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Ao regressar de Aveiro

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Estou a chegar de Aveiro. Fui lá fazer uma conferência sobre Nossa Senhora. A casa das Irmãs Dominicanas de Santa Catarina de Sena tem lá a "enfermaria provincial" (não sei se este é nome oficial). E a emoção é muita quando visito as irmãs doentes. E mais me emociona o amor e o carinho que as Irmãs têm no cuidado para com estas Irmãs que gastaram a sua vida fazendo o bem e agora estão acamadas, ou são muito velhinhas, ou estão mais esquecidas... Contam-me como entraram lá e como estão; as que já partiram e as que estão de novo. Tudo tão silencioso, limpo, bem cuidado... Quanta presença de Deus! O piso das irmãs doentes é, para mim, um verdadeiro santuário. E agradeço (quem sou eu para agradecer) a dedicação destas irmãs. Digo-lhes muito: já têm o céu garantido. E elas respondem-me: também temos o nosso feitio... Como todos. Mas Deus prefere olhar ao bem que fazemos. Esse sim tem mérito, dá frutos e edifica. (imagem: Edy Legrand, o bom samaritano, 1950)

Três apontamentos

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Neste meu silêncio, já a semana vai a chegar ao seu termo e, de facto, sinto algumas melhoras, poucas mas algumas, deixo três apontamentos, diferentes entre eles. 1. Quando tomo medicamentos lembro-me quase sempre de uma série infantil dos meus anos de criança "O corpo humano". Há dias vi que relançaram a série, talvez melhorada e acrescentada. Mas imagino os grande combates entre os maus e os bons, entre os intrusos e os do corpo, ajudados pelos medicamentos que ingerimos. Uma verdadeira quimera para o corpo, imagino. 2. Ainda no plano das doenças, aproveitei estes dias para escrever uma conferência que vou fazer no próximo mês, com o título "O tempo da doença, oportunidade para o reencontro com Deus". Pedem a experiência de um capelão. A minha experiência será sempre limitada enquanto não for "tocado na carne". Expressão violenta, esta, tirada do livro de Job, mas que significa isto mesmo; experimentar em si próprio a dor e o sofrimento. Enquanto ...

Sexta-feira Santa - A Parasceve

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" Hão-de olhar para aquele que trespassaram " (Jo 19, 37). 1. Hoje é dia de Sexta-feira Santa. Para os cristãos, um dia memorável. Não estamos tristes. Se hoje estamos mais calados ou menos sorridentes, é porque o que aconteceu naquela sexta-feira foi para nós importante, objeto de constante meditação. É dia de sobriedade. A própria liturgia convida ao despojamento através das suas músicas e dos seus rituais. Hoje não se celebra a Eucaristia. A razão é simples: se a Eucaristia é o memorial da morte de Jesus, o dia de hoje é, por ele próprio, sacramento da morte de Jesus. Mas a Igreja reúne-se numa celebração litúrgica. Reúne-se para escutar os mais belos textos da Paixão (Isaías, Carta aos Hebreus e Paixão de São João);  reúne-se para rezar por todas as grandes preocupações da Igreja, desde o Papa até aos não crentes: é a mais longa oração universal do ano litúrgico; reúne-se para adorar "o madeiro da Cruz, no qual esteve suspenso o salvador do mundo". Não com lá...

O meu Cristo sem cruz

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O Cristo que hoje vejo não está numa cruz. Vejo-o na cama, deitado, quase apagado, mas sem as dores nem as marcas de Jesus crucificado. Da cama onde está, envolvido num sudário comum, de mãos abertas e pés cruzados, não cita salmos. Respira fundo, habita o profundo nestes silêncios calmos. Voltado para Deus -virá da janela ou da porta? - espera, respira, volta-se, e sente a brisa suave, a mesma de Elias, que refresca o seu corpo doente e alivia o peso dos dias. O resto já não lhe importa. (Imagem de Georges Henri Rouault)

