Mensagens

A mostrar mensagens com a etiqueta Música

Sons e paisagens

Imagem
A história da cultura tradicional portuguesa não poderá ser feita sem ter em contas as várias recolhas que, ao longo do século XX e XXI se foram fazendo por este Portugal fora, em grande parte levado a cabo por Michel Giacometti pelos anos 70, no conhecido programa “um povo que canta”. Há três anos surgiu uma nova edição deste programa, com o acrescento do “ainda canta”. Não saberemos se daqui a 10 anos ainda teremos o povo a cantar e o que andará a cantar. Cantares ao desafio nas feiras, desgarradas nas tabernas, algum folclore agora mais visual que expressão de sentimentos, são resquícios do popular, em nada comparável ao pimba que grassa nestas festas de aldeia. Nas curtas viagens entre Feirão e Cotelo, oiço Isabel Silvestre, no seu recente álbum “Cânticos da terra e da vida”. A voz, os tons e os temas assemelham-se às paisagens da serra de Montemuro que nos envolve. Há um tom comum nestas serras inconfundíveis. Que não se aprende nem se ensina. Sai genuinamente, como a á...

Do sonho à realidade

Imagem
Há uns anos trás, no fim de uma celebração de São Domingos, num mosteiro de Monjas, uma Irmã desabafava: que pena não haver nada do nosso Pai em português. Vim para casa - estava em Feirão - e, ao rezar vésperas, dei-me conta do hino que, ao contrário da grande maioria dos hinos da Liturgia, não era uma quadra mas sim uma sextilha... É difícil arranjar uma melodia para uma sextilha. Mas ficou a pena da Irmã. Até que um belo dia, de manhã, acordei com uma melodia na cabeça... e fazia sentido o correr da melodia e peguei no telemóvel para a gravar. Ficou gravada e, mais tarde, quando fui confrontar com o hino, caía que nem uma luva. Estava arranjada a melodia par ao hino. Bem, foram-se passando os anos e a melodia estava na minha cabeça, no áudio do telemóvel e ainda numa folha, pelo menos o tom e o correr da música. Deixei de ir a Feirão no mês de Agosto e a melodia nunca foi cantada. Quando estávamos nos preparativos do CD sobre São Domingos, que noticiei na semana passada, demo...

Gravações

Imagem
Começaram hoje, na igreja dos Ingleses, à Estrela, as gravações de mais um projecto dominicano, integrado no oitavo centenário da confirmação da Ordem Dominicano. Trata-se de um CD com o ofício de São Domingos. O autor é um frei falecido há dois anos, o fr. José João. Fui eu quem lhe pedi para o fazer e deve ter sido das últimas coisas que fez. Aceitou musicar mas queria as letras certas, bem traduzidas. Pedi a um frade que o fizesse e, com texto fixado, avançou-se para a música. O fr. José João, homem de valor mas talvez nem sempre valorizado por nós, tinha um grande amor à Liturgia e à Música Sacra.Sempre Irmão cooperador, foi pregador desta forma tão bonita de falar de Deus e com Deus, ajudando outros a rezar duas vezes (Quem canta reza duas vezes). Ganha corpo, assim, este projecto desejado e necessário. Um agradecimento ao coro Laudate que desde a primeira hora agarrou este projecto e que o leva até ao fim. E aos que apoiam o CD. Deixo aqui o refrão do hino que estavam a ensa...

Alguns cânticos

Imagem
Consegui publicar no Youtube alguns cânticos da Missa de ontem. Dá para ter uma ideia... Aleluia e Evangelho, Ofertório e Tambula e Bênção

Os braços da minha mãe

Imagem
Estar de férias com a minha mãe e, pela primeira vez, só os dois, é o melhor presente que se pode ter. Há onze anos, neste dia, morria o meu pai, aqui em Feirão, o último dia em que estivemos os três. De lá para cá as férias foram sempre com tios, irmão, sobrinhas... Com a minha mãe falo do passado e do presente, contam-se as histórias dos lugares e dela nos lugares. Passeia-se e descansa-se na varanda da casa: eu leio ela faz croché. Sem ela dar conta, olho muitas vezes para ela, calado, como quem contempla a natureza, ou a mais bela estátua esculpida na pedra. Como estas pedras ou casas ou árvores antigas de Feirão, a minha mãe também faz parte do seu património: é de Feirão. Hoje fomos fazer uma caminhada a pé até ao monte de São Cristóvão onde, sábado, se fará uma grande feira. Subimos a um monte e ela sentou-se no cimo de um penedo. Calada, a ver. Depois de um tempo de silêncio, quase religioso, disse: sempre gostei de subir aos penedos. No regresso, passámos no cemité...

