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Bruxas? Não, prefiro os santos, obrigado.

Esta mania americanizada, ou sei lá bem de onde veio, de querer transformar este dia de todos os santos em dias das bruxas, não tem piada nenhuma. O nome, apesar de ainda ter reminiscências cristãs, é decorado, com um tremendo mau gosto, de teias de aranha, morcegos, abóboras iluminadas, caveiras e bruxas. Os meus freis angolanos estavam atónitos a ver as montras sem perceber. E eu dei comigo a pensar que estes carnavais obsoletos e importados estragam este dia, que devia ser de festa, e de lembrarmos os que nos precederam agora estão junto de Deus. Não consigo perceber a piada de ligar este dia a ossos e caveiras. Prefiro as auréolas e os santos, as suas vidas e exemplos, tantas palavras e obras de gente que não entrou nos catálogos das canonizações mas que gozam da mesma alegria de Deus. Servos e servas boas e fiéis que entraram na alegria do seu Senhor. Homens e mulheres discretos e simples, que aprenderam do seu Mestre a  passar a vida a fazer o o bem, que se entregaram a Deus...

Ao som da chuva

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Desde que vim de Roma o tempo não me chega. Ok, um pouco exagerado, tavez, mas é o que sinto. Têm sido coisas atrás de coisas, com imprevistos pelo meio, o que faz com que nem tudo esteja a ir ao ritmo que precisaria e que o meu trabalho merecia. Mas um sábado tranquilo, como há muito não tinha, está a dar para adiantar trabalho mais urgente, como a homilia de amanhã, que acabei de escrever. Ao som da chuva. Gosto da chuva. Da janela do meu quarto vou vendo as metamorfoses do dia que começou com algum sol, foi escurecendo, e acaba de chover forte e feio, seria a expressão, mas digo forte e bonito. Porque ela veio mansinha, com o seu introito, pinga aqui, pinga ali, o vento a dar expressão e, de repente, num crescendo contínuo, cai certinha, molhando tolos e não tolos. Cai muito depressa, como se a nuvem escura que pairou sobre o convento quisesse descarregar aqui a água toda de uma vez. Foi o som da chuva que cai, com algum ruído dos carros que passam, que me fize...

Á espera da chuva

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Estive todo o dia à espera da chuva. Promessas de que o tempo ia mudar, as temperaturas iam baixar e que até podia começar a chover nesta tarde. Mas não. Parece que o dia andou a brincar connosco. Ora vinham nuvens ora vinha sol. Olhava para o céu e pensava: é desta. E não. Lá vinha um raio de sol que estragava tudo. Estou farto do verão. Estamos a terminar o mês e ainda nada de frio e chuva. Qualquer dia deixamos ter o "verão de São Martinho" para passarmos a ter verão até ao São Martinho! Mas durante este dia, muito caseiro, devo dizer, pensei bastante nos dias cinzentos. Não os dias metereológicos mas os dias em que só vemos cinzento na nossa vida. Não me refiro a mim, pessoalmente; apesar de algum cizento claro, inato, não costumo sofrer de daltonismo psicológico ou espiritual, mas tenho vindo a reparar que, às vezes, as pessoas carregam no cinzento da vida. Não nego que a vida, para muitos, esteja pintada em tons de cinzento ou até mesmo a preto, mas, al...

Primeiras chuvas

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Chegaram as primeiras chuvas a Lamego. Como se de pássaros migrantes se tratasse, vieram suaves, sem ninguém dar conta. Ontem as nuvens, hoje as águas. É um tempo nostálgico. O cheiro a terra molhada, tão próprio e inconfundível, misturado com o que sai dos pinheiros, também aspergidos pela chuva, passarinhos que cantam as suas melodias tristes ou alegres, só eles saberão. Da janela do quarto, onde passo grande parte do dia, vejo as três cruzes que servem ao mesmo tempo de torre sineira ao mosteiro. Olhando para baixo as torres do santuário dos Remédios que, cada quarto de hora nos dizem que o tempo vai passando e, em frente, as montanhas de Trás-os-Montes, hoje encobertas pela neblina. A cidade não se vê. Está lá em baixo, escondida, com o seu barulho e agitação. Aqui já não vai haver barulho o resto do dia. Só há de manhã, para a Missa. Os carros que sobem ao mosteiro, as pessoas que se cumprimentam e o padeiro que vem trazer o pão. Também eu me junto a esta nostalgia. Estes dias são...

Folhas de Outono

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Vêm as primeiras nuvens, Sopram os primeiros ventos, Caem mortas as primeiras folhas, Chegou o Outono. As folhas, envelhecidas, As mesmas que suportaram o calor E nos deram sombra, São agora pisadas, Pelo vento levadas Na terra sepultadas. Folhas caducas que nos ensinam Que também nós um dia, Deixaremos o nosso ramo. E cairemos, Embalados pelo vento, Na terra que nos há-de acolher.

Começam os dias longos

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Apesar de os dias ainda estarem a decrescer, digo em relação à luz que vai desaparecendo pelas seis da tarde, o trabalho e as preocupações começam a tornar os meus dias longos. Começo a não ter tempo para as minhas saudosas caminhadas, para ler, e para estar mais tempo no convento. Esta semana promete muito trabalho. O dia de hoje, cheio de preocupações por causa de umas filmagens que vão acontecer em breve, e porque sou meticuloso nestas coisas, passo as horas a fazer esboços, preparar músicas e fazer telefonemas. Menos mal que tive a chuva por companheira; janela aberta a ouvi-la cair. Até os finais de tarde, que os gosto de ter como momento de paragem, foram hoje de reuniões e de ajuda fraterna. Grande barco este onde navego. Amanhã outro dia cheio e, como se não bastasse, de correria: começa com uma Missa às 8.30 e terminará pelas 11h com preparação de uns noivos para casar. Espero ter tempo para ler nos entretantos. E venho agora do ensaio para a missa de Domingo. Vai ser especia...

Outono

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Outubro e Outono. Duas palavras irmãs. Apesar do Outono começar em Setembro, só neste mês, e este ano já no seu final, é que o começamos a sentir. Começam as chuvas, as folhas caducas desprendem-se das árvores, baixam as temperaturas, mais roupa na cama e no corpo, para mim mais nostalgia, mais música clássica (chuva na rua e música no quarto, as quatro estações de Vivaldi, fazem uma boa harmonia), é aonde me levam os sentimentos destes dias cinzentos fazendo os possíveis para que cinzenta não seja a vida, que frio não tenha a alma e que o sol aqueça o coração. Outono rima com sossego, com leitura, com ocupação. Rima com acordar à mesma hora mas, porque é Outono é também mais escuro. Não rima com frio mas rima com ritmo, talvez o mesmo com que a chuva cai (ainda é uma chuva mansa) , o mesmo ritmo de um compasso calmo e fugaz, que sai de um violino ou de um oboé. Outono rima com vida. Esta é uma estação da natureza e da vida. Lembra o efémero, que tudo muda, que tudo passa, mas que aind...