sexta-feira, 29 de maio de 2015

O que fica por dizer

Ligou-me uma irmã dominicana a dar-me os parabéns pela João 13 e a dizer que há uma semana que não escrevo nada no blogue. É um facto. Não é por falta do que dizer mas é falta de tempo para o fazer. Cada dia com as suas penas, ou tarefas, ou o queiramos chamar. São as compras e as contas do convento, são as celebrações dos maristas, são as dezenas de mails que precisam de resposta e levam atrasada respostas... são tantas as voltas da vida que algumas curvas vão mais a direito.
Para não chegar aos dez dias sem dizer nada, aqui ficam estas linhas.
E acrescento que ontem, uma amiga minha fez anos e convidou família e amigos mais chegados para uma Missa de Acção de Graças pelo dom da sua vida. Ofereci-lhe um poema de Miguel Torga - o Torga nunca gostou de fazer anos e nunca escreveu nada muito alegre sobre este tema. Mas encontrei um poema que gosto muito e que aqui deixo, até porque não é fácil encontrá-lo na net:
O futuro é o meu reino, e eu caminho!
Lágrimas? Tantas, só de ser artista,
Que, se as lembro, turva-se-me a vista
E não vejo a miragem que adivinho.

Mas nem choro as angústias do passado,
Nem pranteio as presentes;
Vou com os olhos contentes,
Feliz de não chorar por ter chorado.

quarta-feira, 20 de maio de 2015

Associação João13 - Já é oficial

Foi hoje o dia da assinatura da Escritura da Associação João13. Alguns dos Fundadores fomos às assinaturas mas, mais importante que a oficialização foi a Eucaristia que celebrámos na Capela de Nossa Senhora da Conceição da Carreira, que nos acolheu e acolherá no futuro.
Deixo aqui a homilia que escrevi para este dia:


Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.
(Fernando Pessoa)

Queridos amigos,
Quis Deus que fosse hoje o dia da assinatura da escritura da nossa Associação.
Um princípio que tem orientado a minha vida é de me perguntar o que é que Deus quer de mim e o que é que os acontecimentos da minha vida me querem também dizer.
E assim vamos vivendo. Procurando saber o que é que Deus quer e nós sonhando, as coisas acabam por acontecer.
E não tenho dúvidas que o que hoje aqui nasce é porque Deus quer. Nós sonhámos ou acertámos com o querer de Deus.
E porque é este dia e não o de ontem ou de amanhã? Só Deus sabe. Quando soube do dia a primeira coisa que fiz foi ir ao calendário ver duas coisas: que santo e leituras calhavam neste dia.
E são estas duas coisas que queria partilhar hoje convosco.
A Igreja faz hoje memória de São Bernardino de Sena. Um santo franciscano, como franciscano foi este hospício com esta capela onde estamos. Juntamente com os dominicanos fazem parte das ordens mendicantes, ou seja, que não vivem das rendas ou benefícios mas sim do seu trabalho. O radicalismo de São Francisco e de São Domingos voltou a aproximar os que estavam na heresia, por criticarem uma Igreja instalada, rica e poderosa. Estes dois santos, e de certa maneira, São Bernardino de Sena, pelas pregações e modos de vida, ajudaram no reflorescimento da Igreja. Voltou a pobreza, voltou a lei do Evangelho, voltou a alegria de se entregarem aos mais pobres e desvalidos. São Bernardino foi um grande pregador do Santo Nome de Jesus, uma devoção medieval e que prolongou depois pelo Renascimento. E ficou conhecido por isso. Mas, há um episódio das vida dele que merece ser aqui lembrado pela ligação a esta nossa celebração: Bernardino ficou sem os pais muito cedo. Foi uma tia que cuidou dele. Quanto tinha perto de 20 anos, já a pensar em seguir as pegadas de São Francisco, viu um pobre a bater à porta de casa e a tia despachou-se sem lhe dar esmola. Bernardino disse à tia: “Não o mande embora sem lhe dar alguma coisa, por amor de Deus. Se não tiver nada para lhe dar dê-lhe o meu jantar, mas não deixe este pobre passar fome”.
Pregação e exemplo, ou então, o exemplo, o testemunho, é a melhor pregação.
Mas, dizia no início, marca este dia as leituras que a Igreja nos propõe para a nossa celebração. São dois discursos de despedida: o de Paulo, a comunidade de Éfeso e o de Jesus, a oração sacerdotal, que deriva do lava-pés, que dá nome e sentido à nossa Associação.
Que nos diz São Paulo? Que a nossa vida deve estar unida a Deus e enraizada na sua Palavra e que devemos acudir os mais fracos.
E São Paulo lembra uma frase de Jesus, que não vem nos Evangelhos: ‘Há mais felicidade em dar do que em receber”.
Meus queridos amigos, esta frase há-de orientar esta Associação e todo o bem que nela se fizer. E garanto-vos que todos a iremos experimentar quando uma pessoa sem-abrigo vier ter connosco e sermos testemunhas oculares das transformações que se vão operar. Serão coisas simples e básicas da dignidade humana: o acolhimento, o banho, a mudança de roupa e a refeição. Tudo o que nós fazemos quotidianamente e que estas pessoas, por não terem casa nem acessos estão privadas de o fazer. E sentiremos alegria, felicidade, como o pai da parábola do filho pródigo; sentiremos alegria, felicidade, porque nos colocámos ao serviço de quem não nos pode retribuir a não ser, talvez, um sorriso, um “obrigado” ou um “Deus lhe pague”. Iremos sentir alegria e felicidade porque cumprimos o Evangelho naquilo que o Senhor nos diz e confonta: “era sem-abrigo e cuidaste de mim”.
E o Evangelho que escutámos, vemos Jesus a rezar a Deus por nós. Que Deus nos guarde, que sejamos unidos, que Deus nos livre do mal, que nos consagre na verdade.
Jesus, pouco antes da sua prisão e paixão não pede por ele mas sim pelos seus amigos.
A Associação João 13 não pode esquecer a dimensão da oração. Esta capela que hoje nos reúne, será o lugar das nossas orações, com os pobres e pelos pobres, com os que constantemente são injustiçados e pelos que promovem a justiça, com os que andam tristes e pelos que têm neste mundo a missão de consolar e dar esperança, com os que sofrem violência e pelos que promovem a paz. A nossa oração será solidária, atenta às necessidades do mundo, porque vivemos neste mundo.
Que Deus leve a bom porto esta nossa Associação e o nosso propósito de sermos presença de Jesus e da Igreja junto dos descartáveis. Que a alegria que sentimos em estarmos ao serviço dos pobres seja contagiante para que sigamos o projecto de Jesus que quer a vida e a dignidade de todos. Que este caminho que hoje iniciamos nos ajude no caminho de santidade que todos devemos percorrer.

