domingo, 19 de março de 2017

A água

A água acompanhou sempre a Cristo. Ele também foi baptizado na água; convidado às bodas, é com a água que ele inaugurou a primeira prova do seu poder de fazer milagres; enquanto pregava, convidava os sedentos a beber a sua água da eternidade; quando falava da caridade, assinalava como obra de amor em tão-somente dar um copo de água a um dos seus semelhantes; descansou um pouco junto a um poço; caminhou sobre as águas; gostava de passar de uma à outra margem do lago; serve água aos seus discípulos.
Até na paixão se podem encontrar testemunhos favoráveis ao baptismo; quando é condenado à crucifixão, aparece também a água, desta vez para lavar as mãos de Pilatos; quando é trespassado, do seu lado sai sangue e água, quando a lança o atravessa. Tertuliano, o baptismo

domingo, 12 de março de 2017

Transfigurados

Hoje, na liturgia, escutámos a passagem da transfiguração do Senhor, na versão de São Mateus. A narração é lisa mas o episódio deve ter sido esplêndido. Muitas interpretações se fizeram e fazem ainda hoje na linha da fé e da espiritualidade. Em 1994, o Papa João Paulo II usava este mesmo episódio para falar da vida consagrada. É uma possibilidade e, no caso, foi conseguida.
Mas não deixa de ser uma interpretação da vida e existência humana. O que seremos só conseguimos antecipar em glória e deve ser para nós o ânimo e a esperança para perceber que os embates da vida precisam também eles de ser transfigurados.
Aqui no Convento cantamos neste dia o coral da transfiguração. Uma das estrofes canta assim: Senhor, pesa tanto a vida quando /Quando o amor abandona a casa. As vias de acesso ao Rosto / não as sabe a paixão sem asa. Tu de Deus a porta, a Páscoa /o pulsar que move o escuro. Tu que conheceste a morte transfigura a noite, / O muro.
 É Cristo quem transfigura a nossa noite e derruba os nossos muros. Com ele, a cruz da vida e os cansaços dos dia são aliviados. E o dia renasce, transfigurado.

domingo, 5 de março de 2017

Sermão da primeira dominga da Quaresma

P. António Vieira, no ano de 1653, pregou no Maranhão os sermões da Quaresma. O do primeiro domingo começa assim:
O Domingo das tentações e das vitórias. As ofertas, conselhos e petições que faz o demónio a Cristo para tentá-lo. Assunto do sermão: a última tentação do demónio a Cristo.
Oh! que temeroso dia! Oh! que venturoso dia! Estamos no dia das tentações do demónio, e no dia das vitórias de Cristo. Dia em que o demónio se atreve a tentar em campo aberto ao mesmo Filho de Deus: Si Filius Dei es (Se és Filho de Deus) - oh! que temeroso dia! Se até o mesmo Deus é tentado, que homem haverá que não tema ser vencido? Dia em que Cristo com três palavras venceu e derrubou três vezes ao demónio - oh! que venturoso dia! A um inimigo três vezes vencido, quem não terá esperanças de o vencer? Três foram as tentações com que o demónio hoje acometeu a Cristo: na primeira ofereceu, na segunda aconselhou, na terceira pediu. Na primeira ofereceu: Dic ut lapides isti panes fiant - que fizesse das pedras pão; na segunda aconselhou: Mitte te deorsum - que se deitasse daquela torre abaixo; na terceira pediu: Si cadens adoraveris me - que caído o adorasse. Vede que ofertas, vede que conselhos, vede que petições! Oferece pedras, aconselha precipícios, pede caídas. E com isto ser assim, estas são as ofertas que nós aceitamos, estes os conselhos que seguimos, estas as petições que concedemos. De todas estas tentações do demónio, escolhi só uma para tratar, porque para vencer três tentações é pouco tempo uma hora. E quantas vezes para ser vencido delas basta um instante! A que escolhi das três, não foi a primeira nem a segunda, senão a terceira e última, porque ela é a maior, porque ela é a mais universal, ela é a mais poderosa, e ela é a mais própria desta terra em que estamos. Não debalde a reservou o demónio para o último encontro, como a lança de que mais se fiava; mas hoje lha havemos de quebrar nos olhos. De maneira, cristãos, que temos hoje a maior tentação: queira Deus que tenhamos também a maior vitória. Bem sabeis que vitórias, e contra tentações, só as dá a graça divina; peçamo-la ao Espírito Santo por intercessão da Senhora, e peço-vos que a peçais com grande afecto, porque nos há-de ser hoje mais necessária que nunca. Ave Maria.

