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Vidas contemplativas

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Tenho vivido dias pouco contemplativos mas ligados a pessoas contemplativas. Vidas que me têm impressionado por aquilo que, de certa maneira, poderia ter sido também a minha vida mas que hoje reconheço que não foi a vontade de Deus. Na terça-feira depois da Páscoa o noviciado foi a Évora, com o principal objectivo de visitar a Cartuxa. Para mim a quarta ou quinta visita, sendo que as últimas já não são de curiosidade mas sim de admiração pela vida simples e austera, aparentemente vazia mas sem dúvida homens cheios de Deus. A visita foi de certa maneira rápida, uma vez que coincidiu com o passeio pascal da comunidade. Passámos nas partes principais da Cartuxa: igreja, capela da comunidade, claustro, cela, biblioteca e cemitério. As perguntas iam surgindo naturalemente, ao mesmo tempo que se tiravam algumas fotografias. Ao meio dia rezámos as Ave-Marias (na Cartuxa o Regina Caeli só se reza depois de Laudes), ao mesmo tempo que os sinos tocavam. Aliás, na cartuxa superabunda o silên...

Mandatos

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Hoje, no Convento, haverá eleições. O prior cessou o seu mandato na semana passada e marcámos a eleição de prior para hoje. Neste interregno o subprior é quem orienta a vida comunitária e preside à eleição. Coube-me a mim esta tarefa: convocar os frades para a eleição, ir orientando a vida do dia-a-dia, presidir à eleição, que começa com a Missa do Espírito Santo. Depois do jantar procedemos à eleição como determinam as nossas Constituições. Aqui deixo a homilia da Missa desta tarde, pedindo que rezem por esta comunidade, para que seja um testemunho do Evangelho pela vida comum e pela pregação: Mandam as nossas Constituições que, nas eleições dos superiores, se celebre a Missa do Espírito Santo. É o que estamos a fazer não porque há uma lei que nos obriga mas porque acreditamos que a força de Deus nos acompanha, inspira e transforma. A Palavra de Deus que escutámos, diz-nos duas coisas que nos ajudam a orientar a nossa vida e em perceber que na base dos ministérios e ofícios...

Um dia em casa... com Bach

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As saudades foram mais que muitas, como os afazeres dos últimos dias, que chegaram a quase duas semanas. Afazeres que me afastaram deste lugar mas as saudades que me puxaram hoje para cá vir dar sinais. Finalmente um dia em que não tive de sair de casa. Se há pessoas que só estão bem na rua e a fazer qualquer coisa, eu não desgosto de ficar por casa, ainda que a fazer coisas. Foi dia de fazer contas, de acompanhar obras em curso aqui no convento, de receber algumas pessoas, de preparar o dia de amanhã (vou ao Porto para receber três candidatos a frades), de responder a correspondência electrónica atrasada, preparar coisas para a Páscoa, organizar os próximos dias, de arrumar algumas coisas no meu quarto que, com tanta entrada e saída, está num quase-caos... E de fazer o jantar. A cozinheira está de férias e para não sobrecarregar as outras, oriento eu o jantar. Vida de frade, não me queixo, porque foi a que escolhi. Também recomecei hoje as caminhadas que o inverno interrompeu...

... E ecónomo!

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Creio ainda não ter deixado escrito que, uma das minha novas funções - já nem é assim tão nova, tem já dois meses mais ou menos, é a de ser ecónomo do Convento. Desde que entrei na Ordem que sempre tive muito receio e tentei evitar duas funções: a da formação dos mais novos e as economias. Contas, para mim, só as do Rosário. O Capítulo Provincial, em Setembro passado, encarregou-me desta tarefa da formação. É muito de acompanhamento de algum candidato que se aproxime, rezar pelas vocações e, por minha iniciativa, comecei a fazer um boletim mensal de reflexão e oração pelas vocações. Estou já a preparar o nº 5, respeitante a Fevereiro. A outra, a do ser ecónomo, consequência da saída do anterior ecónomo para outra comunidade, coube-me em sorte, talvez também por não haver muito por onde escolher. Como me diz um confrade: "o que é para ti os ratos não hão-de roer". E cá estou eu, com a diversidade de coisas que já tinha, com mais estas duas acopladas, que muito trabal...

