segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Dia Mundial da Paz para 2013

Uma antiga tradição litúrgica da Igreja, propõe que na noite de Natal se cante o anúncio do Natal do Senhor. Depois de enumerar as várias datas dos vários calendários e de fazer as contas desde a criação do mundo, diz o texto que, quando Jesus nasceu, "todo o mundo estava em paz". A paz de que fala este texto era uma paz institucional, a paz do império. Vale a pena ler o recente livro do Papa sobre a infância de Jesus, no terceiro capítulo (p. 68), em que o papa fala da paz Augusti (paz de Augusto) e a paz de Cristo (pax Christi).
E de fato, a palavra é a mesma, mas sabemos que têm origens diferentes. A paz do mundo é a que construímos aqui na terra, com pactos, apelos à não-violência e ao respeito pela dignidade humana e tolerância religiosa. Mas a paz de Jesus é uma outra paz. Não é incompatível com a de Jesus mas tem, para nós, uma origem diferente. A paz de Jesus vem do céu, vem de Deus. No evangelho são os anjos que anunciam a paz na terra. Dizem que o céu e a terra estão em festa, vivem uma grande alegria porque o príncipe da paz nasceu no meio de nós.
Jesus foi um homem de paz. Viveu a paz e comunicou-a. Sim, Deus fala de paz! (cf. Sl 84, 9). Não a paz de pactos, que poderia resumir-se em ausência de guerra, mas uma paz mais profunda, a paz interior, que nasce do coração de cada ser humano. Sim, esta é uma grande verdade. Todos nós, humanos, trazemos dentro de nós um grande e profundo desejo de paz.
O Papa Bento XVI propõe para a nossa reflexão para o próximo dia mundial a paz, o versículo das bem-aventuranças relacionado com a paz: "Bem-aventurados os que promovem a paz". Jesus chama felizes os que vivem e promovem a sua paz. E como seremos felizes se promovermos a paz! Seremos chamados, diz Jesus na continuação da bem-aventurança, “Filhos de Deus” (Mt 5, 9).
A promoção da paz é um compromisso que o cristão tem de levar a sério. Não só desejar a paz mas pedi-la a Deus, promovê-la, e comunicá-la.
Nasceu um ano novo. Apreensivos e temerários por causa da crise económica e financeira que estamos a atravessar, a paz do império torna-se mais frágil. Só a paz de Cristo poderá devolver-nos a esperança e a tranquilidade. Como São Francisco de Assis, peçamos ao Senhor que faça de cada um de nós instrumento da sua paz, porque só a paz de Cristo é a verdadeira paz.

Fim de ano - o meu programa


Este é o segundo ano que passo da mesma maneira este último dia do ano. Aliás, tem vindo sempre a reajustar-se. A maia antiga celebração tem oito anos: começa às 19 horas, com a celebração da Missa, numa comunidade das Irmãs Missionárias Dominicanas do Rosário. A celebração é aberta às pessoas que vivem por ali, todos os anos as mesmas, faltando uma ou vindo outra que no ano anterior não pôde vir. Como dizem as Irmãs, "Já é uma tradição o nosso 31 de Dezembro". Depois da celebração, jantar com as Irmãs. Confesso que é dos jantares que mais gosto: simples, tranquilo e alegre. Este ano, como mudou a superiora mudou também a ementa: do peixe passou-se à carne. Trocamos informações, jantamos, não falta o espumante e um bocadinho de anis "para ajudar à digestão", dizem as Irmãs. No final do jantar entrego-lhes o Santo Protector. São as primeiras a receber. Amanhã, na Missa das 12h entregarei a quem vier à Missa.
Terminado o jantar regresso ao convento. Se está bom tempo venho a pé, senão tenho que vir de transportes, como foi hoje o caso.
Já no quarto é tempo de esperar a meia-noite. Oiço música de Natal, da Clássica, enquanto escrevo a homilia de amanhã. Para este ano escolhi o Oratório de Natal de J. S. Bach. Se me sobrar tempo arrumo papéis. E às 23.30h vou para a igreja. Aí rezo o Ofício de Leituras, o Terço e as Completas. Tempo de agradecer a Deus todas as pessoas e as coisas que foram boas para a minha vida. E também de pedir um ano mais de Deus, sempre mais Dele. Levo para a igreja o meu santo protector para lhe rezar quando virar a estampa e ver quem é.
Só depois disto, e já no quarto, respondo a mensagens de felicitações de bom ano e comemoro à minha maneira o novo ano.
Este tipo de passagens de ano - que começaram por ser assim porque as companhias conventuais foram desaparecendo - tornaram-se agora uma opção. Estou bem assim: comigo, com as minhas coisas e com o meu bom Deus.
Deixo aqui, em tom de esperança, um pensamento de que gosto muito, atribuído a São Francisco de Sales: "É necessário abandonar o passado à misericórdia de Deus, o presente à fidelidade e o futuro à divina Providência".
Bom ano de 2013, com a protecção de Santa Maria, Mãe de Deus.

