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Saber descobrir Deus

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Às portas da Páscoa, todos procuramos um sentido para a vida e procuramos Jesus. Santo Agostinho, nas suas «Confissões» reconhece que procurava Deus fora dele e Deus estava dentro dele. O Cardeal Suenens, no seu livro «Vida quotidiana - vida cristã» (1965), fala-nos sobre como descobrir Deus. Perguntou-lhe Jesus: mulher, porque choras? A quem procuras? (São João 20, 15). O ENCONTRO NO JARDIM Voltemos a ler a página do Evangelho que descreve o encontro de Jesus e de Maria Madalena, em manhã de Páscoa, no jardim onde o Mestre fora sepultado: «Maria estava junto à entrada do túmulo, chorando. Enquanto chorava, abaixou-se e olhou para dentro do túmulo, e viu dois anjos com vestes brancas, sentados onde o corpo de Jesus fora posto, um à cabeceira e outro aos pés. Eles lhe perguntaram: Mulher, porque choras? Respondeu ela: Porque tiraram, o meu Senhor, e não sei onde o puseram. Tendo dito isto, virou-se para trás e viu Jesus em pé, mas sem saber quem era ele. Perguntou-lhe Jes...

Saber sofrer com esperança

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Os tempos que vivemos são tempos que nos desafiam humanamente e ao nível da fé. O nosso olhar continua limitado, olhando só para o imediato sem grande capacidade de, em vez de perguntarmos o porquê podermos perguntar para quê? O Cardeal Suenens, no seu livro «Vida quotidiana, vida cristã» (1965), dedica um pequeno capítulo à questão do sofrimento, vivido desde a fé e a esperança. Aqui o deixo para a reflexão desta quarta-feira santa. Não tinha o Messias de sofrer essas coisas para entrar na sua glória? (São Lucas 24, 26). O MISTÉRIO DA DOR Ninguém escapa ao sofrimento. A dor acompanha-nos, passo a passo, do berço ao túmulo, como a sombra segue o próprio corpo, no caminho Custa-nos a compreender o que forçoso nos é chamar o mistério do sofrimento. Quereríamos viver num mundo onde só fizesse sol: sombra - nunca. Se dependesse de nós, teríamos um mundo reduzido a duas estações: Primavera e Verão. Seria o sofrimento um amontoado de folhas mortas? Seria a rajada de ve...

Saber calar

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Nas narrativas da Paixão impressiona o silêncio de Jesus. Só fala para dizer a verdade - nunca para se defender ou desculpar - ou perguntar a um soldado que lhe dá uma bofetada o porquê de lhe bater. Saber calar é uma virtude e uma arte. Deixo aqui a reflexão do Cardeal Suenens no seu livro de 1965 «Vida quotidiana - vida cristã» .   Mas Jesus nada mais respondeu, de modo que Pilatos estava estupefacto (São Marcos 15, 5). VISÃO DE NAZARÉ Teria sido uma família silenciosa, a Sagrada Família? Um lar de puros contemplativos? Ou uma casa como todas as outras, onde alternam o silêncio e a palavra, a prece e a conversação, o trabalho e o repouso? Tudo nos diz que seria um lar normal, como qualquer outro, onde se equilibram os silêncios e as palavras. A primeira impressão, todavia, é de silêncio. Maria recebe do Arcanjo a mais prodigiosa das novidades: a Anunciação. O diálogo é breve. Uma pergunta essencial: «Como será isso?» Uma resposta: «Faça-se em mim, segundo a tua ...

Saber agradecer

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Tenho um baú (são mais arquivadores que propriamente um baú), onde vou guardando artigos que no momento em que os encontro não os consigo ler, nas esperança de um dia ter tempo de voltar a abrir a tampa. Permite este tempo que abrisse a tampa deste baú e encontrasse uma obra clássica dos anos 60, escrita pelo vanguardista Cardeal Suenens, da Bélgica, que tanto fez de bem pelo Concílio Vaticano II. O livro chama-se: vida quotidiana - vida cristã. São muitos pequenos capítulos em que o Cardeal Suenens vai compaginando a vida quotidiana com a vida cristã. Como o Evangelho de hoje nos fala do gesto gratuito e de gratidão de Maria, irmã de Lázaro e de Marta, para com Jesus, derramando perfume de nardo puro sobre os seus pés e enxugando-os com os cabelos, coloco aqui um pequeno capítulo deste livro "vintage", sobre o saber agradecer. Nos próximos dias tentarei colocar mais pequenos capítulos, se o tempo mo permitir. SABER AGRADECER Damos continuamente graças a Deus por ...

