Só escapou um... o de Nazaré que, entretanto, tinha fugido para o Egipto. Isto nunca o soube Herodes. E aquele dia foi um dia de horror em Belém: gritos das mães e dos bebés, lutas dos pais com os soldados, alguns tentaram fugir mas não tiveram tempo, foram apanhados, sangue por todo o lado... Depois do massacre vemos as mães com os filhos mortos nos braços, a clamar justiça a Deus porque o rei, esse, era injusto e muito.
Pensar que esta maldade continua presente nos nossos dias... O que faz o poder, o que se faz por um posto... desviam-se mais frágeis, os mais inocentes, diz-se mal de um colega por causa de uma carreira, de um lugar de topo no trabalho, arma-se-lhe uma cilada... tantas maneiras de matar inocentes... tantas e tão subtis.
A Igreja valorizou sempre este dia e estes meninos como os primeiros mártires do cristianismo. Sem saberem foram mortos, injustamente, claro está, mas receberam a coroa e a palma da vitória.
Nestes dias tenho vindo a ler contos de Natal contemporâneos. São um bocado como o relato amargo da morte dos inocentes. Parece que há um certo gosto por um final não-feliz, tão contrário aos clássicos contos de Natal. José Saramago põe uma menina fazer um desenho e a pintar neve de preto porque no Natal lhe morreu a mãe; Fialho de Almeida põe uma mulher a dar à luz, e o marido à espera que o menino nasça para o atirar contra uma pedra: "Veio-lhe, de repente uma veneta e bruscamente, com um resfolgar de bezerro, escavacou o menino contra a rocha. A pancada dera na pedra um som de melancia podre, esborrachada em surdina, baça e turgente. Foi um momento, aquilo, e todas as coisas voltaram ao êxtase de inbstantes antes"; José Maria de Andrade Ferreira faz coincidir na noite de Natal uma briga entre namorado e ex-namorado de uma rapariga, Emília, briga que acaba na morte do namorado. Quanto à Emília, enlouquece e, no final do conto, aparece morta no cemitério, por cima da campa do namorado...
Mas, graças a Deus, ainda há excepções. Afinal a última vitória é a do Bem sobre o mal. Encontrei dois muito graciosos. Um, de Miguel Torga, em que o Garrinchas faz a consoada numa capela da Senhora dos Prazeres, no meio do monte e da neve, acompanhado com a Nossa Senhora e o Menino Jesus. Vale a pena aqui escrever os últimos parágrafos: "Num começo de angústia, porque o ar da montanha tolhia e começava a escurecer, lembrou-se de ir à sacristia ver se encontrava um bocado de papel.
Descobriu, realmente, um jornal a forrar um gavetão, e já mais sossegado, e também agradecido ao céu por aquela ajuda, olhou o altar.
Quase invisível na penumbra, com o divino filho ao colo, a Mãe de Deus parecia sorrir-lhe. Boas festas! - desejou-lhe então, a sorrir também. Contente daquela palavra que lhe saíra da boca sem saber como, voltou-se e deu com o andor da procissão arrumado a um canto. E teve outra ideia. Era um abuso, evidentemente, mas paciência. Lá morrer de frio, isso vírgula! Ia escavacar o ar canho. Olarila! Na altura da romaria que arranjassem um novo.
Daí a pouco, envolvido pela negrura da noite, o coberto, não desfazendo, desafiava qualquer lareira afortunada. A madeira seca do palanquim ardia que regalava; só de cheirar o naco de presunto que recebera em Carvas crescia água na boca; que mais faltava?
Enxuto e quente, o Garrinchas dispôs-se então a cear. Tirou a navalha do bolso, cortou um pedaço de broa e uma fatia de febra e sentou-se. Mas antes da primeira bocada a alma deu-lhe um rebate e, por descargo de consciência, ergueu-se e chegou-se à entrada da capela. O clarão do lume batia em cheio na talha dourada e enchia depois a casa toda. É servida?
A Santa pareceu sorrir-lhe outra vez, e o menino também.
E o Garrinchas, diante daquele acolhimento cada vez mais cordial, não esteve com meias medidas: entrou, dirigiu-se ao altar, pegou na imagem e trouxe-a para junto da fogueira.
— Consoamos aqui os três - disse, com a pureza e a ironia de um patriarca. — A Senhora faz de quem é; o pequeno a mesma coisa; e eu, embora indigno, faço de S. José
".
O segundo conto, adequadíssimo a este dia, é o de Aquilino Ribeiro, "D. Quixote contra o Rei Herodes", que aconselho a ler. E este post começou em Herodes e em Herodes acaba, com o D. Quixote no presépio, de guarda ao Deus-Menino.
(Imagem: Gioto di Bondone, O Massacre dos Inocentes, 1310)

