quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

A grande vitória da Igreja Católica

A princípio não li mas depois voltei a trás e tive que ler. O artigo opinião de Fernanda Câncio, no DN de domingo passado. O título que deu ao artigo foi: A grande derrota da Igreja Católica. Aliás, creio que a religião que ela pratica é a anti-católica. Não me vou demorar na explicação do artigo porque não vale mesmo a pena ler. Para verem o estilo, ela faz o elogio das filhas, mães e avós que, apesar das proibições e penalizações, decidiram abortar:"Pensem na coragem dessas mulheres - as nossas avós, as nossas mães, as nossas filhas. E pensem que perante essa coragem, esse desespero, essa determinação, houve décadas de decisores políticos, médicos e clérigos a dizer que não era assunto, que não tinha importância, que estava bem assim". Parece-me surreal. Segundo o seu pensar, a minha avó (e muitas outras avós, mães e filhas) foi tudo gente infeliz, desavergonhada, inculta e fraca porque que tiveram muitos filhos e, apesar do número, o aborto foi sempre uma não-opção. Glória seja dada a quem aborta e pena de quem quis ter filhos.
Fernanda Câncio não percebe que mesmo que não seja possível penalizar o aborto (alguém que lhe diga que a Igreja Católica nunca promoveu o aborto mas sempre o perdoou, mesmo quando as leis do Estado penalizavam quem cometia este crime) não se deve promover nem se devem erigir estátuas e loas a quem o pratica.
Fernanda Câncio deveria perceber que quando se fala em despenalização do aborto, não se quer dizer que passa a ser uma boa acção. O que se quer dizer é que, no passado, uma má acção era penalizada e que agora, uma má acção deixa de o ser. Mas não deixa de ser uma má acção.
Fernanda Câncio não percebe que a Igreja Católica não é um partido político mas que se pode (e deve) meter na política. E deveria perceber que assim como ela defende umas ideias, qualquer outra pessoa ou grupo não está obrigado a comungar delas e pode divergir. Devia perceber que a Igreja Católica, ao contrário de muita gente ligada à política e até dos partidos políticos, não se move por votos ou sondagens mas sim por dignidade da vida humana. 
Fernanda Câncio devia ter só um bocadinho de humildade para perceber que a Igreja Católica só é derrotada quando se deixa instrumentalizar por partidos políticos e quando faz da religião uma ideologia (graças a Deus não o tem feito). Fernanda Câncio devia reconhecer que a grande vitória da Igreja Católica é que, apesar dos referendos e das despenalizações, continua a acolher e a acompanhar tantos casos de pessoas que ficam traumatizadas depois de um aborto (sei do que estou a falar), e que não vão falar com uma deputada nem sequer com um psicólogo. Quantas vezes a Igreja Católica, com ou sem clérigos, foi o conforto de quem passou por situações destas!
Fernanda Câncio devia ter um pouco de moral (mesmo da não católica) para reconhecer o imenso trabalho que a Igreja Católica desenvolve junto das pessoas mais carenciadas da nossa sociedade. E não o fazemos por votos, fazemos por amor ao próximo, próximo este que reconhecemos desde muito pequeno, ainda no ventre da sua mãe, passando pelos desempregados, pelos injustiçados, pelos doentes, abandonados... sem-abrigo. Fernanda Câncio ainda não percebeu que todas estas pessoas não vão à Assembleia da República buscar alimentos, dinheiro, pedidos de ajuda, mas que batem à porta das instituições religiosas, cristãs, e grande parte delas católicas?
Fernanda Câncio não devia ser agradecida a quem faz o bem e suporta tantas vezes os erros dos políticos e das políticas. Devia perceber que a Igreja Católica está. Está sempre para o bem e nunca para o mal. E o aborto é um mal, o desemprego é um mal, a corrupção é um mal, as más gestões politicas e partidárias são um mal, a falta de atenção aos mais abandonados é um mal, a eutanásia é um mal.
Fernanda Câncio tem tido uma agenda anti-penalização muito cheia. Agora é a da eutanásia... mas se calhar, prioritária, prioritária, seria a da despenalização da corrupção. Iria ter muitos apoiantes.
Mas Fernanda Câncio acerta numa coisa que escreve. Diz ela, com glória, que na noite do referendo, no Altis, ela disse: "Este sim não é o fim, é o princípio". E foi: o princípio do fim. Como ela se acha agora a embaixadora das causas despenalizadas ou em via de o serem, agora está na eutanásia. Outro engodo, que ela conhece bem. Mas a Igreja Católica estará lá, mesmo com a eutanásia despenalizada, não para condenar mas para dar conforto, para aliviar consciências pesadas, para ser uma presença de amor e de esperança. Não o fazemos por votos, somente porque amamos.