sábado, 16 de maio de 2015

Dias longos mas luminosos

Dia especialmente pesado, o de hoje. Logo manhã cedo, depois das Laudes, enviar os mails que, se não seguissem cedo, já ficariam para amanhã. Começo a bater o meu record de mails, nunca menos de trinta ou quarenta, com pedidos, perguntas, informações... E ter de responder a tudo. Como diz um amigo meu, antigamente é que era bom: enquanto a carta era escrita e chegava, a resposta se fazia e se enviava, sempre se descansava. E depois dos mails, a meia-manhã, reunião com o Presidente e com o Assessor da Junta de Freguesia de Santo António. Têm preocupações e consciência social, o que me agrada. O Presidente da Junta passa os dias nas ruas, com as pessoas, encontrei-o num café quando estava a subir a rua.O motivo era avançar um pouco mais depois do nosso primeiro encontro: a elaboração de um protocolo, um espaço que possamos ter para deixarmos as nossas coisas e quais os limites, que são poucos, dada a abertura do Presidente. Une-nos a questão social. O que é óptimo. O factor cristão também está lá. Nós, João13, trocamos a política pelo Evangelho.
Já da parte da tarde tive que passar no hospital, meio em vão, porque o pedido que me fizeram, foi afinal desfeito. Regresso a casa e ponho os fundadores ao corrente da reunião e dos próximos dias, alguns telefonemas não menos importantes... Quis Deus que tudo isto se passasse em Maio, seja Deus servido, conhecido e amado.
Depois do jantar celebração mariana nos Maristas. Terço, como costuma ser, mas este ano, com o grupo dos alunos do secundário que, na próxima semana, irá a pé a Fátima. Estiveram no terço e depois vieram ao convento continuar e terminar a sua vigília, e eu com eles. Em cada conta do terço acende-se uma vela, que no fim termina num desenho. O deste ano foi um coração, que também é o símbolo dos maristas.
Tudo terminado, tempo de descansar que o dia de amanhã não é menos brando. Boa noite.