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010


Aproxima-se a hora do silêncio e da contemplação. A noite brilha como o dia, a alegria é espiritual, para não acordar o Menino. Também vou depressa ao presépio. Que nada me prenda, nem família nem amigos, nem presentes nem canções. Quero ir ao presépio. Não quero deixar de ver e adorar Aquele que aquece o meu coração e dá sentido à minha vida.
A si que passou por aqui desejo-lhe um Santo Natal e desafio-o a ir comigo à gruta. Venha ou vá lá. Encontraremos outros como nós a contemplar a grandeza do Amor de Deus.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Recenseamento

Por aqueles dias, saiu um édito da parte de César Augusto para ser recenseada toda a terra. Este recenseamento foi o primeiro que se fez, sendo Quirino governador da Síria. Todos iam recensear-se, cada qual à sua própria cidade. Também José, deixando a cidade de Nazaré, na Galileia, subiu até à Judeia, à cidade de David, chamada Belém, por ser da casa e linhagem de David, a fim de se recensear com Maria, sua esposa, que se encontrava grávida.” Lucas 2, 1-5
É o único quadro que conheço sobre este episódio do recenseamento de Belém, narrado no princípio do capítulo dois do Evangelho de Lucas, que aparece como introdução ao nascimento de Jesus. Além disso, já o vi na minha ida a Bruxelas. Bruegel tem esta arte de, a partir de um acontecimento, relatar também o seu contexto. Bruegel não é directo. Ao olhar para este quadro a nossas atenções vão para um grupo de gente que está perto da casa dos recenseamentos: pagam o imposto e fazem o recenseamento. Mas não é aí que estão José e Maria. Estão mesmo no meio, desapercebidos, como mais uns que se vão recensear. Mas o quadro não de fica por aqui: vejam no canto inferior direito como as crianças brincam no gelo, ou como no canto oposto se mata o porco... ou ainda em cima como se trabalha arrastando lenha ou carregando-a às costas... são pormenores... No entanto, este evangelho diz-nos duas coisas muito importantes: a primeira é a de que não há acasos: o recenseamento foi o motivo que levou a José e Maria deslocarem-se a Belém e aí nascer Jesus, porque Belém é a cidade profetizada de onde iria surgir o Messias; a segunda é a de que os milagres nascem do quotidiano.
Maria e José chegaram a Belém. E nós? Por onde andamos perdidos?
(Bruegel, O recenseamento de Belém, 1566)