Os desafetos

Comecei ontem a escrever sobre este assunto mas as horas não chegaram para o acabar. Sai com um dia de atraso.
Celebra hoje o nosso mundo o dia dos namorados, evocando São Valentim. Mas uma vez um investimento comercial, que dá para ver como o lucro às vezes se apoia na religião para comercializar. Mas é bom que hoje se celebre o dia dos que amam.
O amor é extremamente estruturante na construção da personalidade humana. Trazemos em nós a necessidade de afectos e demonstramo-los com os valores bonitos e nobres da amizade e do amor puros, sem medidas nem contrapartidas. A gratuitidade do amor.
Se a felicidade passa pelo amor, devemos então amar e ser amados. A psicologia fez-nos ver isso com uma grande lucidez: os filhos não se amam só a partir do momento em que nascem mas o desejo de os ter já deve estar carregado de amor. Sentir-se amado é condição para um dia poder vir a amar.
Ora, este "fogo que arde sem ver", segundo Camões, "é um não querer mais que bem querer". E aqui se joga tudo. Não se ama porque se quer ser feliz mas ama-se para fazer feliz o outro. O tal bem querer.
Ora, as nossas sociedades, tão civilizadas, sofrem a meu ver do síndrome do desafecto. A começar pelo amor egoísta de querer ser feliz, mesmo se não se faz feliz o outro, o amor que só dura enquanto eu sou feliz, o amor canalizado para os animais que, aos poucos, vão tendo um estatuto acima de muitos humanos, o amor que não se manifesta frente a frente, na relação directa, mas através das redes e circulações cibernéticas, que são mais frias que o frio do Pólo Norte.
Este síndrome é preocupante. Porque manifesta o grande sintoma de que alguém devia ter sido amado e não foi e, que por falta desse amor, passou-se a amar a quem responde a estímulos que lhes vamos dando. Sim, é mais fácil canalizar o amor para um animal. Responde aos estímulos, obedece-nos, quando não o queremos perto de nós conseguimos isolá-lo, quando estamos tristes e deprimidos podemos recorrer a ele que terá sempre um afago a dar-nos. Mas duvido que seja saudável trocar um amigo por um animal, que seja saudável distrair a solidão com um animal de companhia, que seja saudável canalizar as nossas energias e economias em tratamentos de luxo com animais quando seres humanos muitas vezes não têm que comer.
Mas, então, os animais não são nossos amigos? Não. Os animais são nossos animais. Nós é que queremos ser amigos dos animais, por isso os compramos, aprisionamos no nosso andar, compramos comida gourmet, oferecemos a quem padece de solidão para se distrair. Nós, humanos, ainda não percebemos a diferença entre amar e domesticar. Não se ama um animal, nunca será "o nosso filho", nunca poderá suprir a ausência de alguém. Um animal só se pode domesticar.
Note-se que eu sou o primeiro a defender os direitos dos animais. Acho tremendamente injusto ter um animal fechado numa casa o dia todo, dependente da saída e chegada do dono e de quem o queira levar a passear. Até já os animais têm psicólogos para os tratar do mal da solidão! O que lhes fizemos.
Mas tudo isto por causa do amor. O amor tem que ser correspondido, não em estímulos mas em amor. Os animais não substituem pessoas, os amigos virtuais não substituem os reais. E, por favor, não me convidem para um café virtual. Gosto de sentir a presença do outro, a voz de quem fala e o aroma do café. E viva o São Valentim.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Candelária


Nossa Senhora da Luz e do Sim,
Maria, cheia de amor e de paz,
Protege a vela da minha vida e da minha fé.
Que os ventos não a tentem apagar,
e que eu tenha sempre cera para arder.
Sê a redoma da minha luz
e o castiçal onde ela possa iluminar.

Nossa Senhora da Luz e do Sim,
Ilumina o meu caminho
para que as trevas se desfaçam
e não me impeçam de avançar.

Nossa Senhora da Luz e do Sim,
protege-me com o teu olhar.
Amen.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Uma entrevista