domingo, 30 de dezembro de 2012

A família de Jesus

A partir do momento em que Jesus diz aos pais "Porque me procuráveis? Não sabíeis que Eu deveria ocupar-me das coisas de meu Pai?", somos nós a nova família de Jesus. Não são os laços de sangue que nos ligam mas o próprio Deus. Jesus não devaloriza a estrutura tradicional das famílias mas realça que o Pai é mais que os pais. Não deixa de ser submisso aos pais, mas não esquece e faz lembrar a todos que veio para fazer a vontade do Pai.
Jesus não despreza a sua família. Precisou dela. Não como lugar de conveniência mas como espaço de fé e conhecimento de Deus. Foi no seio desta humilde família que Ele cresceu em estatura, sabedoria e graça, não só diante de Deus mas também diante dos homens.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Boas Festas!

 
 
"Bendito o Senhor nosso Deus, que visitou e redimiu o seu povo"
(Lc 1, 68)

sábado, 22 de dezembro de 2012

Data a não esquecer




Estou no Ramalhão a pregar o retiro mensal às Irmãs Dominicanas de Santa Catarina. A mensagem vai ser rápida. Só para assinalar o aniversário da aprovação da Ordem Dominicana há 796 anos. Naquele dia 22 de Dezembro, em São João de Latrão, o Papa Honório III assina a bula de aprovação escrevendo e pedindo que a Ordem seja de nome e de facto dos Pregadores. São Domingos vê assim reconhecido o seu desejo, inspirado por Deus, de fundar uma Ordem em que o Evangelho da Graça é anunciado em todo o mundo.
Rezem por nós, para que nos identifiquemos cada vez mais com este carisma, e que a caminho dos 800 anos saibamos actualizar o desejo profundo de São Domingos da salvação das almas.


(Imagem: P. Bresson, a Aprovação da Ordem Dominicana)

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Senhor, olhai por nós

Senhor,
olhai o pobre e a lágrima da solidão.
Senhor,
olhai o grão sofrido à espera do Sol.
A criação espera o Verbo de Deus.
Que ao nosso desejo, enfim, se abram os céus!

Senhor,
o pão nos falta e à vida razões de viver.
Senhor,
à mesa do festim faltam os convivas.
Que a força da Cruz seja arrimo dos dias.
Que a tua presença em nós atice o amor!

Senhor,
a morte em nós cavou mil enxadas de abismo!
Senhor,
o mal curvou a vida ao peso do horror.
Que a Cruz se incline e erga a todos do chão.
Que desça o olhar àquele que o medo matou!

Senhor, o frio é muito e a morte dos dias sem fim!
Senhor,
olhai quem espera o sol e a luz da manhã.
Que a tua paz nos unja as mãos e as dores.
Que ao fogo do sopro renasça um mundo que morre!

Senhor, que o vosso Reino venha!

(texto: fr. José Augusto Mourão, op; imagem: Felix Vallatton, Isaías)

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Quase Natal

Depois de termos celebrado ontem o Domingo "Gaudete" (da Alegria), entramos hoje, dia 17, na segunda parte do Tempo do Advento. A liturgia densifica-se nas suas celebrações: as orações da Igreja falam-nos já da proximidade do Natal, começam também hoje as antífonas do O, em que cada dia cantamos na hora de Vésperas um atributo messiânico, pedindo-lhe que venha ao nosso mundo com as suas graças e os seus dons. As leituras da Missa também nos falam da vinda de Deus ao nosso mundo: normalmente a primeira leitura fala-nos da promessa do Messias e, no Evangelho, os acontecimentos antecedentes à Natividade de Cristo.
Hoje, escuta-se no Evangelho a Genealogia de Jesus Cristo, na versão de São Mateus. O desenrolar dos nomes desde Abraão até Jesus - 42 gerações - fazem-nos perceber a humanidade de Cristo, Deus e Homem verdadeiro, que se entronca nas nossas vidas para lhes dar um novo sentido. Ele pertence à nossa história, e a nossa história sem Jesus não é tão feliz.
Na litúrgia dominicana existia a bela tradição de cantar a Genealogia de Jesus Cristo. Era cantada duas vezes no ano: na noite de Natal e no dia da Epifania. Era o canto solene, em gregoriano, do anúncio do nascimento de Cristo.
Aqui deixo a bela melodia dominicana da Genealogia de Jesus Cristo, na versão de São Mateus.
 
video
 

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

O orvalho leve da graça

Venha o orvalho leve da graça
desça sobre a terra a ternura;
venha a mão que cura e protege
dar à vida luz e calor.
No deserto um grito ecoa:
Dai a Deus a praça maior.

