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Manhã de Páscoa

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Fresca manhã da vida, recomeço Doutros orvalhos onde o sol se molha. Nova canção de amor e novo preço Do ridente triunfo que nos olha. Larga e límpida luz donde se vê Tudo o que não dormiu e germinou; Tudo o que até de noite luta e crê Na força eterna que o semeou. Um aceno de paz em cada flor; Um convite de guerra em cada espinho; E os louros do perfeito vencedor À espera de quem passa no caminho. (Miguel Torga)

O que fica por dizer

Ligou-me uma irmã dominicana a dar-me os parabéns pela João 13 e a dizer que há uma semana que não escrevo nada no blogue. É um facto. Não é por falta do que dizer mas é falta de tempo para o fazer. Cada dia com as suas penas, ou tarefas, ou o queiramos chamar. São as compras e as contas do convento, são as celebrações dos maristas, são as dezenas de mails que precisam de resposta e levam atrasada respostas... são tantas as voltas da vida que algumas curvas vão mais a direito. Para não chegar aos dez dias sem dizer nada, aqui ficam estas linhas. E acrescento que ontem, uma amiga minha fez anos e convidou família e amigos mais chegados para uma Missa de Acção de Graças pelo dom da sua vida. Ofereci-lhe um poema de Miguel Torga - o Torga nunca gostou de fazer anos e nunca escreveu nada muito alegre sobre este tema. Mas encontrei um poema que gosto muito e que aqui deixo, até porque não é fácil encontrá-lo na net: O futuro é o meu reino, e eu caminho! Lágrimas? Tantas, só de ser a...

Valer a pena viver

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Em dias importantes na nossa vida (falo pelos meus) quase sem querer entro na roda do valer a pena. Vale a pena viver? Pergunta retórica que até Fernando Pessoa perdeu algum tempo da sua existência a pensar nela para concluir que " tudo vale a pena se a alma não é pequena ". Se não valeu a pena a culpa não é da vida mas sim de quem a vive que a não soube viver. Se vale a pena viver... Por mim falo, embora pudesse citar São Paulo, " tenho o desejo de partir e estar com Cristo, já que isso seria muitíssimo melhor; mas continuar a viver é mais necessário por causa de vós ". Retórica e drama à parte - se a minha mãe me ouvisse dizer isto diria logo: nem os velhos querem morrer quanto mais os novos! - o que é certo é que os anos passam, vive-se muito, umas vezes melhor outras pior, a vida é como uma estrada, onde caminhamos ora sozinhos ora acompanhados, mas sempre com Deus, esse é o desejo. E nesta estrada da vida aparecem os tais dias importantes, como por exemp...

Assinalar Miguel Torga

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Às 9 horas, depois da Missa e do pequeno almoço, liguei a rádio, na Antena 2, minha companhia de trabalho nestes dias de férias. Mal aparece o som, o locutor fala de Miguel Torga. Aniversário de nascimento. Passam poemas - o da estrela de papel dito várias vezes por pessoas diferentes - músicas calmas e reflexões tiradas do seu Diário. Também eu, humildemente, presto a minha homenagem ao grande Miguel Torga. faço-do, deixando o que ele escreveu no dia de anos de 1967: " Comecei mal e tarde. Enquanto outros partiram do saber, eu parti do sofrimento. Nenhuma porta se me abriu sem eu a arrombar. Lutei contra a pobreza, lutei contra a ignorância, lutei contra a idade, lutei contra os homens, lutei contra Deus, lutei contra mim. Uma infância rolada, de bola à mercê dos pontapés do mundo, uma juventude esfalfada, de estafeta atrasado na maratona da cultura, uma maturidade crispada, de indesejável na pátria. A criança desaninhada e perplexa nas encruzilhadas do destino, o rapaz a te...

