quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Registos paroquiais

Há mais ou menos dez anos que, nestas férias, me dedico a analisar os registos paroquiais. Até ao ano passado consegui esboçar uma árvore genealógica sobre a parte da família de Feirão (materna). Subindo de geração em geração consegui chegar à nona geração (eu pertenço estou à segunda). No ano passado comecei a parte de Cotelo (paterna) mas este ano é que tem sido mais consistente este trabalho de procura e pesquisa nos livros paroquiais de Gosende. Já me apercebi que não vou conseguir subir muito para além da sexta geração, pois é nesta que os meus antepassados se instalaram nesta freguesia. Ao que consta, um trisavô, que era almocreve por aqui se encantou com a que viria a ser sua mulher ou, como se crê mais real, encontrou aqui bons pastos para se fixar.
No meio de um livro de registos encontrei umas folhas azuis, de papel almaço, com data de 1812 e acrescentos de 1815, que são como uma "cábula" para que se saiba o que é que se tem de dar à Igreja em certas ocasiões. Como não posso ficar com este documento aqui o deixo para a história e para a curiosidade:

Lembrança dos usos desta Igreja de Gosende:
O rendeiro da Universidade de Coimbra, que cobra os frutos desta freguesia é obrigado a pagar à fábrica três mil reis cada ano ao Procurador da mesma. Estes três mil reis devem ser aplicados para comprar algum Missal, caderno, carvão e corporais…
Pagará mais 16 arráteis de cera;
1 arrátel de incenso;
1 arrátel de sabão,
10 almudes de vinho: 5 almudes de vinho maduro e 5 do verde;
17 canadas de azeite à companhia do Senhor;
10 alqueires de centeio medidos pela rasa velha em grão bem limpo e recebido em casa do Reverendo Pároco;
2 alqueires de trigo, medidos pela rasa velha, bem limpo, para hóstias;
2 almudes de vinho bem limpo para as missas;
27 mil reis em dinheiro, tudo isto cada ano ao Reverendo Pároco.
9 de Dezembro de 1813.

Tem de receber do Rendeiro de São Martinho:
300 mil reis à fábrica que aplica do arco para cima, como se determina no livro dos Capítulos.
Que os mordomos do Santíssimo dessem a cera para as missas dos Domingos, dias santos e todas as mais, e para o arco da mesma igreja.
8 arráteis de cera amarela ao Pároco dará o Rendeiro para dizer missa aos seus fregueses. 22 de Julho d3 1815.

Casamentos
De todos os banhos que se lerem nesta igreja tem o pároco uma galinha e não recebendo a galinha receberá o preço que o pároco determinar e logo que os ler passará certidão de banhos e levará onze vinténs pela mesma e sessenta reis pela assinatura e quarenta reis pelo assento.
Havendo dispensa receberá mais três mil reis.
Gosende, 14 de Dezembro de 1813.

Ladainhas
Tem o pároco obrigação de fazer ou mandar fazer as ladainhas nesta freguesia:
a primeira a São Miguel do Rossão;
a segunda a São Domingos de Cotelo;
a terceira a Santa Comba de Campobenfeito;
a dez de Junho também a cruz vai à Senhora da Lapa e ali cantará missa e por isso tem o pároco de emolumentos mil novecentos e setenta reis, tirados das esmolas que há obrigação de mandar tirar pelas eiras do centeio e quando o que se tirar não chegue se tirará o que faltar das esmolas da fábrica, além de lhe serem pagas todas as despesas de comer, alojamento e mais; e de fazer as ladainhas na sua freguesia tampouco: o pároco oitocentos e setenta reis e o procurador quatrocentos e oitenta reis como também de ir à Senhora da Lapa e de varrer a igreja no dia de sábado 20 reis e no dia de São Pedro de varrer o adro 280 mil reis.
20 de Julho de 1812.

Baptizados
Todo o menino que seja baptizado nesta igreja têm obrigação os padrinhos de darem uma vela de quarta ao pároco e não trazendo ela, pagarão a dinheiro pelo preco que pároco lhes determinar; pelos enjeitados nada receberá; a madrinha é obrigada a dar um bolo grande.
13 de Dezembro de 1813.

Jubileus
Nos jubileus os encarregados têm obrigação de dar as hóstias para as sagradas formas, vinho para as missas que em tais dias nesta igreja se celebrarem; incenso se houver missa solene. O procurador só é obrigado a dar incenso na festa de São Pedro e no dia de sábado aleluia.
15 de Dezembro de 1815.

