quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Poemas do Índico







Num dos domingos passados ofereceram-me um livro de poemas. O autor é moçambicano, Jall Sinth Hussein, filho de indianos. O título é o mesmo do deste post "Poemas do Índico". Gosto de poesia e gosto de ler poesia com calma, como foi o final do dia de ontem, entre o fim de uma pequena conversa e o jantar. Sentado, sem música, só mesmo a leitura, fui lendo os pequenos poemas - grande parte são tercetos - de Jall Sinth Hussein. E como defendo que não se devem criticar os artistas, mas que se deve respeitar o seu trabalho quer gostemos quer não (e aqui não se trata tanto de gosto mas de compreensão), aqui deixo um terceto que me poderia servir de epitáfio: "Quando aqui morrer / não deitem rosas nem lágrimas / eu vou no incenso."
(fotografia de Bruno Ázera)

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Quando se mete o pé na poça

Tinha jurado a mim próprio não voltar a criticar o Presidente da República (PR). Se este blogue não tem o objetivo de se meter em politica, quanto mais em politiquices. Mas vou resistir. Não vou falar do PR nem das suas polémicas declarações de sexta-feira, tendo também em mente as de Manuela Ferreira Leite sobre os tratamentos de hemodiálise e outras do género do presente e do passado, para falar do arrependimento e da devida reparação do mal que se disse ou fez.
Todos nós já metemos o pé na poça. Uns mais que outros, uns mais por palavras, outros por ações e outros ainda por omissões, como dizemos na confissão. Não sei se é normal ou natural mas que acontece acontece, e eu que o diga. Às vezes somos as primeiras vítimas das nossas más palavras e das nossas más ações e temos noção disso.
E arrependemo-nos. É bom. Muitas pessoas têm essa capacidade de reflexão e, momentos após o que disse ou fez, mesmo sem lhes ninguém dizer nada, as pessoas reconhecem que fizeram mal. O arrependimento é bom. É sinal de que amadurecemos, de que não somos assim tão maus e que queremos recomeçar um novo caminho. O arrependimento faz-nos voltar à normalidade da vida, sem termos de carregar eternamente com o peso do mal que se fez. Como digo, grande parte das vezes, somos os primeiros a reconhecer as nossas asneiras.
Mas nem sempre é assim. E aqui tomamos como exemplos os ilustres personagens acima citados. Manuela Ferreira Leite não confirmou nem infirmou o que disse e o PR, ontem, manda um recado por escrito a dizer que o que disse não foi bem interpretado, já depois de Marcelo Rebelo de Sousa, no domingo, vir dizer que o que o PR disse não era o que queria ter dito etc., etc.
Ou seja, mal vai quando são os outros a reparar que metemos o pé na poça. Quando não se tem esta capacidade reflexiva quase instinta de dizer "bolas, fiz asneira" e só três dias depois, quando já a coisa cheira mal (imagem inspirada no relato da ressurreição de Lázaro) é que se vem justificar, desdizer ou re-dizer o que nunca se devia ter dito.
Até porque fica mal a quem quer que seja que se diga cristão ou católico, ganhar mil euros ou mais de reforma (tomara muitas famílias terem mil euros de ordenado, quanto mais de reforma!) e achar-se "provedor do povo". Um PR, católico, para se dizer "provedor do povo", deveria não faltar à verdade, distribuir pelos pobres o seu dinheiro e tentar sobreviver com os 200 ou 300 euros de reforma, que é o que o povo ganha. Isso sim é pertencer ao povo português, ser católico praticante e bom governante. Tenho dito.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Oração para a undécima hora da vida do Pregador

Aqui deixo, nesta noite, uma oração de Santo Aberto Magno, inspirada na parábola dos trabalhadores da vinha (Mt 20, 1-16), para ser rezada pelo frade pregador na undécima hora (a última hora) da sua vida:
Senhor Jesus Cristo, Pai eterno, que me chamaste na primeira hora da manhã para a tua vinha e que me conduziste desde a minha juventude para trabalhar na vida religiosa, para obter o denário da vida eterna; quando vier a tarde do julgamento onde tu darás aos trabalhadores o seu salário, que me darás tu a mim que estive todo o dia da minha vida ocioso, não só na praça pública da vida secular, mas também na vinha da vida religiosa? Ó, Senhor, tu que não pesas as nossas ações na balança pública mas na balança do santuário, faz com que eu me arrependa ao menos na undécima hora e, que eu não seja invejoso porque tu és bom. Ámen.