Roma, lá vou eu

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Mais uma ida a Roma. E por mais tempo. Há seis anos, na minha primeira ida a Roma, por esta altura, mandaram-me deitar uma moeda na Fontana de Trevi para poder um dia voltar. Ou a moeda foi de dois euros ou a atirei com muita fé, o que é certo é que agora, pelo menos duas vezes por ano, lá vou visitar a Cidade Eterna. A mim as viagens custam-me sempre. O fazer as malas, pensar em tudo o que é preciso levar... É um stress. Ainda não fui e já tenho vontade de regressar. Mas tem que ser e o que tem que ser tem muita força. Vou à reunião da Comissão Litúrgica da Ordem. Regresso em breve. Até lá, sempre que possa, tenha tempo e net, vou passando por aqui para deixar alguns textos. " Viajar, num sentido profundo, é morrer. É deixar de ser manjerico à janela do seu quarto e desfazer-se em espanto, em desilusão, em saudade, em cansaço, em movimento, pelo mundo além ". (Miguel Torga)

O negócio de Judas

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Nesta quarta-feira santa, o Evangelho, retirado do Evangelho de Mateus, conta-nos o negócio de Judas com os príncipes dos sacerdotes, na venda de Jesus, por trinta moedas de prata. Neste Evangelho, o negócio acontece depois da unção de Betânia mas antes da Última Ceia. A Igreja, na sua pedagogia litúrgica, colocou este relato na véspera de quinta-feira santa. Mas não só por isso. É que, entre o o negócio de Judas e o anúncio da sua traição, relatam-se também os preparativos da que ia ser a última e definitiva Páscoa de Jesus. É onde estamos: nos preparativos para a Páscoa. Os últimos dias para a confissão pascal, as preparações nas igrejas para as próximas solenidades, a interiorização do mistério que se vai celebrar. São dias também de grandes movimentos, mesmo sem tolerâncias de ponto. Viagens, deslocações, algumas por motivos religiosas, outras nem por isso. Mas a pergunta que fazem a Jesus: onde queres que façamos os preparativos para a Páscoa, poderá ser uma pergunta qu...

Ultimas horas de um ano velho

Aqui deixo, nesta última página deste ano de 2011, uma reflexão tirada do Diário de Miguel Torga (XV): Coimbra, 31 de Dezembro de 1988 — É quase meia-noite e começa a erguer-se por toda a cidade uma onda de alegria ruidosa. O ano velho está a dar os últimos suspiros. Foi bissexto, e não deixa saudades. Guerras, terrorismos, fome, desastres, terramotos. E é o advento do novo que celebramos festivamente. Sempre assim aconteceu nesta data. Amaldiçoa-se o passado e bendiz-se o futuro. Que mais pode fazer a impotência humana? Tentamos forçar a benevolência dos fados com a força redentora da esperança. Os fados é que se devem rir da candura. E da falta de memória. O mal não está no tempo. Está na nossa condição.

Um poema para a crise

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Há mais de uma hora que procuro a frase certa, a quadra ou o poema, que dê corpo ao postal de Natal do Convento. De autor em autor, de antologia em antologia, vou folheando as páginas para ver se encontro alguma coisa que me agrade. A minha mentalidade, talvez antiquada, não se conforma com estes poemas modernos, que falam de árvores-de-natal chinesas ou de Natais passados em Miami. Mas também acha desajustada ir buscar às arcas encoiradas os poemas barrocos de anjos resplandecentes e Meninos Jesus em frias palhas deitados... Não encontro um meio termo. Nem o Torga me salva desta aflição. Os seus poemas de Natal são interessantes mas muito pessoais... Não tenho uma frase de Santo Agostinho ou de Santo Efrém que me resolva a preocupação. O que me apeteia mesmo era escrever na caixa do texto "Devido à crise não se encontrou um poema à altura da época que celebramos". Mas não pode ser. Sendo assim, acho que este ano vou-me ficar pela Sophia, num poema de duas linhas, que, não ...

