sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Os nossos sonhos

Já não é só uma vida que é feita de retalhos. Já o dia-a-dia o é. Começaram as celebrações da Palavra nos Maristas, que começam a ganhar energia. Começaram ontem, com uma turma do 8º ano, que quis ver, à luz da Palavra de Deus, a unidade e a diversidade, esta manhã, com uma do 11º ano, reflectindo as diferenças e o mesmo caminho, e ao final da manhã uma do 9º ano, com o tema mudanças.
Mas a do 11º ano marcou-me. E digo porquê. No final das celebrações há sempre a distribuição de uma lembrança. Nesta turma decidiram distribuir uma vela e um nome aleatório de um da turma. A ideia era escrever por baixo da vela o nome e, de lado uma mensagem ou uma palavra que caracterizasse a pessoa em questão. Não contaram comigo - afinal não pertenço à turma - mas deram-me uma vela. Lá me queixei a dizer que não tinha a quem entregar nem quem me entregasse. Então um deles, simpático, disse, não se preocupe, se quiser eu escrevo. Lá lhe agradeci, o gesto e a vontade. Depois, na sala, onde iam passar um vídeo da turma, fazendo eles questão que eu estivesse, o rapaz lá me entregou a vela. O nome por baixo e a mensagem: "não deixes de realizar os teus sonhos". Depois de dois dias intensos num assunto que começa a ser mais que um sonho, esta mensagem, de um aluno que de mim sabe pouco mais de que sou o frei do colégio e que oriento as celebrações, veio confirmar os meus sonhos e os sonhos de Deus. Sim, porque a felicidade e a realidade só será perfeita se os nossos sonhos forem o sonho de Deus.
No final do filme, agradeci-lhes a celebração e falei-lhes desta coincidente mensagem e do sonho que tenho, que quero realizar, e esperando também que seja o sonho de Deus. 

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Tudo fechado


Hoje tive um dia de excepção. Talvez não volte a ter outro assim até Junho.
O que estava destinado a ser um dia cheio de actividades e compromissos tornou-se, ao final do dia de ontem, um dia livre. Coisa rara, há que aproveitar.
Peguei em mim e fui até à Península de Setúbal, não para fazer a volta saloia mas sim a rota conventual. Tinha curiosidade em visitar o Convento dominicano de Azeitão e também de revisitar o da Arrábida. E lá fui eu. Apesar do trânsito meio caótico de uma manhã de greve do Metro, cedo cheguei a Vila Nogueira de Azeitão e, mais concretamente, ao convento de Nossa Senhora da Piedade. O dono e morador do Convento não estava mas não houve impedimento de estar no exterior e tirar algumas fotografias. Este convento, bem como o de Benfica, Alcáçovas, Almada e Ancede, e de certa maneira, contrariando os de Almada e Viana do Castelo, são pequenos, isolados, tão convidativos à vida monástica. Não faltam sonhos quando vejo um convento destes, quase abandonado, como este de Azeitão: uma pequena comunidade, de acolhimento e de oração. Mas depressa se acorda à realidade: Lisboa é a missão.
Ao que parece o Convento está à venda, sete milhões, pedem por ele... Além deste, contar ainda com, pelo menos, mais um ou dois para o restaurar. Ficando apalavrada uma visita ao interior, quando o dono do convento por lá estiver, porque hoje estava fora, embrenhei-me na serra da Arrábida, fazendo uma paragem no Portinho. Dia calmo, quase só eu na praia, um passeio à beira mar, contacto com a natureza, olhando para o céu e para o mar, com Tróia ao fundo. Lembrar Sebastião da Gama, com tão grandes motivos para se inspirar.
Depois de tanto descer, voltar a subir, ao Convento de Jesus, ou da Arrábida, ou dos Arrábidos. Infelizmente estava fechado, só está aberto de quarta a domingo, apenas a vista exterior, olhando para cima e para baixo, lembrar São Pedro de Alcântara e o nosso magno frei Agostinho da Cruz, no seu belíssimo e profundo poema às chagas de Cristo, que ainda hoje a liturgia reza e canta.
Olhamos para a beleza do convento e das grutas, olhamos para as cruzes nos cimos dos montes, achamos que bela vida eles levavam mas, mais que bela, era santa e sacrificada. A beleza do mar e da serra não lhes tirava o frio, a humidade e a penitência que se impunha.
E da Arrábida ao Cabo Espichel. Apesar do vento, sabe sempre bem ir ao Santuário de Nossa Senhora do cabo, mesmo que fechado. As alas, agora emparedadas, continuam a parecer dois braços que nos acolhem. Ao fundo a capela e o mar, sempre o mar, com o seu quê de belo e temeroso.
E assim se passou um dia. Com o tempo que Deus nos deu e a calma que os afazeres proporcionaram. O regresso é jubiloso. O que se vê  e o que se sente faz-nos esquecer as rotinas e dá-nos paz. Pelo menos a mim. Já a caminho da cama, levo comigo a História de São Domingos, de Frei Luís de Sousa, para saber mais deste convento dominicano de Azeitão. Se houver novidade ou curiosidade, aqui a escreverei.
Amanhã começo a "maratona" das celebrações da Palavra, nos Maristas. Já não é novidade mas a atenção e a palavra próxima são exigências a ter presente. 