Pastor de Israel que conheces
as pastagens altas da dor;
Fogo que incendeias a noite
e os caminhos brancos do pão.
Orvalho do céu, ó nuvem,
desce sobre nós: Vem, Senhor.

O deserto avança
a secura mina o coração e a alegria;
nem fogo nem pedra nós temos
onde repousar do caminho.
Somos terra exposta ao vento,
grãos de areia, irmãos, da esperança.

(fr. José Augusto Mourão, op)

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Vem à terra dos homens

Vem à terra dos homens, Deus da Luz!
Vem, que Te esperamos de coração exausto,
em vigília de esperança, branca e fria.

Vem não tardes!
e abre as portas que estiverem cerradas.
Entra na penumbra de nossas casas
inundando-as com a frescura da tua brisa.
Traz o sol novo da tua promessa
e perdure o teu clarão irresistível
a iluminar as dobras do nosso coração,
a alisar as resistências da nossa vontade.

Que invocando-te neste tempo róseo,
seja o teu advento a bênção renovada,
a aliança e o banquete,
o ouro e a prata
e o mel perfumado dos pobres,
o leite dos que possuem saúde frágil,
a boa notícia de última hora dos mais tardos.

Vem habitar e transformar
o nosso tempo de consumos e desvarios,
Deus, que em Jesus Te revelaste,
Pai, que no Filho reconhecemos
e adoramos.
(Eugénio Beirão)

sábado, 8 de dezembro de 2012

Regresso a casa

Acabaram hoje os trabalhos em Roma. Apesar de ser dia santo ainda tivemos de trabalhar esta manhã. Para trás ficam duas semanas em Itália, uma delas na Cidade Eterna, sempre com novidades. Tirei a tarde para fazer as despedidas. Ir a São Pedro (o Papa não estava, tinha ido à Praça de Espanha render a sua homenagem à Imaculada Conceição). Tinha pensado fazer umas compras mas sem sucesso: no Vaticano tudo fechado. Quando ia já a sair, e a passar diante de um dos portões de acesso ao Vaticano, mandaram-me parar: o Papa estava a regressar. Aproveitei e fiquei para o ver. O pouco tempo que fiquei à espera deu para pensar em algumas coisas sobre o papado, uma delas prática: sempre que o Papa sai faz-se uma procissão de policias, motos, carros e segurança tremenda. Um helicóptero a sobrevoar indica onde é que o Papa está. Nisto, enquanto esperava, um miúdo que estava ao meu lado, ao ver aproximar-se um táxi perguntou à mãe: Mamã, o Papa vem de táxi? Gargalhada geral. O Papa vir de táxi... de papamóbil e, como acabo de ler, foi estreado hoje. Lembrei-me do meu afilhado que, num domingo, a falar destas coisas me disse: se o frei fosse importante tinha era um freimobil!
Adiante. Como estava sozinho fiz mais umas voltas por minha conta: visitei a igreja de Santo António dos Portugueses, que estava no fim de um pontifical, e depois, fui ainda a Trastevere, à basílica de Santa Maria. Uma igreja preciosa. Ouvi um pai a explicar ao filho: estás a ver ali? É a única imagem que conheço de Jesus adulto a abraçar a sua mãe. Fiquei para o começo da Missa, animada pela Comunidade de Santo Egídio: simples e comovente.
Tinha lá uma pagela como uma oração deles, que rapidamente traduzida a deixo aqui, aproveitando para me despedir de Roma:
"Ó Senhor, que pela tua cruz salvaste o mundo, nós te reconhecemos como o amigo e o libertador dos homens. Apesar da nossa miséria não te atraiçoaremos como Judas, mas como o bom ladrão dizemos: lembra-te de nós no teu reino! Não olhes à nossa indignidade: estávamos ausentes e distantes, assustados e esquecidos, quando foste crucificado e abandonado. Ensina-nos, com o teu amor eloquente, a seguir-te sempre no teu caminho, para levar contigo a cruz da tua redenção".
Ci vediamo a Lisbona!
(fotografia do Papa a chegar ao Vaticano. Virou-se para o outro lado porque estavam umas freiras a gritar-lhe vivas...)