Óbitos
Quando alguém falecer nesta freguesia tendo de sete anos para cima pagará ao pároco 8 alqueires de centeio ou milho, sendo quatro antes do enterro e quatro terminado o ano do falecimento, medidos pela rasa velha e na residência do pároco; quando não paguem o milho ou o centeio darão o seu valor conforme determinar o pároco; darão mais ao pároco 420 reis de esmola pela missa de notícia e uma broa de pão cozido de 12 arráteis.
É o pároco obrigado a ementar o falecido durante um ano. Quando o falecido tiver menos de sete anos terá o pároco 120 reis e acompanhando de casa 500 reis.
15 de Dezembro de 1815.

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Oiro que o Senhor nos manda

Feirão acordou hoje com uma chuva miudinha. Entre o nevoeiro e a chuva que molha. Podia-se chamar ‘morrinha’ ou chuva ‘molha tolos’, porque, como se diz e bem, só um tolo é que abre um chapéu-de-chuva e só um tolo se deixa molhar. O que é certo é que à hora da Missa, sempre às 8 horas, o nevoeiro cobria Feirão e a tal chuva miudinha caía. No fim de Missa, no adro, depois dos bons dias e de algumas despedidas – já mais alguns regressam a Lisboa – conversando com a tia Irene, dizia ela que esta chuvinha “era oiro que Nosso Senhor nos manda”. Expressão bonita. Os campos andam secos, sem água para regar porque as águas do povo, nestes meses de verão não se podem abrir para o caso de se dar alguma emergência. Por isso é oiro que Nosso Senhor nos manda.
Ao mesmo tempo, como se tivessem combinado, os agricultores dedicam estes dias a ir apanhar lenha e a cortá-la. Na casa ao lado da nossa, tem-se acordado com o cantar do carro de vacas e das campainhas de quem o transporta. Arrecadar no Verão para ter no Inverno.
O contacto com a terra faz-nos valorizar o tempo e o Transcendente. O tempo, porque ajuda a crescer e a colher, o Transcendente, porque nos manda o que nos faz falta e generosamente. Por isso, o que para uns poderia ser um dia triste de férias, para outros é dia de bênção e de graças por este oiro que Nosso Senhor nos manda.

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Que futuro?

Dias mais calmos e frescos se vivem em Feirão. Poucos são os que ainda estão em férias, não mais de 20 pessoas, creio eu. A vida corre calma, com os trabalhos de quem trabalha e o descanso de quem descansa. Já Cotelo está mais povoado, seja de residentes seja de quem está de férias. Olhando para alguns anos atrás, em que as pessoas vinham para cá do um ao trinta e um de Agosto, tudo agora é diferente, deixa a pensar e dá que falar, como a conversa que tive esta tarde no café de Cotelo com um senhor de Feirão: que não há futuro para estas terras. E dizia eu que, daqui a dez anos, Feirão está muito mais reduzido e talvez sejam menos de 50 pessoas. Os mais velhos vão envelhecendo e desaparecendo, os mais novos que vivem cá – que são poucos – não conseguirão manter uma estrutura de aldeia, onde nem sequer café ou mercearia tem. E os filhos e netos, por Lisboa, Porto ou Marinha Grande, que vão vindo cá por causa dos mais velhos, acabarão por deixar de vir. Uma morte lenta ou paliativa, se quisermos, sem outro final à vista. Dali passámos às cabeças de gado: não mais de 20 vacas, ovelhas menos. As terras andam de monte, não sendo de estranhar que tanto haja para arder.
Não será caso único neste norte despovoado, mas dá pena que num mundo tão globalizado e tão conectado, tudo vá desaparecendo, cada vez mais isolado (os mais velhos que aqui vivem praticamente não saem da aldeia) onde se chega ao limite de acontecer qualquer coisa a alguém e não nos apercebermos. Que fazer diante disto? A conversa ficou em silêncio. E encolhem-se os ombros, como sinal de resignação.
(Ontem, numa aldeia perto de Feirão, encontrei esta senhora a entrançar as cebolas. Pedi-lhe para fazer uma fotografia para a posteridade. E ela deixou.)

terça-feira, 16 de agosto de 2016

Sem manipulações

Uma amiga mandou-me esta foto com uma rua com o meu nome! Mas, claro, não sou eu. Tem a sua piada. Sobretudo ter-se lembrado de mim em Avis! Obrigado.