O verdadeiro São Nicolau

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Toda a gente sabe que o Pai-Natal é uma péssima recuperação de São Nicolau, santo que a Igreja hoje celebra. O consumo (em especial a Coca-Cola) transformou-o num velho barrigudo, de barbas brancas e gorro. A única coisa que talvez tenha conseguido transmitir é o sorriso. Não se costumam ver "Pais-Natais" tristes e cansados. Cansados já se vêem. Não sei quem me comentava que na confusão de quem dá as prendas se dizia que era o Pai Natal. E alguém que tinha aprendido que era o Menino Jesus disse que não. E a contra-resposta foi que o Menino Jesus ajudava o Pai Natal porque era velhinho e andava cansado. Hoje é o dia de São Nicolau e não o dia do Pai-Natal. Na quinta-feira passada li no Jornal Avvenire, um pequeno artigo de uma religiosa sobre a verdadeira história deste santo. Não vou aqui traduzir o artigo mas sim resumi-lo: Nicolau, que ainda não era bispo de Mira, te estando nós no século IV, teve conhecimento de uma história dramática: uma família nobre e rica cai na ...

A comunhão de Judas

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Se Judas comungou ou não na Ultima Ceia foi curiosidade que nunca tive em satisfazer. Lembro-me há uns anos atrás este tema ter aparecido à mesa e um confrade ter dito que não e disse-o com tanta segurança que acreditei. Mas parece que, afinal, comungou. Consultei um site ultra católico (são óptimos para dirimir estas questões) e, numa resposta a uma pergunta pertinente: se Judas estava em pecado mortal e se Jesus o sabia, porque é que lhe deu a comunhão?, o contestador responde de uma forma categórica, nada convincente: porque Deus é justiça e misericórdia. Por justiça não lhe devia dar a comunhão mas por misericórdia sim, porque Jesus esperou até ao último momento o arrependimento de Judas. Ora, esta resposta, pelo menos para mim, ainda me deixa mais perplexo que tudo o resto. Mas a resposta continua. É que, na altura da comunhão dos Apóstolos, explica o contestador, o pecado de Judas era um pecado privado. E não se pode negar a comunhão por causa de pecados privados. Se for pecad...

Dia Mundial da Paz para 2013

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Uma antiga tradição litúrgica da Igreja, propõe que na noite de Natal se cante o anúncio do Natal do Senhor. Depois de enumerar as várias datas dos vários calendários e de fazer as contas desde a criação do mundo, diz o texto que, quando Jesus nasceu, "todo o mundo estava em paz". A paz de que fala este texto era uma paz institucional, a paz do império. Vale a pena ler o recente livro do Papa sobre a infância de Jesus, no terceiro capítulo (p. 68), em que o papa fala da paz Augusti (paz de Augusto) e a paz de Cristo (pax Christi). E de fato, a palavra é a mesma, mas sabemos que têm origens diferentes. A paz do mundo é a que construímos aqui na terra, com pactos, apelos à não-violência e ao respeito pela dignidade humana e tolerância religiosa. Mas a paz de Jesus é uma outra paz. Não é incompatível com a de Jesus mas tem, para nós, uma origem diferente. A paz de Jesus vem do céu, vem de Deus. No evangelho são os anjos que anunciam a paz na terra. Dizem que o céu e a terra ...

Como comungar?