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

A caminho dos 800


O dia 22 de Dezembro de 2016 será um dia muito importante para os Dominicanos: os que forem vivos celebrarão, creio que com muita alegria, os 800 anos da aprovação da Ordem dos Pregadores, por Onório III em 1216. Este ano, a caminho destes oitocentos anos, celebramos o 794º aniversário. O que significa esta data? Significa, antes de mais, uma oficialização, querida por São Domingos, para levar o Evangelho da graça aos sítios onde ele ou não era conhecido ou estava deturpado. Pela salvação das almas, pelos pecadores, rezava e chorava muitas vezes São Domingos. Mas é também, como em qualquer instituição, dia de reflexão sobre o sentido da nossa existência. Uma Ordem que nunca teve uma reforma, nunca se dividiu, sempre em expansão, mesmo que poucos, uma Ordem que quis estar no meio da Igreja (in medio Ecclesia), como se diz de São Domingos. No meio da Igreja, não como protagonista, não como exaltação; no meio da Igreja como escolha, para a servir, no meio das preocupações dos que a formam, não se contentando com o que se vai fazendo mas preocupando-se com o que ainda é necessário chegar. Uma missão sem fim nem limites. Não existimos só para os católicos: o nosso horizonte é vasto, queremos dialogar: com quem pensa diferente, com quem acredita diferente ou até com quem não acredita. Queremos estar com os ricos para os ajudar a perceber que a única riqueza é Jesus e que nos temos de desfazer delas para podermos aceder à riqueza maior. Queremos estar com os pobres para que estes não se sintam abandonados. Queremos gritar por mais justiça, por mais paz, por mais solidariedade, por um mundo melhor.
Mas, como qualquer existência, às vezes o real é bem diferente do ideal. Temos que lembrar também - lembrar é fazer justiça - que nem sempre fomos e somos o melhor exemplo: temos a sombra da inquisição que há-de ficar sempre como uma cicatriz que não desaparece, temos a fraqueza das nossas vidas que nem sempre são testemunho do Reino e da graça de Deus.
Mas o real não nos faz desistir. Acreditamos que Deus transforma a nossa miséria, porque onde abunda o pecado pode abundar a misericórdia.
Os dominicanos de 2010 inscrevem-se na corrente dos seus VIP's. Não são importantes porque aparecem no ridículo das revistas cor-de-rosa. São importantes porque foram e querem ser discretos, quase anónimos, e aí trabalhar com a força de Deus e a intercessão de São Domingos.
Hoje é um dia de sentimentos vários para os dominicanos. Para mim junto ainda o da esperança. Que nunca desistamos do ideal de São Domingos e que saibamos resistir à sedução fácil da riqueza, da vida cómoda e do protagonismo.
A quantos hoje aqui passarem peço que rezem por nós, porque a oração une-nos nos sentimentos e nas inquietudes. Obrigado.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

São Domingos de Silos


Hoje a Igreja não celebrou São Domingos de Silos. Digo não celebrou porque nesta novena do Natal não se devem celebrar a memória dos santos... só por isso. E se eu falo hoje dele aqui é pela relação que existiu entre este São Domingos e o 'meu' São Domingos. Para não ser confuso entre o de Silos e o de Caleruega. Este ano estive de novo neste dois lugares. Estas duas terras distam de 19 km entre si. No entanto, Silos é muito conhecida pelo seu mosteiro beneditino e pela música gregoriana que há uns anos se gravou em cd.

Mas que relação há entre estes dois Santos? Directamente nenhuma. São Domingos de Silos morreu em 1073 e São Domingos de Gusmão, fundador dos Dominicanos, nasceu em 117o... Mas há um episódio da vida de São Domingos, ou melhor, da sua mãe, que faz não só a ligação entre estes dois homens como pode o segundo chamar-se Domingos por causa do primeiro.
Sem mais delongas conto a história: Joana de Aza, mãe de São Domingos, o dos Dominicanos, antes de engravidar, teve um sonho. Hoje dividimos os sonhos em duas classes: sonhos e pesadelos. Naquela altura as pessoas analizavam os sonhos, interpretavam-nos, procuravam-lhes sentido. E o sonho de Joana de Aza foi estranho: que levava no ventre um cão com um facho aceso na boca e que, ao sair das entranhas, parecia que incendiava todo o mundo. Ora, hoje em dia este sonho entrava na categoria de pesadelo. Mas Joana ficou a cismar neste sonho: o que quereria ele dizer? Qual o sentido? E pôs-se a caminho de Silos, para rezar diante do túmulo de Domingos de Silos, abade daquela abadia que tinha morrido com fama de Santo. E foi diante do túmulo de São Domingos de Silos que se lhe desvendou o sonho: é que o cão prefigurava o filho que ia ter. Ele iria ser um grande pregador que, com a sua pregação, levaria o fogo de Cristo a toda a gente.
Esta narração vem em todas as legendas de São Domingos e ainda hoje os noviços dominicanos (eu há dez anos atrás) vão também a Silos e aí recordam este passo da pré-vida de São Domingos. É por isso que muitas das imagens de São Domingos têm um cão com uma tocha acesa...