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

São Domingos esteve aqui

Publicaram há uns anos, aqui em Santa Sabina, um roteiro dos "Milagres de São Domingos em Roma". É, de fato, um roteiro e, como São Domingos não fez muitos milagres, fácil de percorrer. Das outras vezes que cá estive visitei os vários sítios onde esteve São Domingos. Mas faltava-me um: Santa Maria in Tempulo. Talvez dos primeiros sítios dominicanos. Um mosteiro de monjas que São Domingos transformou em dominicanas. Ou seja, num dos encontros de São Domingos com o Papa Honório III, este encarregou-o de reformar os mosteiros de Roma, promovendo a vida regular e de observância. No tal roteiro pode ler-se a pequena introdução a este lugar: "São Domingos esteve aqui. Desde 1218 a 1221 São Domingos visitou muitas vezes este mosteiro. A narração que iremos ler (depois da introdução aparecem os respetivos relatos) informa-nos abundantemente das relações deste mosteiro com a atividade de São Domingos. O aspeto maravilhoso ou milagroso da trasladação da imagem da Virgem para São Sixto, é narrado pela beata Cecília ao dizer que querendo trasladar a imagem, esta voltava sempre ao seu sítio. Só a trasladação que fez São Domingos foi aceitada pela mesma".
Mas este mosteiro é importante não só por este milagre. Infelizmente hoje está fechado. Soube que agora é uma sala de atos civis, ou seja, casamentos. Apenas se pode ver por fora o que era a igreja do mosteiro. Foi aqui que São Domingos conheceu a beata Cecília, que pregava às monjas sobre a vida evangélica, que professaram pela primeira vez nas mãos de São Domingos, prometendo uma vida nova, de comunidade e obediência.
Como sinal de mudança de vida, São Domingos levou-as para um outro lugar, o convento que o Papa tinha dado aos frades, como primeira casa: São Sixto velho. Fica a cem metros de distância. Como mais tarde o Papa lhes deu Santa Sabina, São Domingos aproveitou a ocasião para as trasladar para este convento que os frades deixavam, bem como ao ícone de Nossa Senhora, de que fala o tal milagre.
Neste mosteiro de São Sixto aconteceram outros milagres. Aliás, no claustro encontramos a vida de São Domingos nas suas várias arcadas, desde o nascimento até à morte. Mas isso daria para um outro capítulo.

(Fotografias: em cima, a igreja de Santa Maria in Tempulo; em baixo, um dos quadros da vida de São Domingos: a sua ordenação presbiteral)

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Missões e missionários

Andava a adiar este post. Não o texto mas o conteúdo. Há uns meses recebemos em Lisboa, no nosso convento, dois irmãos, um de Espanha e outro da Venezuela, que irão em Janeiro para Timor. Depois de 500 anos, os dominicanos voltam a este jovem país. Eles são da Província do Rosário, uma província da Ordem exclusivamente missionária. Tenho-me interessado por Timor e tenho pena que não haja um português que os possa acompanhar, pelo menos por um pequeno período de tempo. Paciência.
Aqui em Santa Sabina voltaram a falar-me do assunto. Falei com um frade e uma irmã que estiveram recentemente em Timor, falámos do país, do seu (pouco) desenvolvimento, da presença dos e das dominicanas em Timor e vi muitas fotografias. Ontem fui almoçar ao convento da Província do Rosário, que está ubicado na mais importante e cara rua de Roma: Via dei Condotti. Não pensem que os frades se sentem mais importantes e sejam mais ricos que os outros. Aliás, quem passa na luxuosa rua nem se dá conta que há lá um convento. Um convento nem sequer era deles. Compraram, naquele tempo, aos trinitários, que não tinham vocações e tinham de vender a casa.
Agora é casa de estudantes e professores. E lá fui, para conhecer a casa e os frades. O Provincial estava a terminar a visita canónica. E como sabia que eu provavelmente iria lá, quis estar comigo para falarmos um pouco de Timor. Uma conversa francamente agradável e fraterna, em que tive ocasião de conhecer não só a história deste projeto mas também das várias presenças desta província no mundo oriental, especialmente particular e difícil na China. Ficou prometida uma viagem a Macau e a Timor.
No regresso, comentava com outro frade: cada vez mais gosto desta província. Sentem-se livres, úteis e gostam do que fazem.
Deixo aqui uma fotografia do lugar onde foram mortos os últimos dominicanos portugueses. Os timorenses anseiam pela sua chegada. Não para os voltar a matar mas, dizem eles, temos uma grande dívida a pagar.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Cristo vem sempre depois

