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frei Matias, op (1947-2024)

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  Faleceu hoje o frei José Augusto Matias, assignado ao nosso convento de Fátima. Nasceu em Franco, Mirandela, em 1947. E pouco mais se pode dizer da vida dele, além das poucas assignações que teve mas, sobretudo, porque muito do que disse e fez foi tão discreto, que seria preciso agora encontrar as pessoas que se cruzaram com ele para nos dizerem como as tocou. Um frade simples, mas muito valioso nas suas ideias, na sua simplicidade e discrição. Tendo podido subir aos palcos do êxito e da notoriedade, preferiu sempre os pequenos grupos e comunidades onde aí era profundo e fecundo pregador. Apesar de nunca termos vivido na mesma comunidade, tive a honra e o prazer de me cruzar com ele em muitas ocasiões, quase todas de trabalho: comissões preparatórias de capítulos provinciais e ambos membros de conselhos económicos e provinciais onde, no ultimo, ele estava como secretário e eu como sócio do provincial. As suas intervenções eram sempre no sentido de ajudar (às vezes encontramos pes...

Frei Pedro Ouana - Homilia da Missa exequial

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Minhas irmãs, meus irmãos, O Padre António Vieira, num dos seus sermões fúnebres, dizia que estas celebrações nos servem para três coisas: sentir a morte, louvar o defunto e consolar os vivos. E depois diz que todas as palavras poderiam ser trocadas por lágrimas pois, dizia ele: “ as lágrimas são o mais vivo sentimento, porque são o destilar da dor; são o mais encarecido dos louvores, porque são o preço da estima ”. Mesmo se não temos as lágrimas a correr pelo nosso rosto todos nós hoje choramos a morte do nosso querido frei Pedro. Lágrimas de luto e de dor, lágrimas que não podem ser evitadas quando olhamos para a sua vida, os seus esforços, o tanto que poderia ainda dar à Igreja através da nossa Ordem. Hoje chora Moçambique o seu filho, chora Angola o seu frei, choramos nós o nosso irmão.  Mas as nossas lágrimas são também de carinho e afecto, envolvidas na esperança cristã, que fizeram o frei Pedro perceber e viver a sua vida até ao fim e que a nós nos faz compreender que a noss...

Frei Elias Manuel Salguero, op (1949-2022)

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  O frei Elias Manuel Salguero nasceu em 1949, na Amareleja, Moura. Em 1988 professou na Ordem dos Pregadores, onde foi ordenado presbítero em 25 de Julho de 1993. Fundou o Centro São Martinho de Lima, para apoiar os doentes de SIDA e os grupos de risco de contaminação. Foi prior do Convento de Nossa Senhora do Rosário, no Corpo Santo. Técnico de Iluminura Medieval, deu cursos de miniatura e ilustração de textos no Instituto Rainha D. Leonor. Faleceu a 18 de Janeiro de 2022.

Irmã Maria Domingos, op - in memoriam

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Faleceu hoje, na sequência do Covid, a Irmã Maria Domingos,  monja dominicana, fundadora do Mosteiro do Lumiar, encerrado há poucos anos. A Ir. Maria Domingos nasceu a 26 de Fevereiro de 1936. Ingressou no mosteiro de Fátima, onde fez o seu noviciado como monja dominicana. De lá partiu para o Porto, para o mosteiro dominicano que então havia lá. Em 1982, juntamente com outras irmãs, depois de terem passado algum tempo em Prouille (primeiro mosteiro da Ordem) fundam o mosteiro do Lumiar, propriedade que pertencia aos frades dominicanos irlandeses. A Ir. Maria Domingos distinguiu-se sempre pela sua forma de estar na Igreja e no mundo: simplicidade, humildade, discrição e muita alegria. Prioresa durante alguns mandatos foi sempre a alma do mosteiro, abrindo as suas portas e portões às várias pessoas e grupos que viam no mosteiro um lugar de acolhimento e de paz. Como a beleza está muito ligada à simplicidade, juntamente com as irmãs da sua comunidade cuidaram sempre, muito e bem, do e...