De mãos dadas

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O meu calvário é um hospital e a minha cruz é uma cama. Os pregos foram trocados por catéteres e tubos, em vez de fel e vinagre dão-me injecções e comprimidos. Não sou um novo Cristo nem o Servo de Deus, mas estamos unidos nas mesmas penas e nas mesmas paixões. As manhãs passam-se em limpezas de maus cheiros, as tardes com visitas que cansam e as noites com barulhos incómodos. Quando se está doente tudo irrita porque a paciência é pouca. E vou olhando quem me visita. E pergunto porquê? Porque é que vieram? Por amizade, talvez, mas as caras que trazem são de inquietação, de tristeza, talvez já se adivinhe que o que aí vem pode não ser bom. E faltam as forças. Há visitas mais assíduas, as do dever, as da amizade, as da família, as do interesse, e há também as não visitas. Sim, há gente que não me visita. Porque não me quer ver assim, porque acha que em breve vou para casa... mas a verdade é que estou aqui há muito tempo. E fecho os olhos. De cansaço. Parece que vejo o meu corpo, os meus ...

Homem de dores

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" Sou contado entre os que descem à sepultura / sou um homem já sem forças ". Este é um versículo do salmo 87, que o autor intitulou de «Oração do homem gravemente enfermo». Os salmos são poemas da vida. Quem os escreveu, escreveu-os a partir da sua vida, dos seus sentimentos, da sua relação com Deus. E, às vezes, só fugindo do real, é que se consegue exprimir o que se sente através de um traço escrito ou desenhado, de um som que ganha tempo e forma numa pauta de música ou num instrumento. Este salmo é triste, ou melhor, é uma oração triste, de um homem muito doente, quase sem forças, porque as poucas que tem gasta-as no grito da oração. Esta foi a oração de um homem, incógnito. Esta foi a oração de um povo que sentiu, como comunidade, a distância de Deus " Porque então me afastais de Vós, Senhor / porque escondeis de mim o vosso rosto? ". Mas não deixa de o invocar. Este salmo foi o salmo de Jesus. Num momento igual ao deste autor. Não por doença mas pelo seu sofr...

Os embates da vida

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Entender a vida como uma planície, verde, cheia de beleza, sem mais nada, é uma ilusão. Uma paisagem bonita é aquela em que a combinação de volumes, cores e odores é quase perfeita. E assim é a nossa vida. Talvez no meio da montanha não tenha tanta piada como vê-la ao longe ou do seu cume o horizonte dos nosso olhar. Sendo a nossa vida uma paisagem, que será a planície ou a montanha? Cicatrizes dos embates da vida. Ontem, duas conversas amargas. Duas grandes montanhas (por vezes esquecemo-nos que a beleza de uma montanha foi o resultado de um violento embate da terra) numa paisagem tão plana e tão calma. Uma mãe, num estúpido acidente - daquelas situações em que se diz à hora errada no sítio errado - perde um dos filhos. No hospital, entre lágrimas, vai desfiando as suas dores e angústias, como quem vai passando as contas de um rosário. Diz-me que teve a honra de o ver nascer e de o ver morrer. Diz que lhe custa não ter o filho, não o ver. Diz que ainda não descobriu o outro modo de pr...

O calvário do mundo

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Sexta-feira, dia de trabalho no hospital. Que hoje me pareceu uma verdadeira Via-Sacra: as estações são os quartos onde estão os Cristos deitados na sua cruz que é a cama com cireneus - os médicos e todos os que cuidam deles - e até a pouca companhia como Jesus na cruz. Um verdadeiro calvário. Não me entendam como se dissesse que o hospital é um lugar terrível ou até evitável. Não, a cama de um hospital é um calvário, no que traz de sofrimento, de aceitação ou revolta, de esperança e de confiança em Deus, se nele crêem. Três estações marcaram este dia (estação quer dizer paragem). Um doente que recebe uma notícia não muito feliz, que também não era nada que não estivesse já no horizonte. Este doente, depois da visita do médico e já comigo diz-me: clinicamente não há tratamento eficaz, estou com Deus, quero preparar-me espiritualmente para ter forças. E comungou. Aqui temos um Cristo que hoje transmitiu assim a sua entrega, que não é muito diferente da de Cristo na Cruz: "Pai, nas ...

