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O (meu) cântico de Páscoa

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Meu está entre parêntesis porque na verdade o cântico que aqui vou escrever não é meu, ou melhor, é também meu porque quem o escreveu fê-lo para ser partilhado. Falo do frei José Augusto Mourão, que faleceu em 2011. Não é uma figura de renome mas reconhecida por quem é de renome. José Saramago dedica-lhe umas frases no seu Diário, o Cardeal Tolentino Mendonça reconheceu nele uma pessoa de peso, mesmo que não de visibilidade. Cito o início de um texto que ele escreveu por ocasião da sua morte: " Um dia, quando se fizer a história do catolicismo português que nos é agora contemporâneo, há-de ver-se, em toda a clareza, que um dos seus actores magistrais foi, afinal, um frade e poeta, quase clandestino, que morreu esta manhã em Lisboa ". Para os que convivemos com ele atencipámo-nos à história, tornando-o presente nas nossas vidas, seja pelas releituras, seja pelas letras de cânticos que no Convento de São Domingos se vão cantando. Reconheço que a acessibilidade seja difíci...

Emaús

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O caminho da tristeza Torna-se mais longo e sem rumo. Os olhos, embargados e sem luz, Os pés, pesados e cansados A cabeça curvada e confusa Impedem os dois companheiros De ver Jesus. Ele caminha com eles Abre-lhes as Escrituras e o coração Lentamente tudo muda E tudo faz sentido Ao partir do pão. Regressam à cidade Com uma alegria incontida. É verdade, está vivo, E nós somos testemunhas Que a morte foi vencida. O caminho da vida É o caminho de Emaús. Quem o percorre sozinho Não encontra destino nem meta. Mas uma coisa é certa Nesse caminho anda Jesus.

Presépio incompleto

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Falta alguém no presépio. Conto as figuras, da pequena ovelha ao Menino Jesus Sete, oito, nove, até onze E incluo a estrela com a sua luz. Falta alguém no presépio. O Menino nasceu, foi visitado e adorado, Trouxeram prendas e calor, E grandes arcas de amor. Falta alguém no presépio. No luar da noite fico a pensar no Menino que nasceu, Faz frio lá fora, a neve vem mansa. Entretanto lembrei-me: quem falta sou eu.

Vem, Senhor Jesus

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Vem, Senhor Jesus, traz à nossa natureza o calor do teu amor. Traz ao nosso mundo a luz da tua paz. Vem, Senhor Jesus. Vem, Senhor Jesus, desenha a nossa vida com cores de esperança, semeia no nosso jardim as flores da alegria. Vem, Senhor Jesus, não tardes mais. Maranatha!

Caminhar a vida

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Um caminho Uma história Que se junta a tantas outras De vidas simples ou difíceis Todas com os seus quês E sem grandes porquês Que a caminhar se faz o caminho. Caminho fácil para uns Difícil para outros O mesmo para todos. É o sentimento, A intenção Talvez a aflição Que dá cor ao momento. Um caminho Uma vida Que se percorre a andar; Venham as companhias E com elas alegrias Que eu não quero parar.

A todos um bom Natal, com Jesus!

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Olho para ti, meu Menino, calor da noite fria, luz da humana agonia, estrela da minha alegria que nesta noite me faz cantar. Olho para ti, meu Menino, e vejo-me no teu olhar: espelho de esperança, um olhar de criança que quero conquistar. Olho para ti, meu Menino, e quero-te abraçar. Para quê? No presépio és barro ou plástico, que nos faz lembrar a história que só tu sabes contar. Abraça-me tu a mim para que eu possa sentir, enfim, a ternura a transbordar. Olho para ti, meu Menino, e faço este pedido: que não te seja eu esquecido e que sempre te saiba amar.

Duas crianças

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Era criança e cuidaste de mim. Esta é, Senhor, a bem-aventurança dos pequeninos. Não escrita mas talvez dita porque das crianças e dos que são como elas é o Reino dos céus. Um olhar, um sorriso, um choro ou uma tristeza um colo que nos é pedido ou um abraço de ternura são o calor humano e a proximidade cristã possível e presente de um amor esquecido mas que em nós se pressente. Foste criança e cuidei de ti. Cuida tu também de mim. Dá um sorriso ao meu rosto inocência ao meu coração à minha vida a ilusão de que tudo pode ser diferente novo e ardente. Sou também uma criança brinca comigo e sentirei a tua alegria e a tua paz.

Morrer lentamente

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Morrer lentamente, como quem se desamarra de um cais e deixa o barco da vida ir ao sabor do vento e do mar. E sem olhar para trás seguir confiante num futuro para além do medo, das lágrimas e do escuro. Morrer lentamente como quem descarrega um peso termina uma dança ou a coda de uma canção. De viagem em viagem, de canção em canção, ou até de dança em dança de olhos postos num futuro morre-se lentamente a sonhar. (imagem: Cristian Krohg, Olhando para trás, 1889)

Árvore morta

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Árvore morta: cidadela derruída. Verde ausente: outra cor não tão garrida. E contudo morrer é só trocar de vida. (A. M. Pires Cabral) (imagem: Paul Cézanne, Castanheiros no Inverno, 1885)

O mar e o espelho

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Tenho como espelho o mar onde me vejo e revejo por fora se navego e por dentro se mergulhar. Vejo-me nas suas marés altas e vagas encapeladas mas também nas baixas onde a praia se estende e vem o remanso que me traz o descanso. Tenho como espelho mar entrei por ele adentro e não sei onde vou parar. (imagem: ŒLEWIÑSKI, W³adis³aw, mar agitado em Belle-Ile, 1904)

Deambulação

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Não sei quem sofre mais na hora da partida. Será quem fica porque não vai ou quem vai porque não fica? Sentimento estranho, este, de ausência ou separação. Mas, para quê tanto olhar triste, angústia vazia, sentimento vão, se aqueles a quem queremos os levamos no coração? (imagem: Childe Hassam, pôr-do-sol no mar, 1911)

Cantarei eternamente as misericórdias do Senhor

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Que seria da minha vida, Senhor, se não me sentisse envolvido pela tua misericórdia? Procurar a tua confiança no turbilhão das minhas angústias a tua alegria no lodo das minhas tristezas a tua presença no escuro a minha solidão. Mas tu vences em mim. És mais doce que o meu desejo mais forte que a minha vontade mais presença que a minha indiferença. Fujo e vens ao meu encontro aproximo-me e deixas-te tocar, e posso também eu dizer, enfim, Meu senhor e meu Deus. Que seria da minha vida, senhor, se não fosse a tua misericórdia. (imagem: Michael O'Brien, Cristo Ressuscitado)