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O Papa está a despedir-se de Madrid e, mais uma vez, a rainha não se ajoelhou para comungar. Em Barcelona saltou por cima do genuflexório para comungar na mão; e todos comentaram a quebra do protocolo, que já não há respeito, que a rainha deveria comungar como toda a gente. Hoje foi tudo muito discreto: como já tinham sido avisados que a rainha não comunga de joelhos nem mesmo sendo o Papa a dar-lhe a comunhão, o Papa foi ao lugar dela para lhe dar a comunhão. E mais uma vez a rainha não se ajoelhou: saiu do seu lugar, onde estava o genuflexório, aproximou-se do Papa e estendeu-lhe a mão e comungou dignamente. É um pormenor, vale o que vale, e há coisas mais importantes. De acordo. Mas é preciso acabar com tudo o que seja devocionismo e até fanatismo. Correndo as igrejas da baixa de Lisboa vemos de tudo: pessoas que rivalizam para serem as primeiras ou as últimas a comungar, pessoas que só comungam de joelhos, pessoas que se comungam parte da hóstia do padre vão à sacristia agradecer...

Os nossos "Natanaeis"

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Faz daqui a poucos dias quatro anos que fui a Bruxelas ao ICNE (Congresso Internacional da Nova Evangelização). Fui a convite do Prior do Convento que queria presença "jovem" para a animação desse Congresso. O mais interessante eram as conferências que, cada manhã, aconteciam na grande basílica do Sacré-Coeur. Houve uma do nosso dominicano Timothy Radcliffe. A conferência era sobre o anunciar a Boa Nova aos habitantes das grandes cidades da Europa. Na altura não nos tínhamos de preocupar com tirar notas porque, no último dia, era-nos dado um livro com todas as conferências. Trouxe o livro, emprestei-o e o que é certo é que me desapareceu. No sábado passado, estando no Campo Grande à espera da hora de um casamento, enquanto 'espreitava' a biblioteca do P. João Resina (diz-me o que lês e dir-te-ei quem és), encontrei o livro! Não era o meu, claro está, mas era o mesmo livro. Tirei fotocópias da tal conferência que ontem acabei de ler. E mais uma vez se conclui que Timot...

O Pão nosso

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Leio um artigo da revista "Pública", sobre o pão, de autoria de David Lopes Ramos, que vou transcrever de seguida. O pão que, como sempre me ensinaram, não se pode estragar. Nestes tempos de consumismo, em que o pão se tornou banal, que nos desfazemos dele como se de lixo se tratasse, aqui deixo a minha veneração ao pão, maravilhosa invenção humana, fruto da sua inteligência e, ao mesmo tem po, fruto dos quatro elementos do universo. " O pão é muito mais novo do que a humanidade. Só tem uns dez mil anos. Antes de descobrirem as técnicas de farinação, os homens comiam os cereais em grão. Os citadinos tendem a esquecer-se de que o pão se faz, não nasce da terra como o arroz, a batata, as maçãs ou as cerejas, que consumimos tal como os colhemos. Com o pão, não basta colher a espiga e já está. 0 pão sua-se – “Comerás o pão com o suor do teu rosto”, sentenciou o Criador a Adão, quando ele não resistiu à maçã do Paraíso –, confecciona-se à força de braços. 0 pão semeia-se, seg...

Construção de Deus

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Chamou-me à atenção um artigo com o título " Dieu, c'est Moi ". Dá conta de um estudo que psicólogos americanos fizeram a crentes sobre estas perguntas: " O que é que Deus pensa do aborto? Do casamento homossexual? Da pena de morte? Do Cannabis? " Primeira conclusão, a mais simples: pessoas mais conservadoras dizem que Deus é contra tudo, menos contra a pena de morte, a que Deus seria favorável; e as mais liberais dizem que Deus legalizaria os abortos, os casamentos homossexuais e que aboliria a pena de morte. Mas, mais engraçada e séria é a segunda conclusão deste estudo: os especialistas mediram a actividade cerebral das pessoas interrogadas e constataram que, quando pensam em Deus, é activada a zona cerebral do « pensamento autoreferencial », ou seja, as mesmas zonas que se activam quando falamos de nós, da nossa intimidade... Portanto, " nos crentes, as zonas do cérebro activas quando pensam em Deus e neles são exactamente as mesmas ". Terceira con...