Sons e paisagens

A história da cultura tradicional portuguesa não poderá ser feita sem ter em contas as várias recolhas que, ao longo do século XX e XXI se foram fazendo por este Portugal fora, em grande parte levado a cabo por Michel Giacometti pelos anos 70, no conhecido programa “um povo que canta”. Há três anos surgiu uma nova edição deste programa, com o acrescento do “ainda canta”. Não saberemos se daqui a 10 anos ainda teremos o povo a cantar e o que andará a cantar.
Cantares ao desafio nas feiras, desgarradas nas tabernas, algum folclore agora mais visual que expressão de sentimentos, são resquícios do popular, em nada comparável ao pimba que grassa nestas festas de aldeia.
Nas curtas viagens entre Feirão e Cotelo, oiço Isabel Silvestre, no seu recente álbum “Cânticos da terra e da vida”. A voz, os tons e os temas assemelham-se às paisagens da serra de Montemuro que nos envolve. Há um tom comum nestas serras inconfundíveis. Que não se aprende nem se ensina. Sai genuinamente, como a água cristalina da fonte ou como o cantar do pássaro na sombra do castanheiro. É puro, é genuíno, é sentido. Não se confunde com um desafinado ou um esganiçado. É assim mesmo.
Nos recortes serpenteados destas montanhas, com o carro a pouca velocidade como convém, sabe bem olhar para um monte ou para um penedo e ouvir a voz sentida dos que cantam os sons e os tons que nos embalam.

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

terça-feira, 9 de agosto de 2016

Diários

Comecei há dias a ler mais um Diário. Desta feita, o do P. Congar, dominicano, entre os anos 1946-1956. Gosto de ler diários e também de os escrever. Ao longo da vida várias tentativas, somadas à ideia inocente que todos os dias se deveria escrever alguma coisa... Já dominicano, tentei uma vez mais recomeçar um diário. Também sem sucesso, mas nesta fase já a ter consciência da perversidade dos diários. Se, por um lado, até se pode ter a necessidade de escrever, por outro esconde-se o que se escreve. Mas há sempre um fundo nublado que nos garantirá que, um dia, os diários serão lidos, mesmo sem nossa autorização. Tirando os casos de excepção de escritores que foram pagos para os escrever, grande parte dos diários são palavras escondidas com desejo de um dia serem reveladas. Creio que já aqui escrevi sobre este assunto, e mais que assunto uma inquietação e que aqui citei, também Miguel Torga, também ele escritor de Diários, em que, às tantas, ele chega a esta mesma conclusão: se não quiséssemos que os Diários fossem lidos, teríamos de arranjar um código de caracteres indecifráveis, e só assim conseguiríamos proteger o que escrevemos e não queremos revelar.
Pelo que estou a ler do P. Congar, o diário foi um resultado de memorandos que, já com algum tempo disponível, o autor conseguir unir e fazer um volume, ou vários, como ele próprio confessa. Não tem um diários mas sim vários diários temáticos. E também ele reconhece que um dia o que deixar escrito pode ser lido por outros. Diz ele assim: "Se um dia alguém quiser fazer a história de todas as coisas em que esta pobre pessoa esteve implicada, aqui encontrará e poderá utilizar tudo isto".
O P. Congar, antes do tal diário de 46-56, faz um regresso ao passado e, em quatro anos escreve um "prólogo" a que deu o título "o meu testemunho". Fala da sua infância, do seu carácter difícil (ele reconhece!), das amizades que conquistou nas várias fazes da sua vida mas também das pessoas com quem as relações não foram tão fáceis... Ele bem tinha avisado que tinha carácter difícil. Mas nota-se, sobretudo, uma grande sinceridade, e até explica os porquês de algumas tomadas de posição que se tornam numa certa distância com algumas pessoas.
Este diário que estou a ler não é o seu primeiro. Conheço, pelo menos, três: o da infância , este que estou a ler, e o do Concílio. Sim, o P. Congar foi o grande homem do Concílio. Sobretudo nas áreas da eclesiologia (Igreja) e diálogo ecuménico. O Concílio não foi o ponto de partida mas, de certa maneira, o ponto de chegada pois, nestes anos do Diário, vê-se o seu grande entusiasmo e trabalho, juntamente com um outro dominicano, o P. Chenu, que acaba por ser um trabalho preparatório e fundamental, destes dois frades e outros teólogos, para o êxito do Concílio.
Voltando ao tema dos diários, a coisa complica-se quando mete os nomes dos outros... Para o bem e para o mal. E aqui volto a encontrar a perversidade. Qual é o interesse de, depois de morto, deixar os nomes e as histórias dos vivos?