Deus não muda

Imagem
A precisar de ouvir o Nada te turbe (hoje de manhã, quando saí a fazer compras foi a música que saiu no leitor), procurei na net a música para ir fazendo eco em mim e encontrei esta versão alternativa à conhecida de Taizé. Uma nova composição, virtual, em que cada carmelita canta a partir do seu mosteiro e com um maestro a conduzi-las. Vale a pena ver e ouvir. Prestamos homenagem a Santa Teresa de Ávila, nos seus 500 anos, e interiorizamos a bela mensagem de que quem a Deus tem nada lhe falta.

Depois do dia de Natal

Imagem
Para mim é impensável o Natal sem Bach. Faz parte da música que escolho para me acompanhar nestes dias. Antes do dia do Natal as cantatas do Advento e, no dia 26, o Oratório de Natal. O tom alegre, jocoso, faz alegrar os tristes e rejubilar os alegres. Ninguém pode ficar insensível às harmonias de tons e sons, instrumentos e vozes de uma cantata ou do Oratório. A letra é espiritual, devota até, mas que eleva e leva-nos a rezar. Como por exemplo este coral que é uma oração e que tão bem fica neste primeiro dia de Natal:  Como poderei acolher-te,  e como poderei aproximar-me de Ti? Ó Tu, que o mundo deseja,  Tu que és o adorno da minha alma! Ó Jesus, Jesus, vem,  tu mesmo ilumina-me com a tua luz  p ara que eu aprenda e saiba  o que fazer o que te agrada.

Um concerto no Vaticano

Imagem
Só agora tenho disponibilidade para aqui deixar escrito os últimos momentos da minha ida a Roma. A sessão de trabalhos acabou no sábado, ao meio-dia, com a distribuição de "trabalho de casa". Como só tinha avião no domingo, tive a tarde de sábado livre. Sem grandes planos, de repente, aparecem-me dois convites para um concerto no Vaticano, por ocasião do Ano da Fé, com a presença do Papa. Como não tinha grandes planos, acabei por ir. Ir atempadamente para arranjar um bom lugar, até porque se o Papa ia, era bom arranjar um lugar perto do corredor onde a passar. Aos poucos a grande sala foi-se compondo (não encheu), com lugares diferenciados conforme as posições civis ou religiosas e, à hora em que o Papa devia entrar - a euforia era tal que havia freiras de hábito em cima das cadeiras! - ouve-se um bispo a dizer que o Papa, afinal, não ia ao concerto por motivos inadiáveis. Foi a desilusão. As freiras desceram das cadeiras, algumas pessoas foram até embora, e fez-se silênci...

Faz-te ao largo

Imagem
Lembrei-me de uma música que conheci numas Missas de um colégio onde vou: Faz-te ao largo. Como tem a ver com o evangelho de hoje aqui fica, para tentar suprir a homilia que não tive tempo de escrever para este domingo.

O último Cd de Natal

Imagem
Oiço hoje o último cd de Natal. Depois da Epifania já começa a estranhar o We Wish You a Merry Christmas ou o Stille Nacht . Escolhi para este dia um cd de selecções de músicas de Natal. Era a estreia. Os americanos que me desculpem mas os arranjos deles não me agradam nada. Parecem-me plásticos. Quando oiço as suas canções de Natal lembro-me sempre de centros comerciais, azáfama e sacos de compras na mão. Prefiro os Natais ingleses, polacos ou ortodoxos, com a sua esplêndida qualidade e sobriedade. Ou os nossos Natais. Sim, o made in home: o de Elvas ou de Cardigos, e até os outros populares que não estão assignados a qualquer zona. Por isso, decidi trocar de cd. Oiço agora "Um Natal Português", de músicas tradicionais portuguesas com arranjos contemporâneos para orquestra o que lhes dá uma beleza singular. E assim acaba o meu Natal. Quase como o fim de uma peça de teatro: descem as cortinas, apagam-se as luzes e fecha-se a porta. Fica, no entanto, uma vela acesa: a que...