No domingo à noite uma monja dominicana (contemplativa mas de muita acção) que vive em Espanha, deu uma entrevista na televisão espanhola que escandalizou meia Espanha com todos os contágios provocados pelo menos na Europa. Um dos temas e o mais polémico foi o da sexualidade. Defendeu a sua sexualidade - virgem por opção, que nunca se masturba, mas plenamente mulher - mas quando lhe perguntaram pela virgindade de Nossa Senhora ela não teve a mesma coerência nem naturalidade, ao dizer tranquilamente que o jovem casal (Maria e José) se amavam muito, que eram um casal normal e, por isso, também era normal que tivessem tido relações. Ora, uma afirmação destas, assim, sem mais, choca. Dentro da Igreja a indignação e a condenação da irmã por blasfémia, porque pôs em causa um dogma da Igreja; fora da Igreja os que se aproveitaram para dizer que o que a irmã disse é o mais lógico e que querem abafar uma realidade, e que a religião católica é castradora... etc etc. O bispo da diocese do mosteiro das Irmãs já veio lamentar as infelizes declarações que levam à confusão dos fiéis, e a própria Irmã Lúcia também já veio a público dizer que se calhar não se exprimiu bem, que se calhar não a entenderam bem e que nunca quis, de modo nenhum, chocar os fiéis e abalar a sua fé.
A mim interessa-me pouco a sexualidade das pessoas. E também me interessa pouco a do jovem casal. Talvez em termos espirituais e pessoais tenha achado excessivo ela ter dito assim as coisas. Mas o que talvez mais me tenha chamado à atenção foi o facto de ela ter defendido tanto e tão bem a sua sexualidade e a sua virgindade e depois não ter feito o mesmo em relação a Nossa Senhora. Para mim é tão normal e legítima a opção que a Irmã Lúcia fez um dia em ser virgem, pura e casta, como Maria e José poderem ter feito essa mesma opção. É claro que Maria e José poderiam ter tido relações, mas também é claro que podiam ter abdicado delas como a Irmã Lúcia podia ter tido relações e abdicou delas.
Mas a minha admiração por esta monja não fica abalada por causa deste senão. Pessoalmente gosto mais do que ela faz do que o que ela diz. Talvez o que diz até esteja certo, no sentido de abrir horizontes e outras perspectivas. É ousada. Mas faz parte do ser humano ultrapassarmos alguns limites. Digo-o com pena. No entanto, os senãos não podem escurecer nem tirar o brilho a vidas tão bonitas e sãs como as desta minha irmã dominicana, que gasta e passa a vida a fazer o bem.

sábado, 21 de janeiro de 2017

As conclusões

Termina hoje o Congresso onde tenho estado. Ontem o dia foi dedicado à missão, muito focado na questão do testemunho como primeira pregação. À tarde tivemos a celebração de vésperas na basílica de Santa Maria sopra Minerva, onde estão sepultamos Santa Catarina de Sena e o beato Angélico e onde fizemos uma homenagem às mulheres pregadoras e aos artistas. Hoje estaremos em conclusões e declarações finais. Depois do almoço iremos a São João de Latrão onde há 800 anos, no dia senhor São Domingos recebeu a bula da confirmação da Ordem de Pregadores. Aí celebraremos Missa com o Papa Francisco.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Diálogo inter-religioso

O tema do dia de ontem é o mesmo do deste post. As palavras acolhimento, diálogo e compreensão estiveram presentes em quase todas as conferências e encontros. Mas realço duas conferências de dois frases que me marcam e cujos textos, quando os encontro, tornam-se de leitura obrigatória. De manhã, a conferência de Felicíssimo Martinez, frade da província do Rosário. Falou da pregação como encontro e de quatro momentos de salvação: salvação do corpo, salvação da palavra, salvação do Evangelho e salvação do pregador. No intervalo pedi-lhe a conferência para ser estudada com os noviços e com os estudantes.
A outra conferência foi do nosso frei Jean-Jacques Perenès, da província de França, actualmente prior da comunidade de Jerusalém. Com um percurso muito variado mas sempre desinstalado do que é uma vida estável num convento da tranquila Europa, ele tem uma visão diferente sobre inquérito é viver como minoria e como se pode compreender e dialogar com o islão. No final da sia conferência desenvolveu duas ideias interessantes: não termos medo do islão e que, se o mundo muçulmano tem problemas, à Europa também os tem. Mesmo a calhar, antes desta conferência, um pequeno grupo onde me incluí foi visitar a igreja de Santa Maria Maior. À entrada fomos revistados. Quando passámos o controle comentava eu com um outro frade: está é a pior forma de terrorismo: o medo.
Para terminar o dia fomos todos visitar a Sinagoga de Roma. Fomos bem recebidos e foi uma maneira bonita de terminar um dia cheio de encontros e diálogos.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Direitos humanos

