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Cinco anos

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Hoje a igreja do Convento onde vivo celebra o quinto aniversário. Os que assiduamente cá vêm dizem: Já cinco anos? Sim, já cinco anos. E eu também os celebro. Há cinco anos que me entregaram a pastoral da igreja do Convento. Muita gente diz que é uma referência não só para a diocese de Lisboa como para todo o país. Digo-o em relação à arquitectura, obviamente. Antes de mais pela singularidade de ser uma igreja conventual, o que distingue e identifica. E a grande diferença entre uma igreja paroquial e a conventual está no objectivo: uma igreja paroquial deve adptar-se à realidade do território da paróquia enquanto que, na igreja conventual, o que acontece é a identificação das pessoas com a realidade conventual. A própria arquitectura na concepção da igreja do convento vai mais num estilo comunitário do que individual. Alguns pormenores: não tem uma pia baptismal. Porquê? Porque não é uma igreja paroquial. Não tem um lugar específico para confissões: em qualquer lado da igreja, num simp...

Os embates da vida

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Entender a vida como uma planície, verde, cheia de beleza, sem mais nada, é uma ilusão. Uma paisagem bonita é aquela em que a combinação de volumes, cores e odores é quase perfeita. E assim é a nossa vida. Talvez no meio da montanha não tenha tanta piada como vê-la ao longe ou do seu cume o horizonte dos nosso olhar. Sendo a nossa vida uma paisagem, que será a planície ou a montanha? Cicatrizes dos embates da vida. Ontem, duas conversas amargas. Duas grandes montanhas (por vezes esquecemo-nos que a beleza de uma montanha foi o resultado de um violento embate da terra) numa paisagem tão plana e tão calma. Uma mãe, num estúpido acidente - daquelas situações em que se diz à hora errada no sítio errado - perde um dos filhos. No hospital, entre lágrimas, vai desfiando as suas dores e angústias, como quem vai passando as contas de um rosário. Diz-me que teve a honra de o ver nascer e de o ver morrer. Diz que lhe custa não ter o filho, não o ver. Diz que ainda não descobriu o outro modo de pr...

Homilia do XXX Domingo do Tempo Comum (24 de Outubro)

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A parábola contada hoje no Evangelho que, acabámos de escutar, pode ser entendida como uma provocação. Provocação para os ouvintes de Jesus, provocação para as primeiras comunidades cristãs e hoje provocação a cada um de nós. E é uma grande provocação que se pode desfragmentar em várias provocações. A primeira provocação é a dos actores da parábola. Um fariseu e um publicano. Um fariseu que fazia da aparência a sua vida, que tinha que ser reconhecido pela comunidade porque era exemplar e um publicano que era excluído pela comunidade pelo seu trabalho: era tido como um ladrão, como um explorador, dava-se com os inimigos do povo. Outra provocação é a do tipo de oração que estes dois homens fazem: ambas sinceras. O fariseu assume uma atitude normal do seu modo de rezar: está de pé. A sua oração é sem hipocrisia: é um homem recto, observa a lei – ainda que só na sua exterioridade –, evita os pecados, não rouba nem é injusto como o publicano que estava também a rezar. Ele até faz mais que o...

Os Valinhos

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Acabou hoje o retiro. Consegui ter uma tarde livre em Fátima. Tem sido raro, nos últimos dias, ir a Fátima e ter tempo livre, só para mim. Como o retiro acabou depois do almoço e só vinha para Lisboa depois do jantar aproveitei para caminhar. Três horas. Para fazer um recorrido nos arredores do Santuário: Via-Sacra dos Valinhos, Calvário Húngaro, Loca do Cabeço, Aljustrel, Fátima (igreja paroquial e cemitério) e regresso a casa pela "Estrada principal de Fátima". Para mim a Via-Sacra dos Valinhos continua a ser o melhor de Fátima. Lembro-me que, quando era pequeno, era devoção obrigatória da peregrinação da paróquia de Marvila. Muitos autocarros, megafone... uma solenidade; o prior presidia, os leitores liam, os cantores cantavam os cânticos antigos que agora já se não usam, as pessoas muito piedosas e nós, os mais pequenos, sempre uma estação à frente, olhávamos para o quadro e deixávamos no altarzinho de cada estação umas florinhas apanhadas à beira do caminho. Hoje, adulto...

Este meu dia

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Estou em Fátima. Cheguei ao fim da tarde para vir pregar um retiro. O tema será a oração. Da oração de Jesus à nossa oração. Mas o dia de hoje foi muito engraçado. A manhã foi, logicamente, a preparar as últimas coisas: impressão do texto, mala, livros, etc. etc. Mas a hora do almoço foi no Externato de São José, no Restelo. Este ano que retomo o acompanhamento deste Colégio, pediram-me que fosse uma vez por mês, à hora do almoço, sem motivo. Dir-se-ia, "pastoral da presença". Cheguei ao meio-dia, fui para o refeitório, onde estavam os do 1º e 2º ano a almoçar. Novidade no refeitório, olá eu sou o Gonçalo, e tu quem és? Eu sou o Filipe, e ficaram as apresentações feitas. Lá os animei a comer rápido, com a promessa que, depois do almoço ia brincar com eles ao toca-e-foge. Numa outra mesa estavam quatro de castigo, vá-se lá saber o porquê - nem eles sabiam bem - aliviar um bocado o drama, houve um que até chorou e diz-lhe um colega: chorar não te tira do castigo, mas é sinal de...

Os nossos "Natanaeis"

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Faz daqui a poucos dias quatro anos que fui a Bruxelas ao ICNE (Congresso Internacional da Nova Evangelização). Fui a convite do Prior do Convento que queria presença "jovem" para a animação desse Congresso. O mais interessante eram as conferências que, cada manhã, aconteciam na grande basílica do Sacré-Coeur. Houve uma do nosso dominicano Timothy Radcliffe. A conferência era sobre o anunciar a Boa Nova aos habitantes das grandes cidades da Europa. Na altura não nos tínhamos de preocupar com tirar notas porque, no último dia, era-nos dado um livro com todas as conferências. Trouxe o livro, emprestei-o e o que é certo é que me desapareceu. No sábado passado, estando no Campo Grande à espera da hora de um casamento, enquanto 'espreitava' a biblioteca do P. João Resina (diz-me o que lês e dir-te-ei quem és), encontrei o livro! Não era o meu, claro está, mas era o mesmo livro. Tirei fotocópias da tal conferência que ontem acabei de ler. E mais uma vez se conclui que Timot...

A toque de sinos

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Nada mais bonito que ouvir sinos tocar. Já foi o tempo em que marcavam a vida da cidade ou da aldeia. Desde o toque para a escola até ao toque para a missa ou a rebate para fogo, o sino tem cadências diferentes, formas de se exprimir e de nos dizer o que quer ou que se passa. Tenho na minha memória alguns sons de sinos. Como esquecer os sinos em Feirão que, no domingo, nos anunciam com festa a Missa? Ainda hoje me arrepiam. Ou os de Taizé, com um timbre tão próprio... O sinos têm e transmitem sentimentos. O sino canta quando alguém é baptizado ou casa. Chama quando é para ir à Igreja à Missa ou ao terço. Chora quando morre alguém. E, se é homem, chora de uma maneira; se é mulher, chora de outra. E vamos sabendo o que se passa pela maneira como tange. Hoje fui ao Paço do Lumiar fazer o baptizado do Gonçalo. Uma igreja antiga, lindíssima, do século XVII (1603), com um belo adro. Entregue aos jesuítas desde há quatro anos, o padre Alberto, homem simpático e acolhedor, pôs os sinos a tocar...