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Os desafetos

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Comecei ontem a escrever sobre este assunto mas as horas não chegaram para o acabar. Sai com um dia de atraso. Celebra hoje o nosso mundo o dia dos namorados, evocando São Valentim. Mas uma vez um investimento comercial, que dá para ver como o lucro às vezes se apoia na religião para comercializar. Mas é bom que hoje se celebre o dia dos que amam. O amor é extremamente estruturante na construção da personalidade humana. Trazemos em nós a necessidade de afectos e demonstramo-los com os valores bonitos e nobres da amizade e do amor puros, sem medidas nem contrapartidas. A gratuitidade do amor. Se a felicidade passa pelo amor, devemos então amar e ser amados. A psicologia fez-nos ver isso com uma grande lucidez: os filhos não se amam só a partir do momento em que nascem mas o desejo de os ter já deve estar carregado de amor. Sentir-se amado é condição para um dia poder vir a amar. Ora, este "fogo que arde sem ver", segundo Camões, "é um não querer mais que bem querer...

A Sopa

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Entre Celebrações da Palavra e Confissões nos Maristas, havendo um intervalo maior ou um tempo lectivo mais livre, aproveito para ler alguma coisa. Na sala dos Professores encontrei um livro antigo, do Padre Américo, fundador da Casa do Gaiato. É uma antologia de textos que ele escreveu com regularidade num jornal de Coimbra e a coluna dele tinha o nome "A Sopa dos pobres". Nestes artigos o P. Américo fazia o seu apostolado junto dos mais pobres: denunciava situações de miséria e pedia misericórdia. Sempre a favor dos Pobres, a causa da sua vida. Esta manhã, enquanto esperava que alunos de uma turma viessem para se confessar, li um artigo que não resisto a partilhar aqui. Parece beato mas não é; é beleza e profundidade. Aqui fica, como homenagem e como exemplo para os nossos dias, não tão difíceis como os do P. Américo mas com outras dificuldades e desafios. Esta sopa de pobrezinhos tem sido, desde os dias do seu começo, uma constante conjugação do verbo amar, nas esmol...

O amor ao longo da vida

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Último tema do CPM: O amor ao longo da vida. O casamento na Igreja não é um "contrato" por um determinado tempo podendo ou não ser renovado. Nas promessas que os noivos fazem, dizem querer amar e respeitar o outro todos os dias da sua vida (na versão anterior a esta dizia-se "até que a morte nos separe"). Uma relação é feita de novidade mas também de muitas rotinas. E as rotinas, por princípio, não são más. As rotinas serão sempre boas se nunca deixarem de ter sentido e, no casal, se não deixarem de ser gestos de amor. Há duas dimensões da vida do casal que devem ser fortes ao longo dos dias e dos anos: a presença e o olhar. A presença porque me faz ver que o outro me é importante. Diferente de todos os amigos e de todos os colegas de trabalho, a pessoa com quem casei é a pessoa com quem quero e tenho de estar. A ele/ela, consagrei a minha dedicação. O olhar que significa estar atento. Assim como nós estamos atentos aos sintomas do nosso corpo, da mesma maneir...

Nova situação - Novas exigências

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O quinto e penúltimo tema do CPM é dedicado às alterações que o casamento traz: uma nova situação que traz novas exigências. Uma primeira coisa a reter, e que esteve presente em todos os temas, é que estamos a falar de amor. Que, no casamento, significa entrega. Amor é por natureza doação. No casamento o compromisso que os noivos fazem é porque confiam a sua vida no outro; como se um dissesse ao outro: entrego-te a minha vida. E, por isso, o mais importante é que o amor se partilhe numa entrega total ao outro. É a partir daqui que vem a partilha das coisas, que é igualmente importante, mas que acaba por ser um pormenor. Quem vê o amor como esta entrega, esta doação percebe que não deve nunca desistir de amar nem nunca se deve arrepender de ter amado. Só um egoísta pode vir a cobrar o tempo que amou. É também óbvio que todos temos de aprender a amar. Porque a nossa natureza é a de sermos egoístas. Ora, se o casamento é doação, então tenho de sair da minha concha, do meu eu, da min...

A fecundidade do casal

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Quarto tema do CPM: A fecundidade do casal. Assim como colocamos a questão: o que é que torna fecunda uma relação?, podemos dar-lhe a volta e perguntar igualmente: o que é que torna estéril uma relação. No tema anterior falou-se de diálogo e gestos de amor. Agora aparece este tema que, à primeira vista, pode levar a pensar que é falar sobre os filhos. Mas, a fecundidade do casal vai para além dos filhos. Em cada casamento na Igreja, momento a partir do qual um contrato se torna numa aliança, ouve-se a mesma voz de Deus, a do início da criação do homem e da mulher: "Crescei e multiplicai-vos, enchei e dominai a terra". A partir do compromisso de viver uma relação em Deus, aí começa a fecundidade do casal. Como uma semente lançada à terra e da qual se espera que venha a dar flor e depois fruto. Mas, de facto, os filhos, são um sinal da fecundidade do casal. Não exclusivo porque, como já se disse, a fecundidade do casal não se esgota nos filhos. Por isso, os filhos não...