domingo, 22 de janeiro de 2012

Vida de São Vicente

Nasceu em Huesca (Espanha) no fim do século III, de família nobre, que o confiou á direcção do bispo de Saragoça. Aproveitando no estudo e na piedade, o bispo ordenou-o de Diácono e encarregou-o da pregação na sua diocese. O diácono Vicente não somente ensinava e fortalecia os fiéis, mas também convertia a fé de Jesus Cristo grande número de pagãos. Por esse motivo foi preso e conduzido ao governador de Tarragona, que tentou, por modos brandos e com promessas de grande ventura, levá-lo a abandonar a religião cristã. Baldados esforços.
Vicente respondeu-lhe que nem as promessas nem as ameaças de morte cruel o moveriam a faltar aos seus deveres de cristão, pois que não havia maior honra do que morrer por Jesus Cristo. Ordenou, então, o governador que atormentassem Vicente com toda a severidade. Estenderam-no sobre o cavalete, ligaram-no, desconjuntaram-lhe os ossos e rasgaram-lhe as carnes com unhas de ferro. E, como Vicente se mostrasse alegre no meio de tais tormentos, fizeram-no deitar em uma grelha de ferro com laminas em brasa, cujo calor conservavam com uma fogueira, procurando os algozes aumentar a dor do mártir lançando-lhe sal nas feridas. Depois disto encerraram-no em una escura enxovia onde só podia descansar sobre pedaços de ferro e de louça. Deus quis mostrar quanto lhe era agradável a constância de Vicente, e em um momento restituiu-lhe a saúde, operou uma completa cura. Vendo tão maravilhoso facto, o carcereiro e os guardas da prisão converteram-se á fé cristã. Então o governador ordenou que deitassem Vicente em leito tão brando quanto possível e que o tratassem com todo o carinho. No momento em que Vicente foi deitado sobre esse leito, entregou a vida a Deus e foi descansar no céu, no dia 22 de Janeiro do ano 301 ou 305.
O governador, desesperado, mandou lançar o corpo do Mártir em um campo para ser devorado pelas feras; mas Deus fê-lo guardar por um corvo, que o defendeu dos outros animais. Ainda o governador o mandou lançar ao mar, e Deus ainda conduziu o corpo do martir á praia, onde os fiéis o foram buscar, dando-lhe sepultura junto da cidade de Valência, onde edificaram um grandioso Templo.

(P. J. Lourenço, op, in Festas e vida dos santos, Lisboa, 1931; imagem: Francisco Ribalta, São Vicente, séc. XVII)

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Crianças paranormais

Pelo do Natal deixo de comprar livros e cd's que me interessam, não vá alguém oferecer aquele livro ou aquele cd que "acabei de comprar". Raramente acontece,  porque não costumo manifestar-me no sentido de dizer o que quero no Natal. Lá em casa o critério das prendas era o que se precisava e não o que se queria. Por isso, muitas vezes não coincidiam, mas eram sempre boas prendas e boas surpresas.
Um dos livros que não comprei é um que está na moda com mais de 100.000 livros vendidos, sobre uma criança que parece ter estado no céu durante três minutos. Também ninguém mo ofereceu, mas emprestaram-mo nestes dias para ler.
O livro em questão "o céu existe mesmo" é uma história bonita de um miúdo que, enquanto estava a ser operado, esteve no colo de Jesus, conheceu pessoas no céu e, graças às orações do pai, que é pastor de uma igreja metodista, e da sua comunidade, Jesus não ficou lá com ele mas devolveu-o.
Não vou contar a história toda nem resumir o livro, mas somente dizer que se lê com gosto (li-o em duas noites, antes de dormir), e, de facto, se o miúdo não esteve no céu por lá perto andou (e teve mais sorte que os pastorinhos de Fátima que, pelas narrações da ir. Lúcia, viram o inferno!).
A mensagem é cristã, talvez com algumas descrições exageradas, próprias de crianças (o céu ter portas de ouro, haver animais por lá a passear, etc. etc.), mas lê-se bem e não acho nada ofensivo para a fé, tirando, como digo, as descrições demasiado "mundanas" como as que disse há pouco. Às tantas o céu parece uma grande quinta com a sala do trono e tudo.  Mas, a ser verdade, o miúdo é que sabe, uma vez que lá esteve e eu não.
Portanto, temos de deixar de usar aquele famoso pressuposto de que não sabemos como é que é o céu porque nunca ninguém de lá cá veio dizer-nos como é que é. E se pensam que este foi o único miúdo que esteve no céu, enganam-se. No livro faz-se referência a uma menina que também tem visões do céu. Por exemplo, este Jesus que está a ilustrar estas palavras, foi pintado por ela, aos oito anos!, e este menino confirma que este Jesus é o mesmo com quem esteve (ver em especial a cor dos olhos).
No final da leitura conclui-se que a oração, de facto, tem um poder extraordinário. No entanto, só confirma o óbvio: que o céu existe (nunca tive dúvidas), que Deus ouve as nossas orações (também não duvido) e que Deus abençoa os nossos bons projectos (idem, aspas, aspas). Que seja um miúdo a dizer-nos estas coisas todas, é uma bênção. Prefiro ler que os amigos de Jesus vão para junto dele do que ler que quem não se portar bem vai para o inferno.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Como superar as crises? Os exemplos vêm de cima