domingo, 22 de fevereiro de 2015

Outra vez o deserto

Uma imagem comum ao tempo do Advento e da Quaresma é a do deserto. No Advento é João Baptista que vive no deserto e chama ao deserto as pessoas que querem mudar de vida. Com Jesus é o contrário: vive na cidade, e o deserto é o lugar onde se pode isolar para rezar. Diz-nos o Evangelho de Marcos, muito sucintamente, que Jesus esteve no deserto durante quarenta dias. Diz também que foi o Espírito Santo que o enviou para lá. Neste ano de 2015 o mesmo Espírito manda-nos percorrer este deserto de 40 dias, como Jesus o fez. Não vamos sozinhos, vamos impelidos pelo Espírito de Deus, até chegarmos ao oásis, à terra prometida, à Páscoa. O deserto não é meta, é caminho. Não levemos muitas coisas nem muitas preocupações para não nos cansarmos nem desanimarmos: que o bastão seja a Palavra de Deus e no alforge levemos a Eucaristia, o verdadeiro pão que nos sacia. Bom domingo!

Atenção à Missa

Ontem, no fim da Missa, uma menina ofereceu-me este desenho. Fê-lo durante a Missa, não distraída mas bem concentrada. Flores e corações, um Jesus crucificado bem glorioso e as frases que ouviu na homilia.

sábado, 21 de fevereiro de 2015

Godés de doce

Há uns anos que, durante a Quaresma, fazemos aqui no convento, as sextas-feiras da Quaresma. Um tempo de oração, de partilha e de silêncio. Em cada sexta-feira, dia que lembra a morte de Jesus, tentamos por em prática a oração, o jejum e a esmola. Ontem, durante a refeição - uma sopa, um pão com qualquer coisa e fruta - ao ver a caixinha do doce distraí-me com o nome que lhe deram (godé de doce de cereja) mas, como disse uma vez um aluno à professora, quando esta o chamou à atenção por estar distraído: não estava distraído, estava concentrado noutra coisa, o godé de doce levou-me às minhas primeiras recordações da minha vida (à volta dos quatro anos). Lembrei-me do meu avô, hospitalizado no ano de 1980 no hospital Curry Cabral, poucos meses antes de morrer, e das visitas que lhe fazíamos. Lembro-me das camas metálicas e das mesinhas de cabeceira, também metálicas de cor branca. Na gaveta o meu avô guardava os godés de doce e dava-nos quando o íamos ver. Para nós, pequenos e sem grandes luxos de vida, aquilo era além de doce uma novidade. E lá comíamos o doce, mesmo lá e sem pão.
Trinta e cinco anos depois, um jantar em silêncio, com música de fundo, com um godé de doce levou-me lá longe, ao meu avô e ao seu gesto simpático de guardar para os filhos mais novos e eu, chegado a eles, estas doces caixinhas. Que doces memórias.
(Não tenho fotografias do meu avô. No entanto, esta, tirada no baptizado do meu irmão, 5 meses depois da morte do meu avo, também é uma doce memória)

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Que sentido dar à Quaresma?

O pior que pode acontecer na liturgia é ela tornar-se um ritual, uma exterioridade. Fazer por fazer, fazer porque fica bem, é entrar na ritualidade e exterioridade que Jesus condena naqueles que vivem para e em função dos outros, em vez de viverem para Deus.
Que sentido, então, devemos dar à Quaresma? Que ela seja simples. Que ela seja sincera, que ela seja profunda.
Que os jejuns que fizermos sejam jejuns perfumados, que as nossas esmolas sejam revestidas do desejo sincero de partilhar. Já nem se pede partilhar o que temos mas, ao menos, do que nos sobra, ou do excesso que nestes quarenta dias vamos reter. Que as nossas orações sejam encontro com Deus; no segredo, eu e Deus, mesmo se for em Igreja.
Que as abstinências que nos impusermos não sejam uma prova de superação de nós próprios, mas sim um contributo à santidade da Igreja.
Que a Quaresma, seja um caminho de humildade, simplicidade e modéstia; sem máscaras, mas em verdade, diante de Deus.

