terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Um pauzinho de net

Estou em Roma para participar no encerramento das comemorações dos 800 anos da aprovação da Ordem dos Pregadores a que pertenço. Vim com o meu Padre Provincial por ser o promotor provincial do Jubileu. Começará esta tarde, com um Congresso, com a sessão de abertura, por parte de grandes personalidades da Ordem. Seremos mais de 400 pessoas (de toda a Ordem e Família Dominicana) e estamos em vários pontos de alojamento. A mim calhou-me um hotel (que é mais uma casa religiosa), com uma vista óptima mas sem net. Ou melhor, sentado no bidé da casa de banho, virado para o lado do lavatório, consigo ter um pontinho de wi-fi, que vai dando para ver mails e escrever.
Chegámos ontem, fizemos boas caminhadas e visitámos alguns sítios... A entrada ontem à tarde na basílica de São Pedro foi facilíssima, não estariam mais de 40 pessoas lá dentro.
E esta manhã ida a Santa Sabina para resolver alguns assuntos provinicias. Encontrámos o anterior Mestre da Ordem, actual bispo de uma diocese da Argentina, que abiriá esta tarde o Congresso. De lá fomos a São Paulo Extra-Muros.
Espero vir aqui para comentar algumas coisas destes dias... assim não me falhe o único pauzinho de net!

sábado, 7 de janeiro de 2017

Mário Soares

Há pessoas que tive o gosto de conhecer. Alguns já falecidos tive pena de não os ter conhecido. Mas conheci Mário Soares. Foi há uns quatro anos, no Campo Grande, numa missa que presidi para o Colégio Moderno. Na primeira fila estava ele, a sua mulher e a filha. No fim da celebração veio ao meu encontro, à Sacristia, para agradecer a celebração. Manifestei-lhe a minha alegria sincera em o conhecer.
Nasci depois do 25 de Abril de 1974 e não sei o que é estar privado de liberdade e de não me poder exprimir livremente. Mas, olhando para Mário Soares, senti sempre um orgulho, pensando que a ele se deve a democracia em Portugal. Tinha eu dez anos quando Portugal entrou na União Europeia. Tenho pouca consciência do que era a vida antes da União Europeia. Sei o que foi viver com escudos, sei que havia crises económicas, mesmo não tendo sido directamente abalado por elas, sei que foi Mário Soares que nos tirou deste rectângulo quase esquecido que era Portugal e nos fez virar para onde a Europa vivia.
Independentemente de cores políticas e da ideia que cada um tem de Mário Soares, positiva ou negativa. hoje presto aqui a minha simples, sincera e positiva homenagem a um homem grande, que me faz hoje viver em liberdade e aberto ao mundo.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Rosário peregrino

No dia 7 de Novembro de 2015 os mosteiros da Ordem Dominicana começaram um movimento jubilar que chamaram Rosário Peregrino. Ou seja, ao longo do ano foram atribuídos dois dias para celebrarem em Família Dominicana esta grande e dominicana devoção do Rosário. Começou em Prouille, o primeiro mosteiro da Ordem, e terminou hoje em Fátima, no nosso Mosteiro Pio XII. As monjas dominicanas convidaram o noviciado a estar presente e nós aceitámos.
Fomos e rezámos o Terço em Família Dominicana. E regressámos com a chuva, que nos brindou neste novo ano.

sábado, 31 de dezembro de 2016

Bom e Feliz Ano Novo

Nossa Senhora com o Menino Jesus a dar os primeiros passos.


Termina 2016 com as suas alegrias e tristezas, angústias e esperanças. Um ano difícil, mas com a esperança de assumir as dificuldades como desafios e nunca como derrotas.
E, como em tudo na vida, o novo ano que já provoca dores de parto, herda o que ficou por fazer, mas abre-se à novidade. Uma novidade cheia de luz, alegria e paz.
Peço hoje a Deus a abertura do coração para acolher a novidade do novo ano. Se Deus estiver nele, grandes progressos faremos, na conquista pessoal e no acolhimento do outro. Bom ano de 2017!

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Presépio incompleto




Falta alguém no presépio.
Conto as figuras, da pequena ovelha ao Menino Jesus
Sete, oito, nove, até onze
E incluo a estrela com a sua luz.

Falta alguém no presépio.
O Menino nasceu, foi visitado e adorado,
Trouxeram prendas e calor,
E grandes arcas de amor.