Esta tarde tive uma revelação. Não foi mística nem nada do género. Relato o acontecimento que está na base destas linhas: Na minha ida ao hospital, fui dar a comunhão a uma senhora que está a recuperar de uma operação. Está melhor, numa fase de estabilização antes de ter alta. Depois da comunhão, perguntou-me se tinha dois minutinhos para me mostrar um artigo de uma revista católica. Disse-lhe que sim, embora tivesse que ir fazer uma boa ação comunitária, e lá me sentei para ver o que a senhora me queria mostrar. Abriu a revista na página 21 e lá estava o artigo que falava de como a história (política, económica e financeira) se repete, mas como nem sempre as atitudes são as mesmas. No final do artigo vinha um exemplo digno de registar, datado de 29 de Janeiro de 1892. Nas notas do meu telemóvel escrevi esta data, mais o nome do seu emissor, despedi-me da senhora e vim fazer a minha tal boa ação.

Estamos, portanto, em Portugal, no final do século XIX. História para mim é muito complicada. Ao olhar para trás, nem sei como é que passei na cadeira de história, ao longo dos anos, de tão mau que sou para nomes e datas. Lembro-me de uma professora de história e, em concreto, da aula em que nos falou do crescente fértil. Na altura não havia projetores, os professores levavam para a sala uns mapas que se colocavam à frente do quadro para explicar bem as coisas. Não me perguntem porque é que fixei esta aula, não sei responder, mas tenho o vídeo gravado na minha cabeça e vejo a senhora a fazer o desenho do crescente fértil no mapa.
Mas, continuando o tema, não sabia eu que o final do século passado tinha sido tão atribulado. Em especial o ano de 1891, em que Portugal declara bancarrota! Não vou falar sobre este assunto, não sou especialista e há muito sobre o tema na net, mas só dizer que se tomaram medidas austeras, que todos sofreram com elas, repito e sublinho, todos sofreram com elas, como se pode ver pela tal carta, que não é inédita, mas que para mim foi uma surpresa. Depois de Portugal declarar a tal bancarrota parcial, no dia 29 de Janeiro de 1892, o rei D. Carlos envia uma carta a José Dias Ferreira (maçon, detalhe importante porque é da atualidade política), a quem tinha pedido para formar governo, em que lhe diz o seguinte:

"Paço de Belém, 29 de Janeiro de 1892.Meu caro Dias Ferreira.
- Querendo eu, e toda a família real, ser os primeiros nos sacrifícios extraordinários, que as circunstâncias do tesouro impõem à nação, previno-o de que resolvemos ceder 20 por cento da nossa dotação, enquanto durar a terrível e dolorosa crise, que actualmente atravessamos.
Creia, Dias Ferreira, que em tudo e por tudo hei-de seguir a sorte da nação, à qual reputo essencialmente ligados os meus destinos e os da minha dinastia.Seu afeiçoado, EL-REI."
Pois foi esta a revelação. Num momento crítico como o que estamos a passar, de cortes aos quais nem todos se submetem, de promoções de reformados, em que se pode ser deputado, advogado e outra coisa mais, em que se é reformado e se continua a receber ordenados chorudos, ou então, em grandes jogadas (está agora a fazer um ano em que o sr. Presidente da Republica abdicava do seu ordenado de PR, que era só de 6 mil e poucos euros, para ficar só com a sua humilde reforma de 10 mil e poucos euros, e que na campanha eleitoral veio para a televisão dizer que estava preocupado com as reformas porque a pensão da sua esposa era só de 800 euros!), vem-me ter aos olhos esta carta real.