Na terra dos Filipes

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Fui hoje ao Troviscal, freguesia do concelho de Oliveira do Bairro, para uma missa especial: há um mês falecia em Luanda o nosso fr. Gil Manuel da Conceição Filipe, natural desta aldeia onde estive. O fr. Gil era sobrinho de um outro Gil, dominicano, com o apelido de Alferes. Fundador da " Obra do frei Gil ", foi uma referência para o sobrinho de tal modo que, quase sempre aparecia nas suas histórias. O frei Gil, nascido a 23 de Janeiro de 1936, com apenas dez anos saiu do Troviscal para ir para a Escola Apostólica que os dominicanos tinham em Aldeia Nova. Tomou hábito com 15 anos e professou um ano depois, apenas com 16. Estudou em Escolas filosóficas e teológicas da nossa Ordem. Em 1960, um ano depois de ter sido ordenado padre, torna-se professor de português e francês num colégio dominicano aqui de Lisboa, o Clenardo. Oito anos depois foi enviado para Aldeia Nova, para ser professor e formador e também ajudar nas paróquias vizinhas. Cinco anos depois muda outra vez de ...

Chorar pelos defuntos?

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Escreveu assim São Cipriano, nos finais do século III sobre os mortos: Também a mim, ainda que seja o menor de todos, quantas vezes me foi revelado, quantas e tão claras vezes me foi ordenado pela bondade de Deus que clamasse sem cessar, que pregasse em público, que não se deveria chorar pelos nossos irmãos já libertos deste mundo e chamados pelo Senhor, sabendo que não os perdemos mas apenas no precedem; que, como viajantes, como navegantes, vão adiante dos que ficamos para trás. Podemos ter saudades deles, mas não chorá-los ne vestir-nos de luto, porque eles já se vestiram de branco; que não se devem dar motivos aos gentios de que eles nos censurem, e com razão, de que vivendo eles com Deus os choremos nós como perdidos e aniquilados; assim não damos provas com verdadeiros sentimentos, do que pregamos com palavras. Somos prevaricadores da nossa fé e da nossa esperança se parecer como fingido e simulado o que andamos a afirmar. De nada serve mostrar pela boca a virtude e desacred...

Em cima desse penedo

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Há 32 dois anos que não vinha a Feirão aos Santos. O meu avô morreu em 1980 e a minha avó vinha todos os anos, religiosamente, limpar e compor a campa do meu avô. Até que, num ano, vim com ela. As memórias são algumas: frio e chuva, uma casa inóspita (ainda em construção e sem aquecimento), o cemitério cheio de flores e, à noite, com velas, tal como o acabo de ver. Teria eu dez anos e terá sido, muito provavelmente em 1985. Tantos anos depois, o ritual repete-se nesta tarde: as pessoas vão ao cemitério compor as campas e acender as velas. Amanhã, a Missa dos Santos e a ida ao cemitério e, na sexta, para quem pode, a Missa dos Defuntos. Aqui a ideia da morte está muito presente. Não se pode dizer que há um culto dos mortos mas é, sobretudo memória e gratidão dos que nos precederam na vida e na fé. Também eu, hoje, fui aos dois cemitérios acender as minhas velas. Pelos meus avós. E rezar por todos. Lembrei-me durante o dia de hoje de uma cantiga que a minha mãe nos cantava em ...

fr. José Maria Ribeiro, op (1939-2018)

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Partiu ontem, para junto de Deus, assim nos faz crer a fé, o frei José Maria Ribeiro, que nasceu em São João da Ribeira, no dia 21 de Novembro de 1939. Não foi fácil a sua infância e juventude. Nasceu anão, diferente das outras crianças, o que para uns causaria pena e a outros alguma graça. Mas, apesar da diferença nunca quis ser diferente. Fez tudo como os outros, como sempre recordava. Sei também que a sua catequista era também anã, porque a encontrei uma vez e falou-me dele e depois, ele de ela, com carinho. Como o frei José Maria tinha uma grande memória e muitas memórias, vou tentar aqui deixar algumas, contadas por ele, e outras que nós lembramos. [Quando há uns anos morreu uma senhora muito ligada a nós, dominicanos, e eu contei algumas histórias, ele pediu para eu as por por escrito para não entrarem no esquecimento. Não o fiz, mas hoje faço-o para que não se perca uma vida tão simples, humilde e dominicana.] Ainda criança veio a Lisboa com o pai. Dizia que o primeiro síti...

