Espiritualidade dominicana - textos de apoio (sessão 4)
(Texto extraído do Opúsculo sobre as origens da Ordem dos Pregadores, do Beato Jordão de Saxónia, sobre a presença de São Domingos no cabido de Osma).
Desde o primeiro momento, Domingos, como uma estrela de alva, irradiou o seu esplendor entre os cónegos, mostrando-se profundíssimo na humildade, sublime na santidade mais do que todos, tornando-se para todos fragrância de vida para vivificar e como o incenso a exalar o seu perfume em dias de Verão. Todos ficaram maravilhados por tão rápido e nunca visto cume de perfeição e concordaram em nomeá-lo subprior para que, colocado num lugar mais alto, iluminasse a quantos o contemplassem, arrastando-os com o seu exemplo. Como uma oliveira que lança rebentos e como um cipreste que se eleva passava os dias e as noites a rezar no templo sem interrupção; mergulhando na contemplação era raro vê-lo fora dos muros do mosteiro. Deus concedera-lhe o dom singular de chorar pelos pecadores, pelos desgraçados e pelos aflitos; as misérias destes tocavam no mais profundo do seu ser e manifestavam-se externamente em torrentes de lágrimas. Era frequentíssimo ele passar a noite em oração e, fechada a porta, elevar a sua prece ao Pai. Durante estes colóquios divinos, os gemidos do seu coração convertiam-se em gritos lancinantes que ele não conseguia conter e que eram ouvidos claramente ao longe. Era constante esta sua súplica especial a Deus: pedir-Lhe que lhe concedesse a verdadeira caridade para cuidar e trabalhar eficazmente na salvação dos homens, consciente de que só seria verdadeiramente membro de Cristo quando se consagrasse em pleno à salvação das almas, à semelhança do Senhor Jesus, o Salvador de todos, que se entregou totalmente pela nossa salvação. Domingos lia certo livro intitulado As colações dos Padres que trata da perfeição espiritual e dos vícios que se lhe opõem. Lendo este livro e procurando descobrir nele as sendas da salvação, esforçou-se por segui-las. Com a leitura deste livro e a ajuda da graça divina atingiu uma grande pureza de consciência, um alto nível de contemplação e um sublime grau de perfeição.
(Excerto das Conferências de João Cassiano sobre a pureza de coração)
É, portanto, pela pureza do coração que tudo devemos fazer e apetecer. Por ela, temos de ir atrás da solidão. Por ela, saibamos que nos cumpre assumir jejuns, vigílias, trabalhos, despojamento, leitura e outras virtudes, para, graças a isto, tornar e conservar livre de más paixões o nosso coração, galgando por estes degraus a perfeição da caridade. E se eventualmente não pudermos, em virtude de alguma legitima e necessária ocupação, realizar o ritual dos nossos rigores habituais, não vamos por motivos de tais observâncias cair na tristeza ou na ira ou indignação, pois é para vencer tais coisas que teríamos feito o que foi omitido. Não é tão grande o lucro do jejum, quanto os dispêndios da ira; nem tanto o fruto que se colhe com a leitura, quanto o dano que sofremos com o desprezo de um irmão.
(Excerto das Conferências de João Cassiano sobre o discernimento)
O discernimento, mantendo-se igualmente afastado dos extremos contrários, ensina o monge a caminhar por uma senda real, e não o permite afastar-se nem para a direita por causa de uma virtude orgulhosa e um fervor exagerado que roçam os limites da justa temperança, nem para a esquerda, por causa do relaxamento e do vício, sob pretexto de olhar excessivamente pela saúde do corpo, numa apatia preguiçosa e mortal.
(Excerto das Conferências de João Cassiano sobre a oração)
Em primeiro lugar, qualquer preocupação com as coisas temporais deve ser estritamente suprimida. Devemos eliminar imediatamente não só a preocupação, mas também a recordação de assuntos e negócios que exijam a nossa atenção. Devemos também renunciar à calúnia, às palavras vãs, aos mexericos e às piadas. Devemos suprimir todo o movimento de raiva ou tristeza. Finalmente, devemos erradicar radicalmente as forças perniciosas da concupiscência e da avareza. Uma vez destruídos estes vícios e outros semelhantes, que os olhos humanos não podem deixar de notar, e depois de nos dedicarmos a esta purificação da alma que atinge o seu auge na pureza e simplicidade da inocência, impõe-se um trabalho positivo: devemos cimentar-nos, antes de mais, numa profunda humildade que seja capaz de sustentar a torre que deve fazer chegar aos céus o seu topo; depois, erguer o edifício espiritual das virtudes; e, finalmente, impedir que a nossa mente vagueie, que se afaste de todos os pensamentos concupiscentes. Assim, a alma elevar-se-á gradualmente à contemplação de Deus e das realidades sobrenaturais.