Uma cruz

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" O frei Filipe leva a cruz da Rosário !" " Não. A cruz da Rosário não a posso levar. Quanto muito, esta cruz pode-me lembrar a cruz da Rosário e rezar por ela ". Foi assim, meio a brincar meio a sério, que na terça-feira comentavam a oferta desta cruz. A Rosário desfazia-se dela. " Esta cruz faz parte do meu exílio. Nunca a cheguei a pendurar ". É uma cruz de areia, simples, adquirida num mosteiro da Galiza. Não teve direito a embrulho, trouxe-a na mão, foi vista, comentada e agora está em cima da secretária. Curiosamente anda nas letras da imprensa e nas vozes da televisão a polémica das cruzes em edifícios públicos. Nós, cristãos, não poderíamos ter outro símbolo que nos dissesse tanto. É daqui que Cristo reina, é na cruz que nós encontramos o conforto e a esperança para os nossos sofrimentos e para os sofrimentos do mundo. Já que não nos podemos crucificar, ao menos podemos agarrar-nos ao Crucificado e à sua cruz. A cruz leva-nos ao amor de Deus. A cru...

Um livro novo

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Hoje tem sido um dia calmo. De silêncio. Os frades mais novos foram de passeio, alguns estão em Fátima, ficámos cá poucos. Depois do almoço fui a uma livraria inspirar-me para uma prenda que vou oferecer daqui a pouco a uma amiga minha que faz hoje anos. Não estava nada inspirado mas, de repente, encontrei um livro muito interessante e de grande interioridade. " Saber esperar " é uma colectânea de pensamentos de um frade trapista do início do século passado, frei Maria Rafael Báron (1911-1937), canonizado no passado domingo, homem de existência breve, devido a uma grave doença que ele nunca encarou como uma desgraça mas como um deixar-se levar por Cristo, fazendo a sua vontade e sofrendo com ele e por ele. Como acontece algumas vezes, comprei dois: um para ela, outro para mim. E o meu já o utilizei. Vou falar deste místico amanhã, na missa, a propósito do sofrimento. Partilho convosco um dos 1010 pensamentos que este livro tem: " Não te preocupe nem o choro nem o riso. Q...

O pilar de Deus

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Foi com este sub-título que uma jornalista do Público escreveu hoje no P2 sobre um monumento antigo e nobre da Síria: a basílica de São Simeão. Já ontem tinha feito uma reportagem sobre um antigo mosteiro do século VI "Deir Mar Musa": Mosteiro de São Moisés ( http://www.deirmarmusa.org/ ). Mas hoje este 'pilar de Deus' fez-me pensar numa espiritualidade dos Padres do deserto muito ligada à solidão e ao sofrimento. O Pilar de Deus, São Simeão foi um homem que viveu na Síria, no século V. Uma vida de abnegação e martírio, como descreve a jornalista, este homem de Deus passou a vida a arranjar maneira de se macerar: desde se enterrar até ao peito e sofrer o calor e o frio, passando por uma corda que colocou à cintura e que, de tão apertada que estava, cravou-se na carne e quando o abade deu conta estava podre e criava larvas. Expulso do mosteiro enfiou-se num poço seco onde convivia com cobras e escorpiões. Ele é o pilar de Deus porque dos 33 anos até aos 70 foi viver em...

Dia de alegrias e tristezas

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1. Ontem um frade dominicano, um pouco mais novo que eu, fez a sua profis-são solene (votos perpétuos). Tem dois significados: o primeiro é que se trata de uma consagração a Deus "até à morte". Aquela semente que se semeou no baptismo começa agora a dar bom fruto. Que Deus leve a bom termo esta promessa que este meu confrade ontem fez. O outro significado é mais prático. A partir de agora este frade tem poder de decisão nas coisas da Ordem. Em linguagem canónica dizemos que passa a ter voz activa e voz passiva, ou seja pode votar e ser votado. Só agora acontece porque só agora se consagrou solenemente. Esta foi a última profissão que nós tivemos. A crise das vocações também acontece na nossa Ordem e na nossa Província. Por isso, além da esperança de podermos vir a ter novas vocações, temos que tomar consciência que a oração e o testemunho são os meios mais eficazes para que homens e mulheres se deixem tocar pelo dedo de Deus que continua a chamar. 2. Domingo, dia de ir ao hos...