Os bons não morrem

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Morreu mais uma pessoa boa. Esta pessoa, que eu hoje quero lembrar é D. Manuel Martins, primeiro bispo da diocese de Setúbal. Na minha vida cruzei-me duas com ele, em momentos circunstanciais, o que não deu para ele se lembrar de mim mas de eu me lembrar dele. Como Bispo de Setúbal foi duplamente incompreendido: de uma parte algumas correntes políticas que o apelidaram de "bispo vermelho", e também pela própria Igreja, a hierárquica, que achava que ele defendia demasiado os pobres e os trabalhadores, naqueles tempos quentes e problemáticos da outra margem. Mas o tempo, que tudo cura e reabilita, fez deste homem uma voz libertadora e ousada, sem medo dos "castigos" e represálias que pudessem vir contra ele. Como crente, como bispo, não ficou nas teorias do púlpito ou da Cátedra, não se limitou a dizer que era preciso ajudar os pobres e marginalizados, os desempregados e explorados. D. Manuel dizia e fazia. Era exemplo e dava exemplo. E assim conquistou não só ...

Unidos à cruz

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Hoje a minha cruz é preta. Preta de luto, preta de tristeza, preta de solidariedade para com o padre que foi hoje degolado. Não por ser padre mas por ser cristão. O alvo é só um: a cruz de Cristo e quantos a seguirem. Como disse o bispo daquela diocese: oração e amor. Quanto a nós... unidos à cruz.

Frei Luís de França (1936-2016)

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Faleceu, ontem, um frade que, não pertencendo à comunidade de Lisboa, esteve sempre a ela muito ligado. Frei Luís de França, muito conhecido e falado por alturas do 25 de Abril, a Antena 2 disse hoje, até, um dos padres mais importantes da Revolução. Frade dominicano, esteve na origem e acompanhamento deste convento de Lisboa. Foi aqui prior e meu padre-mestre quando era estudante. Presidente da OIKOS, quando chegou a idade da reforma decidiu ir para Angola onde, dizia ele, ainda podia ser útil. Lá, esteve ligado à formação dos postulantes dominicanos, e com uma forte e importante presença na universidade católica de Luanda onde desempenhou vários cargos como, por exemplo, professor de ética. Homem informado e de grande clarividência, quer a nível social quer a nível eclesial. Um cancro começou a lavrar no seu corpo há pouco mais de um ano... sempre com grande esperança, foi tentando travar a evolução da doença, até ao fim. Como líamos ontem, numa celebração que fizemos à noite, p...

Lembra-te que és pó

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Termina esta quarta-feira de cinzas com a triste notícia da morte do antigo pároco de Marvila, meu amigo e inspirador, P. José Feliciano Rocha Alcobia. Pároco de Marvila entre 1976 e 2003, acompanhou toda a minha infância, juventude e adultez. Aliás, toda a família. Foram gerações de pessoas que casou, baptizou, deu a primeira comunhão, e até funerais. Tenho muitas, boas e gratas recordações da minha convivência com ele. Exemplo de pastor, próximo das pessoas, sem discriminação de condições sociais de género nenhum. Se sou padre, a ele muito devo. A mim, acompanhou-me no processo vocacional, sempre atento e apoiando-me. Ensinou-me a rezar a Liturgia das Horas. Preparava as celebrações com grande esmero e celebrava-as com piedade. Despediu-se da paróquia de Marvila poucos dias depois da minha ordenação de diácono. Na Missa da despedida tirou a "estola paroquial" e deu-ma. A mesma estola que ele sempre usou na celebração dos sacramentos. Ainda hoje a uso eu, em algumas...

Bruxas? Não, prefiro os santos, obrigado.

