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Tudo e nada

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No sábado passado celebrei missa na igreja do mosteiro das monjas dominicanas de Olmedo. Na sacristia encontrei sobre a mesa um texto de São Norberto (sec. XI) sobre o sacerdote. Li-o na Missa do Campo Grande, a propósito do Evangelho que falava da nomeação dos Doze e do seu envio. Deixo-o aqui como partilha: "Sacerdote, tu não é tu porque és Deus.
Tu não és para ti porque és servo e ministro de Cristo.
Tu não és teu porque és para a Igreja.
Tu não és para ti porque és o mediador entre Deus e os homens.
Tu não te bastas porque és pecador.
Tu não és para ti mesmo porque não és nada.
Oh sacerdote! Quem és, então?
Tudo e nada!
Tem cuidado contigo, para que não se diga de ti
o que disseram de Cristo na Cruz:
«salvou os outros e não pode salvar-se a si mesmo
»".

A infância de São Domingos

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Estive em Caleruega na semana passada com os noviços. A última vez que tinha estado foi em 1999, como noviço. Para dos dominicanos há três lugares "dominicanos": Caleruega, lugar do nascimento de São Domingos, Toulouse, lugar da pregação de São Domingos, e Bolonha, onde está sepultado. Caleruega é uma pequena aldeia que pertence a Burgos. Não tem muito que ver para se estar uma semana. Tem o convento dos frades, o mosteiro das monjas e a igreja paroquial. Mas tem história e espiritualidade. A história contam-na as pedras e as construções; a espiritualidade conta o coração de quem lá vive e de quem visita. O que me fica desta viagem é a infância de São Domingos. Uma infância que explica a sua vida adulta. Uma infância envolvida por um bom ambiente familiar em que todos sobressaem pelas virtudes humanas e cristãs, em especial a atenção aos doentes e aos pobres. Perguntando a um frade que nos fez a explicação de Caleruega, sobre quem tinha mais devoção, se a mãe se o filho, el…

Frei Francolino Gonçalves - um irmão

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Estou em Caleruega com os noviços a visitar os lugares dominicanos. O tempo é pouco e, consequentemente, os acessos à internet limitados. Mas recebi ontem, manhã cedo, a notícia da morte do frei Francolino Gonçalves, dominicano e biblista.Dos frades mais velhos era o único a quem tratava por tu. E isso mostra a simplicidade e proximidade nas relações fraternas. A primeira vez que estive com ele foi numa ida a pé à universidade católica, talvez pelo ano 1998, era eu postulante, ceio. E foi a primeira vez que, destemido, fiz as minhas perguntas "escondidas" sobre a Bíblia. E ele, com simplicidade, - nem todas as perguntas seriam adequadas a um grande exegeta - foi respondendo. É assim foi até ao fim quando vinha a Portugal. Eu ou outro irmão íamos fazendo perguntas que ele respondia e acrescentava com outros contornos mas sempre com muita simplicidade. Falávamos da terra. De forma apaixonada, dos seus montes e das suas histórias, da inquietude em ir para a terra, do dizer-me qu…

As cerejas!

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Não tive tempo e já vai tarde a minha homenagem às cerejas! Em Resende vão fazê-la no próximo fim-de-semana. Estive na semana passada em Lamego, onde as cerejas, boas, rijas e abundantes, se colhiam e vendiam por todo o lado. Uma monja ao olhar para as cerdeiras, dizia-me: pára, frei, que elas estão a pedir misericórdia! De facto, estavam as cerdeiras carregadas na estrada de Bigorne para Lamego. Provei as de Sucres e as de Lamego (da cidade e do mosteiro). Não tive oportunidade de ir às de Resende...  Em Feirão não há cerdeiras. Ou pelo clima ou sem motivo aparente válido, aquele enclave não produz cerejas. Temos as amoras e muitas graças a Deus. Mas veio-me à mente que há uma zona agrícola em Feirão que tem o nome de "Sardeiras". Lá a terra é fértil, numa pequena colina, haviam umas pequenas hortas, perto da aldeia, com abundância água, onde as pessoas iam (agora está tudo praticamente abandonado) buscar os produtos da época desde as batatas às cebolas e couves e coisas a…

Um caminho de silêncio

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A obrigação foi o motivo a necessidade uma utilidade. Consegui ter um dia mais livre e fui a Fátima. Saí cedo para chegar cedo e aproveitar a manhã para a necessidade de estar só e em silêncio. Fiz o caminho dos pastorinhos, que nós conhecemos como o caminho da Via Sacra e do Calvário Húngaro. Alguns grupos estavam a fazer a Via Sacra - espanhóis, canadianos, polacos, italianos -, outros no desporto, uma senhora sentada no muro a rezar devotamente o seu terço, e eu. Eu em silêncio, apesar do que se ouvia cantar e rezar em línguas que não a minha. E também eu fiz a Via Sacra, em silêncio, lembrando-me de quando era criança e da maneira como fazíamos a Via-Sacra, e também dos próprios quadros das estações. Sem muito sol lá fiz o meu caminho, em silêncio e com calma. Terminada a Via Sacra fui aos Valinhos onde há dois monumentos, não menos importantes, e que nos convidam à oração: a loca do cabeço, onde se diz o anjo ter aparecido aos pastorinhos e o lugar da aparição de Agosto. Dois lu…

O bom odor de Cristo

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Desde o ano de 1233 que este dia 24 de Maio ficou gravado na memória dos frades que viviam naquela altura e na história da Ordem Dominicana. O frades tinham decidido, com alguma pressão do Papa Gregório IX, que tinha convivido com São Domingos, levantar o corpo de São Domingos do primitivo túmulo, que estava meio abandonado e entregue às intempéries, para um novo túmulo no novo convento. Os frades queriam fazer a trasladação meio em segredo, por não saberem em que estado estava o corpo de Domingos. Naquela Idade Média um corpo incorrupto era sinal de santidade. Mas o Papa Gregório, impossibilitado de estar presente, mandou uma comitiva, o que fez com que o segredo se tornasse numa solenidade. E conta a memória deste dia que, mal retiraram a lápide, saiu do corpo de São Domingos uma fragrância muito suave que ficava agarrada às mãos ou às roupas de quem tocava no corpo de São Domingos. Este foi um sinal medieval da santidade de São Domingos que fez com que este mesmo papa o canonizasse…

Fátima descaracterizada

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Há muitos anos atrás, um dominicano português que usou o pseudónimo "João Ilhargo", escreveu um livro a que deu o título de "Fátima desmascarada". O título era excessivo - talvez por isso tivesse usado o pseudónimo - mas era um rebate às memórias de Lúcia, tentando descobrir o que era inventado por parte dela e não condizia com as aparições. Cem anos depois das aparições volta o mesmo rebate, já não só criticando os exageros da Lúcia que transformou uma mensagem simples e concreta num vale de devoções e visões, complicando e exagerando e, claro está, interpretando tantos anos depois a simplicidade das aparições. Basta comparar as singeleza das respostas ao interrogatório com as memórias e os seus acrescentos posteriores. Mas eu não quero tornar-me numa réplica de João Ilhargo. Para mim é claro e transparente que uma coisa é o fenómeno de Fátima (sejam aparições ou visões) e outra é a excessiva mensagem com os seus apelos e repiques. Chamei a este post "Fátima…