sexta-feira, 3 de março de 2017

Elogio do peixe

Numa visita mais ou menos relâmpago a Lamego, levei para escutar no caminho dois sermões do P. António Vieira. Uma coisa é ler e outra ouvir. No Sermão de Santo António aos peixes, o P. António Vieira faz elogios aos peixes e um deles é o de ajudarem nas penitências da Quaresma. Ora vejam que interessante o pensamento e a retórica:
"Mas ainda que o Céu e o Inferno se não fez para vós, irmãos peixes, acabo, e dou fim a vossos louvores, com vos dar as graças do muito que ajudais a ir ao Céu e não ao Inferno, os que se sustentam de vós. Vós sois os que sustentais as Cartuxas e os Buçacos, e todas as santas famílias, que professam mais rigorosa austeridade; vós os que a todos os verdadeiros cristãos ajudais a levar a penitência das quaresmas; vós aqueles com que o mesmo Cristo festejou a sua Páscoa, as duas vezes que comeu com seus discípulos depois de ressuscitado. Prezem-se as aves e os animais terrestres de fazer esplêndidos e custosos os banquetes dos ricos, e vós gloriai-vos de ser companheiros do jejum e da abstinência dos justos. Tendes todos quantos sois tanto parentesco e simpatia com a virtude, que, proibindo Deus no jejum a pior e mais grosseira carne, concede o melhor e mais delicado peixe. E posto que na semana só dois se chamam vossos, nenhum dia vos é vedado. Um só lugar vos deram os astrólogos entre os signos celestes, mas os que só de vós se mantêm na terra, são os que têm mais seguros os lugares do Céu."

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

A grande vitória da Igreja Católica

A princípio não li mas depois voltei a trás e tive que ler. O artigo opinião de Fernanda Câncio, no DN de domingo passado. O título que deu ao artigo foi: A grande derrota da Igreja Católica. Aliás, creio que a religião que ela pratica é a anti-católica. Não me vou demorar na explicação do artigo porque não vale mesmo a pena ler. Para verem o estilo, ela faz o elogio das filhas, mães e avós que, apesar das proibições e penalizações, decidiram abortar:"Pensem na coragem dessas mulheres - as nossas avós, as nossas mães, as nossas filhas. E pensem que perante essa coragem, esse desespero, essa determinação, houve décadas de decisores políticos, médicos e clérigos a dizer que não era assunto, que não tinha importância, que estava bem assim". Parece-me surreal. Segundo o seu pensar, a minha avó (e muitas outras avós, mães e filhas) foi tudo gente infeliz, desavergonhada, inculta e fraca porque que tiveram muitos filhos e, apesar do número, o aborto foi sempre uma não-opção. Glória seja dada a quem aborta e pena de quem quis ter filhos.
Fernanda Câncio não percebe que mesmo que não seja possível penalizar o aborto (alguém que lhe diga que a Igreja Católica nunca promoveu o aborto mas sempre o perdoou, mesmo quando as leis do Estado penalizavam quem cometia este crime) não se deve promover nem se devem erigir estátuas e loas a quem o pratica.
Fernanda Câncio deveria perceber que quando se fala em despenalização do aborto, não se quer dizer que passa a ser uma boa acção. O que se quer dizer é que, no passado, uma má acção era penalizada e que agora, uma má acção deixa de o ser. Mas não deixa de ser uma má acção.
Fernanda Câncio não percebe que a Igreja Católica não é um partido político mas que se pode (e deve) meter na política. E deveria perceber que assim como ela defende umas ideias, qualquer outra pessoa ou grupo não está obrigado a comungar delas e pode divergir. Devia perceber que a Igreja Católica, ao contrário de muita gente ligada à política e até dos partidos políticos, não se move por votos ou sondagens mas sim por dignidade da vida humana. 
Fernanda Câncio devia ter só um bocadinho de humildade para perceber que a Igreja Católica só é derrotada quando se deixa instrumentalizar por partidos políticos e quando faz da religião uma ideologia (graças a Deus não o tem feito). Fernanda Câncio devia reconhecer que a grande vitória da Igreja Católica é que, apesar dos referendos e das despenalizações, continua a acolher e a acompanhar tantos casos de pessoas que ficam traumatizadas depois de um aborto (sei do que estou a falar), e que não vão falar com uma deputada nem sequer com um psicólogo. Quantas vezes a Igreja Católica, com ou sem clérigos, foi o conforto de quem passou por situações destas!
Fernanda Câncio devia ter um pouco de moral (mesmo da não católica) para reconhecer o imenso trabalho que a Igreja Católica desenvolve junto das pessoas mais carenciadas da nossa sociedade. E não o fazemos por votos, fazemos por amor ao próximo, próximo este que reconhecemos desde muito pequeno, ainda no ventre da sua mãe, passando pelos desempregados, pelos injustiçados, pelos doentes, abandonados... sem-abrigo. Fernanda Câncio ainda não percebeu que todas estas pessoas não vão à Assembleia da República buscar alimentos, dinheiro, pedidos de ajuda, mas que batem à porta das instituições religiosas, cristãs, e grande parte delas católicas?
Fernanda Câncio não devia ser agradecida a quem faz o bem e suporta tantas vezes os erros dos políticos e das políticas. Devia perceber que a Igreja Católica está. Está sempre para o bem e nunca para o mal. E o aborto é um mal, o desemprego é um mal, a corrupção é um mal, as más gestões politicas e partidárias são um mal, a falta de atenção aos mais abandonados é um mal, a eutanásia é um mal.
Fernanda Câncio tem tido uma agenda anti-penalização muito cheia. Agora é a da eutanásia... mas se calhar, prioritária, prioritária, seria a da despenalização da corrupção. Iria ter muitos apoiantes.
Mas Fernanda Câncio acerta numa coisa que escreve. Diz ela, com glória, que na noite do referendo, no Altis, ela disse: "Este sim não é o fim, é o princípio". E foi: o princípio do fim. Como ela se acha agora a embaixadora das causas despenalizadas ou em via de o serem, agora está na eutanásia. Outro engodo, que ela conhece bem. Mas a Igreja Católica estará lá, mesmo com a eutanásia despenalizada, não para condenar mas para dar conforto, para aliviar consciências pesadas, para ser uma presença de amor e de esperança. Não o fazemos por votos, somente porque amamos.