Esta mania americanizada, ou sei lá bem de onde veio, de querer transformar este dia de todos os santos em dias das bruxas, não tem piada nenhuma. O nome, apesar de ainda ter reminiscências cristãs, é decorado, com um tremendo mau gosto, de teias de aranha, morcegos, abóboras iluminadas, caveiras e bruxas. Os meus freis angolanos estavam atónitos a ver as montras sem perceber. E eu dei comigo a pensar que estes carnavais obsoletos e importados estragam este dia, que devia ser de festa, e de lembrarmos os que nos precederam agora estão junto de Deus. Não consigo perceber a piada de ligar este dia a ossos e caveiras. Prefiro as auréolas e os santos, as suas vidas e exemplos, tantas palavras e obras de gente que não entrou nos catálogos das canonizações mas que gozam da mesma alegria de Deus. Servos e servas boas e fiéis que entraram na alegria do seu Senhor. Homens e mulheres discretos e simples, que aprenderam do seu Mestre a  passar a vida a fazer o o bem, que se entregaram a Deus...

Ser bem falado

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Morreu, nesta tarde de domingo, o irmão mais velho da comunidade em que vivo. José de nascimento, Francisco Xavier de religião, mas simplesmente conhecido por frei Xavier. Oitenta e oito anos de idade, sessenta e dois dos quais como dominicano, irmão cooperador, a grande presença no convento de São Domingos. Dizia ele, várias vezes, que para alguém ser bem falado tinha de mudar de terra ou de morrer. E o fr. Xavier, apesar de ter morrido e mudado de terra, justiça lhe seja feita, foi e tem que ser bem falado. E, na sua vida - eu só convivi com ele dezassete anos - viveu para as várias comunidades por onde passou. Nos últimos anos tornei-me mais próximo, em primeiro lugar como prior, onde ele me ia aconselhando nas várias coisas da vida comum, depois como ecónomo e, agora como filho ou pai. Nas várias vezes que o levei ao hospital ou a outras consultas perguntavam-se se era filho e eu respondia que sim; perguntava se era neto e eu dizia que sim; e uma vez, ao rirmos no recreio sobre ...

Memórias de Feirão: os dias tristes

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Dias tristes em Feirão, antes de eu nascer, eram os da partida para longe (sair da terra já era ir para longe), para a tropa ou a morte de alguém. Feirão, entre os anos 50 e 70, teve um grande fluxo migratório. Para o estrangeiro: Brasil, França e Alemanha, e cá em Portugal, o Porto, a Marinha Grande (“descoberta” por uma minha tia-avó) e para Lisboa. À noite, ao toque do sino, quem tivesse os seus longe da casa, marido, filhos, sobrinhos, rezava à Senhora da Guia “Que os alumiasse e guiasse nos seus caminhos”. Eram nomeados, um a um, e cada um tinha o seu pai-nosso e a sua ave-maria. Só depois se jantava o caldo triste e amargo, porque triste e amarga era também a vida. Não adiantava escrever cartas porque poucos as saberiam ler. A minha mãe, por exemplo, lia as cartas à minha tia-avó, e estamos nos anos 60. Quem ia para a tropa ficava entregue à Senhora dos Milagres, que sempre teve uma grande devoção aqui em Feirão. Se não acontecesse nada ao filho, ou se ela o livrasse da trop...

Frei Alberto Carvalho

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Acordámos, hoje, com a notícia da morte do nosso fr. Alberto Carvalho. Dos mais velhos na Ordem (90 anos), conheci-o em 1999, em Aldeia Nova, onde esteve quase trinta e cinco anos, quer como formador do Seminário apostólico Dominicano quer depois como responsável pela Obra do Frei Gil. Quando saímos de Aldeia foi para o Convento de Fátima onde esteve até ao fim. Homem de muitas histórias e anedotas reais - tinha sido professor de Português - irmão de muita calma e alegria, obediente, e padre muito atento aos mais pobres e doentes. Nos últimos anos a sua missão era a de ir a casa dos doentes dar-lhes a comunhão. Na quinta feira, dia 21, quando estive em Fátima, visitei-o. Já estava acamado e muito ausente. Como tudo tem um fim, também o fr. Alberto teve o seu fim neste mundo, acompanhado, amado e cuidado pelos irmãos. Há umas semanas estive a ler o livro de crónicas de Aldeia Nova. O fr. Alberto quer lá, quer depois em Fátima, foi cronista conventual. Foi ele quem escreveu gr...