O terceiro anúncio



Ao sexto mês, o Anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galileia chamada Nazaré, a uma Virgem desposada com um homem chamado José, da descendência de David. O nome da Virgem era Maria. Tendo entrado onde ela estava, disse o Anjo: «Ave, cheia de graça, o Senhor está contigo». Ela ficou perturbada com estas palavras e pensava que saudação seria aquela. Disse-lhe o Anjo: «Não temas, Maria, porque encontraste graça diante de Deus. Conceberás e darás à luz um Filho, a quem porás o nome de Jesus. Ele será grande e chamar-Se-á Filho do Altíssimo. O Senhor Deus Lhe dará o trono de seu pai David; reinará eternamente sobre a casa de Jacob e o seu reinado não terá fim». Maria disse ao Anjo: «Como será isto, se eu não conheço homem?» O Anjo respondeu-lhe: «O Espírito Santo virá sobre ti e a força do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra. Por isso o Santo que vai nascer será chamado Filho de Deus. E a tua parenta Isabel concebeu também um filho na sua velhice e este é o sexto mês daquela a quem chamavam estéril; porque a Deus nada é impossível». Maria disse então: «Eis a escrava do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra».
Lc 1, 26-38
Depois das palavras do Anjo a José e da aparição a Zacarias, Gabriel aparece a Maria. Não sabemos a data, nem muitos pormenores. Lucas só nos diz que foi no sexto mês - talvez depois de Isabel conceber - e que foi em Nazaré, onde viviam José e Maria. Também não sabemos se Maria se achava diferente das outras mulheres, talvez não, porque se se achasse diferente não ficaria perturbada. Mas há neste relato evangélico um duplo anúncio: que Maria vai conceber um filho, por virtude do Espírito Santo, e esse Menino será grande, ou não fosse o próprio Filho de Deus. O segundo anúncio é como que a prova de que a Deus nada é impossível: a sua prima Isabel, a estéril, a idosa, também concebeu. Engraçada a intervenção de Deus na vida destas mulheres: ao contrário de Isabel, Maria é jovem - teria uns 14 anos - e é fértil.
Para nós, cristãos, a História faz sentido a partir do dia 1 da era cristã, o dia em que Jesus nasceu, dia em que a Humanidade recebeu entre ela o próprio Deus. Para Lucas a História começa antes. Começa com os preparativos, contas bem feitas, um ano e três meses antes, como se fosse uma aurora que assinala já o dia.
Maria disse sim. Apesar de esse não ser o seu projecto - se é que ela tinha algum projecto de vida diferente do das raparigas de Nazaré: ser boa esposa, boa mãe e boa dona-de-casa - apesar de ser tudo muito confuso, Maria diz sim. Mais, continua a ser a humilde rapariga de Nazaré, a Serva do Senhor, adoptando como seu projecto de vida o projecto de Deus.
(Giambattista Pittoni, A Anunciação, 1758)

domingo, 19 de dezembro de 2010

Nos dias de Herodes, rei da Judeia, vivia um sacerdote chamado Zacarias, da classe de Abias, cuja esposa era descendente de Aarão e se chamava Isabel. Eram ambos justos aos olhos de Deus e cumpriam irrepreensivelmente todos os mandamentos e leis do Senhor. Não tinham filhos, porque Isabel era estéril e os dois eram de idade avançada. Quando Zacarias exercia as funções sacerdotais diante de Deus, no turno da sua classe, coube-lhe em sorte, segundo o costume sacerdotal, entrar no Santuário do Senhor para oferecer o incenso. Toda a assembleia do povo, durante a oblação do incenso, estava cá fora em oração. Apareceu-lhe então o Anjo do Senhor, de pé, à direita do altar do incenso. Ao vê-lo, Zacarias ficou perturbado e encheu-se de temor. Mas o Anjo disse lhe: «Não temas, Zacarias, porque a tua súplica foi atendida. Isabel, tua esposa, dar-te-á um filho, ao qual porás o nome de João. Será para ti motivo de grande alegria e muitos hão-de alegrar-se com o seu nascimento, porque será grande aos olhos do Senhor. Não beberá vinho nem bebida alcoólica; será cheio do Espírito Santo desde o seio materno e reconduzirá muitos dos filhos de Israel ao Senhor, seu Deus. Irá à frente do Senhor, com o espírito e o poder de Elias, para fazer voltar os corações dos pais a seus filhos e os rebeldes à sabedoria dos justos, a fim de preparar um povo para o Senhor». Zacarias disse ao Anjo: «Como hei-de saber que é assim, se eu estou velho e a minha esposa de idade avançada?». O Anjo respondeu-lhe: «Eu sou Gabriel, que assisto na presença de Deus e fui enviado para te anunciar esta boa nova. Mas tu vais guardar silêncio, sem poder falar, até ao dia em que tudo isto aconteça, por não teres acreditado nas minhas palavras, que se cumprirão a seu tempo. Entretanto, o povo esperava por Zacarias e admirava-se por ele se demorar no Santuário. Quando ele saiu, não lhes podia falar e então compreenderam que tinha tido uma visão no Santuário. Ele fazia-lhes sinais e continuava mudo. Ao terminarem os seus dias de serviço, Zacarias voltou para casa. Algum tempo depois, Isabel, sua esposa, concebeu e permaneceu oculta durante cinco meses, dizendo: «Assim procedeu o Senhor para comigo nos dias em que Se dignou livrar-me desta desonra diante dos homens».
Lc 1, 5-22

