sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Vidas paralelas I

Neste mosteiro há uma linha (parede, grade) que divide dois tipos de vida: os que vivemos para cá da linha e as que vivem para lá da linha.
À outra banda chama-se clausura; a esta banda, hospedaria.
A clausura está fechada e vedada a quem não faz parte do grupo, e só se quebra por razões de verdadeira necessidade: alguma avaria que justifique a entrada de alguém, a visita a uma irmã doente por parte do médico ou do padre. Tirando isso, mais ninguém passa, nem mesmo familiares ou amigos. Para isso há a hospedaria, os locutórios (sala separada por uma grade para conversação com as irmãs), ou a roda (sistema de passagem das coisas da rua para o mosteiro).
Ao princípio acha-se estranho. Haver sempre alguma coisa que separe, mas depois habituamo-nos à ideia. A própria natureza do mosteiro quase nos obriga a viver do mesmo modo que as monjas excepto numa coisa: do nosso lado está a porta da rua, que se pode usar livremente. É o que tenho feito. Afinal, nem sou, nem estou na clausura.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Primeiras chuvas

Chegaram as primeiras chuvas a Lamego. Como se de pássaros migrantes se tratasse, vieram suaves, sem ninguém dar conta. Ontem as nuvens, hoje as águas. É um tempo nostálgico. O cheiro a terra molhada, tão próprio e inconfundível, misturado com o que sai dos pinheiros, também aspergidos pela chuva, passarinhos que cantam as suas melodias tristes ou alegres, só eles saberão.
Da janela do quarto, onde passo grande parte do dia, vejo as três cruzes que servem ao mesmo tempo de torre sineira ao mosteiro. Olhando para baixo as torres do santuário dos Remédios que, cada quarto de hora nos dizem que o tempo vai passando e, em frente, as montanhas de Trás-os-Montes, hoje encobertas pela neblina. A cidade não se vê. Está lá em baixo, escondida, com o seu barulho e agitação. Aqui já não vai haver barulho o resto do dia. Só há de manhã, para a Missa. Os carros que sobem ao mosteiro, as pessoas que se cumprimentam e o padeiro que vem trazer o pão.
Também eu me junto a esta nostalgia. Estes dias são bons para mim. Leio (ontem consegui ler um livro todo!), rezo, prego o retiro, caminho… tudo em silêncio. Bendito seja Deus.
(fotografia do mosteiro de Lamego, vista de baixo. O quarto onde vivo é o da janela aberta)

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Pregação em Lamego

Estou em Lamego. Vim pregar o retiro anual às Monjas Dominicanas. O trabalho de dois meses esgota-se agora em oito dias. É sempre bom voltar a Lamego, mesmo que em trabalho. É como voltar ao centro de tudo. E lembrar Feirão. Mesmo não indo lá, ao olhar da auto-estrada o monte que encima a aldeia ou ver em Lamego o rio Balsemão que serpenteia por montes e vales desde as terras do Rossão, é uma ligação, quase que diria, umbilical.
Lamego ainda tem réstias de sol quente. Fins de tarde outonais em que as cores das folhas da videira são gémeas dos raios do entardecer. É nesta paisagem, dura mas doce, que vou passar os próximos dias. Rezando, trabalhando e pregando.

domingo, 25 de setembro de 2011

Contingências

São quase duas da manhã e eu ainda acordado. O meu computador avariou. Escrevo de um alternativo, enquanto o avariado formata tudo outra vez para ver se consegue voltar à normalidade. Eu, que não percebo nada de informática, nestas coisas coisas sou como um peregrino errante, para não dizer Xico Esperto, que me ponho a carregar em teclas a ver se dou com a solução. Desta vez carreguei numas que me mandaram criar discos de segurança onde está todo o material, assim o espero. Agora diz que está a recuperar e que depois vai instalar. Que venha em meu auxílio Santo Isidoro de Sevilha, padroeiro das informáticas!

Mas já me valeu. Ontem, quando acabei de escrever o retiro que vou pregar na próxima semana - 80 páginas! -, decidi fazer uma cópia para uma pen para hoje ir imprimir, se tivesse tempo. Como não há acasos, dou agora graças a Deus por esta ideia, senão, muito provavelmente, não havia retiro para ninguém.

