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Uma manhã de tréguas

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Quiseram a chuva e o frio dar uma manhã de tréguas nesta serra de Montemuro. O dia acordou com o ceu limpo e um sol fulgurante. As pessoas agradecem por causa do milho que não precisava de chuva nestes dias. Esta manhã de segunda-feira foi como um sábado-aleluia depois de uma sexta-feira de trevas: os pássaros cantam, os rios fazem correr ligeira a água por entre as pedras, o sol, além de aquecer derrete a geada que a noite formou, o gado pode pastar à vontade a erva fresca e eu pude fazer a minha primeira caminhada a pé. Mas, agora sim pode-se dizer, foi sol de pouca dura. Começam a juntar-se as nuvens, como se estivessem ciumentas, para  voltar a tapar tudo. Nada a que não se esteja habituado... é o que faz viver acima dos mil metros de altitude...

Cotelo solidário

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Em Castro Daire está a fazer-se uma recolha de bens para enviar para os lugares onde o fogo não poupou nada. Têm levado feno, para os gados comerem e hoje recolhe-se roupa e alimentos para lhes fazer chegar para ajudar a reconstruir. Cotelo juntou-se à iniciativa e também está a recolher alimentos e roupas para enviar. Dentro da capela e fora dela, à volta dos muros e à porta das casas das pessoas, vamos vendo estes pequenos gestos de solidariedade que só ficam bem a quem tem e a quem tem o gosto da partilha.

Pôr do sol da saudade

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E assim terminam as férias Feirão 2016. A nostalgia do passado e as saudades do futuro são sentimentos que me invadem. Memórias, conversas, paisagens, pessoas, preencheram estes 20 dias de mais ou menos descanso. Amanhã será um novo dia.

A minha água

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Em Cotelo vou frequentemente a casa de uns amigos que ainda são família. Têm uma casa já um pouco afastada do resto da aldeia, junto a uma terra que em heranças ficou para o meu pai e, com a sua morte, para mim e para o meu irmão. É uma grande lameira, que é dividida com um tio meu, por ser grande e boa não podia ficar só para um. Estes meus amigos têm uma fonte, que nasce entre pedras num subterrâneo e depois é canalizada para uma saída, ainda debaixo de terra. A fotografia dá para perceber a saída. De vez em quando vou lá buscar água por ser natural, fresca e saborosa. No sábado lá fui eu à fonte e o dono da casa disse-me de cima: Ó senhor padre Filipe, olhe que a água ainda é sua. Pode beber à vontade. Estava a meter-se comigo, obviamente, mas achei graça. E continuou: esta água pertencia ao seu avô e ao meu pai e era dividida aos dias. Os três primeiros era para o meu pai e os outros três para o seu avô. E ao domingo alternada. Que contente fiquei. Afinal tenho água! E da boa....

Que futuro?

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Dias mais calmos e frescos se vivem em Feirão. Poucos são os que ainda estão em férias, não mais de 20 pessoas, creio eu. A vida corre calma, com os trabalhos de quem trabalha e o descanso de quem descansa. Já Cotelo está mais povoado, seja de residentes seja de quem está de férias. Olhando para alguns anos atrás, em que as pessoas vinham para cá do um ao trinta e um de Agosto, tudo agora é diferente, deixa a pensar e dá que falar, como a conversa que tive esta tarde no café de Cotelo com um senhor de Feirão: que não há futuro para estas terras. E dizia eu que, daqui a dez anos, Feirão está muito mais reduzido e talvez sejam menos de 50 pessoas. Os mais velhos vão envelhecendo e desaparecendo, os mais novos que vivem cá – que são poucos – não conseguirão manter uma estrutura de aldeia, onde nem sequer café ou mercearia tem. E os filhos e netos, por Lisboa, Porto ou Marinha Grande, que vão vindo cá por causa dos mais velhos, acabarão por deixar de vir. Uma morte lenta ou paliativa, s...

Sons e paisagens

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A história da cultura tradicional portuguesa não poderá ser feita sem ter em contas as várias recolhas que, ao longo do século XX e XXI se foram fazendo por este Portugal fora, em grande parte levado a cabo por Michel Giacometti pelos anos 70, no conhecido programa “um povo que canta”. Há três anos surgiu uma nova edição deste programa, com o acrescento do “ainda canta”. Não saberemos se daqui a 10 anos ainda teremos o povo a cantar e o que andará a cantar. Cantares ao desafio nas feiras, desgarradas nas tabernas, algum folclore agora mais visual que expressão de sentimentos, são resquícios do popular, em nada comparável ao pimba que grassa nestas festas de aldeia. Nas curtas viagens entre Feirão e Cotelo, oiço Isabel Silvestre, no seu recente álbum “Cânticos da terra e da vida”. A voz, os tons e os temas assemelham-se às paisagens da serra de Montemuro que nos envolve. Há um tom comum nestas serras inconfundíveis. Que não se aprende nem se ensina. Sai genuinamente, como a á...