Falta alguém no presépio.
No luar da noite fico a pensar no Menino que nasceu,
Faz frio lá fora, a neve vem mansa.
Entretanto lembrei-me: quem falta sou eu.

sábado, 17 de dezembro de 2016

As esperas por dizer

Começa hoje, de forma simbólica, a novena do Natal. Semana maior, para uns (erradamente, porque a semana maior é a semana Santa), semana do Ó, por causa das antífonas, que até vieram a dar uma história engraçada na liturgia. No antigo calendário, no dia 18 de Dezembro celebrava-se a memória de nossa Senhora da Expectação. Tem outros títulos, como a Senhora da Encarnação, do parto (começam também as Missas do parto)... mas o primeiro título era o oficial. Da expectação. Que significa? Nossa Senhora da espera ou das esperas. Simbolicamente, quer-se celebrar os últimos dias da gravidez de Nossa Senhora, uma alegria ainda incontida, como as esperas e as alegrias de quem vai ser mãe. Na véspera, dia 17, começavam liturgicamente uma série de antífonas, que se chamam do Ó, por começarem por esta interjeição. No ano passado tive a possibilidade de deixar neste blogue uma pequena meditação para cada dia. E foi das pessoas ouvirem os monges a cantar estas antífonas que nasceu a invocação de Nossa Senhora do Ó, culto que lhe vem do século X, sobretudo aqui na nossa Ibéria. Actualmente a liturgia não deixa fazer esta comemoração, mas não proíbe de invocar esta mãe, com o filho prestes a nascer.
António Nobre, em 1889, escreveu também um extenso poema a Nossa Senhora do Ó, que aqui deixo:
Ó mística mulher, nascida na Judeia,
Fantasma espiritual da legenda cristã!
Imperatriz do Céu, que para além se alteia,
A Nação de que a Terra é uma pequena aldeia,
E simples lugarejo a Estrela-da-manhã!
Morena aldeã dos arredores de Belém!
Mãe admirável! Mãe do Sofrimento humano!
Mãe das campinas! Mãe da Lua! Mãe do Oceano!

Ó Mãe de todos nós! Ó Mãe de minha Mãe!

Vela do Altar! Casa de Ouro! Arca da Aliança!
Rede do Pescador! Lanterna do ceguinho!

Ó meu primeiro amor! Minha última Esperança!

Amparo de quem vai pela existência, e cansa!
Oblação pura! Silva de ais! Vela de Moínho!
Meu Sete Estrelo! Mar de leite! Meu Tesouro!
Palácio de David! Ó Torre de Marfim!
Anjo da Perfeição! cujo cabelo louro,
Caído para trás, lembra uma vinha de ouro,
Que eu desejara ver aos cachos sobre mim…
Grão das searas! Sol d’Abril! Luar de Janeiro!
Luar que ruge os cravos, sol que faz corar a vide…
Alimento dos Bons! Farinha do moleiro!
Auxílio dos cristãos! Vela do marinheiro!
Portas do Céu! Glória da casa de David!
Sol dos sóis! Ancora ebúrnea! Águia do Imenso!
Vinho de unção! Pão de luz! Trigo dos Eleitos!
Ideal, por quem, a esta hora, em todo o Mundo, eu penso,
No Ar se ergue, em espirais, um nevoeiro de incenso,
E desgraçados, aos milhões, batem nos peitos…

Ó Fonte de Bondade! Ó Fonte de meus dias!

Vaso de insigne Devoção! Onda do Mar!
Coroa do Universo! Asa das cotovias!
Ogiva ideal! Causa das nossas alegrias!

Ó Choupo santo! Ó Flor do linho! Ó nuvem do Ar.

Carne de Cristo! Cidadela de altos muros!
Santuário da Fé. Lancha de Salvação!
Alma do Mundo! Avó dos séculos futuros!
Fortaleza da Paz! Via-Láctea dos Puros!
Monte de Jaspe! Rosa Mística! Alvo Pão!
Sangue do leal Jesus! Cadeira da Verdade!
Vime celeste! Água do Mar! Pérola Única!
Mulher com vinte séculos de idade
E sempre linda mocidade
Pelas ruas do céu, passas, cingindo a túnica…
Cesto de Flores, Advogada Nossa!
Alvéu de espuma! Cotovia dos Amantes!
Escada de Jacob! Sol da Sabedoria!
Rainha dos Mundos! Pão nosso de cada dia!

Ó véu das noivas! Ó Farol dos navegantes!

Ó Leme da Arca-Santa! Ó Cruz dos sítios ermos!
Toalha de linho! Hóstia de luz! Cálice da Missa!
Modelo da Pureza! Espelho da Justiça!
Estrela da Manhã! Saúde dos enfermos!

Ó Virgem Poderosa! Ó Virgem Clementíssima!

Ó Virgem Sofredora! Ó Virgem Protectora!
Ó Virgem Piedosa! Ó Virgem perfeitíssima!
Virgem das Virgens! Minha Mãe! Nossa Senhora!

