Espiritualidade dominicana - textos de apoio (sessões 3 e 4)
(texto do Agiológio Dominico, escrito por fr. Manuel de Lima, em 1710, no qual se fala da intervenção divina no nascimento de São Domingos, do seu batismo e origem do nome)
3. Voltando à vida do nosso Patriarca, ensinam muitos autores com Santo Antonino, que fora, santificado no ventre de sua mãe. Nasceu Domingos, e diz o Beato Alano, que ao nascimento assistiu Maria Santíssima, e o recebeu nos braços: mostrando que nascia para brilhante luz, quem principiava a aparecer no mais engraçado firmamento: ou pagando-lhe a Senhora com este antecipado benefício, o incansável desvelo, com que ele havia dilatar os seus cultos. A terra onde o Santo nasceu, e a Rainha celestial assistiu, é experimentado socorro a gravíssimas enfermidades; e por mais que se leve, nunca faz falta: porque visivelmente cresce. No dia do batismo, diz o mesmo Alano, se lhe deputou o nome de Domingos, por expressa intimação de Cristo e de Maria. Outros autores dizem que foi em veneração de São Domingos de Silos: o certo é que foi por particular Providência: porque a etimologia mais natural de Domingos em Latim, é Domini icon: Imagem do Senhor; e quem acabar de ler esta vida, confessará que este devia ser o nome. Também diz muito o fiel Anagrama Dominicus Gusmannus, que brota de si: Signis mundum vocans: o que chama o mundo para a salvação, com maravilhas. A madrinha, que o sustentou no batismo, pessoa de qualificada virtude, lhe divisou na testa uma estrela, que parecia ilustrar todo o mundo. A pia, em que foi batizado, se conserva com o devido respeito, e Filipe III de Castela a fez levar para Valladolid, para batizar um filho herdeiro, a quem pôs o nome de Domingos. Teve dois irmãos. Um chamado António, que buscando a Deus entre os seus pobres, viveu e morreu santamente servindo em um hospital. O outro chamado Manés, muito dado ao exercício da Oração, na qual aprendendo a deixar o mundo, recebeu o nosso hábito e professou nas mãos de seu ilustre irmão; estudou em Paris, morreu em Espanha; e está sepultado em um convento da Ordem de Cister.
(do mesmo autor, sobre episódios da vida de São Domingos enquanto estudante em Palência)
5. Houve neste tempo naquela Universidade, apertadíssima fome: e o coração de Domingos, sempre compassivo, e agora trespassado com os gemidos dos necessitados, foi-se de casa, despovoou-a de todas as alfaias; e até dos próprios livros, tudo vendeu e com o preço de tudo, acudiu aos que julgava mais oprimidos. Deu tanto brado esta caritativa acção, que os corações mais duros e os celeiros mais fechados não puderam resistir a este golpe. Acudiram com quanto encerravam: ficando a opressão remediada e devendo-se ao exemplo do nosso santo, o remédio. Dizem que não foi esta a única ocasião em que vendeu os livros por semelhante causa. Poucos tempos depois se encontrou com uma pobre mulher que com enternecidas vozes e abundantes lágrimas, lhe pediu algum socorro para libertar um irmão cativo em poder dos Mouros, o qual irmão era o seu total remédio. Olhou o santo para si e vendo-se sem ter com que acudir à referida aflição, disse à lastimada mulher: Filha, eu me acho sem cabedal, mas vós não ficareis sem remédio: vendei-me e com o dinheiro que vos render a minha escravidão, comprai a liberdade do vosso cativo. Se neste meio considerais menos congruência, trocai-me por este irmão; seja eu o cativo, pois sou inútil; seja ele o liberto para acudir às vossas necessidades. Ó abrasadíssimo incêndio do amor de Deus tão vivamente desafogado nestas labaredas para com o próximo!