A morte dos inocentes

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Que Herodes não era flor que se cheirasse sabia-o toda a Judeia. Não vamos aqui desconsiderá-lo até porque ficou o com cognome de "o Grande". Mas era cruel. E, de certa maneira, um rei imposto pelo Império Romano, o que não agradava nada ao povo judeu. O seu grande problema, com o qual convivia diariamente, era o da legitimidade: não era da descendência de David. Por isso sentia o sabor amargo de não ser reconhecido pelo povo. E, às tantas, isto tornou-se uma obsessão; para que o seu reinado não fosse questionado nem sequer retirado do posto, mandou queimar alguns arquivos genealógicos onde estavam as linhagens mais nobres dos judeus. por isso o medo era mútuo: de um lado o povo tinha medo de Herodes porque estava em nome do Império Romano e, por outro, Herodes tinha medo do povo e por isso mandou construir uma fortaleza, em Massá, para fugir caso aparecesse alguém da descendência de David, a linhagem real. O reconhecimento de grandeza vinha-lhe das grandes construções que fe...

São Francisco de Assis

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Hoje é dia de São Francisco. São Francisco e São Domingos foram contemporâneos. Coincidiram no tempo e na opção de vida. Mas a popularidade de São Francisco é muito maior que a de São Domingos. São Francisco continua a ser um grande exemplo para o mundo de hoje, e tem a capacidade de juntar várias sensibilidades das nossas sociedades como a paz, o diálogo inter-religioso, a ecologia… é capaz até de ser admirado por algumas pessoas mais afastadas da religião. Miguel Torga, por exemplo, Tinha uma grande admiração por São Francisco. Uma vez escreve assim: “ S. Francisco de Assis, o meu santo. E louvei-o mais uma vez como pude. Chamei-lhe o Cristo da bem-aventurança terrena. Um Cristo poeta, sem o dramatismo árido do deserto e da expiação, a pregar transparências num cenário de branduras idílicas. Um Cristo que integrou o próprio demónio na fraternidade cósmica. Um Cristo humilde, sem a vocação do mando, alérgico à propriedade privada, fundador do sufrágio universal por voto secreto, anarq...

Tempo

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Tempo — definição da angústia. Pudesse ao menos eu agrilhoar-te Ao coração pulsátil dum poema! Era o devir eterno em harmonia. Mas foges das vogais, como a frescura Da tinta com que escrevo. Fica apenas a tua negra sombra: — O passado, Amargura maior, fotografada. Tempo... E não haver nada, Ninguém, Uma alma penada Que estrangule a ampulheta duma vez! Que realize o crime e a perfeição De cortar aquele fio movediço De areia Que nenhum tecelão É capaz de tecer na sua teia! (Miguel Torga, in Cântico do Homem, 1950) (Relógio, Paolo Uccello, séc. XV)

Próximo destino: Roma

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Parto amanhã para Roma. Para uma reunião de três semanas. Muita gente faz aquele sorriso malandro como quem diz: chama-lhe reunião... mas é verdade. Amanhã começa o Capítulo Geral dos Dominicanos, em Roma. Cada três anos há um Conselho Geral e neste tem um objectivo claro: eleger o próximo Mestre da Ordem. O Mestre da Ordem é o representante máximo dos Dominicanos, eleito em Capítulo Geral, por nove anos. A sua missão é a do governo e da presença. Deve governar a Ordem, com a ajuda dos Assistentes e Promotores, mas deve também visitar os irmãos nas suas províncias e apostolados. Podem perguntar-se se são precisas três semanas para eleger o Mestre da Ordem. E a resposta, obviamente, é que não. Aliás, se tudo correr bem, no próximo domingo já aqui falarei do novo Mestre da Ordem. Depois temos que trabalhar. Durante estes últimos meses os que vão ao Capítulo receberam os vários relatórios para podermos falar e discutir sobre as prioridades, desafios e problemas da Ordem. Destes Capítulos ...