Ora, estamos em 2012. No próximo dia 29 faz esta carta 120 anos. O que eu gostaria é que os nossos governantes (não vou citar nenhum porque, seria uma lista longa e seria injusto, porque não os colocaria a todos) nos dessem o exemplo. Que todos abdicassem de um duplo ordenado ou de uma dupla reforma, que os deputados que acumulam funções (deputado e advogado) se, de facto, têm amor à Pátria, não aceitassem o ordenado de deputados, mas ficassem só com o da sua profissão, que os reformados não fossem nomeados para cargos de chefia e ganharem brutalidades... enfim, tanto se poderia fazer por este nosso país... Mas não. Medidas ligeiras para os que se (nos) governam e as mais pesadas para os do costume.

Antes de terminar, que este post já vai longo, três clarificações: não sou monárquico nem a favor  da monarquia (nem contra); não tenho nada contra (nem a favor) do sr. Presidente da Republica; apetecia-me ilustrar este post com o conhecidíssimo desenho do Bordalo Pinheiro "O Zé Povinho" mas, por consideração ao povo de que faço parte, aqui vai uma outra, do mesmo autor, que ele pintou para ilustrar a crise de 1891. Mas ele, o Zé Povinho, lá está... humildemente ajoelhado diante das grandes potências e os governantes nele montado! Isto é que vai uma crise!

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

O que me espera em 2012... e ainda a procissão vai no adro!

Os horóscopos valem o que valem, a mim dão-me para rir, sobretudo os da Maya. Claro que ela não tem culpa, ela só interpreta, mas são os que mais leio, porque vêm na revista do Público de domingo. Esta semana lá vêm as previsões para 2012 e, depois do almoço, para descontrair rimo-nos das influências das cartas nas nossas vidas. O meu signo é claro: ano em alta, escreve ela, tudo de bom para melhor, sempre a subir (como os ivas e os preços), até os inimigos se curvarão diante de mim reconhecendo as minhas capacidades (aqui falha porque, em consciência, não tenho inimigos; podem os outros terem-me como inimigo, é provável, mas da minha parte não. Quanto muito, pessoas de quem me afasto mais por não me fazerem bem). E dá-me dois conselhos: que não seja exuberante nas minhas vitórias e não gastar dinheiro que não tenho. Vou estar atento ao primeiro uma vez que o segundo está resolvido é é conselho para dois terços de Portugal e pena é que só apareça agora e não há uns anos atrás: não gastar o que não se tem.
Mas, de facto, este ano, para mim, será um ano bastante exigente. Ou não o dissessem estes últimos dias, em que, propositadamente, não aceitando compromissos para adiantar trabalho, têm sido cansativos em coisas internas: rever horários e tarefas das empregadas, ajustes com os hóspedes e com a comunidade, obras de reparação e manutenção com arquitetos e serralheiros, reuniões com instituições, respostas a emails, alguns com um mês de atraso, que é inconcebível, projeção de edições, elaboração de ementas, imagine-se... tem sido muito complicado. Aliás, a única razão que me faz não vir cá mais vezes deixar umas linhas escritas é o excesso de trabalho e preocupações. A outra poderia ser a falta de assunto que, por agora, não se coloca em questão.
Mas, ao mesmo tempo, é bom ver que situações bloqueadas se vão desbloqueando, que conflitos e tensões passam e o trabalho vai andando e nos cansa e dá sono para dormir uma noite inteira e mais que fosse.
Sobretudo uma Missa ontem, aqui no Convento, de 30º dia da morte da grande Professora Maria Helena Pires de Matos, muito ligada à música sacra, em especial ao canto gregoriano. A Missa de ontem, longe de ser um voltar atrás no tempo, foi de grande sobriedade e intensidade. O coro por ela fundado veio cantar a missa de Requiem em gregoriano. Eu falei das três atitudes cristãs que vemos na vida de Jesus e que devem ser constantes na nossa vida: Oração, serviço e pregação (testemunho).
E assim vão passando e irão passar os meus dias deste novo ano, num trabalho caseiro, silencioso, mas que avança e ganha corpo.
Ao mesmo tempo vamos sendo surpreendidos pela nata da nossa sociedade (aqueles a quem o Laranjeira chamava quadrilhas messiânicas). Até parece que o Sr. Presidente da Republica leu o meu post sobre o seu discurso e mandou estudar melhor a proposta de trabalharmos mais meia hora por dia, a maçonaria é o tema de distração da nossa vida politica e social - nós, portugueses, temos de ter sempre um tema quente para nos aquecer os dias frios - , a Igreja esgrima a questão dos feriados e, nos debates sobre a crise, há uns que acham que acertam e outros que não acertam e nem se dão conta.
Mas, voltando à Maya, alegrem-se os que são do meu signo. Se seguirmos os dois conselhos prudentes que ela dá, o nosso ano será sempre a subir e nada perturbará o nosso êxito e sucesso.
Agora mais a sério, como dizia a minha avó: Deus nos dê juizinho até à hora da morte e gente com quem a gente se entenda.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

