Feirão, 1964. Estava o Outono a meio. Ele tinha trabalhado todo o Verão como jornaleiro: nas cegadas, nas malhas, na arranca da batata, na esterroa... De sol a sol, assim se define esta profissão. Vieram os primeiros frios e as primeiras chuvas. Nas terras pouco se faz, quem tem gado leva-o para o monte, em nõ chovendo ou nevando. Ele, como só tinha umas ovelhitas e um burro, e já três filhas, pequenitas mas espertas, não tinha muito por onde ir. Nem sequer o reco para matar pelo São Martinho que aí vinha. Vida dura, ingrata e desgraçada a de um homem que não tem uma lameira nem uns enxertados e nem sequer uns quintais no fundo do povo para poder trabalhá-los. Era tudo à míngua. Mas tinha dicidido que assim não ia continuar. Iria para Lisboa. Ainda não tinha dito à mulher nem sabia sequer o que ia fazer, mas o tio António tinha ido e estava bem, o tio Albino também e ele queria também tentar a sua sorte. À noite, na cama, disse à mulher que ia para Lisboa. A mulher, mais medrosa, riu-s...