Partilhas

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À segunda-feira, no convento temos o dia comunitário. Se bem que todos os dias devem ser comunitários, este acaba por ser um dia mais festivo: Missa comunitária, jantar e, quando é necessária, reunião da comunidade. Para dar um ar de festa, normalmente há um doce ou um bolo como sobremesa de jantar. Mas hoje, por motivos vários, não houve bolo. Ao jantar havia um bolo na bancada com um bilhete que tinha escrito o seguinte: " Queridos irmãos, hoje celebro o dom da vida e senti a necessidade de partilhar convosco a alegria de pertencer a esta comunidade ". É bom sentirmos a amizade e a proximidade das pessoas que, de certa maneira, partilham a vida connosco. Que Deus abençoe esta nossa amiga os nossos amigos que gostam de partilhar a sua vida connosco.

Os hábitos

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Passam hoje quinze anos que, em Sevilha, vesti o hábito dominicano. Sem dúvida, a celebração dominicana mais bela e profunda. Exteriormente e interiormente. Exteriormente, bela, porque se muda de roupa, passamos a ser chamados de freis, nos prostramos a pedir misericórdia e somos recebidos na comunidade. Mas interiormente a profundidade do que significa: sermos abraçados pela misericórdia de Deus e da dos irmãos, misericórdia que leva à conversão de outros hábitos, que significa conversão de vida, para termos uma vida nova, branca e preta, não de extremos, mas de verdade e responsabilidade, esclarecida pelo estudo, iluminada pela oração, acompanhada pela comunidade e testemunhada pela pregação. Vestir o hábito dominicano é tomar consciência das renúncias diárias que ele obriga: não querer ser superior a ninguém, por isso é frade, não querer ligar a vaidades, entenda-se as coisas vãs, querer que o corpo dignifique aquilo que o cobre. Nós conhecemos o ditado que diz " o hábit...

Cartas de amizade espiritual

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Estou a terminar a tradução de umas cartas muito especiais e queridas na Ordem Dominicana: as cartas do Beato Jordão de Saxónia com a Beata Diana de Andaló. O cuidado e a preocupação de um pelo outro são sinais do que mais belo pode acontecer entre nós, humanos: a amizade. Ele, como Mestre da Ordem sempre a girar pelos conventos da Ordem e ela, no Mosteiro de Santa Inês de Bolonha, a rezar por ele. Sempre que ele tem tempo escreve-lhe uma carta, sempre com saudades e vontade de se encontrarem. Não temos as de Diana a Jordão; só as de Jordão para Diana. Casualidade ou não, na semana passada enviei uma carta às Monjas de Lamego, elas estavam preocupadas com as decisões do Capítulo Provincial a meu respeito e, como não têm Internet nem conta de e-mail, teve que ser mesmo carta. Livrei-me de escrever à mão, actividade que pratico cada vez menos, excepto nas assinaturas e algumas notas. Caso contrário, tudo no computador. Chegou a resposta. Publico-a aqui, para verem o que é este sentime...

Ao regressar de Aveiro

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Estou a chegar de Aveiro. Fui lá fazer uma conferência sobre Nossa Senhora. A casa das Irmãs Dominicanas de Santa Catarina de Sena tem lá a "enfermaria provincial" (não sei se este é nome oficial). E a emoção é muita quando visito as irmãs doentes. E mais me emociona o amor e o carinho que as Irmãs têm no cuidado para com estas Irmãs que gastaram a sua vida fazendo o bem e agora estão acamadas, ou são muito velhinhas, ou estão mais esquecidas... Contam-me como entraram lá e como estão; as que já partiram e as que estão de novo. Tudo tão silencioso, limpo, bem cuidado... Quanta presença de Deus! O piso das irmãs doentes é, para mim, um verdadeiro santuário. E agradeço (quem sou eu para agradecer) a dedicação destas irmãs. Digo-lhes muito: já têm o céu garantido. E elas respondem-me: também temos o nosso feitio... Como todos. Mas Deus prefere olhar ao bem que fazemos. Esse sim tem mérito, dá frutos e edifica. (imagem: Edy Legrand, o bom samaritano, 1950)