Diálogo e gestos de amor

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Este terceiro tema do CPM fala da relação do casal no que diz respeito ao diálogo e aos gestos de amor. Uma tentação errada é pensar que os gestos de amor se resumem à relação sexual. Perceber que uma relação a dois é uma construção baseada na amizade, no diálogo, no perdão. Perceber que uma relação não é uma realidade estática mas que vive em constante dinamismo, mesmo com as rotinas. Por isso evolui, consolida-se. Quando se fala em diálogo numa relação a dois não é tanto saber se há temas para evitar o silêncio. O diálogo é fundamental em qualquer relação, e em especial numa relação em que os dois são um só. Por isso, o silêncio pode ser diálogo, se for saudável. O silêncio forçado, que cala problemas, esse sim prejudica não só o diálogo mas até a própria relação. O diálogo existe quando existe honestidade e naturalidade. Casar na Igreja leva-me a perceber que o meu companheiro/a tem uma dimensão sagrada na minha vida. Não foi por acaso que ele apareceu. Porque não vê-lo como aq...

Matrimónio - Sacramento

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Segundo tema do CPM: o Matrimónio como Sacramento . Aqui ficam as minhas notas sobre o tema: Na semana passada falava-se mais da dimensão humana do casamento: uma comunidade de amor. O amor está na base de uma relação a dois. Nesta semana acrescenta-se a dimensão religiosa. Este amor não é só um amor meramente humano, que um sente pelo outro. É perceber que é possível amar o outro à maneira de Jesus. Esta é a grande diferença entre um contrato e uma aliança (na Bíblia, as relações entre Deus e os humanos são chamadas de alianças. Uma aliança é um juramento que se faz diante de Deus). O nosso Deus não é um Deus de contratos. O contrato não obriga a amar; só obriga a cumpir. Só as alianças podem levar ao amor ("aceito livremente amar"). E porque Deus é amor e quer que nos amemos uns aos outros como Ele nos ama, casar na Igreja é comprometer-se diante de Deus e da Igreja de que queremos amar com essa intensidade de amor com que somos amados por Deus. São vários os motivos ...

Uma comunidade de Amor

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Começou ontem, na paróquia de São Domingos de Benfica, com um grupo de sete casais, seis pares de noivos e eu, um cpm (centro de preparação para o matrimónio). Há muitas maneiras de fazer este cpm. O mais corrente é fazer num fim-de-semana. O mais clássico e original é fazê-lo em seis sessões, uma vez por semana. O método é trabalhoso mas, ao mesmo tempo, profundo. Durante seis semanas os casais trabalharam os seis temas do cpm a partir da sua própria vida. Cada casal falou entre si e partilhou com os outros casais. Depois de trabalharmos os seis temas, foram distribuídos por cada casal para, depois, o apresentar aos noivos. Agora, com os noivos, o método é o mesmo: os noivos falam entre si dos temas, a partir de umas perguntas que lhes entregamos de uma semana para a outra e, depois, no encontro, partilham com os outros noivos e casais. No fim o casal apresenta o seu testemunho e o assistente (neste cpm é este que vos escreve) diz também umas palavras. Vou tentar cá escrever ...

Ao regressar de Aveiro

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Estou a chegar de Aveiro. Fui lá fazer uma conferência sobre Nossa Senhora. A casa das Irmãs Dominicanas de Santa Catarina de Sena tem lá a "enfermaria provincial" (não sei se este é nome oficial). E a emoção é muita quando visito as irmãs doentes. E mais me emociona o amor e o carinho que as Irmãs têm no cuidado para com estas Irmãs que gastaram a sua vida fazendo o bem e agora estão acamadas, ou são muito velhinhas, ou estão mais esquecidas... Contam-me como entraram lá e como estão; as que já partiram e as que estão de novo. Tudo tão silencioso, limpo, bem cuidado... Quanta presença de Deus! O piso das irmãs doentes é, para mim, um verdadeiro santuário. E agradeço (quem sou eu para agradecer) a dedicação destas irmãs. Digo-lhes muito: já têm o céu garantido. E elas respondem-me: também temos o nosso feitio... Como todos. Mas Deus prefere olhar ao bem que fazemos. Esse sim tem mérito, dá frutos e edifica. (imagem: Edy Legrand, o bom samaritano, 1950)

Lição de amor

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Estão os dois no mesmo hospital, por doenças diferentes, em pisos diferentes, mas une-os o mesmo amor: estão casados há 58 anos. E ele visita-a. Ela na cama, ele na cadeira de rodas. Ela pouco reage mas ele fala-lhe, deixa cair as lágrimas, dá-lhe a mão e pediu-me que, na semana que vem, fizessemos a celebração do 59º aniversário ( Deus volendo ). E aqui se vê que o amor é mais forte que as tristezas, que o sofrimento e que a doença. As fotografias já o insinuavam, mas duas mãos que se apertam têm mais força.