sábado, 31 de outubro de 2015

Bruxas? Não, prefiro os santos, obrigado.

Esta mania americanizada, ou sei lá bem de onde veio, de querer transformar este dia de todos os santos em dias das bruxas, não tem piada nenhuma. O nome, apesar de ainda ter reminiscências cristãs, é decorado, com um tremendo mau gosto, de teias de aranha, morcegos, abóboras iluminadas, caveiras e bruxas. Os meus freis angolanos estavam atónitos a ver as montras sem perceber. E eu dei comigo a pensar que estes carnavais obsoletos e importados estragam este dia, que devia ser de festa, e de lembrarmos os que nos precederam agora estão junto de Deus. Não consigo perceber a piada de ligar este dia a ossos e caveiras. Prefiro as auréolas e os santos, as suas vidas e exemplos, tantas palavras e obras de gente que não entrou nos catálogos das canonizações mas que gozam da mesma alegria de Deus. Servos e servas boas e fiéis que entraram na alegria do seu Senhor. Homens e mulheres discretos e simples, que aprenderam do seu Mestre a  passar a vida a fazer o o bem, que se entregaram a Deus ao entregarem-se aos irmãos. É isto não tem nada ver com ossos nem bruxas, nem mesmo com cemitérios, porque a memória é viva e os que vivem e amamos continuarão vivos na nossa memória, mesmo se não convivemos com eles.
E a tonta da bruxa teima em aparecer, a zanzar, a querer distrair e disfarçar a beleza e a alegria dos santos.

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Mandatos

Hoje, no Convento, haverá eleições. O prior cessou o seu mandato na semana passada e marcámos a eleição de prior para hoje. Neste interregno o subprior é quem orienta a vida comunitária e preside à eleição. Coube-me a mim esta tarefa: convocar os frades para a eleição, ir orientando a vida do dia-a-dia, presidir à eleição, que começa com a Missa do Espírito Santo. Depois do jantar procedemos à eleição como determinam as nossas Constituições.
Aqui deixo a homilia da Missa desta tarde, pedindo que rezem por esta comunidade, para que seja um testemunho do Evangelho pela vida comum e pela pregação:
Mandam as nossas Constituições que, nas eleições dos superiores, se celebre a Missa do Espírito Santo.
É o que estamos a fazer não porque há uma lei que nos obriga mas porque acreditamos que a força de Deus nos acompanha, inspira e transforma.
A Palavra de Deus que escutámos, diz-nos duas coisas que nos ajudam a orientar a nossa vida e em perceber que na base dos ministérios e ofícios que somos chamados a desempenhar deve estar o serviço e a dedicação aos irmãos.
Na primeira leitura São Paulo pede-nos para que a nossa vida ganhe uma dimensão sobrenatural, que nos deixemos conduzir pela força e pela Palavra de Deus, que é o seu Espírito.
É não se deixar levar pelo próprio interesse, pelo egoísmo, pelo orgulho, pelo tirar partido das situações e das pessoas…
Viver e caminhar pelo Espírito vivermos em paz e sermos instrumentos de paz, é sermos alegres e pacientes, é vivermos para os outros, em dedicação e serviço, na caridade e na justiça.
Pelo nosso baptismo e pela nossa consagração pertencemos a Cristo, somos seus discípulos e, como escutámos no Evangelho, ser discípulo é imitar o Mestre em palavras e obras, percebendo e sentindo que há mais alegria em dar que em receber.
Deixar que o Espírito Santo actue em nós e através de nós. Viver segundo o Espírito é estar aberto à novidade de Deus apesar das rotinas da vida, é dar o toque de Deus ao que se pode tornar institucional, insensível, cumprimento de leis e regras, é dar calor à vida, deixar-se aquecer pelo fogo do Espírito arde em nós, escondido.
É este Espírito Santo, fonte de vida e de calor, que inspira as nossas palavras e obras quando nos abrimos à suavidade do seu amor, que invocamos neste dia, aqui reunidos, para elegermos o prior para a nossa comunidade.
O Evangelho que escutámos fala por si e as nossas Constituições dizem-no claramente: o prior não se considere feliz por dominar com poder mas em servir com caridade. Olhamos para Jesus e vemos nele um exemplo de serviço e de dedicação para com todos. Não em episódios esporádicos mas uma constante na sua vida. E pede aos discípulos que o imitem e pratiquem o serviço entre eles e com os demais. Que na comunidade não haja rivalidades nem ambições, que tudo se faça para o bem comum, com humildade e paciência.
O prior terá sempre que ser o primeiro a servir e a construir comunidade mas não pode ser o único. Todos nós, os que o elegemos e que aqui vivemos, devemos edificar a nossa comunidade, para vivermos em paz, sermos assíduos no estudo e diligentes na pregação.
Peçamos, então, ao Espírito Santo para que nos inspire e oriente, não em função do bem pessoal mas do bem comum, do bem desta comunidade. E que nos conceda um prior, um irmão que seja prudente, caritativo, zeloso pela observância regular e pelo apostolado.