Entrevista

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Na quarta-feira gravei uma entrevista para a televisão que foi ontem emitida. O tema era vida religiosa e vocações. Como fala de muitos temas, e deste blogue também, aqui a deixo.  

Entre santos e pecadores

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Nos últimos tempos várias vezes tenho lido e ouvido, e creio que até já qui escrevi, uma frase que, de repente, saiu nos meios religiosos: "um santo tem um passado e um pecador um futuro". Em tempo de meio gás, os meses de férias, retomei um trabalho que estava em pausa, que é a tradução da biografia dos santos dominicanos. Não se trata de biografias exaustivas mas de pequenos dados biográficos dos santos que a Ordem Dominicana celebra ao longo do ano. E, de fato, comprova-se este dito. Tal santo nasceu em tal sítio, entrou na Ordem aos tantos anos, viveu em tal convento com tal espiritualidade, morreu em tal sítio e foi beatificado por tal papa. Tudo no passado. Não é menosprezo pelos santos porque, afinal, nos seus tempos, também deviam sentir-se pecadores com um futuro pela frente. A carreira de santo não é pública ou, se quisermos, é uma não-carreira. É viver com simplicidade a vida evangélica, ser prudente como as serpentes e simples como as pombas. Aparentar santi...

O que me espera em 2012... e ainda a procissão vai no adro!

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Os horóscopos valem o que valem, a mim dão-me para rir, sobretudo os da Maya. Claro que ela não tem culpa, ela só interpreta, mas são os que mais leio, porque vêm na revista do Público de domingo. Esta semana lá vêm as previsões para 2012 e, depois do almoço, para descontrair rimo-nos das influências das cartas nas nossas vidas. O meu signo é claro: ano em alta, escreve ela, tudo de bom para melhor, sempre a subir (como os ivas e os preços), até os inimigos se curvarão diante de mim reconhecendo as minhas capacidades (aqui falha porque, em consciência, não tenho inimigos; podem os outros terem-me como inimigo, é provável, mas da minha parte não. Quanto muito, pessoas de quem me afasto mais por não me fazerem bem). E dá-me dois conselhos: que não seja exuberante nas minhas vitórias e não gastar dinheiro que não tenho. Vou estar atento ao primeiro uma vez que o segundo está resolvido é é conselho para dois terços de Portugal e pena é que só apareça agora e não há uns anos atrás: n...

A melhor vista sobre o Vaticano

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Conta-se que, numa visita que o Papa João XXIII fez a este convento de Santa Sabina, levaram-no a uma parte do Convento, chamada Belvedere, que é um terraço elevado (miradouro, neste caso miratevere), com uma vista soberba sobre Roma e sobre a cúpula do Vaticano. O Papa, ao ver a cidade e apontando para a cúpula de São Pedro exclamou: " Esta é a melhor vista sobre o Vaticano. E isto é infalível! " Esta história conta-se em Lisboa, em Paris, onde quer que seja, sempre que se fala de Santa Sabina. Ontem, ao jantar, voltou a contar-se esta história. E, no final, disse um frade inglês: pena que no vaticano se tenha perdido o sentido de humor. Gargalhada geral. Esta é, de fato, uma das mais belas vistas sobre a cidade de Roma. Aqui ao lado, pela fechadura do portão da Ordem de Malta, pode ver-se com um binóculo lá instalado, a cúpula de São Pedro. Mas aqui é diferente: vê-se grande parte da cidade: em frente o Vaticano, à direita o monumento a Vitor Emanuel, à esquerda Traste...