De Mateus passamos a Lucas. Também o seu início e também uma anunciação. Curiosamente Lucas começa o seu Evangelho com a anunciação do Anjo, não a Maria mas a Zacarias. Zacarias e Isabel, um casal idoso que nunca puderam ter filhos. E essa tristeza nenhum de nós a pode sentir, mesmo os que ainda hoje não podem gerar. Nos tempos de Jesus era vergonhoso, sinal de pecado, socialmente criticado o casal que não pudesse ter filhos. Mas diz-nos Lucas que este casal era justo aos olhos de Deus e que cumpria irrepreensivelmente todos os mandamentos e leis do Senhor.
Mas este relato não quer relatar o final feliz deste casal. Este relato quer dizer-nos duas coisas, ambas relacionadas com João Baptista: a primeira é a intenção de Lucas: o nascimento de Jesus não é obra do acaso nem do imediato. A vinda de Jesus ao nosso mundo inscreve-se nas profecias e no grande profeta que foi João Baptista: ele é o que vem preparar, por palavras e gestos, o nosso coração para acolhermos o Dom de Deus. A segunda intenção é o facto de Deus interromper o percurso da história, alterá-lo, de uma forma quase miraculosa, para que aconteça como ele quer o que ele quer. E esta é a última alteração que Deus faz na História antes da alteração definitiva que é o próprio Jesus: Deus faz nascer João Baptista de um casal estéril e idoso, porque a Deus nada é impossível.
Um outro pormenor do Evangelho de Lucas é a constante aparição dos Anjos, os Mensageiros de Deus. Trazem sempre boas notícias (o nascimento de João, de Jesus, a sua ressurreição...) ou vêm confortar (o Anjo conforta Jesus no horto das oliveiras). E Gabriel, o Anjo das anunciações, vem ter com Zacarias para lhe dar esta notícia. Zacarias, porque duvida do poder de Deus vai ficar mudo. Não tanto por castigo. Veremos dentro de alguns dias que, quando a língua se lhe saltar, será para proclamar as maravilhas de Deus. E se nós experimentássemos, nestes dias, o silêncio, falarmos só o necessário, como caminho, como atitude de expectativa, para depois, também nós, podermos louvar a Deus pela vinda do seu Filho?
(Wiliam Blake, A anunciação do Anjo Gabriel a Zacarias, 1799)

sábado, 18 de dezembro de 2010

O nascimento de Jesus deu-se do seguinte modo: Maria, sua Mãe, noiva de José, antes de terem vivido em comum, encontrara-se grávida por virtude do Espírito Santo. Mas José, seu esposo, que era justo e não queria difamá-la, resolveu repudiá-la em segredo. Tinha ele assim pensado, quando lhe apareceu num sonho o Anjo do Senhor, que lhe disse: «José, filho de David, não temas receber Maria, tua esposa, pois o que nela se gerou é fruto do Espírito Santo. Ela dará à luz um Filho e tu pôr-Lhe-ás o nome de Jesus, porque Ele salvará o povo dos seus pecados». Tudo isto aconteceu para se cumprir o que o Senhor anunciara por meio do Profeta, que diz: «A Virgem conceberá e dará à luz um Filho, que será chamado ‘Emanuel’, que quer dizer ‘Deus connosco’». Quando despertou do sono, José fez como o Anjo do Senhor lhe ordenara e recebeu sua esposa.
Mt 1, 18-25