As rotinas

Ano começado, esta primeira semana é de celebrações natalícias nos colégios que só agora fazem as celebrações de Natal. Ao mesmo tempo retomo as rotinas que, semanalmente, estão marcadas na agenda. Regresso hoje ao hospital, após alguns dias de menos permanência. Se, por um lado, o doente que andava na cadeira de rodas já anda hoje em muletas, outros pioraram e, com poucas esperanças, esperam a sua hora. E encolhemos os ombros e dizemos: é a vida. Que mais poderemos dizer da vida senão que ela é assim mesmo e não é mais madrasta por assim ser ou ser de maneira diferente? Uns nascem, outros morrem; uns adoecem e outros recuperam a saúde... e acabamos por concluir sempre da mesma maneira: é a vida.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Discursos de Ano Novo

Não gosto de falar de política nem usar estes meios para dizer bem ou mal.
Mas não me consigo conter depois de ouvir os dois parágrafos do discurso do Presidente da República deste ano de 2012. No site da Presidência da República está o "sermão" do nosso Presidente, para ler ou ouvir. Ainda assim prefiro ler porque não consegui ouvir para além do segundo parágrafo. Quem vir a parte escrita repare em quantos parágrafos ele diz alguma coisa positiva. Eu vi e contei os parágrafos: 40. Destes 40 só o primeiro e os dois últimos se aproveitam de esperança e de bom ar. Os outros 37 são para falar do óbvio - a crise - e a tentar mentalizar-nos para o que nós já sabemos de cor e salteado mas que não temos a culpa, embora nos queiram fazer ver que sim. Com um pouco de lucidez se conclui que foram as más políticas e os maus governantes (e não tenhamos memória curta) que puseram o povo no buraco e não o povo que pôs os políticos e os maus governantes no dito. E vir-nos falar, no primeiro dia do ano, depois do jantar, da crise e do empenhamento de todos na construção do que outros destruíram? Que falta de gosto.
E também não acho piada - nunca achei - a que se venha dar recados ao povo quando os devia dar diretamente ao Primeiro-Ministro ou a quem de direito, com quem se encontra regularmente. O sermão de Santo António aos peixes, seja o original seja o do P. António Vieira tiveram êxito porque foram únicos. É como eu estar numa sala de aulas e um colega ter estragado o projetor e o professor vir passar um sermão a todos porque a turma partiu o projetor!
No meu humilde parecer, os verdadeiros destinatários do discurso do Sr. Presidente da República não eram o povo mas sim a claque governativa. A esses é que deve levar as preocupações que tem no coração e defender os desempregados e os idosos e as instituições de Solidariedade Social de que tanto fala. Ao deixar que o Governo tome as medidas que está a tomar, está a defender quem? O povo? Boas intenções, não duvido.
Mas, no meio do discurso, há um pequeno parágrafo que me agrada: "Agora temos de seguir um rumo diferente, temos de mudar de vida, e construir uma economia saudável". Só pergunto: e quem limpa o lixo de quem fez a festa? Quem junta as peças do boneco partido? Quem vai pagar o arranjo do tal projetor? Não precisamos de resposta. Digamos a uma só voz: o povo!
Em 1908 Manuel Laranjeira escrevia uma série de artigos sobre o Pessimismo Nacional. Num desses artigos - de uma grande lucidez - ele fala das "quadrilhas messiânicas" que apareciam para salvar o povo das suas crises e depressões. Não quero fazer associações mas reparem no que diz a determinado ponto: "As quadrilhas messiânicas bebem-lhe o sangue (ao povo) e vendem-lhe o pão por um preço fabuloso. E esse povo humilde, secularmente escravizado, entrepidamente, com uma heroicidade animal que só a ignorância dá, deixa-se sugar, deixa-se morrer de fome e, quando não se resigna a morrer de fome - emigra. A cifra da mortalidade pela tuberculose e a cifra da emigração estão aí dizendo com sinistra eloquência o carinho com que se educa o povo português".
Manuel Laranjeira dizia que a doença da nossa sociedade é de natureza parasitária... Que forte mas atual!
Teríamos, então, de desparasitar o povo! Mas não temos dinheiro... estamos em crise e sem subsídios.
(Já agora... repararam que a Assembleia da República não trabalhou entre o Natal e o dia de hoje? E ao povo põem-no a trabalhar meia hora mais por dia! Grande lata!)