Memórias de Feirão: As viagens


Regressar aos anos oitenta para falar de viagens, as exteriores, e em especial das viagens de Lisboa a Feirão e de Feirão para os arredores (Cotelo, Castro Daire, Resende e Lamego) é, praticamente falar em boleias ou muito palmilhar.
Os meus avós saíram de Feirão nos meados dos anos 60. Diz a minha mãe que só voltou cá, e ela foi a primeira a vir depois da migração, 10 anos depois. Já trabalhava, veio pelo Natal, ficou a dormir em casa de uma tia. Diz ela que, ao contrário do que se fez quando foram para Lisboa, que tiveram de ir a pé para Bigorne com as coisas às costas, quando veio dez anos depois já veio de camioneta até Feirão: o tio Alberto, da Talhada, alugava um autocarro com motorista, organizava a viagem, as pessoas pagavam um tanto mas acabava por ser serviço porta-a-porta.
E foi assim que vim várias vezes sem me lembrar e foi assim que vim a primeira vez que me lembro vagamente: saíamos de Lisboa ao princípio da noite de sexta-feira e chegávamos a Feirão no dia seguinte ao final da manhã. Chegávamos mais cedo se a camioneta viesse até Bigorne, ou mais tarde se se metia por Cinfães. Quando chegávamos a Viseu e alguém anunciava dizia eu que estávamos a chegar, ao que o meu pai respondia: ainda só estamos quase a meio. Era um desespero. A camioneta vinha sempre cheia de pessoas e coisas: mobílias que não serviam em Lisboa mas ainda eram boas para a terra, cobertores, colchões... O que se possa imaginar. Vinha tão carregada que, nas curvas do Luso (não havia auto-estrada nos anos 80) e nas de Gosende, o motorista mandava toda a gente sair e ir a pé, não fosse o autocarro virar com o peso.
Para uns era uma chatice porque, imagino eu, seria a meio da noite, para outros uma alegria e, para outros ainda, a única solução porque se tinha trazido muita coisa. E, se para vir, o autocarro vinha carregado, para Lisboa não ia menos, mas disso falaremos mais adiante.
Os carros eram poucos por estas zonas. Os comerciantes poderiam ter uma carrinhas de 9 lugares ou de caixa aberta, mas a variedade não era mais do que esta. Para ir a Cotelo ia-se a pé. Sempre à tarde, pelas Sardeiras, que era mais rápido e mais fresco. Como muitos de Feirão tinham casado em Cotelo, havia sempre alguém pelo caminho. O da estrada, o único que actualmente se pode fazer, era mais longe e sem sombras.
Mas, quem estava quinze dias ou um mês, tinha que ir às compras. Feirão tinha uma mercearia, junto com um café. Dava para os gastos do dia-a-dia. Ir a Lamego ou a Castro Daire,era por encomenda. Às terças ia uma carrinha para Castro Daire e, às quintas, para Lamego. Cada um fazia as suas compras, encontrava-se tudo às tantas horas e regressávamos a Feirão.
No fim do mês (de Julho ou Agosto, conforme calhassem as férias) lá regressávamos a Lisboa e a camioneta outra vez carregada com sacos de batatas, cebolas... Sei lá bem. Saía-se no domingo, depois do almoço para chegar à noitinha a Lisboa. Para trás ficava a saudade,  a tristeza de ter que ir e uma lágrima no canto do olho. E o vazio.

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