Vidas paralelas IV

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Conclui-se este ciclo de artigos sobre as vidas paralelas, para dizer o que foram estes dias para elas e o que foram para mim. As Constituições das Monjas dizem que elas fazer um retiro anual de oito dias completos. Pode-se perguntar para que é que estas mulheres que vivem em silêncio e contemplação precisam ainda de um retiro e de oito dias, se a vida delas já é um retiro... Creio que o fazem por outros motivos que a obrigação das Constituições, se bem que estas irmãs são fiéis cumpridoras das leis. Faz sentido que, no ano, haja uma quebra na rotina. Abrandam o trabalho, as visitas são mais curtas e reduzidas, tendo mais tempo para a oração e meditação a partir dos temas que o pregador traz, quer lhe seja encomendado um tema quer seja livremente escolhido pelo próprio, que é o que costuma acontecer. Normalmente, nos retiros que oriento - e este é o segundo de oito dias a esta comunidade - costumo ter duas partes distintas: uma mais bíblica, que costuma ser na parte da manhã, e outra ...

Vidas paralelas II

Sigo com as vidas paralelas. Há o sino que é comum aos dois lados. Apesar de estar do lado da clausura, ele ouve-se em todo o mosteiro e arredores. O primeiro toque é às seis da manhã para despertar, e o último por volta das dez da noite para deitar. O som e o ritmo é sempre igual: compassado, de toada forte, a dizer-nos que devemos deixar o que estamos a fazer porque outra coisa mais impotante nos chama. Há também a comida, que é a mesma do lado de lá. Pelo menos é o que elas dizem e devemos acreditar. A mesa é frugal mas de qualidade e preparada com carinho. A sopa sempre boa, à moda do norte, sempre com um grão de arroz ou um fio de massa. Talvez um habito dos tempos de crise em que se engrossava a sopa com arroz ou massa. Certamente que não será o tipo de sopas recomendadas pelos nutricionistas, mas são do melhor, sopas fartas. Três conchas que as refeições não são só sopa. O prato principal varia entre o peixe, a carne e os ovos. Como fazem criação de galinhas já se pode imaginar...

Pregação em Lamego

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Estou em Lamego. Vim pregar o retiro anual às Monjas Dominicanas. O trabalho de dois meses esgota-se agora em oito dias. É sempre bom voltar a Lamego, mesmo que em trabalho. É como voltar ao centro de tudo. E lembrar Feirão. Mesmo não indo lá, ao olhar da auto-estrada o monte que encima a aldeia ou ver em Lamego o rio Balsemão que serpenteia por montes e vales desde as terras do Rossão, é uma ligação, quase que diria, umbilical. Lamego ainda tem réstias de sol quente. Fins de tarde outonais em que as cores das folhas da videira são gémeas dos raios do entardecer. É nesta paisagem, dura mas doce, que vou passar os próximos dias. Rezando, trabalhando e pregando.

Ainda sobre o dia de São Domingos

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Queria só partilhar o dia de ontem. Foi a primeira vez que passei o dia de São Domingos aqui no Convento. Desde já há alguns anos que passo este dia em Lamego, junto das Monjas dominicanas, excepção feita há dois anos, que passei aqui por causa de um encontro internacional de jovens dominicanos (IDYM) e, este ano porque fiquei em Lisboa. Nos últimos três anos esta comunidade tem vindo a reduzir-se, como muitas outras, infelizmente, e não me refiro só a comunidades dominicanas. Por isso somos poucos (a partir de Setembro seremos apenas onze) em Agosto, estamos ainda menos. De manhã rezámos Laudes. Apesar de estarmos só seis (digo só quando, na verdade é metade do número dos irmãos), a oração da manhã foi cantada como deve ser num dia de festa. Salmos da festa, leitura da vida de São Domingos em que se conta que só falava de Deus ou com Deus e que por amar a todos, porque grande era a imensidade do seu coração, por todos era amado. O almoço foi só para a comunidade. Rancho melhorad...