Hoje foi um dia duro. Deitei-me de madrugada porque queria mesmo arrematar o retiro, acordei cedo para ir celebrar missa (não dormi as oito horas recomendáveis nem as sete indispensáveis), batizar o Dinis ao final da manhã e ir a Fátima para o início da Peregrinação Nacional do Rosário. Sempre com esta preocupação do computador avariado.
Entretanto, deste computador alternativo já escrevi a homilia de amanhã. Escrevi e imprimi, não fosse o caso de amanhã ficar "entalado".
Isto de acharmos que dominamos tudo e que temos tudo controlado não é bem assim. O que é certo é que estas maquinetas, quando lhes dão para asnear (apesar da máquina ter sempre razão) deixam-nos enervados (pelo menos a mim). Até o sono se me foi e, mais uma vez, uma noite pequena.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Em jeito de diário

Domingo, 18 de Julho de 2011



8.30h - Laudes: Salmos do Domingo primeiro. De tanto rezar estes salmos já quase os sei de cor. Mas o das criaturas ainda me escapa. Só se aprende o refrão: bendizei o Senhor. Orações pelo fr. José Manuel que hoje toma posse. Que Deus lhe dê força e o Espírito Santo o ilumine.

12h - Missa Conventual: A igreja recompõe-se de novo. Começa a transbordar. É bom ver gente atenta ao que se diz e estar à saída a cumprimentar.

16h - Missa em São Domingos de Benfica: Muito escreveria em plano privado. Escrevo só o que não compromete. Acaba, finalmente, um tempo de tensão. Bastantes padres, uns com mais privilégios que outros. Que adianta pregar sobre os últimos serão os primeiros quando os primeiros ficam chateados por serem os últimos? O P. José Manuel Pereira de Almeida é um bom padre. Falou pouco e bem. Foi afável no trato. Pensava que daria um bom bispo mas, se calhar, é melhor que continue só padre. O novo pároco tem presença. Que Deus o conserve. Não pude ficar para os discursos finais.

17.45h - Missa no Campo Grande: Tive de sair antes do final da Missa de São Domingos. Retomamos as Missas do Campo Grande. Tinha saudades. Como é tradicional, antes da missa, o abraço do pároco, de agradecimento pela colaboração. Missa com dois batizados. Duas meninas. Também Missa de 7º dia do Simão Pedro. Quanto tempo será preciso para fazer o luto?

20.30h - Jantar com a comunidade: Depois da Missa, boleia para o Convento para preparar o jantar. Hoje mais tarde que o habitual para ter tempo de preparar tudo. No fim do dia, já na calma da Comunidade, um jantar de festa. Não quer dizer luxuoso... melhorado. Todos contentes e descontraídos.

Depois do jantar, já no sossego, apanhar ar no pátio. Estivemos três: dois frades e um hóspede. Conversa muito interessante. Gente de fora e mais nova no Convento só nos faz bem.

Terminei de ver uma série sobre a vida da Duquesa de Alba. Quem te viu e quem te vê. Uma mulher forte, que várias vezes teve de se impôr para que não a ultrapassassem. Tudo o que criticou no pai repetiu nos filhos, pelo menos na série. Una valiente!

(imagem: iluminura do séc. XV sobre o mês de setembro)

sábado, 17 de setembro de 2011

Os amigos

O Evangelho manda-nos rezar pelos inimigos. Mas não nos proíbe de rezar pelos amigos. E, se calhar, ainda é o melhor que podemos fazer por eles. Pelo menos para os que acreditamos que a oração é um vínculo forte de união. Porque podem-se escrever poemas e livros, procurar citações, aglomerá-los e exibi-los no Facebook (serão todos os amigos do Facebook verdadeiros amigos?)... nunca deixarão de ser só modos de dizer a amizade.
Não sei o que é um amigo. Explico-me. Não sei dizer o que é um amigo. Leio coisas e sim, acho que é isso, encontro pessoas e faço o crivo: é meu amigo, conhecido ou irmão? Para mim é tão difícil ter amigos como falar da amizade. Mas existem. Muitos ou poucos, eles existem. Às vezes não os tratamos como eles quereriam ou mereceriam. Às vezes há turbulências, afastamentos, mas eles continuam por ali, mesmo que aparentemente distantes e calados. São os que aguentam os nossos risos e as nossas lágrimas, os que gastam tempo em ouvir-nos ou em aturar os nossos maus feitios, os que nos dizem força ou calma...