Utilidade no céu

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" Ser-vos-ei mais útil no céu " foi a frase de despedida de São Domingos. É uma frase que gosto muito de lembrar quando a minha vida cruza com pessoas boas e santas. Como a de uma amiga minha que acaba de partir. E parte em paz porque vai encontrar-se com aquele que o seu coração amou. Mulher de fé e de oração, que tanto me foi útil na terra, não tenho dúvidas que me será ainda mais útil no céu. Que agora descanse em paz no coração de Deus.

Capelão dos sem-abrigo

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Recebi esta manhã a triste notícia da morte de fr. Pedro Meca, dominicano espanhol, há muitos anos a viver em Paris, junto dos sem-abrigo. Ficará certamente conhecido como o capelão dos sem-abrigo,  como já o chamavam. Conheci-o pelo ano dois mil. Veio a Lisboa e ficou cá no convento. Confesso que, apesar de os meus confrades o acharem o máximo, eu na altura não lhe achei muita graça: vivia quase à margem da comunidade, cabelos compridos, roupa desarranjada... Falou à Comunidade sobre a obra que tinha fundado, "La moquette" (o tapete), uma instituição que está junto aos sem-abrigo. Para além da higiene a alimentação, na impossibilidade de lhes dar casa, abriu uma grande casa, onde desde o final da tarde até meio da noite, para os ouvir, para debaterem (dizia que muitas vezes ficava impressionado com o grau cultural de muitos sem abrigo e, nestes últimos anos, que tínhamos muito a aprender com os sem-abrigo). Ao longo dos anos, sobretudo nos últimos dois ou três, ganhei...

97 anos

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Lembro hoje a minha avó paterna, de quem nunca aqui escrevi, que se fosse viva faria hoje 97 anos. O meu lado paterno nunca foi muito explorado. Ao contrário dos meus avós maternos, que vieram para Lisboa nos meados dos anos 60, os meus avós paternos viveram, morreram e lá estão sepultados. Por isso, o contacto era praticamente anual, por ocasião das férias grandes, eles em Cotelo e nós em Feirão. Quando chegávamos era das primeiras coisas que fazíamos - visitar os avós e os tios -, e depois mais umas quantas vezes, duas por semana, talvez, e a visita da despedida, a minha avó sempre com lágrima no olho, a dizer que era o último ano, que estava para breve "passar o monte de Gosende" (significava morrer). A ela e ao meu avô, e a muitos mais da aldeia, a vida foi dura. Os filhos rapazes trabalhavam com o pai nas terras; as filhas trabalhavam em casa, com a mãe, fosse na lida, fosse no tear, fosse ainda com o levar a casa ao campo (o almoço ou a merenda a quem estava nas...

D. José Policarpo

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Soube da notícia poucos minutos depois de ele morrer. Quando alguém com quem convivemos morre, quase automaticamente nos vem à memória episódios mais ou menos felizes dessa pessoa. Eu recordo vários, que não vou aqui narrar, mas todos positivos. Lembro especialmente três: foi ele quem me ordenou, foi ele quem dedicou a igreja do convento onde vivo, e muito fez por ela, e foi ele quem, como como conto num dos retalhos deste blogue, às "exageradas" apresentações e louvores da minha pessoa por parte de um padre ele arrematou: também tem que fazer alguma coisinha pelo Reino de Deus. Comigo sempre simpático, afável, acolhedor, próximo e amigo. Sei que tinha especial preocupação pelos padres mais problemáticos e sei que amava muito a Igreja. Várias conversas a dois ou com mais alguém iam-me confirmando isso. A história dele dirá, assim como nós dizemos daqueles com quem convivemos. De D. José Policarpo só tenho que dizer bem pelo bem que me fez e pelo bem que o vi fazer. Que des...