São Mateus e São Lucas têm versões diferentes sobre os acontecimentos do nascimento de Jesus. Por exemplo, as genealogias e as anunciações: em Lucas o Anjo faz a anunciação a Maria enquanto que, em Mateus, a anunciação é feita a José. Obviamente que Mateus faz uma certa ‘manipulação’ para poder anunciar a ascendência davídica de Jesus e também para justificar o nascimento de Jesus em Belém – era a terra do rei David. É bonito ver que, contrariamente a toda a tradição, o anjo aparecer a este homem, José, desposado com Maria. O que dá um grande equilíbrio e uma grande naturalidade aos acontecimentos.
Coisa estranha nos Evangelhos é que não se conhece uma frase de José. Em José não há palavras, há presença.
Mas este relato do Evangelho leva-nos à conclusão de que o papel de São José não foi menos importante do que o de Maria. Ele está à mesma altura de Nossa Senhora. O filho de Maria é também o filho de José (embora não seja o pai biológico – o menos importante). A aparição do Anjo a José fez com que também ele desse o seu sim e fizesse como o Anjo lhe ordenara. Tal como Maria, também José colaborou com Deus, tornou-se disponível para este plano de salvação de Deus. José e Maria aceitaram cumprir o plano de Deus. E os dois fazem da sua vida um serviço na humildade no silêncio e na contemplação.
Deste casal, podemos retirar duas atitudes para a nossa vida e para este Natal: o acolhimento e o silêncio.
Mais do que dizer, José fez. As suas acções estavam envolvidas no silêncio, num clima de contemplação…
Silêncio para escutar a Palavra. Como Maria. Diante do mistério apenas o silêncio.
São José mostra-nos a fecundidade não do falar mas do fazer; não do expressar-se, mas do estar no lugar certo com a sua presença e acção.
O acolhimento. Já perto do Natal, saibamos acolher o Senhor Jesus nas nossas vidas. Ele quer nascer, verdadeiramente, na nossa vida, quer ser, de facto, Deus connosco.
E que a nossa resposta a este encontro seja a mesma de Maria e de José, que é a de todos os que o seguem: cumpra-se em mim esta vinda, esta vida nova de Deus em dada um de nós.
(Georges de La Tour, O sonho de São José, 1640)