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Discurso do Papa Francisco aos Dominicanos

No dia 4 de Agosto o Papa Francisco recebeu, no Vaticano, os Padres Provinciais que estiveram reunidos em Capítulo Gera. Fez-lhes um pequeno discurso que aqui deixo, para lembrar a memória litúrgica de São Domingos:
"Queridos irmãos e irmãs:
Hoje poderíamos descrever este dia como “um jesuíta entre frades”: de manhã convosco e à tarde com os franciscanos: entre frades.
Dou-vos as boas-vindas e agradeço a saudação que frei Bruno Cadoré, Mestre Geral da Ordem, me dirigiu em nome próprio e de todos os presentes, já a terminar o Capítulo geral, em Bolonha, onde desejaram reavivar as vossas raízes junto ao sepulcro do santo Fundador.
Este ano tem um significado especial para a vossa família religiosa ao cumprirem-se oito séculos desde que o papa Honório III confirmou a Ordem dos Pregadores.
Por ocasião do Jubileu que celebram por este motivo, uno-me a vós pelos abundantes dons recebidos durante este tempo. Além disso quero exprimir a minha gratidão à Ordem pela sua significativa contribuição à Igreja e a colaboração que, com espírito de serviço fiel, manteve desde as suas origens até ao dia de hoje para com a Sé Apostólica.
E este oitavo centenário leva-nos a fazer memória de homens e mulheres de fé e de letras, de contemplativos e missionários, mártires e apóstolos da caridade, que levaram a carícia e a ternura de Deus a todo o lado, enriquecendo a Igreja e mostrando novas possibilidades para encarnar o Evangelho através da pregação, o testemunho e a caridade: três pilares que fortalecem o futuro da Ordem, mantendo a frescura do carisma fundacional.
Deus inspirou São Domingos para fundar uma «Ordem de Pregadores», sendo a pregação a missão que Jesus confiou aos Apóstolos. É a Palavra de Deus que queima por dentro e nos leva a sair para anunciar a Jesus Cristo a todos os povos (cf. Mt 28,19-20). O pai Fundador dizia: «Primeiro contemplar e depois ensinar». Evangelizados por Deus, para evangelizar. Sem uma forte união pessoal com ele, a pregação poderá ser muito perfeita, muito racional, até admirável, mas não toca o coração, que é o que deve mudar. É tão imprescindível o estudo sério e assíduo das matérias teológicas, como tudo o que permite aproximar-nos da realidade e pôr o ouvido no povo de Deus. O pregador é como um contemplativo da Palavra e também o é do povo, que espera ser compreendido (cf. Evangelii gaudium, 154).
Transmitir mais eficazmente a Palavra de Deus requer o testemunho: Mestres fiéis à verdade e testemunhas valentes do Evangelho. A testemunha encarna o ensinamento, torna-o tangível, convocador, e não deixa ninguém indiferente; acrescenta à verdade a alegria do Evangelho, a de saber-se amados por Deus e objecto da sua infinita misericórdia (cf. ibid, 142).
São Domingos dizia aos seus seguidores: «Com os pés descalços, saiamos a pregar». Recorda-nos a passagem da sarça-ardente, quando Deus disse a Moisés: «Descalça as sandálias dos pés, porque o lugar que pisas é terreno sagrado» (Ex 3,5). O bom pregador está consciente de que se move no terreno sagrado, porque a Palavra que leva consigo é sagrada, e os seus destinatários também o são. Os fiéis não precisam só de receber a Palavra na sua integridade, mas também de experimentar o testemunho de vida de quem prega (cf. Evangelii gaudium, 171). Os santos conseguiram abundantes frutos porque com a sua vida e missão, falam com a linguagem do coração, que não conhece barreiras e é compreensível por todos.
Por último, o pregador e a testemunha devem sê-lo na caridade. Sem esta, serão colocados e questão e suspeitos. São Domingos teve um dilema no início da sua vida, que marcou toda a sua existência: «Como posso estudar em peles mortas quando sofre a carne de Cristo». É o corpo de Cristo vivo e sofrente, que grita ao pregador e não o deixa sossegado. O grito dos pobres e dos descartados desperta, e faz compreender a compaixão que Jesus tinha pelas pessoas (Mt 15,32).
Olhando à nossa volta, comprovamos que o homem e a mulher de hoje, estão sedentos de Deus. Eles são a carne viva de Cristo, que grita «tenho sede» de uma palavra autêntica e libertadora, de um gesto fraterno e de ternura. Este grito interpela-nos e deve ser dê estrutura à missão e vida às estruturas e programas pastorais. Pensem nisto quando reflectirem sobre a necessidade de ajustar o organigrama da Ordem, para discernir sobre a resposta que se dá a este grito de Deus. Quanto mais se saia a saciar a sede do próximo, tanto mais seremos pregadores da verdade, dessa verdade anunciada pelo amor e a misericórdia, da que fala santa Catarina de Sena (cf. Libro della Divina Dottrina, 35). No encontro com a carne viva de Cristo somos evangelizados e recobramos a paixão para ser pregadores e testemunhas do seu amor; e livramo-nos da perigosa tentação, tão actual hoje em dia, do gnosticismo.
Queridos irmãos e irmãs, com um coração agradecido pelos bens recebidos do Senhor para a vossa ordem e para a Igreja, animo-vos a seguir com alegria o carisma inspirado a São Domingos e que foi vivido com diversas matizes por tantos santos e santas da Família Dominicana. Os seus exemplos são um impulso para afrontar o futuro com esperança, sabendo que Deus renova sempre tudo… e não defrauda. Que a Nossa Mãe, a Virgem do Rosário, interceda por vós e vos proteja, para que sejam pregadores e testemunhas valentes do amor de Deus.
Obrigado.