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Dar lugar a Deus

Inaugurou-se, hoje, no Vaticano o presépio e acenderam-se as luzes da grande árvore de Natal. Eu, porque estava em outros afazeres, cheguei meio minuto antes de apagarem as luzes. O Papa não esteve na cerimónia mas recebeu esta manhã os que estiveram envolvidos quer na construção do presépio quer no enfeite da árvore. E, com palavras simples, agradeceu e disse isto, que acho que todos nós deveríamos ter presente nas nossas casas: "O presépio e a árvore transmitem uma mensagem de esperança e de amor, e ajudam-nos a criar o clima natalício favorável para viver com fé o mistério do nascimento do Redentor, que veio ao mundo com simplicidade e mansidão. Deixemo-nos atrair, com a alegria das crianças, diante do presépio, porque lá compreende-se a bondade de Deus e contempla-se a sua misericórdia que se fez carne humana para enternecer o nosso olhar." Nada de transcendente mas não deixa de ser uma bela reflexão a caminho do Natal.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

P. Congar e a liturgia

Não sei se há algum estudo académico ou literário sobre esta faceta do P. Congar. Um frade incontornável na Igreja do século XX e também na Ordem, mesmo se sofreu alguma coisa antes do Concílio, fosse por pressão do Vaticano (Pio XII) fosse por parte da Ordem, que o queriam silenciar.
Uma coisa é certa: o P. Congar mostrou aos que se achavam na verdade que poderiam estar a ser injustos para com a Verdade. De tal modo que o Concílio lhe dará razão e o Papa João Paulo II fá-lo-á cardeal, já doente, no fim da sua vida.
Voltando ao tema. Não sei se há algum estudo sobre a relação do P. Congar com a liturgia. Mas, nestes dias de trabalho, em que me coube juntamente com o secretário fazer uma "informatização" do conteúdo dos arquivo da Comissão, encontrei, por acaso, uma carta do P. Congar ao então Mestre da Ordem fr. Vicente de Couesnongle sobre a aprovação do primeiro livro litúrgico da Ordem, aprovado depois do Cocílio.
Trata-se de um pedido que o Mestre da Ordem fez a vários peritos da Ordem sobre a Carta de Promulgação do volume da Liturgia das Horas que ele escreveu. Foi enviada, como digo, a vários irmãos, um dos quais o nosso querido P. Congar. No dia 28 de Agsto chega a Roma uma pequena carta com o seu parecer. Nela se lê que não tem muito a acrescentar mas que gostaria de insistir em que "1º: na unidade entre celebração dos mistérios, seja no estudo (teologia), seja na sua comunicação (pregação, apostolado nas suas formas mais variadas); 2º que não há comunidade religiosa possível se não se celebra em conjunto as festas litúrgicas; 3º a liturgia guarda um grande tesouro da tradição e da confissão da fé apostólica".
Isto diz muito e dá que pensar a nós, dominicanos. E dará muito que fazer.

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Uma das sete colinas

Tal como Lisboa, Roma também tem as suas sete colinas. Uma delas, a que está mais a sul, é a do Aventino, onde está o convento de Santa Sabina, onde estou nestes dias. Este bairro, que desde a Antiguidade foi sempre considerado dos mais "ricos", sempre foi um bairro calmo, em que o movimento se faz praticamente para ir ver a vista da cúpula de São Pedro. No vale do Aventino está o famoso Circo Máximo e, do outro lado, outra colina, onde está uma outra nobre colina, a do Palatino. Voltando a esta colina, ela tem quatro basílicas: a de Santo Anselmo, a mais recente e onde está o grande centro de estudos em liturgia, a de Santo Aleixo (San Alessio), cuja história é comovente mas que não cabe neste espaço, a de Santa Sabina, uma cristã romana cuja basílica se construiu sobre a sua casa, e Santa Prisca, ou Priscila, uma cristã que, segundo a tradição foi baptizada por São Pedro, e de quem São Paulo fala em várias das suas cartas. Era uma veneranda cristã que recebia a Igreja na sua casa. Foi também sobre esta casa que se construiu esta igreja, que é paróquia, simples mas muito bela pela sua brancura e pelo que resta dos seus frescos.
Assim enriquecida, esta colina tem também vida religiosa muito silenciosa ou, se quisermos, contemplativa: os beneditinos, que vivem, rezam e estudam em Santo Anselmo, os dominicanos, que vivem, rezam e estudam em Santa Sabina e, descendo um pouco, um mosteiro de monjas camaldulenses, que seguem a regra de São Bento, que aqui vivem, rezam e praticam a caridade com os mais pobres. Todos os dias, pela hora do almoço, abre-se uma fila de pobres que, à porta do mosteiro recebem algum alimento.
Uma riqueza espiritual numa sossegada e tranquila colina de Roma.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

As esperas

Um ditado diz que quem espera sempre alcança mas um outro não ilude: quem espera desespera.
E aqui estou eu, no aeroporto de Lisboa, à espera de um avião que me levará a Roma mas que já vai partir com atraso. O aviso chegou ao meu telemóvel tinha eu acabado de sair de casa.
O ambiente é calmo, apesar de tudo isto parecer um centro comercial. A música de fundo demasiado mexida para estas horas da manhã, as lojas de marca vazias, as do galo de Barcelos, que agora se tornou o ícone de Portugal, vão tendo algumas pessoas à procura de vinho do Porto ou de pastéis de nata...
E movimento. Pessoas para trás e para a frente, com malas e sacos, casacos, e até um senhor com um grande guarda-chuva.
Na minha mala de mão vai só o portátil e uma pasta com documentos de trabalho. Mais uma vez os trabalhos de Roma, da comissão litúrgica a que presido.
Aqui estou eu, sentado numa cadeira de espera, tentando não desesperar e querendo Roma alcançar.