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

A segunda etapa


Começou hoje a segunda etapa do Advento: de 17 a 24 de Dezembro a começamos na contagem decrescente para a celebração do acontecimento histórico de há dois mil e dois anos (digo 2010 não por rigor histórico mas por conveniência prática).
Tudo muda nas celebrações das Missas e dos ofícios: antífonas próprias - a partir de hoje cantam-se as "Antífonas do Ó", e até os Evangelhos narram de uma forma mais 'histórica' os dias antes do nascimento de Jesus. Hoje escutou-se a genealogia de Jesus, na versão de São Mateus. É logo o princípio do Evangelho, Mateus terá achado importante fazer uma genealogia de Jesus para o ligar a pessoas importantes como David, Jessé e Abraão. Era importante para Mateus afirmar a ascendência davídica de Jesus e explicar o seu nascimento em Belém - afinal David foi o grande Rei de Israel, nascido também ele em Belém - e era importante inscrever Jesus na linhagem de Abraão, nosso pai na fé e colocado na génese do judaísmo. Afinal tudo tem o seu porquê. E ouvimos dezassete versículos deste primeiro capítulo, nomes estranhos, que pouco ou nada nos dizem e depois terminamos a dizer: Palavra da Salvação. Terá sentido? Para muitos não. Devem desligar ao fim de três nomes ou quando sai algum mais conhecido dizer: ah! esse conheço.Mas tem o seu sentido. Porque é importante dizer que Jesus foi homem como nós. Que os seus antecedentes não foram os melhores (aparecem três nomes de mulheres, Tamar e Raab ambas prostitutas e Rute, uma estrangeira), e os reis, como todos os reis, nem sempre brilharam como estrelas no firmamento... Mas é esta humanidade que nos encharca a todos e que também molhou Jesus por parte do pai (afinal esta genealogia chega a José, "esposo de Maria, da qual nasceu Jesus").
Mas Mateus faz esta lista genealógica para dizer uma outra coisa: é que Jesus é o Cristo, o escolhido de Deus, o seu Ungido. Como dizemos, verdadeiro Deus e verdadeiro Homem. É assim que ele começa o seu Evangelho. E é este Deus-Menino que celebraremos daqui a uns dias: não só um menino, porque seria só um de nós; mas também não só um Deus, porque nos seria estranho. Uma perfeita simbiose: um Menino-Deus.
Para os que quiserem perceber um pouco mais sobre o enredo da genealogia de São Mateus, convido a visitarem no outro blogue (http://aliistradere.blogspot.com/), o o texto que lá deixei "Jesus, homem da nossa raça", escrito por um Dominicano, Herbert McCabe, e traduzida por um outro frade Dominicano português, fr. Matias.
Em relação à imagem deste post, é a da conhecida Árvore de Jessé (que foi o pai do rei David) em que no centro se vê florir o Menino no seio de sua Mãe.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Dos homens e dos deuses


O poema de José Régio "cântico negro" termina assim: "Não sei por onde vou / sei que não vou por aí". Foi a minha conclusão depois de ver, ontem, o filme "dos deuses e dos homens". Concluí assim porque há situações, na nossa vida, naquela comunidade, que são difíceis, que não se vêm claras. No entanto, também temos a claridade para ver que, apesar de não vermos caminhos, há caminhos que não queremos percorrer. Em tempos de perseguição, no meio de uma guerra civil, coloca-se a pergunta difícil, ficar ou sair. Tudo pesa na decisão: fugir para quê, se Deus nos quer aqui, para quê ficar, se Deus não quer que procuremos o martírio... pontos de vista diferentes, medos, certezas, indecisões... e o filme, cheio de ternura e compaixão, mostra-nos uma comunidade que ali está, no meio de muçulmanos, a quem faz o bem seja a curar seja a escrever por quem não sabe. Um trabalho discreto mas próximo. E com o seu ritmo bem marcado pelo sino que vai dizendo que os monges vão rezando por quem mais precisa. Esta comunidade optou pelo caminho da não-violência; optou por ficar onde achavam que era o lugar deles e o lugar de Deus para eles. Houve caminhos pelos quais se recusaram trilhar, os mais fáceis.
A loucura do martírio será sempre como a loucura da cruz de São Paulo: poucos a hão-de entender. Mas fortalece-me, como cristão, ver que não há que temer pela nossa vida quando a entregámos ao Senhor (é uma das frases do Prior a um monge que estava indeciso entre ficar ou sair). Não se morre por teimosia. Morre-se por consequência da vida e das opções que fazemos e levamos. Foi assim com Jesus, assim deve ser com os seus seguidores.
Soube durante o dia de hoje que no ano 2000 foi restabelecida naquele mosteiro a comunidade (http://www.notredameatlas.com/). Soube também que o Prior do Mosteiro D. Christian, escrevia e que, com base nos seus escritos, se construiu uma "Biografia espiritual". Em francês...
Ontem, no filme, ouviram-se passagens do seu testamento. Encontrei-o na net em francês. Deixo-o aqui, (mal) traduzido em português, dando o conselho para quem ainda não viu o filme que não perca a oportunidade. Vale mesmo a pena.

Quando se tem de enfrentar um A-DEUS...

