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Sábado Santo: o dia do grande silêncio

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Um caminho de silêncio

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A obrigação foi o motivo a necessidade uma utilidade. Consegui ter um dia mais livre e fui a Fátima. Saí cedo para chegar cedo e aproveitar a manhã para a necessidade de estar só e em silêncio. Fiz o caminho dos pastorinhos, que nós conhecemos como o caminho da Via Sacra e do Calvário Húngaro. Alguns grupos estavam a fazer a Via Sacra - espanhóis, canadianos, polacos, italianos -, outros no desporto, uma senhora sentada no muro a rezar devotamente o seu terço, e eu. Eu em silêncio, apesar do que se ouvia cantar e rezar em línguas que não a minha. E também eu fiz a Via Sacra, em silêncio, lembrando-me de quando era criança e da maneira como fazíamos a Via-Sacra, e também dos próprios quadros das estações. Sem muito sol lá fiz o meu caminho, em silêncio e com calma. Terminada a Via Sacra fui aos Valinhos onde há dois monumentos, não menos importantes, e que nos convidam à oração: a loca do cabeço, onde se diz o anjo ter aparecido aos pastorinhos e o lugar da aparição de Agosto. Dois...

Ao regressar de Aveiro

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Estou a chegar de Aveiro. Fui lá fazer uma conferência sobre Nossa Senhora. A casa das Irmãs Dominicanas de Santa Catarina de Sena tem lá a "enfermaria provincial" (não sei se este é nome oficial). E a emoção é muita quando visito as irmãs doentes. E mais me emociona o amor e o carinho que as Irmãs têm no cuidado para com estas Irmãs que gastaram a sua vida fazendo o bem e agora estão acamadas, ou são muito velhinhas, ou estão mais esquecidas... Contam-me como entraram lá e como estão; as que já partiram e as que estão de novo. Tudo tão silencioso, limpo, bem cuidado... Quanta presença de Deus! O piso das irmãs doentes é, para mim, um verdadeiro santuário. E agradeço (quem sou eu para agradecer) a dedicação destas irmãs. Digo-lhes muito: já têm o céu garantido. E elas respondem-me: também temos o nosso feitio... Como todos. Mas Deus prefere olhar ao bem que fazemos. Esse sim tem mérito, dá frutos e edifica. (imagem: Edy Legrand, o bom samaritano, 1950)

O silêncio

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Estou num silêncio "forçado". Uma rouquidão teimosa não me quer deixar nem me dá tréguas. Não se preocupem que está tudo controlado. O médico manda-me não falar por uns dias para descansar a voz. Mandar calar um padre... Só é possível isolando-me. Já quase em desespero de causa - sou muito impaciente com os poucos avanços, seja em que área for - impus-me o silêncio. Evitar falar, atender telefonemas, sair de casa, por causa das variações de temperatura, pode parecer um tormento mas não é (um acólito aqui da igreja, disse-me ontem que, com uma psp, até é fixe e consegue-se ficar calado). Aproveito para adiantar trabalho, escrever (recebi hoje um mail que me dizia que já que tenho de andar mais calado que escreva!), refletir alguns assuntos e ponderar propostas. Tudo em silêncio. Vou aproveitá-lo como um retiro, já que não pode ser uma constante. E que me faça bem ao corpo e à alma.

Sexta-feira Santa - A Parasceve

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" Hão-de olhar para aquele que trespassaram " (Jo 19, 37). 1. Hoje é dia de Sexta-feira Santa. Para os cristãos, um dia memorável. Não estamos tristes. Se hoje estamos mais calados ou menos sorridentes, é porque o que aconteceu naquela sexta-feira foi para nós importante, objeto de constante meditação. É dia de sobriedade. A própria liturgia convida ao despojamento através das suas músicas e dos seus rituais. Hoje não se celebra a Eucaristia. A razão é simples: se a Eucaristia é o memorial da morte de Jesus, o dia de hoje é, por ele próprio, sacramento da morte de Jesus. Mas a Igreja reúne-se numa celebração litúrgica. Reúne-se para escutar os mais belos textos da Paixão (Isaías, Carta aos Hebreus e Paixão de São João);  reúne-se para rezar por todas as grandes preocupações da Igreja, desde o Papa até aos não crentes: é a mais longa oração universal do ano litúrgico; reúne-se para adorar "o madeiro da Cruz, no qual esteve suspenso o salvador do mundo". Não com lá...