domingo, 18 de outubro de 2015

No fim deste dia

Uma menina da Missa do Campo Grande fez este desenho e ofereceu-mo no fim da Missa. Quanto não vale a simplicidade das crianças...

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Oração com os que sofrem e pelos que sofrem

Esta noite, pelas 21.15, oração com os que sofrem e pelos que sofrem. Nesta noite lembraremos os que sofrem a solidão, quer por terem perdido a companhia ou a alegria de viver. Na Capela da Carreira, Rua Gomes Freire, 70.

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Ser bem falado

Morreu, nesta tarde de domingo, o irmão mais velho da comunidade em que vivo. José de nascimento, Francisco Xavier de religião, mas simplesmente conhecido por frei Xavier. Oitenta e oito anos de idade, sessenta e dois dos quais como dominicano, irmão cooperador, a grande presença no convento de São Domingos. Dizia ele, várias vezes, que para alguém ser bem falado tinha de mudar de terra ou de morrer. E o fr. Xavier, apesar de ter morrido e mudado de terra, justiça lhe seja feita, foi e tem que ser bem falado. E, na sua vida - eu só convivi com ele dezassete anos - viveu para as várias comunidades por onde passou. Nos últimos anos tornei-me mais próximo, em primeiro lugar como prior, onde ele me ia aconselhando nas várias coisas da vida comum, depois como ecónomo e, agora como filho ou pai. Nas várias vezes que o levei ao hospital ou a outras consultas perguntavam-se se era filho e eu respondia que sim; perguntava se era neto e eu dizia que sim; e uma vez, ao rirmos no recreio sobre isto disse-me ele: tem feito por mim o que muitos filhos não teriam feito. Convivi com a força e com a debilidade do fr. Xavier. Nos últimos meses, a idade e a doença foram-no enfraquecendo até ao dia de hoje, em que se entregou a Deus. Há uns anos atrás, uns três ou quatro, ofereceu-me o seu rosário: que ele não usava e que eu podia gostar de o usar. Entrar no quarto dele é ver um exemplo vivo de pobreza e de simplicidade. à sua vida pode bem aplicar-se o que São Paulo diz: fiz-me tudo para todos. Sim, fez tudo o que estava ao seu alcance para bem a comunidade: nós íamos e vínhamos, e ele estava. A gratidão não nos pode fazer esquecer as pequenas reparações que fazia no convento, os jardins sempre num primor, as preparações das refeições quando não havia cozinheira...Sem queixas nem cansaços.
Hoje, dou graças a Deus pela sua vida e pela honra que me deu em termos convivido ao longo destes anos e, de um modo mais próximo, nestes últimos meses: ajudá-lo a vestir-se, levá-lo às consultas, animando-o a que tudo isto iria correr bem. A última vez que falámos foi quando o levei para o hospital: ajudei-o a sair da cama e a vestir-se, fiz-lhe uma sopa que me pediu... estive com ele na consulta que o levou à operação, em que pela úlima vez me perguntaram quem eu era: sou filho, ou neto, o que quiser escrever, respondi eu.
Ao frei Xavier tenho-o como um irmão mais velho, um avô sábio, alguém que me diz hoje: nunca deixes de ajudar quem te pedir ajuda.
Que este meu irmão, tão útil aqui na terra, me seja agora útil no céu. Que o Pai das misericórdias lhe perdoe o que ficou por perdoar e que lhe dê a recompensa do bem que fez. Na balança de Deus pesa sempre mais o bem que fazemos.
E, agora sim frei Xavier, adeus: até Deus.

terça-feira, 6 de outubro de 2015

A mim o fizestes

Começa hoje o voluntariado da João 13 junto das pessoas sem-abrigo.
Entrego a Deus e às orações de quem se une a esta causa o futuro desta missão, não esquecendo nunca que sempre que ajudamos alguém que precisa é ao Senhor que ajudamos.