Memórias de Feirão: As viagens

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Regressar aos anos oitenta para falar de viagens, as exteriores, e em especial das viagens de Lisboa a Feirão e de Feirão para os arredores (Cotelo, Castro Daire, Resende e Lamego) é, praticamente falar em boleias ou muito palmilhar. Os meus avós saíram de Feirão nos meados dos anos 60. Diz a minha mãe que só voltou cá, e ela foi a primeira a vir depois da migração, 10 anos depois. Já trabalhava, veio pelo Natal, ficou a dormir em casa de uma tia. Diz ela que, ao contrário do que se fez quando foram para Lisboa, que tiveram de ir a pé para Bigorne com as coisas às costas, quando veio dez anos depois já veio de camioneta até Feirão: o tio Alberto, da Talhada, alugava um autocarro com motorista, organizava a viagem, as pessoas pagavam um tanto mas acabava por ser serviço porta-a-porta. E foi assim que vim várias vezes sem me lembrar e foi assim que vim a primeira vez que me lembro vagamente: saíamos de Lisboa ao princípio da noite de sexta-feira e chegávamos a Feirão no dia segui...

Visitas de Lisboa

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Ontem tive a alegria, eu, Feirão e Cotelo, de recebermos amigos de Lisboa. Vieram propositadamente para conhecer estas terras que tanto me prendem. Vieram, estiveram na Missa de Feirão, foram apanhar amoras, foram ver a vista desde a capela de São Cristóvão, e almoçaram em Cotelo. Almoçaram eles e almoçámos nós, também. Da parte da tarde, visita a Cotelo, ida a Caldas de Aregos e despedidas. Para Feirão e Cotelo foi um acontecimento: quem seriam? Amigos ou familia do senhor padre? As pessoas daqui gostam de saber estas coisas... Agradeço-lhes a visita e que se repita. (fotografia: vista de Feirão a partir do marco geodésico)

Mulher bíblica

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" Uma mulher de valor, quem a poderá encontrar? O seu preço é muito superior ao das pérolas. O coração do marido nela confia e jamais lhe falta coisa alguma. Ela proporciona-lhe o bem e nunca o mal, em todos os dias da sua vida. Ela procura lã e linho e trabalha de boa vontade com as suas mãos. É semelhante ao navio do mercador, que traz os seus víveres de longe. Levanta-se, ainda de noite, distribui o alimento pelos da sua casa e as tarefas pelas suas servas. Ela pensa num campo e adquire-o, planta uma vinha com o ganho das suas mãos. Cinge fortemente os seus rins, e os seus braços têm sempre força. Ela sente que o seu negócio pros­pera, a sua lâmpada não se apaga du­rante a noite. A sua mão pega na roca, e os seus dedos fazem girar o fuso. Estende os braços ao infeliz, e abre a mão ao indigente. Não teme a neve para os seus familiares, porque todos eles têm roupa a dobrar. Faz para si belas cobertas, e os seus vestidos são de linho e púrpura. Seu marido é considerado nas por...

Primeira feira de gado em Cotelo

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Divulgada e patrocinada, estreou-se hoje, na Veiga de Cotelo, a primeira feira de gado no dia 15 de Agosto. Durante o Verão há várias feiras de gado, quase todas elas com luta de bois no final. E neste dia feriado não havia. Por isso, lá se "inventou" esta feira, que de venda de gado deve ter sido pobre mas que foi rija na luta de bois. A ancestralidade destas feiras de gado fazem delas a tradição. Também eu, depois de duas celebrações de Missa e de um casamento em Lamego, me juntei a Cotelo para estar no final da feira e assistir às lutas. Aqui deixo uma fotografia da última luta do dia. Como registo.

De cá ou de lá

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Cada vez que venho de férias sinto mais forte a divisão que há em mim sobre as questões de pertença. Ontem, quando estava a entrar no café de Cotelo, a conversa era esta: Já cá está o padre de Feirão. O que estava em frente respondeu: padre de Feirão nada. Ele é metade de lá e metade de cá. E eu continuei: nem de Feirão nem daqui. A ser, sou de Lisboa. Ora, se há uns anos era notório e sabido que eu pendia muito mais para Feirão, hoje a coisa não é assim tão simples. De facto, tenho tido o esforço de ser metade de lá e metade de cá. Que significa ir quase todos os dias a Cotelo, seja por missa, seja por visita a pessoas e família ou seja só para ir ao café. No ano passado correu um diz-que-disse que eu andava à procura de casa em Cotelo. Lá vinham algumas pessoas a dizer: Se o senhor padre Filipe vai para Cotelo deixa-nos para trás e não pode ser; não se esqueça que é de cá. E lá dizia eu: Para isso acontecer era preciso haver terreno e dinheiro para construir. Até lá… Acho ...