Uma canção para o meu Deus

Imagem
A homilia que escrevi para este domingo derivou do que primeiramente tinha pensado. No domingo, passado, na Missa onde estive, em Espanha, cantou-se uma canção que me enterneceu. Numa aldeia de pescadores, com muita gente de idade e os mais novos os que por lá faziam uns dias de praia, cantaram um cântico de acção de graças que me ficou. Quando li as leituras deste domingo veio-me ao pensamento esta música. Os espanhóis não evoluíram muito em termos de música litúrgica, mas há alguns cânticos que lhes ficam bem cantar. Aqui deixo o cântico, numa versão que não é a melhor mas a única que encontrei. Bom domingo.

fr. José Augusto Mourão - 1 ano depois

Imagem
Faz hoje um ano que morreu o fr. José Augusto Mourão, meu confrade. As memórias ficam, a dor atenuando, mas a saudade aumenta. Ao longo destes dias tenho recebido algumas mensagens de união connosco, nesta comemoração do aniversário da morte. Já passou um ano. Talvez o que mais admirei na sua vida foi a sua voz desconstrutiva que, às vezes, para mim, era desagradável, por ser prior, mas hoje sinto a falta de alguém que contradissesse  ou melhor, desse uma outra visão das coisas. O fr. José Augusto era anti-formatação. As coisas não tinham de ser assim porque sempre foram assim. Para ele a novidade, a alteração era uma reação à estabilidade e ao comodismo, ao mais fácil. Também não posso esquecer o seu interesse pela música, em especial do nosso fr. André Gouzes, que aprendi a gostar com ele. E também o querer adaptar as músicas às letras que compunha, um trabalho nem sempre bem conseguido, porque a regra normal é que se arranje uma música para um texto e não o contrário. Gouze...

Representação da Alma e do Corpo

Imagem
Este post está com três dias de atraso. Só agora, neste começo da manhã, conseguir ter um tempinho para aqui vir deixar um pequeno comentário a um concerto a que "presidi", na passada sexta-feira em Marvila, a terra onde me criei. Fui em representação do pároco. Este concerto marcava a efeméride de 412 anos. Na passada sexta-feira fazia 412 anos que esta "Raprresentatione di Anima e di Corpo" era estreada em Roma. A história desta Representação é sui generis. A origem está no Juízo Final da Capela Sistina, do grande Michelangelo. Diante desta obra, terminada em 1541, há um padre do Oratório de São Filipe de Neri, também recentemente fundado, Agostino Manni, que, de tão impressionado ao ver o Juízo Final decide fazer um libretto sobre estas realidades últimas do ser humano: o combate entre Corpo e Alma, pressionadas pelo Tempo e refletidas pelo Intelecto. São estes os personagens desta Representação que nos falam dos cuidados a ter com a sedução deste mundo e a ...

Memórias de um povo

Este é o livro da grande Isabel Silvestre. Na Pública desta semana vem uma pequena entrevista sobre as motivações na recolha que fez de cantigas, histórias e costumes da gente de Manhouce. Admiro-a pela sua grande pela sua voz, pelo que faz pela cultura portuguesa e pela força que a move. Não tem vergonha de se afirmar como mulher da serra, não tem vergonha do trajar nem do sotaque da beira. A entrevista que deu tem o título " Muitas vezes as pessoas cantavam para não chorar ". Isto aprendi há muitos anos com a minha avó e com a minha mãe que, quando lhes perguntava porque é que cantavam, nuynca me diziam: "porque estou contente" mas quase sempre: "para não chorar". Nas serras, até há trinta anos atrás, quando se ia com o gado para o monte o que se fazia? Cantava-se para afastar a solidão e o silêncio. No tempo das cegadas (ceifa do trigo) em que se trabalhava de sol a sol, o que é que se fazia para espantar o cansaço e muitas vezes a fome? Cantava-se. E à...

Agnus Dei

No Evangelho de hoje ouve-se João Baptista apresentar Jesus à multidão como o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo. Num mundo como o nosso em que o mal, sempre inexplicável, actua com violência, os cristãos acreditam que Jesus é aquele que, não tendo pecados, vem redimir o nosso pecado pessoal e universal. E é esta a nossa esperança: no fim, o Cordeiro de Deus, o Bem, virá destronar o mal que às vezes provocamos ou do qual somos vítimas. Quando se folheia um jornal e se vê o mal que grassa: homicídios, genocídios, corrupção, guerras e violências, algumas catástrofes naturais até, não podemos nem devemos perguntar a Deus o porquê nem atribui-lhe a culpa. O que devemos, sim, é rezar: Cordeiro de Deus, que tiras o pecado do mundo, tem piedade de nós e dá-nos a paz. Há uns anos atrás ouvi pela primeira vez este Agnus Dei . A intensidade da voz deste cantor, que ao mesmo tempo se mistura entre o clamor do desespero ou o anúncio de Jesus como o Cordeiro de Deus, lembrando o muezim (c...

