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A mostrar mensagens de Dezembro, 2011

Ultimas horas de um ano velho

Aqui deixo, nesta última página deste ano de 2011, uma reflexão tirada do Diário de Miguel Torga (XV): Coimbra, 31 de Dezembro de 1988 — É quase meia-noite e começa a erguer-se por toda a cidade uma onda de alegria ruidosa. O ano velho está a dar os últimos suspiros. Foi bissexto, e não deixa saudades. Guerras, terrorismos, fome, desastres, terramotos. E é o advento do novo que celebramos festivamente. Sempre assim aconteceu nesta data. Amaldiçoa-se o passado e bendiz-se o futuro. Que mais pode fazer a impotência humana? Tentamos forçar a benevolência dos fados com a força redentora da esperança. Os fados é que se devem rir da candura. E da falta de memória. O mal não está no tempo. Está na nossa condição.

A lançadeira do tear - obituário

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Nestes três últimos dias chega-me a notícia da morte de três pessoas minhas conhecidas. Ao mesmo tempo que oiço o sermão de quarta-feira de cinzas, do P. António Vieira, dito pelo Luís Miguel Cintra, em que constantemente nos é lembrado que somos pó e que pó havemos de ser. Estas três pessoas não me estão ligadas pela intimidade - não eram meus amigos, apesar de hoje em dia já se considerar amigo a alguém que se associa à conta do facebook - mas porque, de algum modo, se cruzaram na minha vida. A primeira notícia chegou-me na quarta-feira, ao final da tarde. Um frade espanhol, fr. Paco Hermosilla, de cinquenta anos, de insuficiência respiratória, após um segundo transplante de fígado. Conheci-o em Sevilha, quando lá estive a fazer o noviciado. Confesso que não foi uma relação amigável. Feitios diferentes fez com que, durante esse ano, e não só comigo, houvessem alguns choques. Voltei a encontrá-lo no ano passado, quando veio a este convento para uma reunião. Nesse dia do mês de Abril…

A noite de Natal

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Sou uma noite como todas as outras. Mas ao mesmo tempo sei que sou diferente de todas as outras. Não valho por mim; sou conhecida pela noite em que nasceu um Salvador, um Messias, o Filho de Deus. E gosto de ver o que acontece no mundo quando vivem a minha noite: uns estão reunidos em família, outros andam tristes porque a vida não lhes corre bem, outros ainda gostariam que esta noite passasse rápido ou que não existisse. Mas eu cá estou. Sempre fria, não tenho a culpa, mas sempre quente, porque é este Menino quem a aquece. Sempre escura, afinal sou a noite, mas radiosa como nunca, porque nasceu uma luz fortíssima que me ilumina. À medida que vou vivendo, várias coisas acontecem: por uma janela vejo uma família que reza e, noutra, outra família que discute; uns que estão à mesa e outros na televisão, uns que riem e outros que choram. Numa torre da igreja os sinos tocam, noutras ouço canções de embalar... Mas eu sou a mesma e nada muda por minha causa. E o meu tempo vai terminando. Da…

Quase Natal

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Estamos quase no Natal. De há uns anos a esta parte que não tenho grande alegria no Natal. As prendas são uma obrigação, o social e o familiarmente correto; está bem que há sempre a afetividade, mas mal vai se o nosso carinho pelos outros fica num cartão de dinheiro em compras numa loja, ou num frasco de doce ou de perfume. Até os afetos já precisam de se materializar.
A minha tristeza não é uma tristeza de falta de sentido, mas talvez porque tudo me parece vazio. Tudo se faz porque sempre se fez, rotinas anuais, tudo sempre igual... culpa minha, talvez, porque haverá gente com muita alegria espiritual a celebrar o Natal.
Pois a mim, muito sinceramente, já tudo me aborrece, desde as luzinhas a piscar às correrias eclesiásticas destes dias, de missas de natal antecipadas. É no que estamos.
Não sei que volta tenho de dar, ou até se há volta a dar. A única coisa que ainda me vai dobrando o coração é o presépio. Não os elaborados, não os de muitas peças, mas o que brota das mãos de quem os …

Ao ritmo dos dias

8h - Oração de Laudes. A partir de hoje no oratório do convento, devido ao frio da igreja. Tenho pena de não ter resolvido o 'problema' do aquecimento da igreja. Torna-se incómoda o fria. Mas já não vou a tempo. 8.30h - Atendimento de pessoas que pedem para falar comigo. Em Roma, numa conversa com um frade mais novo que eu, dizia-lhe que umas das dimensões da vida de padre que nunca pensei que iria exercer, nem nunca fomos preparados nem nas Ordens Religiosas nem nos Seminários, é esta do atendimento das pessoas. Muitas vezes é ouvir; noutras é aconselhar, tentar encaminhar, ajudar...Faz-se o que se pode mas com muita ajuda de Deus, claro está. 10.30h - Celebração nos Maristas com crianças do pré-escolar. A alegria dos miúdos comove-me. A uns conheço-os, outros conhecem-me de virem cá à Missa, e outros da Missa de Natal da terça-feira passada. Uma menina, ao ver-me de túnica, exclamou: Outra vez Natal?
As celebrações com estas crianças são muito básicas para adultos mas muito…

Advir - Um poema de Advento

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o advento chega com o cair da folha
e clama:
levantai a cabeça, vigiai!

o advento chega com o abatimento,
a decepção
a desistência
e reclama:
erguei-vos do chão, a alegria é o bordão
que reverdece o vosso andar

o advento chega como o sono
que reclama
a vitória sobre o medo da noite
a entreaberta janela
por que surde o dia

o advento chega pela noite dentro
a erguer do chão
os dias obscuros que até
os ulmeiros escurecem

o advento chega
para reacender a fogueira morta
dos nossos desejos

com o Messias chega
para a terraplanagem chama
e os recomeços

(fr. José Augusto Mourão - inédito; imagem: Francesco del Cossa, São João Batista)

De regresso

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A gastar as últimas horas em Roma. Os trabalhos correram bem, os que chegámos a comissão gostámos de nos conhecer e os três temos um mesmo objetivo: que a liturgia seja um sinal de unidade na Igreja.
Ontem foi um dia muito importante para os três. Fomos ver o mais precioso livro da Ordem Dominicana, o Prototipus Humberto Romanus, que é um livro de catorze livros, o primeiro que em que se reúne toda a matéria litúrgica da Ordem. É um manuscrito do século XIII, bem guardado e não acessível. Foi emocionante porque quem se interessa pela liturgia dominicana tem este livro como referência e foi, no século XIII o primeiro grande gesto de unidade da Ordem, através da liturgia.
Porque este livro não se mostra muitas vezes, convidámos outros estudantes de liturgia, que estão a estudar aqui em Roma. Como ningúem quis tocar no livro coube-me a mim fazê-lo.
Da parte da tarde fui a um outro sítio muito importante para nós Dominicanos: o mosteiro de São Domingos, onde está uma comunidade de monjas. Es…