O começo das férias

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“ Feliz a margem que sabe a fonte ” é o final de uma estrofe de um hino que cantamos no convento nas memórias dos santos. E, sim, os santos foram aquelas margens que sabiam e queriam que Deus fosse a sua fonte. Mas esta frase aplica-se a eles e a muitas circunstâncias da nossa vida. Hoje aplico-a à minha chegada a Feirão. É um regressar às origens, quase como voltar a um lugar de referência na nossa vida, como se o Tejo, ao chegar a Lisboa quisesse voltar a subir o seu leito para ver a sua fonte. Vir a Feirão é isso mesmo: voltar ao colo que nos viu crescer, respirar aquele ar tão frio e fresco, o ar de sempre, beber nas fontes que incansavelmente continuam a refrescar as nossas sedes, falar às pessoas, cada ano um ano mais velhas, como é próprio dos que só se vêem de ano a ano. Todos iguais mais mais velhos. Vir a Feirão – e por acréscimo a Cotelo –, as berças como costumo chamar, é desligar do mundo corrente, das velocidades e agendas cheias, e entrar no remanso dos dias, com ...

97 anos

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Lembro hoje a minha avó paterna, de quem nunca aqui escrevi, que se fosse viva faria hoje 97 anos. O meu lado paterno nunca foi muito explorado. Ao contrário dos meus avós maternos, que vieram para Lisboa nos meados dos anos 60, os meus avós paternos viveram, morreram e lá estão sepultados. Por isso, o contacto era praticamente anual, por ocasião das férias grandes, eles em Cotelo e nós em Feirão. Quando chegávamos era das primeiras coisas que fazíamos - visitar os avós e os tios -, e depois mais umas quantas vezes, duas por semana, talvez, e a visita da despedida, a minha avó sempre com lágrima no olho, a dizer que era o último ano, que estava para breve "passar o monte de Gosende" (significava morrer). A ela e ao meu avô, e a muitos mais da aldeia, a vida foi dura. Os filhos rapazes trabalhavam com o pai nas terras; as filhas trabalhavam em casa, com a mãe, fosse na lida, fosse no tear, fosse ainda com o levar a casa ao campo (o almoço ou a merenda a quem estava nas...

Um centenário

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Há umas semanas coloquei na agenda do computador o primeiro centenário do meu avô paterno. Nunca aqui falei dele; chegou hoje o seu dia. Para dizer que foi das pessoas mais calmas que conheci. Tudo o contrário da minha avó paterna e do meu lado materno. Quando nasci tinha ele 62 anos. Homem pobre, com sete filhos, com o pouco que herdou dos pais e dos sogros teve que migrar, poucos quilómetros, para uma terra do mesmo vale, o Rossão, para ir fazer umas terras e delas tirar algum lucro. Os filhos foram todos à escola. Não passaram da instrução primária, mutilados da infância e do estudo porque de casa iam para a escola e da escola voltavam para casa para ir trabalhar. As raparigas, tecedeiras como a mãe, os rapazes ficavam por conta do pai. Os mais velhos a cavar e a lavrar como homens e os mais novos ajudavam no que podiam, iam para o monte e os do meio - o meu pai, por exemplo - iam muitas vezes de terra em terra entregar as mantas feitas no tear. Tudo se criou, refrão muito...

Uma manta para recordação

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Lembram-se da “reportagem” que fiz no ano passado sobre um tear de Cotelo, com data de 1831? Foi no dia 23 de Agosto. Se lá forem hão-de reparar que ela estava a fazer uma coberta. Pois este ano a tecedeira, D. Clarinda, fez-me a grata surpresa de ma oferecer! Como cabe na cama de cá, vai cá ficar. Por causa do tear ser pequeno as cobertas são feitas em duas partes e depois unidas. Estão a terminar as férias deste ano. Embora a grande parte das pessoas com quem estive não passem por este blogue, aqui deixo o meu agradecimento pela estima, consideração e amizade que me têm e eu também lhes tenho a elas. Cada vez me sinto mais ligado às berças. Não é só questão de terra. É questão de feitio e identidade. Talvez para o ano haja mais.