Ontem a falha de internet no convento e a muita chuva que caiu sobre Roma desanimou-me na escrita sobre Florença. Com o tanto que vi e o que ficou para ver (na realidade só ficou por ver o museu de São Marcos e a igreja de São Lourenço), deu-me Deus a alegria de também estar onde pouca gente costuma entrar. Como ter a possibilidade de ter visto esta pintura, da qual tirei fotografia, de um Cristo tão diferente dos Cristos de Fra Angélico. Pensei que seria das suas primeiras obras. O frade que me fez a visita explicou: O Fra Angelico gostava de saber para onde eram os quadros: se eram para frades eram mais simples (só o essencial), se era para igrejas ou lugares públicos, pintava com mais pormenores. Esta motivação não era porque não gostasse de pintar para os frades mas, continuou, porque os frades não precisavam de tanta catequese. De Florença fica-me na memória a vida humilde e reformadora de homens como Fra Angélico ou Savonarola, ali entregue à morte, ou ainda de Santo Antonino, grande reformador da Ordem Dominicana.
como saí cedo de Florença acabei por concelebrar em Santa Maria Maior, como tinha planeado. No tempo em que os papas celebravam aos domingos e dias santos nas igrejas de Roma, no primeiro domingo do Advento calhava em Santa Maria Maior. Ali concelebrei e, sem prever, os que cantaram na Missa cantaram alguns cânticos em português.
Hoje, segunda-feira, começaram os trabalhos da Comissão de Liturgia da Ordem, a que pertenço. Graças a Deus temos uma tradutora que nos ajuda. Hoje dois assuntos importantes ocuparam as nossas sessões de trabalho: a nossa aprovação do novo calendário da Ordem, da aprovação do calendário da província de Portugal (YES!) e a aprovação do novo Missal da Ordem para a língua italiana. Estas aprovações foram fáceis... Agora faltam as confirmações do Vaticano... Teremos de esperar que tudo corra pelo melhor.
Pela minha parte, já inicei o meu parecer sobre liturgia e formação inicial. A minha estada em Nápoles foi útil para poder transmitir a nós, mais velhos, quais são os desejos e inquietudes dos mais novos. Alguns dizem que os mais velhos estão no oito e os mais novos no oitenta (entre os liberais e os tradicionalistas). Pode até ser verdade. E se os mais velhos acusam os mais novos de quererem voltar ao antigamente, entenda-se ritualismo e devoções, também se deviam perguntar sobre o que fizeram da liturgia atual, a pós-conciliar, para que não interesse aos mais novos! Acho que os mais novos não querem ser tradicionalistas. Pelo menos intencionalmente. Prefiro concluir que os mais novos procuram aquilo que os mais velhos não souberam transmitir, ou desleixaram. Para os mais velhos (alguns), a liturgia não é importante, tanto dá assim como assado e para quê tanta coisa. Não é assim para os mais novos: eles querem respeito e qualidade no modo como a comunidade expressa a sua fé, pela liturgia. E não vão desistir.
Termino com uma conversa que tive ontem na sacristia de Santa Maria Novella, em Florença, com o sacristão. Homem de idade, depois de saber que eu era dominicano, disse-me que São Domingos e São Francisco tinham vivido em Florença. Pelo menos a tradição diz que eles faziam "voluntariado" no hospício que ficava em frente do convento. Sorri e disse que eram como irmãos. Ele acrescentou: sim, mas tinham os seus conflitos. São Domingos sempre apertou mais os seus frades para que estudassem e fossem homens de cultura. Eu concordei, e disse que, afinal, uma coisa sempre nos unia: a pobreza. E ele, de cara espantada, perguntou-me: a pobreza de quem? E eu disse: de ambos. E ele contestou: não padre. Já nem disso vocês se podem gloriar. Antigamente os frades eram sinal de austeridade: entrávamos numa igreja e era fácil ver um frade recolhido, a rezar, com devoção. Agora não os vemos. Passam o dia na internet e vêm a correr para dizer Missa com o telemóvel na mão. E concluiu: Hoje Cristo já não é a prioridade dos frades: primeiro tudo e depois Cristo. Sorri-lhe e disse-lhe no meu mau italiano: È vero: Cristo viene sempre dopo.