quinta-feira, 14 de maio de 2015

Pequenos gestos que nos trazem a felicidade

Ontem, alguns da João 13 fomos ao Centro de Apoio Social dos Anjos. Tínhamos pedido esta visita e foi importante porque tem as três valências que a João 13 vai também desenvolver: o banho, a roupa e a refeição. A Directora do CASA foi muito simpática e mostrou-nos tudo. Falou-nos da realidade teórica e prática. No refeitório estavam pessoas sem-abrigo a jantar: sopa, esparguete com carne assada e salada, fruta ou iogurte. Impressionou-me ninguém falar com ninguém. Mas é assim, não são um grupo, só partilham a mesma sorte, não há muito a contar. Mas no centro de acolhimento, onde estão 15 pessoas, fala-se. Encontrámos um senhor, de 59 anos, que contou-nos a sua história sem nós pedirmos: que tinha vivido no jardim do Campo Grande, que nem no Júlio de Matos o tinham aceitado de tão mau aspecto ter. Foi ali recebido e agora era outro. Estava despreocupado porque finalmente lhe tinham cortado as unhas dos pés, coisa que em três hospitais não tinham conseguido, mas estava preocupado porque hoje tinha qualquer coisa marcada e não tinha conseguido que lhe fizessem a barba. Mostrou a mão que tinha sido serrada numa máquina de madeiras que foi reconstruída. Bem-disposto e simpático, dei-lhe um aperto de mão quando nos viemos embora.
A diferença entre um lar ou um centro de dia e um centro de acolhimento é ténue. Não há maus-cheiros, as pessoas são conhecidas pelos nomes e é um bom serviço que se presta. Este centro está aberto 24 horas por dia 365 dias no ano. Grande trabalho e grande dedicação.
A ida a este centro foi importante porque, por um lado, confirmou o nosso propósito e, por outro, despertou-nos para a necessidade de formação que devemos ter porque a questão é complexa.
Hoje celebrei no Colégio do Sagrado Coração de Maria com alunos do 8º ano. Falei-lhes da importância de ir ao encontro dos outros, do estarmos atentos aos outros, ao sermos felizes fazendo felizes os outros, da maior alegria em dar do que em receber... dos gestos simples mas que fazem a diferença, sempre a lembrar-me de um vídeo que há dias uma amiga minha me mandou e que agora aqui partilho. A tradução em português do Brasil não é a melhor mas poderão sempre encontrar o original.


segunda-feira, 11 de maio de 2015

O caminho da vida

Nestes dias tenho vindo a acompanhar um grupo de peregrinos a pé a Fátima.
Um grupo de 50 pessoas, que arduamente vão caminhando etapa em etapa, até chegar às celebrações do 13 de Maio.
Apesar de ser uma pergunta retórica, não a deixo de fazer quando passo por pessoas que vão a pé a caminho de Fátima: que levará estas pessoas a fazer esta caminhada? As motivações, obviamente, são da mais diversa ordem: cumprir uma promessa, ir a acompanhar alguém, pela camaradagem, porque sim... Mas Deus pede isto? Não. Como disse uma senhora: "Não é Deus quem quer, sou eu quem quero. E agora?" Boa resposta. Deus não quer, de facto. Ou melhor, a Deus agradaria bem mais o caminho interior que muitas vezes fica por fazer.
No sábado tivemos a Missa da partida: às 4.30 da manhã. Cada um levava uma flor para colocar aos pés da imagem de Nossa Senhora. Depois da bênção lá foram eles, alegres a caminhar caminhos conhecidos. Ontem fui celebrar Missa com eles às 15h,  já perto de Santarém. Era fim de etapa, que muito jeito lhes deu, para poderem descansar e evitar o cálido sol, que ontem mostrou a sua força. No fim da Missa fui à farmácia comprar-lhes uns pensos para as bolhas e aproveitei para lhes levar também umas caixas de morangos fresquinhos.
Hoje juntei-me a eles às 10.30, para lhes celebrar Missa na Torre do Bispo e depois almoçar com eles em Pernes. À medida que nos aproximamos de Fátima, o carreirinho de pessoas torna-se mais intenso: uma cruz ou um uma imagem de nossa Senhora à frente, muita gente com o terço na mão, vamos apitando e eles vão levantando a mão, como sinal de solidariedade.
A esta hora chegaram já a Alcanena, onde vão poder jantar e descansar. Amanhã cedo parte tudo para Fátima, última etapa, entre vozes de alegria e alguma emoção.
Há já quem faça esta peregrinação há muitos anos. O mais velho deste grupo tem 82 anos. Sempre na linha da frente, com uma cruz ao peito a abrir este caminho de fé. Os que estão a fazer pela primeira vez já começam a dizer que sempre que puderem voltarão a vir.
Estes são os caminhos de Fátima e os caminhos da vida. O esforço não será em vão. Uma vida que não se exponha a esforços e a sacrifícios é uma vida desinteressante. Estes meus amigos prometem que rezarão por mim em Fátima. Agradeço-lhes e digo-lhes que também eu rezarei por eles. Esta é a comunhão de orações.