A toque de sinos

Imagem
Nada mais bonito que ouvir sinos tocar. Já foi o tempo em que marcavam a vida da cidade ou da aldeia. Desde o toque para a escola até ao toque para a missa ou a rebate para fogo, o sino tem cadências diferentes, formas de se exprimir e de nos dizer o que quer ou que se passa. Tenho na minha memória alguns sons de sinos. Como esquecer os sinos em Feirão que, no domingo, nos anunciam com festa a Missa? Ainda hoje me arrepiam. Ou os de Taizé, com um timbre tão próprio... O sinos têm e transmitem sentimentos. O sino canta quando alguém é baptizado ou casa. Chama quando é para ir à Igreja à Missa ou ao terço. Chora quando morre alguém. E, se é homem, chora de uma maneira; se é mulher, chora de outra. E vamos sabendo o que se passa pela maneira como tange. Hoje fui ao Paço do Lumiar fazer o baptizado do Gonçalo. Uma igreja antiga, lindíssima, do século XVII (1603), com um belo adro. Entregue aos jesuítas desde há quatro anos, o padre Alberto, homem simpático e acolhedor, pôs os sinos a tocar...

Música sacra popular

A tarde de ontem foi de recolha de "versos antigos que não vêm nos livros". Ao longo destes dias, na Missa, elas foram cantando estes cânticos que, apesar do sentimento extremo da letra e da música, não deixam de nos tocar pela sua simplicidade. Cânticos aprendidos de cor, lá pelos anos sessenta, pelo sr. Padre Filipe ou pelo sr. Padre Acácio. As letras ficavam escritas na memória e não desapareceram, lá estão, bem conservados. Aqui deixo um dos cânticos. Talvez não se consiga perceber muito bem a letra - é a pronúncia cerrada da serra - mas aqui ficam estas vozes, não tratadas, puras, como o ar que aqui se respira e límpidas, como a água que se bebe.

Sexta-feira de Quaresma

Imagem
As sextas-feiras da Quaresma são dias de abstinência. É um dia "sagrado", que nos lembra aquela sexta-feira em que Jesus morreu na Cruz. E que bom seria que fossem também dia de abstinência de más acções, de violências, de mais austeridade e de partilha. Se calhar ainda estamos longe destas abstinências - eu por mim falo - e por isso vamo-nos contentando com o não comer carne, que é mais fácil de cumprir. Há já alguns anos que nas sextas-feiras da Quaresma, pelas 15 horas, hora em que Jesus morreu, tenho o cuidado de parar, fazer silêncio e de rezar um pouco, normalmente a hora intermédia da Liturgia das Horas. E depois oiço, enquanto estou no quarto, uma Paixão de Cristo. Vou variando entre as três de Bach (Mateus, Marcos e João) e uma de um Dominicano, André Gouzes, de São João. Daqui a pouco vou ouvir a de São João, versão Bach. Que começa logo com uma oração do fiel que se dispõe a meditar os passos da Paixão do Senhor: " Senhor, nosso Rei, cuja glória resplandece em...

Momento musical

Santo Agostinho nas suas "Confissões" conta que, quando começou o seu caminho de conversão e se preprarava para o baptismo, a música não lhe foi indiferente. Diz assim (IX, VI, 14): " Quanto eu não chorei nos hinos e nos teus cânticos, vivamente comovido pelas vozes da tua Igreja que suavemente cantava! Aquelas vozes insinuavam-se nos meus ouvidos, e a verdade infiltrava-se no meu coração, e daí transbordava o sentimento da piedade, e corriam as lágrimas, e eu sentia-me bem com elas ". Deus converte até pela música! E a música tem este dom de nos acalmar e ver nela a beleza de Deus. Encontrei hoje este cântico que é executado por um dos melhores coros do mundo: Regensburger Domspatzen. Espero que gostem.

Música para descontrair

Imagem
Escrevo este post ao som de um cd acabado de comprar. Música clássica, a minha preferida, a que me concentra e a que me acalma e a que me entende num dia muito ritmado como o de hoje. Oiço a 5ª sinfonia de Widor, em órgão. Embora a data da morte de São Domingos seja o dia 6 de Agosto, a Igreja só o celebra a 8. Vai ser amanhã. Normalmente não o festejamos porque muitos irmãos estão de férias (eu próprio era para estar já no meu casulo da aldeia serrana de Feirão...); mas este ano foi diferente. Acolhemos um encontro de jovens de todo o mundo, ligados aos Dominicanos. Está a ser em Fátima. E amanhã vêm a Lisboa para celebrar, no "meu" convento, o dia de São Domingos. Eles que são um pouco mais de 100 com mais cerca de 300 pessoas, portuguesas, que se juntam a esta celebração. É, portanto, um dia grande e celebrado em grande. Mas preocupa-me o lanche que se segue depois da Missa... A logística sempre me preocupou e me alterou. O receio de correr mal... Será que a comida vai che...