Dia de visitas

(Crónica do dia 1 de Dezembro. Os problemas informtáticos impediram-me de colocar o texto online no próprio dia)
Hoje passei o dia praticamente fora de casa. A comunidade de Santa Sabina esteve de retiro neste dia.
Fiz tudo o que tinha projetado. Comecei por visitar as catacumbas de Santa Priscila. Para mim, mais emocionantes que as de São Calisto. Menos gente, menos confusão, mais calma na visita de algumas centenas de metros dos muitos quilómetros de caminho e lugares de sepultura. A senhora dizia cerca de 4º mil cristãos estiveram lá sepultados.
Durante a visita, feita em inglês, enquanto a senhora fazia o seu discurso, eu ia pensando na força e na teologia da iconografia funerária. Certamente está estudada mas, acreditar na vida depois da morte e recapitular a vida de cada um à luz de Cristo, deve ser das mais belas experiências cristãs. Impressiona ver aquelas imagens que só vemos na net ou nos livros: o bom pastor, a adoração dos magos, os três jovens no meio das chamas, o anagrama de Cristo, o peixe, a âncora… tudo ao vivo e a cores. Descobri, entretanto, que há mais um São Filipe. Esteve lá sepultado. Morreu novo, era filho de Santa Perpétua.
De lá, acompanhado da chuva teimosa e eu sem chapéu, encaminhei-me para a Galleria Borghese. Nunca tinha estado. Meu Deus! Uma overdose de arte. O que seria da arte e da cultura sem a Igreja, ou até de Roma sem o papado… Também aqui o rever algumas obras que apanhamos na net ou nos livros: o David de Bernini, a sala cheia de Caravaggios… falo destes mas muitos outros também se achavam representados. Fiquei com alguns nomes para mais tarde explorar. Vale mesmo a pena visitar esta galeria. Além de que, o próprio edifício é de uma beleza extraordinária.
Li num site que, depois do Museu Borghese, quem tivesse tempo fosse visitar o museu e a cripta dos capuchinhos. Não fiz de propósito para ir ver mas, quando dou por mim, estava a passar lá. Saí do autocarro e visitei. De muito bom gosto, faz a história dos frades Capuchinhos, simples mas bem apresentada. A tal afamada cripta é como a nossa capela dos ossos mas, com bom gosto ou nem por isso, as capelas estão todas enfeitadas com ossos… até a própria morte! Não é das coisas mais agradáveis mas também não é repugnante.
De lá fui então para o último lugar a visitar: tavole miracolose, ou seja, ícones medievais de origem miraculosa. Quase todos marianos, bem conservados, como tinha tempo deu para ler a história de cada um. Um deles, pertencente às dominicanas, do qual temos uma cópia no convento de Lisboa, diz-se que foi pintado por São Lucas e que, depois, os anjos terminaram-no. Verdade ou não, o que é certo é que o ícone é muito belo.
Finalmente, como tinha dito ontem, fui às vésperas a Santo Anselmo. Quando estou em Santa Sabina nunca dá para lá ir porque coincide com a oração da comunidade. Por isso, hoje, que tinha estado fora, aproveitei para lá ir. Valeu pela tranquilidade da oração e começar assim, de uma forma mais marcante, o meu querido tempo do Advento. Apesar de sermos poucos os que estávamos a assistir, não nos deram nenhum livro para acompanhar… foi pena.
Amanhã, domingo, vou dar uma escapadela a Florença. Estou desejoso por ver os conventos de São marcos e de Fièsole, onde o Fra Angélico viveu. Deus me ajude, pelo menos com bom tempo, porque, visitas com chuva não são nada agradáveis.

Advento 2012

Advento.
Tempo de esperas e recomeços.
Entre as velas do caminho
e as musicas em tons menores
despertamos da noite
ou saímos de um nevoeiro
para Entrarmos no mistério que se revela
a quem traz aquecido o coração.

Advento.
Tempo de levantar as cabeças
vigiar e orar
como nos pede o Mestre.
E nao olhar para o umbigo
para o desassossego dos problemas,
de cabeça curvada,
a cismar no que nostraz dispersão.

Advento.
Tempo de ouvir o segredo de Deus
de se deixar queimar pelo seu fogo
iluminar pela sua luz
ou encher pela sua presença.
E entrar na gruta
onde Deus se fez um de nós
inocente, puro, todo dado,
para a nossa salvação.
Vem, senhor Jesus.