domingo, 7 de agosto de 2016

São Sixto II e companheiros, mártires

Apesar de ser domingo, por ser dia 7, a Igreja lembra hoje um grande Papa, São Sixto II que, juntamente com outros cristãos deram testemunho do amor por Cristo, derramando o seu sangue.
Estamos a falar dos primeiros séculos cristãos, à volta do ano 257.  Os cristãos eram perseguidos por causa da sua fé. Mas, como já tinha dito Tertuliano, "o sangue dos mártires é semente de cristãos", ou seja, a perseguição e o martírio faziam com que mais aderissem a Jesus Cristo. Por isso, as casas dos cristãos já eram pequenas para celebrarem a Eucaristia. Daí terem de ir celebrar para as célebres "catacumbas", que, ao contrário do que alguns dizem, não eram os lugares onde eles vivam mas sim, onde se reuniam  para a celebração da Eucaristia. Uma dessas catacumbas de Roma encontra-se na Via Ápia, onde este nosso Papa, juntamente com outros cristãos, foram apanhados durante a celebração da Eucaristia. Celebrava o papa juntamente com os sete diáconos de Roma. O Papa foi logo decapitado, juntamente com seis destes sete diáconos. Só deixaram vivo a Lourenço, por uns dias, porque queriam a riqueza da Igreja e Lourenço era "o braço da caridade do Papa". Mandaram-no, então, em dois dias, reunir toda a riqueza da Igreja. E Lourenço apresentou-se dois dias depois, com os pobres, doentes, todos aqueles que ele ajudava em Roam e disse ao governador: mandaste-me recolher a riqueza da Igreja, aqui está, os pobres e os doentes são a riqueza da Igreja. Esta resposta irónica valeu-lhe o martírio, que será celebrado no próximo dia 10.
Para nós, dominicanos, este santo tem uma relação indirecta connosco. Quando São Domingos conseguiu aprovar a Ordem junto do Papa Honório III, o Papa deu-lhe a igreja de São Sixto para ele formar aí a sua comunidade. Foi o primeiro convento da Ordem. Anos mais tarde, por já ser pequeno para os frades, o Papa deu-lhes a basílica de Santa Sabina e as monjas, que viviam num pequeno ermitério, passaram para o nosso convento. Actualmente vivem lá umas irmãs dominicanas.
São Sixto II é um belo exemplo de fé e da caridade fraterna. Que o saibamos imitar na fé, no testemunho e nas obras.

terça-feira, 2 de agosto de 2016

A idade do homem

Andando eu ontem à procura de umas citações, encontrei na "Carta a um refém", de Antoine de Saint-Exupéry, esta pequena mas interessantíssima reflexão sobre a idade do homem. Eis como a descreve: "É incrível, a idade de um homem! Resume a sua vida inteira. Essa maturidade, que é dele, foi-se construindo lentamente. Foi-se construindo à força de tantos obstáculos vencidos, de tantas doenças curadas, de tantas mágoas abrandadas, de tantos desesperos superados, de tantos riscos cuja maioria escapou à sua consciência. Foi-se construindo através de tantos desejos, de tantas esperanças, de tantas saudades, de tantos olvidos, de tanto amor. Representa uma bela carga de experiências e de memórias. A idade de um homem! Apesar das armadilhas, das contrariedades, das rotinas, continuámos a avançar aos solavancos, como uma boa carroça. E agora, graças a uma convergência obstinada de felizes circunstâncias, aqui estamos. Chegamos aos trinta e sete anos. E a boa carroça, se Deus quiser, levará ainda mais longe a sua carga de recordações".