Ontem terminei a leitura do livro de Tolentino Mendonça, Um Deus que dança. Uma colecção de orações, que talvez devessem ser lidas homeopaticamente, e não como eu, de uma vez só. A penúltima oração é pelos amigos: "os amigos que me deste". Tolentino Mendonça, para mim, tem o grande dom de dizer na nossa linguagem o que é difícil de dizer. Aqui deixo a oração pelos amigos. Pelos meus e pelos de quem serei talvez sem saber: "Obrigado, Senhor, pelos amigos que nos deste. Os amigos que nos fazem sentir amados sem porquê. Que têm o jeito especial de nos fazer sorrir. Que sabem tudo de nós, perguntando pouco. Que conhecem o segredo das pequenas coisas que nos deixam felizes. Obrigado, Senhor, por essas e esses, sem os quais, caminhar pela vida não seria o mesmo. Que nos aguentam quando o mundo parece um sítio incerto. Que nos incitam à coragem só com a sua presença. Que nos surpreendem, de propósito, porque acham mal tanta rotina. Que nos dão a ver um outro lado das coisas, um lado fantástico, diga-se.
Obrigado pelos amigos incondicionais. Que discordam de nós permanecendo connosco. Que esperam o tempo que for preciso. Que perdoam antes das desculpas. Essas e esses são os irmãos que escolhemos. Os que colocas a nosso lado para nos devolverem a luz aérea da alegria. Os que trazem, até nós, o imprevisível do teu coração, Senhor"
.

(imagem: ícone egípcio, do séc. VI. Cristo com São Menas, mais conhecido como ícone da amizade. Não serão os amigos sacramento de Cristo?)