Democracia

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Quem conhece bem a Ordem dominicana reconhece, entre outras coisas, a democracia que existe na Ordem. De facto, os dominicanos são democráticos. E não é de agora. Já há 800 anos que elegemos os nossos superiores! Dizem as crónicas daquele tempo que o próprio São Domingos se submetia às decisões dos Capítulos gerais. Também se diz que a Constituição americana se inspirou nas constituições dos dominicanos (eleições, representatividade…) Em que é que somos democráticos? Em tudo. Desde a eleição dos priores do convento até à eleição do Mestre da Ordem, tudo é feito por eleição, ganhando quem alcançar a maioria. A diferença dos outros sistemas democráticos é que não há campanha eleitoral. Depois, também os oficiais do Convento (subprior, ecónomo, conselheiro…) ou as coisas mais importantes da vida comunitária (horários, aprovação de orçamentos e de contas) também se fazem de acordo com a maioria, seja por eleição seja por votação secreta. O exemplo do governo de um convento é paradigmático:...

Aqueles de quem não gostamos tanto

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Às vezes, nas Missas das Crianças, uso uma oração Eucarística do Missal em que, numa das orações, se pede pelos nossos amigos " e também por aqueles de quem não gostamos tanto ". Não é uma realidade infantil. Todos fazemos a experiência do desamor: há pessoas que não gostam de nós mas há também pessoas de quem nós não gostamos tanto. E é um problema. E o desprezo ou a indiferença não é solução. Mesmo que pensemos que sim, o cristão é sempre chamado ao amor e nunca ao desprezo. Há um texto muito bonito de Santa Teresa do Menino Jesus sobre este tema. Também ela viveu este drama, e talvez pior que as nossas realidades, ela tinha dificuldades de relação com uma das Irmãs do Mosteiro onde viviam. Ela conta a situação e que fez para tentar mudar: " Há na Comunidade uma Irmã que tem o condão de me desagradar em todas as coisas: as suas maneiras, as suas palavras, o seu carácter, pareciam-me muito desagradáveis. Apesar de tudo, é uma santa religiosa, que deve ser muito agradáve...

Em visita canónica

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Todos os anos, mais ou menos por esta altura, o Provincial faz a "visita canónica" a este Convento. Um sinónimo para visita canónica pode ser visita oficial, visita estabelecida. Esta é uma das competências do Provincial: aos conventos 'normais' duas vezes durante o mandato e aos conventos de formação (é o caso do meu convento) todos os anos. Em que é que consiste a visita canónica? Ouvir os irmãos. Todos e cada um. Ver os livros das contas e das actas dos Capítulos e Conselhos e assiná-los. Depois, no final, deixa um 'relatório' advertências e ordenações. Existe mesmo um "Livro das Visitas Canónicas", onde ficam registados os relatórios do provincial. Não sei porquê, os priores são os últimos a falar... talvez para não influenciar as conversas dos outros irmãos. Portanto, eu serei o último... lá para sexta-feira.

Dos homens e dos deuses

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O poema de José Régio "cântico negro" termina assim: " Não sei por onde vou / sei que não vou por aí ". Foi a minha conclusão depois de ver, ontem, o filme "dos deuses e dos homens". Concluí assim porque há situações, na nossa vida, naquela comunidade, que são difíceis, que não se vêm claras. No entanto, também temos a claridade para ver que, apesar de não vermos caminhos, há caminhos que não queremos percorrer. Em tempos de perseguição, no meio de uma guerra civil, coloca-se a pergunta difícil, ficar ou sair. Tudo pesa na decisão: fugir para quê, se Deus nos quer aqui, para quê ficar, se Deus não quer que procuremos o martírio... pontos de vista diferentes, medos, certezas, indecisões... e o filme, cheio de ternura e compaixão, mostra-nos uma comunidade que ali está, no meio de muçulmanos, a quem faz o bem seja a curar seja a escrever por quem não sabe. Um trabalho discreto mas próximo. E com o seu ritmo bem marcado pelo sino que vai dizendo que os monges...