Se acontecer um dia - e poderia ser hoje -
em que eu me torne uma vítima do terrorismo que agora parece pronto a envolver
todos os estrangeiros que vivem na Argélia,
gostaria que a minha comunidade, a minha Igreja e a minha família
se lembrassem que minha vida foi DADA a Deus e a este país.
Que eles aceitem que o Único Mestre de toda vida
não foi indiferente a esta partida brutal.
Que eles rezem por mim:
como poderia ser eu digno de tal oferenda?
Que consigam associar esta morte às muitas outras mortes
também violentas,
votadas à indiferença e ao anonimato.
A minha vida não tem mais valor do que qualquer outra.
E também não tem menos.
Em qualquer caso, ela não tem a inocência da infância.
Vivi o suficiente para saber que sou também um cúmplice do mal
que parece, infelizmente, prevalecer no mundo,
mesmo naquele mal que me mataria cegamente.
Gostaria que, quando chegar o momento, ter o momento de lucidez
que me permitisse pedir o perdão de Deus
e de todos os seres humanos meus amigos,
e ao mesmo tempo perdoar de todo o coração aquele que me atacar.
Não desejo tal morte.
Parece-me importante declarar isto.
Não vejo, de facto, como me poderia alegrar
se este povo que amo fosse acusado indiscriminadamente da minha morte.
Responsabilizar um argelino, quem quer que seja,
seria um preço muito alto para pagar
para aquilo que talvez seja chamado "a graça do martírio",
sobretudo se ele diz agir em fidelidade com o que acredita ser o Islão.
Estou consciente do desprezo que será dado a todos os argelinos indiscriminadamente.
Conheço também as caricaturas do Islão encorajado por um um certo islamismo.
É muito fácil salvar a própria consciência identificando-se nesta via religiosa
com os integrismos dos seus extremismos.
Para mim, a Argélia e o Islão são outra coisa: são um corpo e uma alma.
Disse-o frequentemente, creio eu,
sabendo que recebi aqui mesmo o verdadeiro caminho do Evangelho,
aprendido aos pés da minha mãe, a minha primeira Igreja de facto,
precisamente na Argélia, e já baseado no respeito dos crentes muçulmanos.
A minha morte, evidentemente, parecerá dar razão
aos que me julgam apressadamente ingénuo ou idealista:
"Que diga agora o que pensa!"
Mas estas pessoas precisam compreender
que a minha mais ávida curiosidade será então libertada.
Eis o que serei capaz de fazer, se Deus quiser,
mergulhar o meu olhar no do Pai,
para contemplar com ele os seus filhos do Islão tal como Ele os vê,
todos iluminados da glória do Cristo,
frutos da sua Paixão, cheios do Dom do Espírito,
cuja alegria secreta será sempre de estabelecer a comunhão
e de restabelecer a semelhança, brincando com as nossas diferenças.
Desta vida perdida, totalmente minha e totalmente deles,
dou graças a Deus que parece tê-la querido inteira
para esta ALEGRIA em tudo e a apesar de tudo.
Neste OBRIGADO onde tudo fica dito,apesar da minha vida,
incluo-vos, amigos de ontem e de hoje,
e a vós, ó meus amigos deste lugar,
ao lado da minha mãe e do meu pai, das minhas irmãs e dos meus irmãos e suas famílias,
foi-me dado cem vezes mais como estava prometido!
E a ti também, amigo do meu último minuto,
que não terás consciência do que fizeste.
Sim, também por ti quero AGRADECER e este "A-DEUS" é para ti.
E que nos possamos encontrar, ladrões felizes, no Paraíso,
se Deus quiser, o Pai de ambos...

Ámen!
In sha'Allah!
Algiers, 1 de dezembro de 1993
Tibhirine, 1 de janeiro de 1994
+ Christian

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Natal moderno


De repente, toda a gente começa a receber um mail com um vídeo de como poderia ter sido o nascimento de Jesus nos dias de hoje. Eu, nos últimos dias, mais de um por dia. De tal modo que aqui deixo o vídeo que, apesar de tudo, como se lê no fim "os tempos mudam mas o sentimento continua o mesmo". Já agora, aqui fica também o presépio que ontem, no final da Missa, os alunos do 2º ciclo do Externato Marista de Lisboa ofereceram ao convento, com o compromisso de o aumentar no próximo ano. E, com estas coisas e outras que vamos vivendo, vamo-nos acercando daquela pequena gruta, que se tornou o lugar mais importante de Belém.