domingo, 11 de setembro de 2011

Um funeral

Venho do funeral do Simão Pedro. Continuo a dizer que as palavras são poucas ou estão a mais. Emocionado, celebrei a Missa e fiz o acompanhamento para o cemiério.
Aqui deixo a homilia que escrevi e a quem dedico, bem como a todos os que conviveram com o Simão e hoje marcaram a sua presença. (Para ouvir os trechos musicais de que se fala na homilia clique nas palavras sublinhadas. Se pedir para abrir num novo separador não perde esta página).
Ontem de manhã, depois de ter estado com o Simão, pus-me a ouvir a paixão de São Mateus, musicada por Bach. Foi de propósito que a escolhi pelo seu início, ao mesmo tempo doloroso e calmo. E a paixão começa com uma entrada do coro que diz: "Vinde, ajudai-me a chorar... Olhai! Quem? O Esposo. Olhai-o! Como? Como um cordeiro. Olhai! O quê? O amor paciente".
Pus-me a escrever - estou a preparar um retiro - e de um livro tirei esta citação: “a fé dá-nos respostas quando a razão falha”.
Foi neste entretanto que soube da morte do Simão.
Meus queridos amigos, meus e do Simão, esta nossa celebração só pode ser compreendida à luz da fé porque a razão não aceita nem explica o porquê da morte de uma criança. E eu também não a consigo explicar. Qualquer explicação que tentemos dar não vai conseguir parar as nossas lágrimas e a nossa tristeza.
Posso dizer, isso sim, que muitas vezes, diante do sofrimento e da morte, nós, adultos, comportamo-nos como crianças: o medo, o desespero, o desistir de viver. Mas o Simão viveu este ano de luta como um adulto: nunca pensou na derrota da morte, manteve sempre a esperança, viveu até ao fim.
Sabemos pelos Evangelhos que Jesus gostava de conviver com as crianças, divertia-se com elas. Aliás, num dos relatos, chega até a apresentá-las como modelos para o cristão. No evangelho desta missa escutámos a proclamação das bem-aventuranças: Jesus, catequista, que nos ensina o caminho da felicidade.
Escolhi esta passagem para ser proclamada nesta nossa celebração porque há uma coisa única nas crianças e que vamos perdendo com a idade: a inocência. A inocência que cria em nós a esperança, a ilusão de que nada é para sempre. As crianças aprendem na catequese a desenvolver o espírito das bem-aventuranças que está como semente no seu coração para germinar e dar fruto.
Podemos hoje dizer que o Simão é um bem-aventurado mesmo que a semente ainda só tivesse começado a germinar. Bem-aventurado porque fez da doença um desafio, bem-aventurado porque a pureza do coração lhe deu sempre a esperança da cura, bem-aventurado porque a pobreza da sua fragilidade e da sua aparência não lhe fez perder a coragem de viver.
Meus queridos amigos, diante de uma grande tragédia, da morte de um inocente, costumamos perguntar: porquê? Eu próprio já me fiz várias vezes essa pergunta. Nunca tive resposta. Mas se olharmos para a Cruz encontramos duas possibilidades de resposta: a primeira é a do silencio. Cristo, na Cruz, um inocente que sofreu, responde-nos não com palavras mas com amor. A segunda resposta é a de procurarmos Deus no meio disto tudo. Onde está Deus? Esteve com o Simão, esteve nos pais e avós e outros familiares e amigos que lhe deram todo o carinho. Mesmo sem terem dado conta foram o rosto amoroso de Deus para o Simão. Mas agora está junto de nós, continua connosco, para nos enxugar as lágrimas, para nos dizer que a morte não é o fim mas uma passagem necessária para vermos a Deus.
Esta manhã voltei a ouvir a Paixão de São Mateus. Depois da oração de Jesus no jardim das Oliveiras há um outro
coral que diz assim: “A vontade de Deus é a melhor. Ele está disposto a ajudar os que nele têm fé. Quem confia nele não será abandonado”.
Hoje não há palavras que nos consolem. Nem palavras nem pessoas. Só mesmo Deus, com o seu silêncio, nos poderá trazer alguma consolação e alguma paz. Duas coisas temos certas: de que aqueles que Deus ama estão vivos e que hoje, no céu, há muita alegria, porque chegou lá um menino valente, de olhos muito vivos e com um grande sorriso. Derrotado? Não. Vencedor.

sábado, 10 de setembro de 2011

Morreu-me um amigo

Acabo de receber a notícia da morte daquele meu amigo, de 10 anos. Ainda há duas horas estive com ele, administrando-lhe a santa unção.
As palavras são poucas quando vemos que a morte toca crianças inocentes.
O avô dizia-me que isto só é compreensível aos olhos da fé. E é verdade.
Apesar de tudo, perdemos guerras mas vencemos as batalhas.
Que Deus acolha este menino de olhos vivos e que encha o céu de alegria.


(Há dois dias o Simão pediu um avião para brincar...)

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Terra Santa?

