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Na terra dos Filipes

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Fui hoje ao Troviscal, freguesia do concelho de Oliveira do Bairro, para uma missa especial: há um mês falecia em Luanda o nosso fr. Gil Manuel da Conceição Filipe, natural desta aldeia onde estive.
O fr. Gil era sobrinho de um outro Gil, dominicano, com o apelido de Alferes. Fundador da "Obra do frei Gil", foi uma referência para o sobrinho de tal modo que, quase sempre aparecia nas suas histórias.
O frei Gil, nascido a 23 de Janeiro de 1936, com apenas dez anos saiu do Troviscal para ir para a Escola Apostólica que os dominicanos tinham em Aldeia Nova. Tomou hábito com 15 anos e professou um ano depois, apenas com 16. Estudou em Escolas filosóficas e teológicas da nossa Ordem. Em 1960, um ano depois de ter sido ordenado padre, torna-se professor de português e francês num colégio dominicano aqui de Lisboa, o Clenardo. Oito anos depois foi enviado para Aldeia Nova, para ser professor e formador e também ajudar nas paróquias vizinhas. Cinco anos depois muda outra vez de rumo,…

O voltar atrás

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Tem-me impressionado nos últimos tempos o ter encontrado na minha vida algumas pessoas com Alzheimer.
Não percebo nada da doença e compreendo a falta de paciência que a convivência com estas pessoas pode trazer.
Eu falo e faço o meu melhor quando me encontro com estas pessoas, e alento a família que cuida delas.
É, sem dúvida, um voltar atrás. Palavras, acontecimentos do passado fazem sentido enquanto que o presente não fica sequer registado. Mas o que mais me impressiona não é o esquecer-se do presente mas sim lembrar o passado. Como o caso de hoje: uma irmã dominicana, atacada com esta degeneração, que pouco ou nada fala, ao ouvir falar de uma terra de missão onde esteve, começa a repetir o nome da terra como se soubesse do que se estava a falar. Não sabemos se sabe ou não mas, quando ouviu o nome da terra, ligou-se à nossa conversa. Perguntei-lhe se queria ir lá comigo e disse que sim; perguntei-lhe onde ficava e já não soube responder. Um mistério... Não se trata de ir ao passado ma…

Em todo o tempo dai graças a Deus

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É assim que São Paulo ensina na Carta aos Tessalonicenses. Dar graças a Deus em todo o tempo. Mas este dia é especial para dar graças. Não se trata de mais um dia, ou de um fim do mês mas de todo um ano.
Não esquecendo o menos bom, que pode ter sido de perdas, mais ou menos achaques, as zangas e chatices que a vida e pessoas nos possam ter trazido, quando se dá graças, entrega-se a Deus tudo o que de bom se construiu e conquistou.
Dar graças pela vida, pelo tempo bem aproveitado, pelas pessoas que por acaso entraram na nossa vida mas que já não foi por acaso que permaneceram, pelos que ajudámos e pelos que nos ajudaram, pelos projectos realizados e pelos que ainda esperam ver a luz do seu dia... tantas coisas que, se as registássemos, ficaríamos admirados com a quantidade de graças recebidas.
Este é o dia de agradecer.
E também de pedir que, em cada dia, possamos construir um mundo melhor, mais nosso (humano) e mais de Deus (divino).
Em tudo dar graças. Também eu o faço, olhando para…

A feira do livro lido

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Nestes últimos dias alguns voluntários e amigos da João 13 e do Convento têm vindo a preparar uma das nossas salas para fazermos neste fim-de-semana uma feira do livro lido. A motivação é social: pedimos às pessoas que nos oferecessem livros que tivessem em casa e depois virem trocar por outros que gostassem de ter. Esta feira insere-se na partilha de Advento que este ano vai ajudar a comprar próteses dentárias às pessoas que precisam na nossa Associação. Muitos livros e de vários gostos e estilos.
Num desses livros estava um soneto que já tinha lido quando era mais novo e que o acaso me fez ontem encontrar. É do Frei Castelo Branco (século XVII), está escrito à mão numa folhinha com umas flores, que acompanham este post. Aqui deixo o poema TEMPO, que, além da criatividade e do jogo de palavras, tem a sua profundidade:
Deus me pede do tempo estreita conta
É preciso dar conta a Deus do tempo
Mas como dar do tempo tanta conta
Se se perde sem conta tanto tempo?

Para fazer a tempo a minha cont…

Um princípio de Advento

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Começou mais um Advento. O meu, logo no domingo, no convento, e agora em Roma nesta primeira semana.
Também aqui vivo o meu Advento: com os trabalhos que me ocupam na Cúria, com o silêncio que vivo na abadia dos cistercienses onde tivemos que ficar por causa das obras em Santa Sabina, e com a oração que este ano decidi acompanhar com a Comunidade de Santo Egídio.
Sempre que venho a Roma faço por participar numa celebração mas, desta vez, vou tentar estar em todas.
A oração de Santo Egídio, que se faz na belíssima imagem de Santa Maria in Trastevere, enche a alma: sempre temática (ontem era pelos doentes e hoje com Maria), a leveza da sequência da celebração (meia hora), a beleza dos cânticos acompanhados pelo órgão da igreja e por um pequeno coro que se forma em cada dia, os pequenos gestos que se transformam em rituais (ontem escreviam-se nomes dos doentes e acendiam-se pequenas velas por eles), a escuta da palavra e a homilia que se faz (concreta e actual), tudo ajuda na fé e na espir…

Entardecer de Feirão

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O que resta de sol toca agora
as magnas fragas do Penedo Gordo.
Os cães uivam,
As campainhas dos gados anunciam
o regresso ao lugar de partida.
A penumbra tudo cobre como um manto.
Nas cozinhas acende-se o lume,
como ritual vespertino
qual lucernário que ilumina e aquece.
Os sinos tocam para rezar,
o mordomo fecha a igreja e o portão.
O silêncio fecundo da noite
manda-nos para o interior da casa
e da vida.
Assim é o simples entardecer
De Feirão.

Feirão em 1758

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Feirão está despovoado. Migrações e emigrações, são a causa imediata de uma outra causa, mais profunda, que levou a que poucas pessoas tivessem ficado por cá. Mas não é de agora. Depois do terramoto de 1755, o Marquês de Pombal manda aos párocos, através dos Bispos, um questionário sobre as paróquias e povoações pedindo elementos importantes para aquele tempo, no que diz respeito ao conhecimento do Reino e hoje, para o nosso tempo, percebermos as circunstâncias passadas. Vou escrever os resultados sendo que, o que está entre parêntesis, são comentários meus. O pároco da altura, P. Manuel Luís de Carvalho, respondeu a este inquérito, do qual podemos saber algumas curiosidades desta freguesia do século X, religiosas e geográficas, que, ao que se vê, nunca foi uma freguesia grande. O dito pároco identifica Feirão como freguesia de Santa Luzia, que é da província da Beira Alta, bispado, termo e comarca da cidade de Lamego. A freguesia pertencia ao Rei D. José I, o Reformador. Tinha nesse…