Domingo de Missas

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Ontem foi o meu último domingo deste ano nestas terras altas da Serra de Montemuro. E foi um domingo de Missas. Quase pareceu um domingo em Lisboa: Missa em Feirão e em Cotelo e, à tarde, concelebrei no Mezio na Missa das bodas de prata do P. Diogo, Pároco de Gosende, aonde pertence Cotelo e, porque ele estava na festa, vim fazer o terceiro dia da novena em honra de Nossa Senhora do Fojo, cuja festa será no próximo domingo. Continuam a ser dias feios por causa do fogo. Ontem, quando vinha do Fojo para Feirão, ainda fui, com o meu tio, apagar um fogo que alguém tinha acabado e atear. Por sorte passámos e conseguimos apagá-lo com umas giestas. Mas o ar torna-se quase irrespirável. A mim cansa-me, talvez pela falta de oxigenação do corpo. Hoje o dia está mais fresco e já não há quase nada para arder a não ser as aldeias, Que Deus e São Lourenço nos livrem. Olhamos à volta e vemos tudo destruído, preto, sem vontade de olhar. A partir de hoje é contagem decrescente. Últimos dias, despe...

Matanças

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Este post é só para assinalar uma matança de porco onde estive, no sábado ao fim do dia. Foi um primo meu que o matou (era porca), para consumo interno. Já tinha visto há uns três anos a morte de um cordeiro e muito me lembrei do livro de Isaías a respeito de Jesus: era como o cordeiro levado ao matadouro. A matança de sábado lembrou-me o provérbio que diz: se queres ver o teu corpo mata um porco. E o meu primo lá me foi explicando as várias fases da morte e, ao desmanchá-lo os vários órgãos. Ontem experimentei a carne: boas costeletas! E fico-me por aqui. Não tirei fotografias, claro está. Mas sabia da existência desta pintura, de Frabritius Barent. Foi assim que ficou, tal e qual, de sábado para domingo.

A preocupação de uma pastora

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Venho de fazer o funeral da senhora Natália, de Cotelo. Morreu na quinta-feira, ao final do dia. A senhora Natália era pastora. Vinha do monte. E trazia a preocupação de não ter onde levar as ovelhas e as cabras por causa dos fogos. Encontrou um senhor, e era a conversa e a preocupação que trazia. As ovelhas vinham á frente e esperavam pela dona, à porta da loja, mas ela, ao chegar, disse que não se estava a sentir bem. Sentou-se numa pedra e ficou-se. As mortes repentinas assustam muita gente. Aqui no norte, à noite, quando se reza, ou de dia, quando se fala da morte, frequentemente se diz: Nosso Senhor nos dê uma horinha de arrependimento á hora da nossa morte. Uns dizem que é uma morte santa, outros que não. Na missa exequial, rezou-se o salmo 23: O Senhor é meu pastor nada me faltará. Na homilia falei da sua preocupação de pastora em relação com as suas ovelhas. Como esta mulher deveria perceber tão bem as palavras do salmo e de Jesus quando diz: Eu sou o bom pastor. As amig...

Expedição à nascente do rio Balsemão

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A palavra expedição pode parecer exagerada para o que aqui vou narrar mas, para o leitor ter uma ideia, andaram-se mais de três horas por estradas, caminhos e trilhos para tentar chegar às origens do rio Balsemão, que nasce na serra de Montemuro, no monte do Rossão, passa em Lamego para ir desaguar um pouco mais á frente, no rio Varosa. Fomos cinco os aventureiros, guiados pelo João Paulo, que já tem registo neste blogue. Não fosse o agradável da conversa, da companhia e das vistas, e teria sido uma desilusão. Porque onde deveria nascer o rio não há água! Aliás, se o rio tem água é porque, entre Campo Benfeito e Cotelo, outras levadas de água lhe dão corpo. Partimos de Cotelo e levávamos connosco um mapa topográfico, com três ramificações. Ao longo do caminho, quase sempre sem água ou com águas paradas, e com um misterioso tubo que, para não sermos maus, dizíamos que alguém teria aproveitado o caminho do rio para levar água à sua lameira, lá fomos subindo a serra, azangando (p...

A Fraga Cimeira

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Ardeu ontem, em Cotelo, a Fraga Cimeira. Tem este nome o monte mais alto e emblemático de Cotelo. Visitei-o na segunda-feira, véspera do incêndio. Pela primeira vez saí da povoação e fui para os montes, acompanhado por dois rapazes, que conhecem bem os montes de Cotelo. Apesar de falar mais de Feirão, também pertenço a Cotelo. Como me dizem as pessoas de lá, o senhor padre ainda é daqui. É um facto. Ali nasceu o meu pai, aí fui, embora poucas vezes, talvez demasiado poucas, concluo agora, visitar os meus avós, tios e primos paternos, sempre com alguma resistência, porque em Feirão é que tínhamos casa e os amigos da nossa idade. Mas como vamos crescendo e a nossa visão das coisas crescendo também, agora sou muito mais de Cotelo. Desde os mais velhos, que me viram desde pequeno, com o meu pai, que passava pelo povo, falava a toda a gente e parava na casa dos tios para lhes pedir as “benções”, até aos mais novos, conquistados, talvez, pela proximidade e naturalidade que tenho com ele...