De repente, nestas férias todos resolveram ir à Terra Santa. Terra Santa que é como quem diz. Olhamos para Israel, para a Palestina, e onde está a Terra Santa? O muro da vergonha (o da Cisjordânia) é sinal de quê? Mas, adiante.
Foram amigos meus, foi um confrade e, nos últimos dias, o tema batido e rebatido, contado e recontado, é o da Terra Santa.
E perguntam-me se não gostaria de lá ir. Respondo que não. Não, a mim não me verão por lá proximamente. A eles não lhes importará muito; mais turista menos turista, a única coisa que perdem será alguns novos Shekels ou dólares, que devem preferir.
Por vários motivos. Primeiro porque tenho um princípio claro na minha vida: o estado social de alguns países e até de algumas regiões, impede-me de lá ir. Não consigo compreender na Terra Santa (a partir de agora TS, para abreviar), armas apontadas para crianças, impedimento de circulação para os que são de lá mas aos turistas já não, mesmo que façam alguma pressão.
Depois, porque não compreendo como é que cristãos vão ver as igrejas e as vias dolorosas, e não têm qualquer contacto com as comunidades cristãs de lá. Deveriam os turistas ouvir os sofrimentos dos cristãos em Israel e na Palestina, de como os judeus não deixam os palestinos cristãos ir passar o Natal com os seus familiares, porque não os deixam passar o muro... (esta ideia não é genuína minha, saiu de uma conversa no recreio da comunidade).
Em terceiro lugar, e vou por ordem de importância, ainda não percebi o que é que se lá vai fazer. Abro exceção à beleza dos monumentos, arte é arte. Mas a expressão mais repetida deve ser a do "foi aqui que". Também com as suas variantes: para os mais devotos "foi mesmo aqui" e para os mais razoáveis (razoável de razão) "diz a tradição que foi aqui". E beija-se o lugar, derramam-se algumas lágrimas da emoção, tiram-se fotografias ou compram-se postais e armazena-se na memória. Partilho também a ideia de um confrade que diz meio a brincar meio a sério: colocava lá uma placa com a passagem do Evangelho "Não está aqui".
Finalmente, o crivo que se faz para não se ver coisas que se deveriam ver. Pelo que me dizem, dos que lá estão e lá foram, muitas vezes eles desviam certos lugares (o túmulo de Lázaro em Betânia), porque "não há lá nada que ver".
E pronto. Isto é o que penso. Admito que seja uma visão curta, que sou um tonto em não querer ir, etc., etc., mas é o que penso e até mudar de ideias continuam estas.

(Esta imagem tirei-a da net. A legenda diz o seguinte: polícia israelense armado "cuida" de três meninos palestinos, detidos por atirar pedras contra as tropas do país em protesto, na cidade de Hebron, na Cisjordânia).

sábado, 3 de setembro de 2011

Fim de tarde agridoce

Agridoce ou doceagri. O meu final de tarde começou por ser de alegria: batizei o Francisco, um menino com menos de um ano, conhecido de uma família que conheci quando me cruzei com um doente paliativo do Hospital da Luz. A esse doente acompanhei-no no final da sua vida, um final que nunca esquecerei. Fiz-lhe o funeral, casei o filho do meio, batizei no ano passado um neto e hoje outro. Em abril vou casar o filho mais novo. É gente de fé. O pai, que morreu no ano passado confidenciava-me certo dia: não peço a Deus um milagre para mim; peço que, no dia da minha morte livre uma criança de cancro.

Nunca se saberá se Deus o ouviu. Talvez sim. Mas, depois do batizado, fui ao IPO visitar uma criança de 10 anos, que sofre exactamente de um cancro malvado. Anda nesta luta há um ano e a coisa está difícil. A visita foi curta. Perguntei-lhe como se sentia, se tinha dores... Ás vezes sobram-nos palavras mas depois chegamos à conclusão que nos faltam palavras.

Gostava de ter dito a este rapaz que tivesse coragem apesar das dores, das brincadeiras perdidas, do corpo macerado, da falta de cabelo ou do inchaço do corpo. Gostava de lhe ter dito que, apesar da escuridão brilha sempre uma luz, ainda que fraca e pequenina. Gostava de lhe ter dito que Deus existe e que não é culpado de nada. Que Deus é como um amigo: não tem culpa mas está presente.

Gostava de lhe ter dito que não sofre sozinho. Que, apesar de não mostrarmos tristeza ou de não chorarmos ao pé dele, que apesar de não sofrermos o peso da doença como ele sofre, que estamos com ele. E que aquela pequena cruz que lhe está tão pesada é carregada por todos, até por Jesus.
Mas não lhe disse nada disto. Só falámos das dores, da cicatriz e da cabeça rapada... O trivial.

Todos sabemos que a nossa vida, mesmo que seja um ramo de rosas, tem sempre aqueles espinhos que picam mas que tornam as rosas bonitas. Todos sabemos que as nossas vidas são misturadas de mel e de fel, que todos passamos por momentos agridoces.

Umas vezes sobram-nos palavras, outras vezes faltam-nos palavras; mas, o silêncio, esse nunca está a mais.

Nesta noite rezo pelo menino que foi batizado e pelo outro que está num quarto do hospital, vendo passar os dias sem grandes melhoras, mas que continua com a pequena chama da esperança acesa. Que os dois se sintam muito amados por Deus.