Unção de Betânia

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Depois da celebração dos ramos, nesta santa semana, escutamos hoje, no evangelho da Missa, um dos gestos mais belos do Evangelho, que jamais será esquecido: uma mulher, que na versão de São João é Maria, irmã de Marta e de Lázaro, aproxima-se de Jesus, unge os seus pés com um perfume de alto preço e enxuga-lhos com os cabelos. Para mim, a beleza deste gesto está no silêncio em que se faz, na delicadeza do momento, apesar da reação de Judas que diz que era preferível ter dado o dinheiro do perfume aos pobres, e do significado atual desta unção. Diz o relato que a casa encheu-se com o perfume de puro nardo. Não é difícil imaginar este gesto corrente da hospitalidade judaica nos tempos de Jesus. À entrada da casa, antes de se sentar à mesa, o chefe da casa ou um dos seus principais criados, lavava os pés ao convidado. Mas este gesto não é só de hospitalidade mas também de agradecimento. Jesus tinha ressuscitado Lázaro, o irmão de Maria. E esta mulher faz o que lhe dita o seu coraçã...

O meu Cristo sem cruz

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O Cristo que hoje vejo não está numa cruz. Vejo-o na cama, deitado, quase apagado, mas sem as dores nem as marcas de Jesus crucificado. Da cama onde está, envolvido num sudário comum, de mãos abertas e pés cruzados, não cita salmos. Respira fundo, habita o profundo nestes silêncios calmos. Voltado para Deus -virá da janela ou da porta? - espera, respira, volta-se, e sente a brisa suave, a mesma de Elias, que refresca o seu corpo doente e alivia o peso dos dias. O resto já não lhe importa. (Imagem de Georges Henri Rouault)

O silêncio da dor

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Quando morre alguém que nos é querido, depois do funeral e das lágrimas, vem o silêncio. O silêncio tem muitas cores. Pode ser de contemplação, de descanso, de não ter nada para dizer... mas também pode ser de dor. Às vezes o silêncio é o único som que conseguimos dizer. Hoje toda a Igreja está em silêncio. Não é como os minutos de silêncio que fazemos em memória de alguém. Não é porque o Senhor morreu, pois sabemos que ele ressuscitou e, então, o silêncio seria teatro. Hoje estamos num silêncio de solidariedade. Diante do mistério da dor, do sofrimento e da morte, o silêncio continua a ser o grande amigo das horas sofrentes. Hoje unimo-nos ao silêncio dos que não têm palavras e se calhar até lágrimas para exprimir a sua dor. Com o nosso silêncio dizemos a todos os que sofrem: somos solidários. Hoje a Igreja fica em silêncio como Maria. Um silêncio que não é de revolta nem de porquês. É um silêncio habitado. Cheio de confiança e de esperança de que Deus falará nos nossos corações.

São José, marido e pai

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A figura de São José é um bocado secundária na Igreja. Ao contrário das festas de Nossa Senhor, são José conta apenas com duas festas ‘directas’ e uma indirecta. As festas ‘directas’ são as do dia 19 de Março e 1 de Maio (S. José operário), e a indirecta é a da sagrada família. Isto a nível oficial. No entanto, sabemos que a devoção a São José, embora tardia, esteve sempre presente na piedade popular. Já no século V, no âmbito da Sagrada família, já se fala da missão importante de São José estando ao serviço de Maria e de Jesus; ele é um homem justo, o casto esposo de Maria, o pai de Jesus, exemplo de uma vida de fé e de trabalho… Depois, na Idade Média aparece, numa perspectiva mais popular como patrono dos carpinteiros; no século XIII Santa Margarida de Cortona reza diariamente 200 pai-nossos em honra de São José e depois no século XV começa a divulgar-se e a escrever ‘vidas de São José’ como São Vicente Ferrer, e a famosa Suma dos dons de São José também de um dominicano Isidoro de ...

As Quartas da Quaresma

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O Convento onde vivo teve a ideia de promover, em cada quarta-feira da Quaresma, um final de tarde/princípio de noite, dedicado à celebração, oração e silêncio. Começa às 19.15h, com o jantar e termina pelas 22h, com a oração de Completas. Infelizmente não posso desfrutar destas quartas-feiras porque a sua preparação recai sobre mim. Tenho pena mas não me importo. Prever tudo o que vai acontecer, desde as inscrições das pessoas que querem tomar uma refeição ligeira em silêncio, escolher a música que se vai ouvir durante a refeição (hoje será música coral ortodoxa), preparar os textos de apoio à meditação, as fotocópias dos salmos das Vésperas e das Completas, o pôr a mesa, coisa que os pais mandam fazer aos filhos, supervisionar a refeição... tudo isto entendo como serviço. E faço-o em silêncio, com a ajuda de uma empregada. Há muitos anos atrás, confessei-me a um padre do pecado de me distrair nas missas por causa dos cânticos que tinha que cantar... que preferia não estar tão envolvi...

Para quê a Quaresma?