Os desafetos

Comecei ontem a escrever sobre este assunto mas as horas não chegaram para o acabar. Sai com um dia de atraso.
Celebra hoje o nosso mundo o dia dos namorados, evocando São Valentim. Mas uma vez um investimento comercial, que dá para ver como o lucro às vezes se apoia na religião para comercializar. Mas é bom que hoje se celebre o dia dos que amam.
O amor é extremamente estruturante na construção da personalidade humana. Trazemos em nós a necessidade de afectos e demonstramo-los com os valores bonitos e nobres da amizade e do amor puros, sem medidas nem contrapartidas. A gratuitidade do amor.
Se a felicidade passa pelo amor, devemos então amar e ser amados. A psicologia fez-nos ver isso com uma grande lucidez: os filhos não se amam só a partir do momento em que nascem mas o desejo de os ter já deve estar carregado de amor. Sentir-se amado é condição para um dia poder vir a amar.
Ora, este "fogo que arde sem ver", segundo Camões, "é um não querer mais que bem querer". E aqui se joga tudo. Não se ama porque se quer ser feliz mas ama-se para fazer feliz o outro. O tal bem querer.
Ora, as nossas sociedades, tão civilizadas, sofrem a meu ver do síndrome do desafecto. A começar pelo amor egoísta de querer ser feliz, mesmo se não se faz feliz o outro, o amor que só dura enquanto eu sou feliz, o amor canalizado para os animais que, aos poucos, vão tendo um estatuto acima de muitos humanos, o amor que não se manifesta frente a frente, na relação directa, mas através das redes e circulações cibernéticas, que são mais frias que o frio do Pólo Norte.
Este síndrome é preocupante. Porque manifesta o grande sintoma de que alguém devia ter sido amado e não foi e, que por falta desse amor, passou-se a amar a quem responde a estímulos que lhes vamos dando. Sim, é mais fácil canalizar o amor para um animal. Responde aos estímulos, obedece-nos, quando não o queremos perto de nós conseguimos isolá-lo, quando estamos tristes e deprimidos podemos recorrer a ele que terá sempre um afago a dar-nos. Mas duvido que seja saudável trocar um amigo por um animal, que seja saudável distrair a solidão com um animal de companhia, que seja saudável canalizar as nossas energias e economias em tratamentos de luxo com animais quando seres humanos muitas vezes não têm que comer.
Mas, então, os animais não são nossos amigos? Não. Os animais são nossos animais. Nós é que queremos ser amigos dos animais, por isso os compramos, aprisionamos no nosso andar, compramos comida gourmet, oferecemos a quem padece de solidão para se distrair. Nós, humanos, ainda não percebemos a diferença entre amar e domesticar. Não se ama um animal, nunca será "o nosso filho", nunca poderá suprir a ausência de alguém. Um animal só se pode domesticar.
Note-se que eu sou o primeiro a defender os direitos dos animais. Acho tremendamente injusto ter um animal fechado numa casa o dia todo, dependente da saída e chegada do dono e de quem o queira levar a passear. Até já os animais têm psicólogos para os tratar do mal da solidão! O que lhes fizemos.
Mas tudo isto por causa do amor. O amor tem que ser correspondido, não em estímulos mas em amor. Os animais não substituem pessoas, os amigos virtuais não substituem os reais. E, por favor, não me convidem para um café virtual. Gosto de sentir a presença do outro, a voz de quem fala e o aroma do café. E viva o São Valentim.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Candelária