A chamada "doença terminal" - parte 4

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3. Dignidade e humanização da morte A proporcionalidade dos tratamentos, antes discutida, é no entanto apenas uma das respostas alternativas ao problema da eutanásia e do afinco terapêutico na doença terminal. A sua verdadeira evolução consiste, provavelmente, numa cultura diversa que nos leve a descobrir o sentido de viver e de morrer, que torne a morte ‘digna’ do homem e que nos capacite ‘acompanhar’ o moribundo a tal acontecimento último. É necessário redescobrir também, no nosso tempo, a atenção ao momento e ao significado da morte. O seu momento não pode apanhar-nos de surpresa. Talvez hoje sorrimos diante dos textos ascéticos dos séculos passados como a Preparação para a morte de S. Afonso de Ligório mas não nos deveria escapar o sentido mais profundo de tais atitudes. Toda a vida deveria ser uma longa preparação para a morte. Como diz uma frase atribuída a Leonardo da Vinci “como um dia bem passado no leito de dormir, assim uma vida bem vivida no leito de morrer”. Não se pode...

A chamada "doença terminal" - parte 3

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2. Negar a morte para negar a doença: a obstinação terapêutica Os tratamentos “inúteis” No tema da eutanásia é inevitável abordar a obstinação terapêutica, dado que constitui, pelo menos no plano dialéctico, a contraposição mais imediata. De facto pensa-se que a recusa de praticar a eutanásia nos doentes terminais constitui, de facto, uma obstinação terapêutica, isto é, é inútil submeter o doente remédios que apenas lhe prolongam o sofrimento. Na realidade nem toda a intervenção que prolongue a existência de um doente terminal configura com uma inútil obstinação terapêutica. Podemos definir isto como a insistência no recurso a defesas médico-cirúrgicas não incidentes na medida significativa sobre o natural e irreversível percurso da doença nem sobre uma melhor qualidade de vida do paciente. Ainda que um pouco comprida e articulada, a definição que propomos delimita bastante bem o âmbito da obstinação terapêutica e sobretudo evita extensões indevidas a actos que certamente não constitu...

A chamada "doença terminal" - parte 2

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1. Suprimir o doente para suprimir a doença: eutanásia Natureza da eutanásia Entre as respostas éticas relativas ao doente terminal, a mais problemática diz respeito à eutanásia, termo ambíguo enquanto sobrepõe o plano descritivo (isto é, da raiz grega, o conceito de “boa morte”, en Tanathós) com o plano valorativo (isto é, a supressão piedosa do doente). Antes de mais, então, procuremos definir exactamente os termos do problema. “Por ‘eutanásia’ podemos entender toda a acção ou omissão completa para suprimir a vida de, um doente com o fim de lhe evitar sofrimentos físicos ou psíquicos”. Logo, a eutanásia não consiste só no completar uma acção directamente finalizada a suprimir um indivíduo, mas também no omitir uma acção que poderia salvá-lo. No plano ético, em substância, não existe diferença entre uma morte directa e fazer deliberadamente que o indivíduo morra; como não existe diferença entre o eliminar um homem afogando-o no mar ou deixar que se afogue. Ninguém pode justificar-se ...

A chamada "doença terminal" - parte 1

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Ontem, quando cheguei do hospital, na mesa que tenho à entrada do meu quarto, alguém deixou um artigo de um Professor de Teologia Moral, traduzido pelo Dr. João Costa Jorge, sobre "A doença terminal como problema bioético". Li e gostei. Parece-me esclarecedor porque muito se diz e muito se quer enganar sobre estas questões ligadas ao final da vida. Converti o artigo em suporte digital e aqui fica, para quem o quiser ler e até comentar. Os sub-títulos são: 1 : Suprimir o doente para suprimir a doença: eutanásia; 2: Negar a morte para negar a doença: a obstinação terapêutica; 3: dignidade e humanização da morte. Por ser extenso vou dividi-lo em quatro partes, sendo esta primeira a introdução. O artigo vai acompanhado de pinturas de Thomas Cole (séc. XIX), que pintou quatro quadros aos quais deu o tema geral: " A viagem da vida " e depois, cada quadro com uma idade humana: infância , juventude , adultez e velhice . Sim, porque não são só os mais velhos que viajam......