O dia de ontem ficou marcado pelo tema que nos ocupou durante o dia que foi sobre a preocupação dos refugiados, migrantes, maus-tratos e tantas situações de gente desprotegida e sem esperança. Depois de duas conferências introdutórias repartimo-nos por grupos, línguas e temas. O meu foi o dos direitos humanos. Enquanto isto, a terra tremia por estas terras, embora muito poucas pessoas do congresso se tivessem dado conta. 
Depois do almoço fomos ao teatro, ou melhor, o teatro veio até nós. Veio da Suécia, uma companhia de teatro cuja presidente é uma irmã dominicana. Não posso aqui contar em pormenor a peça mas eram 3 actos em que no primeiro se assistia a um debate sobre o destino de um convento que se ia encerrar, depois encontros históricos com o bispo Diego, Catarina de Sena, Bartolomeu de las casas e Giordano Bruno. No terceiro acto retomava-se o primeiro para perceber a atitude de cada um dos que entraram no debate. A peça tinha também momentos musicais e instrumentais que tornaram belo e único o momento cultural.
Na parte da tarde tivemos uma partilha de testemunhos de casos concretos de ataques aos direitos humanos. Tive a oportunidade de conhecer o nosso bispo Raul Vera, bispo de Saltillo (na foto, o que está no centro) e de lhe dizer que admirava o seu trabalho incansável junto dos desprotegidos. No seu país é uma denúncia profética aos abusos e atentados à dignidade humana. Na sua pequena intervenção disse que a maneira de seguirmos em frente passa por perdoar o passado. E pediu-nos que não perdêssemos tempo porque somos enviados em missão para acolher e ser voz profética.
No fim do encontro começou uma peregrinação a Santa Sabina que terminou com a celebração da Eucaristia, presidida pelo Mestre da Ordem. E, misturados com os frades concelebrantes, estavam os nossos bispos, com o nosso hábito, sem as grandezas que às vezes se vê em celebrações tão hierárquicas que, quem estivesse fora do ambiente religioso e entrasse numa igreja, iria julgar estar no senado do imperador. Mas ontem não foi assim. Uniram-se a simplicidade e a solenidade em família dominicana.
No fim da Eucaristia viemos para casa em grupo, passando pela praça de São Pedro, onde rezámos pela unidade dos cristãos e pelo Papa.

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Aberturas

Às 18h começava a sessão de inauguração do congresso dominicano. Passou um pequeno vídeo sobre a vida dominicana em várias presenças: pregação, estudo, vida comum. O coro dos alunos de um colégio dominicano deu início à sessão com a execução do hino do Jubileu "Laudare, beneficente, praedicare". Depois o ex-Mestre da Ordem, frei Carlos Aspiroz fez uma memória do percurso percorrido nestes últimos anos, que foram de preparação.
De seguida, o Cardeal-Arcebispo de Praga, também ele dominicano, fez a oração de sapiência, dando graças a Deus e pedindo perdão pelas infidelidades e tropeços que não mancharam a Ordem como também a Igreja. E deu-se a palavra ao Mestre da Ordem que deu início formalmente ao congresso. Que não se trata de um Capítulo Geral nem de um congresso de história; que seja um encontro de família para lançar a Ordem no presente-futuro. E para completar as intervenções, falou o Ministro Geral dos Capuchinhos, que é também o presidente da conferência dos superiores maiores, sobre os desafios dos mendicantes na igreja do nosso século. Retive esta frase: nós nao estamos na Igreja para dizer quem está fora e quem está dentro. Estamos para indicar o centro, Jesus.
Para fechar da melhor maneira, um coro austríaco, dirigido por um frade, cantou uma missa de São Domingos, escrita por  Haydn, e o célebre Ave Verum de Mozart. Encerrada a sessão, um pequeno beberete de confraternização e regresso a casa or descansar que o dia foi alegre mas longo. A domani!

Um pauzinho de net

Estou em Roma para participar no encerramento das comemorações dos 800 anos da aprovação da Ordem dos Pregadores a que pertenço. Vim com o meu Padre Provincial por ser o promotor provincial do Jubileu. Começará esta tarde, com um Congresso, com a sessão de abertura, por parte de grandes personalidades da Ordem. Seremos mais de 400 pessoas (de toda a Ordem e Família Dominicana) e estamos em vários pontos de alojamento. A mim calhou-me um hotel (que é mais uma casa religiosa), com uma vista óptima mas sem net. Ou melhor, sentado no bidé da casa de banho, virado para o lado do lavatório, consigo ter um pontinho de wi-fi, que vai dando para ver mails e escrever.
Chegámos ontem, fizemos boas caminhadas e visitámos alguns sítios... A entrada ontem à tarde na basílica de São Pedro foi facilíssima, não estariam mais de 40 pessoas lá dentro.
E esta manhã ida a Santa Sabina para resolver alguns assuntos provinicias. Encontrámos o anterior Mestre da Ordem, actual bispo de uma diocese da Argentina, que abiriá esta tarde o Congresso. De lá fomos a São Paulo Extra-Muros.
Espero vir aqui para comentar algumas coisas destes dias... assim não me falhe o único pauzinho de net!