Nossa Senhora da Luz e do Sim,
Maria, cheia de amor e de paz,
Protege a vela da minha vida e da minha fé.
Que os ventos não a tentem apagar,
e que eu tenha sempre cera para arder.
Sê a redoma da minha luz
e o castiçal onde ela possa iluminar.

Nossa Senhora da Luz e do Sim,
Ilumina o meu caminho
para que as trevas se desfaçam
e não me impeçam de avançar.

Nossa Senhora da Luz e do Sim,
protege-me com o teu olhar.
Amen.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Uma entrevista

No domingo à noite uma monja dominicana (contemplativa mas de muita acção) que vive em Espanha, deu uma entrevista na televisão espanhola que escandalizou meia Espanha com todos os contágios provocados pelo menos na Europa. Um dos temas e o mais polémico foi o da sexualidade. Defendeu a sua sexualidade - virgem por opção, que nunca se masturba, mas plenamente mulher - mas quando lhe perguntaram pela virgindade de Nossa Senhora ela não teve a mesma coerência nem naturalidade, ao dizer tranquilamente que o jovem casal (Maria e José) se amavam muito, que eram um casal normal e, por isso, também era normal que tivessem tido relações. Ora, uma afirmação destas, assim, sem mais, choca. Dentro da Igreja a indignação e a condenação da irmã por blasfémia, porque pôs em causa um dogma da Igreja; fora da Igreja os que se aproveitaram para dizer que o que a irmã disse é o mais lógico e que querem abafar uma realidade, e que a religião católica é castradora... etc etc. O bispo da diocese do mosteiro das Irmãs já veio lamentar as infelizes declarações que levam à confusão dos fiéis, e a própria Irmã Lúcia também já veio a público dizer que se calhar não se exprimiu bem, que se calhar não a entenderam bem e que nunca quis, de modo nenhum, chocar os fiéis e abalar a sua fé.
A mim interessa-me pouco a sexualidade das pessoas. E também me interessa pouco a do jovem casal. Talvez em termos espirituais e pessoais tenha achado excessivo ela ter dito assim as coisas. Mas o que talvez mais me tenha chamado à atenção foi o facto de ela ter defendido tanto e tão bem a sua sexualidade e a sua virgindade e depois não ter feito o mesmo em relação a Nossa Senhora. Para mim é tão normal e legítima a opção que a Irmã Lúcia fez um dia em ser virgem, pura e casta, como Maria e José poderem ter feito essa mesma opção. É claro que Maria e José poderiam ter tido relações, mas também é claro que podiam ter abdicado delas como a Irmã Lúcia podia ter tido relações e abdicou delas.
Mas a minha admiração por esta monja não fica abalada por causa deste senão. Pessoalmente gosto mais do que ela faz do que o que ela diz. Talvez o que diz até esteja certo, no sentido de abrir horizontes e outras perspectivas. É ousada. Mas faz parte do ser humano ultrapassarmos alguns limites. Digo-o com pena. No entanto, os senãos não podem escurecer nem tirar o brilho a vidas tão bonitas e sãs como as desta minha irmã dominicana, que gasta e passa a vida a fazer o bem.

sábado, 21 de janeiro de 2017

As conclusões

Termina hoje o Congresso onde tenho estado. Ontem o dia foi dedicado à missão, muito focado na questão do testemunho como primeira pregação. À tarde tivemos a celebração de vésperas na basílica de Santa Maria sopra Minerva, onde estão sepultamos Santa Catarina de Sena e o beato Angélico e onde fizemos uma homenagem às mulheres pregadoras e aos artistas. Hoje estaremos em conclusões e declarações finais. Depois do almoço iremos a São João de Latrão onde há 800 anos, no dia senhor São Domingos recebeu a bula da confirmação da Ordem de Pregadores. Aí celebraremos Missa com o Papa Francisco.