sexta-feira, 8 de maio de 2015

Nome já tem: João 13

Apesar de ter de traduzir para português escrevo em latim: Gaudium magnum annuntio vobis. Habemus nomem: Ioanes tredicim! (Anuncio-vos uma grande alegria. Já temos nome: João 13).
Acabo de receber, neste dia formoso de oito de Maio, a boa notícia de que o nome da Associação que, dentro de dias se vai oficializar, pode ter este nome.
A ideia é decalcada numa outra associação, Mateus XXV, que é uma associação de voluntários cristão ao serviço dos doentes. Esta é diferente. É uma associação de inspiração cristã, aberta a todos, ao serviço dos sem-abrigo, para lhes proporcionar a possibilidade de tomar um banho, mudar de roupa e ter uma refeição sentados à mesa, num refeitório.
Mesmo sem a certeza de que este nome poderia ser, foi adoptado desde o início, pelo grupo de fundadores, que serão trinta e três.
Pelo que me contou a jurista que nos está a ajudar a oficializar tudo, nas associações que levam nome próprio é necessário que um dos fundadores tenha esse nome. Apesar desta estar ligada ao Evangelho e não a uma pessoa, o que é facto é que mantiveram essa exigência. E não é que o 33º fundador se chama João? Coincidências que não existem ou que são os propósitos de Deus.
Neste formoso dia oito, em que nós, dominicanos, celebramos a especial protecção de Nossa Senhora sobre a Ordem Dominicana, esta notícia faz-nos sentir a presença de Maria, fazendo-nos dizer sim aos apelos de Deus.
E que o bom Deus leve a bom termo o que de bom aqui se inicia.

quarta-feira, 6 de maio de 2015

E o melhor do mundo são as crianças

Após uma grande ausência da Ajuda de Berço - sempre mais temporal que emocional - passei esta tarde lá para estar com os miúdos. Saudades de todos, muita alegria, novidades, e colo daqui, colo dali, uns cresceram, outros estão barrigudos e outros até dizem que já têm barba como eu (tudo expressões deles, claro).
No final da tarde encontrei o meu amigo Rafael, sempre com muitas saudades, e ajudei-o a fazer os trabalhos de Matemática, colorir umas histórias e interpretar um trava-línguas: "Cose Casimira em casa, cada casa da camisa". Lá lhe expliquei o sentido da frase para ele poder fazer o desenho: uma senhora com uma agulha na mão e uma camisola ao lado. Tudo dentro de uma casa. Quando acabou de fazer as fichas colocou o nome e a data. Perguntei-lhe se sabia porque é que era o mês cinco e ele respondeu prontamente: porque é o mês de Maio. Mas não conseguiu explicar o porquê do 2015. A primeira resposta - lógica - foi a de: foi porque quando começou o mundo. E eu lá lhe disse que era por causa de Jesus. Na segunda ficha voltei a fazer as perguntas e respondeu bem. E acrescentou: é que Jesus nasceu no dia zero, mês zero e ano zero! Eu eu disse, devia ter sido mas enganaram-se nas contas.
Foi um momento bonito, ele inteligente e atento, no final disse-me: já sabes, quando eu vier da escola e trouxer a mala para aqui é porque tenho trabalhos. Os outros, que iam passando, respeitavam o trabalho do Rafael.
Cada vez compreendo mais a comparação de Jesus do cristão com as crianças: "quem não se tornar como uma criança não entrará no Reino dos céus".
E, ao chegar, tinha entre os meus mails, um emocionante vídeo de uma criança brasileira que, na viagem do Papa Francisco ao Brasil, foi dos que conseguiu subir ao carro e dizer-lhe que queria ser padre. Vale a pena ver.


domingo, 3 de maio de 2015

Permanecer

O Evangelho deste V Domingo da Páscoa repete por oito vezes o verbo permanecer. É Jesus quem o usa para dizer como deve ser a nossa relação com ele: unidos, como os ramos à vide, deixando-nos podar por Deus, o agricultor, mas sempre unidos (permanecidos) em Cristo. Dele nos vem a seiva que nos alimenta (a sua palavra, o seu sangue, a sua força) e nos faz dar fruto. Deus quer que demos fruto e, podando-nos, possamos dar ainda mais fruto.
Talvez hoje as nossas sociedades e a nossa cultura tenham perdido a força do que significa "permanecer". Não basta estar no mesmo lugar e não é ir e vir. Permanecer é estar junto em intensidade e imensidade. Que o Agricultor das nossas vidas nos ensine a permanecer junto a Jesus e aos irmãos. Bom domingo!