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Hoje começa a Quaresma. E é bom que caminhemos em sintonia com toda a Igreja. Este é um tempo de interioridade, de reflexão, de olharmos para dentro da nossa vida e fixarmo-nos no essencial. É um tempo que nos prepara para Páscoa. De facto, só assim teria sentido. Nós, cristãos, nestes dias, não jejuamos em vão, não rezamos em vão e não praticamos a esmola em vão. Não entendemos estas práticas como privações ou penitências. O jejum, a esmola e a oração são meios de união a Deus, de deixarmos o supérfluo e concentrarmo-nos no essencial. Por isso, nesta Quaresma, mais jejum. Além do jejum prescrito, questionável, jejuemos nos maus pensamentos, nas más palavras e nas más acções. Nesta Quaresma, mais oração. Além das orações mais rituais e habituais, falemos com Deus ou de Deus, não numa oração egoísta mas numa oração de comunhão. Rezar com os que crêem e pelos que não crêem, com os que sabem e pelos que têm mais dificuldade. Nesta quaresma, mais esmola. Aprender que o excesso não produz, ...

Vir a Lamego

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Vir a Lamego e ficar no Mosteiro das Irmãs Dominicanas é, para mim, um verdadeiro descanso. De vistas tenho, a descer, os Remédios, em baixo a cidade, à direita São Domingos de Fontelo, à frente Régua e Vila Real e à esquerda os montes da serra de Montemuro. Tudo isto acompanhado de oração, silêncio e fraternidade. Ouço as irmãs, com os seus desabafos, ouvem-me também a mim, fazem-me perguntas sobre os Irmãos, mostro-lhes as fotografias do Capítulo Geral (nem sabiam da existência dos computadores portáteis!), e assim fica marcada a minha passagem por este mosteiro. Isto cá em cima. Quando se desce à cidade (pelas escadas dos Remédios) sente-se o frio – ainda há muita sombra fria às dez horas –, mas vê-se o movimento calmo do Inverno ou de uma sexta-feira. Lamego, fora do tempo de Verão, quase se compara a uma pequena vila, sem grande movimento, o que faz com que seja uma cidade muito calma e boa para descansar. Os horários das irmãs são contrários aos horários do “mundo”. No mundo trab...

Solidão habitada

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Acabo de enviar um mail aos Cartuxos de Évora. Hoje celebram o seu fundador; é dia de São Bruno. Os cartuxos são conhecidos pela sua austeridade de vida, pelo silêncio e pela solidão. Tudo contrário aos desejos do mundo: temos mais do que o necessitamos, não suportamos o silêncio (dois exemplos: a malta nova com os phones nos ouvidos e a televisão que preenche o silêncio) e vemos a solidão como uma coisa horrível, quase uma doença. Mas com os cartuxos não é assim. Eles optaram pela austeridade, optaram por uma vida de silêncio e pela solidão. Como se vivessem no deserto. Têm como ícone São João Baptista. Acham que Deus fala no deserto, que só com o silêncio se pode ouvir Deus e só com a solidão poderão desfrutar da sua presença. São pouco conhecidos. Não fazem grandes propagandas nem vocacionais nem existenciais. Mas eles lá estão, rezando pelo mundo e suas necessidades, com os que rezam e pelos que não rezam, com os que têm fé e pelos que a não têm ou a perderam. Um apostolado invisív...

Silêncio e tanta gente

1984. Maria Guinot leva ao Festival da canção uma das mais bonitas músicas que marcaram a minha infância, juventude e que ainda hoje mexe comigo. Não pelo amor mas pelo constante contraditório da letra: um sim alegre ou um triste não, troco a minha vida por um dia de ilusão... Sempre esta música me disse que também somos contradições. Faz parte da existência humana. Já ontem disse que não tenho jeito para a poesia. Mas acredito que a poesia nasce do silêncio e da solidão. Aliás, para a escrever e para a ler. Também na vida, às vezes o silêncio é bom para escrevermos e lermos a nossa vida. Escrever isto, hoje, neste neste blogue, é porque quer aqui quer na vida, sentimos, às vezes, que a vida é silêncio no meio de tanta gente.

São Bruno

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Hoje é dia de São Bruno. Tenho-lhe muita devoção e invejo os seus monges. Quem me conhece deve rir-se com o que vou dizer mas, apesar de não ser cartuxo, sempre que visito uma Cartuxa ou passo por alguma imagem de São Bruno, fico com pena de Deus não me ter dado tão nobre vocação. Porque é no silêncio que Deus se revela, é no silêncio que Deus nos visita, é no silêncio que nós nos visitamos e conhecemos mais profundamente, é no silêncio que ouvimos a voz rumorosa de Deus que nos enche e sacia, é no silêncio que melhor rezamos, é no silêncio que somos autênticos. O silêncio destes homens, imposto por regra mas acolhido por vocação, é diferente dos nossos silêncios: os nossos são, às vezes, sinal de angústia, de debilidade, de medo, de orgulho, até de ódio pode ser. O silêncio cristão é um silêncio positivo: de humildade, de contemplação, de alegria e de amor. Defendo a Cartuxa contra aqueles que dizem que são pessoas 'inúteis' ou que fariam melhor trabalho pelo reino de Deus se ...