Espiritualidade dominicana - textos de apoio (sessão 6)

 

(Texto de Bernard Gui (1260-1331) sobre os cátaros) 

A seita, a heresia e os sequazes desenvolvimentos dos Maniqueus reconhecem e confessam dois Deuses ou dois Senhores, um Deus bom e um Deus mau. Afirmam que a criação de todas as coisas visíveis e materiais não é obra de Deus. o Pai celeste – aquele a quem chamam o Deus bom –, mas obra do diabo e de Satã, do Deus mau. Distinguem, portanto, dois criadores: Deus e o diabo; e duas criações: uma dos seres invisíveis e imateriais, outra das coisas visíveis e materiais. Do mesmo modo, imaginam duas igrejas: uma, a boa, que é a sua seita, dizem eles, a verdadeira Igreja de Jesus Cristo; a outra, a má, que é a Igreja romana; chamam-na impudentemente mãe das fornicações, grande Babilónia, cortesã e basílica do diabo, sinagoga de Satã [...]. Substituem o baptismo de água por outro, este espiritual, chamado consolamentum do Espírito Santo, quando, por exemplo, recebem uma pessoa, saudável ou doente, na sua seita ou na sua ordem, impondo as mãos conforme o seu execrável rito […]. Negam a Encarnação de nosso Senhor Jesus Cristo no seio de Maria sempre virgem e defendem que não tomou um corpo real nem uma verdadeira carne humana como têm os outros homens em virtude da natureza humana, que não sofreu nem morreu na cruz, não ressuscitou dos mortos nem subiu ao céu com um corpo e uma carne humana, mas que tudo isso não passa de um simbolismo [...]. Denominam-se hereges imperfeitos aqueles que na verdade têm a fé dos hereges, mas que na sua vida não seguem nem observam os seus ritos; na linguagem mentirosa dos heréticos são chamados crentes. Denominam-se, pelo contrário, perfeitos os heréticos que professaram a fé dos hereges e vivem de acordo com ela, cumprindo e observando os ritos que ela comporta; são eles que dogmatizam os outros […]. 

(Texto do Opúsculo, do Beato Jordão de Saxónia, sobre a morte do bispo Diego de Acebes) 

Conhecida a notícia da morte do homem de Deus, o bispo Diogo, todos os que tinham ficado naquelas terras tolosanas foram para suas casas. Só ali ficou frei Domingos na continuidade da pregação. Alguns ainda o seguiram por algum tempo sem estarem sujeitos a ele pela obediência. Entre eles ficaram: o já citado Guilherme Claret, e um tal frei Domingos Espanhol, que, mais tarde, foi, em Espanha, prior de Madrid. 

(Texto da Legenda de São Domingos, de fr. Pedro Ferrando, sobre uma “disputa” de São Domingos)

Naquele tempo e naquela região, era frequente organizarem-se disputas entre católicos e hereges sob juízes designados; a elas assistia grande número de homens e mulheres, ricos e nobres, e do povo. Como, porém, uma vez, em Fanjeaux se levantasse uma célebre disputa, alguns hereges começaram a redigir escritos contra a fé. Também vários fiéis, tendo coligido argumentos e citações de autoridade para confirmação da fé começaram a redigir os seus escritos; tendo estes sido examinados com todo o cuidado, foi recomendado e comummente aprovados de entre todos, o opúsculo redigido pelo bem-aventurado Domingos. No dia marcado, portanto, juntou-se uma enorme multidão de povo; vieram os juízes, vieram os contendentes; põem-se no centro os opúsculos de ambas as partes: um do bem-aventurado Domingos e outro dum herege. A disputa prolongou-se sobre qual deles seria mais razoável. Como, pelo diálogo, não foi possível chegar-se a uma conclusão, os juízes foram de parecer, lançar os dois escritos às chamas e, se algum deles saísse ileso, seria sem dúvida tido como o verdadeiro testemunho da fé. Acendeu-se, pois, uma fogueira e lançaram nela os dois opúsculos. O do herege foi imediatamente devorado pelas chamas, mas o opúsculo do bem-aventurado Domingos não só não sofreu a menor chamuscadela, mas até foi lançado pelo fogo para longe. Atirado ainda às chamas mais uma e outra vez, saiu delas sem se queimar. Isto demonstrou claramente quer a verdade da fé católica quer a santidade do seu autor, Domingos. 

(Texto da Suma Teológica de São Tomás de Aquino sobre a justificação teológica da repressão contra os hereges) 

Relativamente aos hereges, há duas coisas que devem ser tidas em consideração: uma da sua parte, outra da parte da Igreja. Da parte deles existe, indubitavelmente , um pecado pelo qual mereceram não só ser separados da Igreja pela excomunhão , mas também ser arrancados ao mundo pela morte. De facto, é muito mais grave corromper a fé que assegura a vida da alma do que falsificar a moeda que permite prover à vida temporal. Por conseguinte, se os moedeiros falsos ou outros malfeitores são imediatamente condenados à morte justamente pelos príncipes seculares, com maior razão poderiam os heréticos, uma vez reconhecidos culpados de heresia, ser não só excomungados, mas com toda a justiça condenados à morte. Da parte da Igreja, pelo contrário, há uma misericórdia com vista à conversão daqueles que laboram no erro. É por isso que ela não condena imediatamente, mas “depois de uma primeira e uma segunda advertência”, como ensina o Apóstolo. Depois disto, se o herético continua obstinado, a Igreja, que já não espera a sua salvação, provê à salvação dos outros expulsando-o por urna sentença de excomunhão e entregando-o ulteriormente ao julgamento secular para que seja arrancado ao mundo pela morte.

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