Capelão dos sem-abrigo

Recebi esta manhã a triste notícia da morte de fr. Pedro Meca, dominicano espanhol, há muitos anos a viver em Paris, junto dos sem-abrigo. Ficará certamente conhecido como o capelão dos sem-abrigo,  como já o chamavam.
Conheci-o pelo ano dois mil. Veio a Lisboa e ficou cá no convento. Confesso que, apesar de os meus confrades o acharem o máximo, eu na altura não lhe achei muita graça: vivia quase à margem da comunidade, cabelos compridos, roupa desarranjada... Falou à Comunidade sobre a obra que tinha fundado, "La moquette" (o tapete), uma instituição que está junto aos sem-abrigo. Para além da higiene a alimentação, na impossibilidade de lhes dar casa, abriu uma grande casa, onde desde o final da tarde até meio da noite, para os ouvir, para debaterem (dizia que muitas vezes ficava impressionado com o grau cultural de muitos sem abrigo e, nestes últimos anos, que tínhamos muito a aprender com os sem-abrigo).
Ao longo dos anos, sobretudo nos últimos dois ou três, ganhei-lhe amizade. O que antes pesnava dele, fruto da precipitação dos anos, foi-se transformando em admiração. Admirava o carinho que os sem-abrigo lhe tinham, admirava o ter de abdicar da comunidade por um motivo bem mais alto, estar junto dos pobres, admirava as Missas de Natal que ele celebrava no centro de Paris, numa grande tenda, para os que não tinham onde dormir.
Hoje está certamente à direita de Deus. Porque acolheu quem era errante, e porque era a Cristo que acolhia. Hoje, no seio de Abraão, juntamente com os "Lázaros" a quem tanto bem fez, ouve o convite dos bem-aventurados: Entra na alegria do teu Senhor.

domingo, 8 de fevereiro de 2015

As rotinas de Jesus

Quando nos olhamos ao espelho vemos o nosso rosto. Se a Igreja se visse ao espelho, teria de ver o rosto de Cristo. Seguindo o seu Mestre, a Igreja assume e testemunha a vida de Cristo vivendo-a e pregando-a. No Evangelho deste domingo, que continua o relato da semana passada, conta-nos um dia da vida de Jesus. Certamente que, como nós, Jesus terá tido as suas rotinas, mesmo que cada rotina estivesse cheia de novidade e de esperança. Por este dia-tipo da vida de Jesus, percebemos que se entregou plenamente ao Reino de Deus, entrega essa que não dispensava falar ao povo (pregação), confortar e curar os mais fracos e doentes (milagres) e, sobretudo, não dispensava falar com Deus (oração). Três colunas essenciais para a Igreja como um todo e para cada um dos seus membros. Sempre que falamos de Jesus com palavras e obras, mas sobretudo com a própria vida, sempre que nos aproximamos dos mais fracos e desprotegidos, sejam eles quem forem, sempre que nos retiramos para dar tempo a Deus, estamos ser reflexo de Jesus no nosso mundo. Bom domingo.

domingo, 1 de fevereiro de 2015

Maravilhados com Jesus

O Evangelho deste domingo dá-nos informações importantes sobre o dia-a-dia de Jesus. A primeira é que, depois de sair de Nazaré, a terra onde tinha sido criado, Jesus passa a viver em Cafarnaum. É a sua referência, o seu local de partida e de chegada e também o lugar de permanência. Vários milagres e conversões acontecem nesta cidade. Uma segunda informação diz respeito à pregação de Jesus: falava como quem tem autoridade e não como os escribas. Esta "autoridade" que derivaria naturalmente dos fariseus e dos escribas, é reconhecida não neles mas em Jesus. A pregação de Jesus diferencia-se e distancia-se da das classes sacerdotais de Israel, porque não é proibitiva nem de exclusão mas sim de aproximação a Deus que a todos ama com um amor eterno. Finalmente, a terceira informação é a de que Jesus, na sinagoga, a um sábado, faz um milagre, libertando um homem de um "espírito impuro". Se os que assistiram ao milagre ficaram maravilhados com o que Jesus fez, hoje, cada um de nós, pode perceber que a palavra de Jesus é uma palavra libertadora. Que quando a palavra de Jesus entra na nossa vida tem força para a mudar e voltarmos a recomeçar. Como bem diz o salmo da Missa de hoje: se hoje ouvirmos a voz do Senhor, não fechemos o nosso coração. Se o abrirmos à voz do Senhor, tudo muda e tudo recomeça em Deus. Bom domingo.