Domingos e Diários

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Aqui fica o que tenho vivido nestes últimos dias. 1. Domingo. Ontem senti o que é a vida de um pároco de aldeia. Porque estou a substituir o de Feirão, que aproveitou eu estar cá para fazer uns dias de férias, ontem celebrei em três das quatro paróquias que lhe estão confiadas: Feirão, às 8.45h, Oliveira do Douro, às 10.15h e Ramires, às 11.30h. Estas duas últimas são vizinhas, mas ir de Feirão a Oliveira do Douro são simplesmente 24 km em curvinhas atrás de curvinhas e meia-hora, bem medida, de caminho. Feirão pertence ao concelho de Resende e Oliveira ao de Cinfães. A ponte do rio Cabrum, que vai afluir ao Douro, faz a passagem dos concelhos. Oliveira do Douro fica num alto, mas faz jus ao nome: vê-se o lindo Douro, manso, no seu leito. Celebrei as três Missas, todas seguidas e confesso que, quando me sentei para almoçar, estava cansado. É ainda de registar a imagem de São Domingos que lá encontrei. Ainda tive de explicar a uns senhores o significado do cão aos pés de São Domingos. 2...

Em boa hora

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Em boa hora saí hoje de casa, ao final da manhã, entrei numa livraria e encontrei os primeiros oito volumes do Diário de Miguel Torga. Em boa hora a editora D. Quixote ressuscitou estes Diários. Há meses atrás, andando eu à procura deles e tendo ligado para a editora, disseram-me que era pouco provável a reedição uma vez que tinham outros interesses editoriais. Serão quatro volumes, hoje apareceram os dois primeiros que contêm os antigos oito cadernos. E em boa hora os irei ler. Em Feirão, relativamente perto de São Martinho de Anta, onde Torga se refugiava. Tenho que aqui agradecer a quantos me acompanharam nesta saga da procura dos primeiros volumes e, em especial, a uma amiga que me ofereceu os que conseguiu arranjar. Mas a minha alegria é saber que, finalmente, tenho a vida do Torga nas minhas mãos. Cá fica um dos seus poemas, " Clarão ", tirado do segundo volume, o último que li: O que isto é, viver! Abrir o olhos, ver, E ser o nevoeiro que se vê! Nevoeiro ao nascer, Nev...

O Mar

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Era Agosto e Miguel Torga estava em Miramar. Escreveu este poema sobre o Mar: Mar! E é um aberto poema que ressoa No búzio do areal... Ah, quem pudesse ouvi-lo sem mais versos! Assim puro, Assim azul, Assim salgado... Milagre horizontal Universal, Numa palavra só realizado. Não tenho o dom da poesia, esse grande milagre de juntar as palavras ao sentimento e de ultrapassar com a escrita o limite do olhar. Mas hoje estive na praia. Uma da praias da minha vida. Vou à praia para andar, ver o verde da floresta e o verde do mar. Não sei se é verde ou azul. Mas que mais dá? São cores que se adoram, seja o verde do mar ou o verde da floresta com o azul do céu. Mas gosto das cores da floresta, das cores da areia, das cores do mar e das cores do céu. Gosto do vaivém das ondas que rebentam e que fazem as crianças gritar, gosto de me envolver com esta natureza tão natural e tão própria, gosto do mar que puxa e empurra, gosto da linha que separa - ou será que une - o mar ao céu.

Um Diário

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Há muitos anos ofereceram-me o Livro em Branco. Adoptei-o como Diário. Ainda o tenho, misturado com os outros livros. A ideia que então tinha de Diário era ir todos os dias deixar por escrito o que me tinha acontecido. Depressa desisti porque não havia matéria e poderia tornar-se aborrecido. Retomei o Diário quando entrei no Seminário. Numa outra concepção, tornou-se o Livro das Emoções. Escrevia o que a alma me dizia e o que o pensamento me ditava. O primeiro Diário que li foi o de Florbela Espanca. O que se conhece é o do seu último ano de vida, 1930. Dramático, neurasténico, nostálgico, depressivo, porque não?... mas verdadeiro. A partir de Agosto entra-lhe a ideia da morte. Em Novembro pensa no suicídio, que o concretiza no próprio dia de anos, 8 de Dezembro. Dia trágico aquele. O do seu nascimento, o do seu casamento, o da sua morte. Seis dias antes escrevia uma só frase, terrível, sobre o sentido da vida: " E não haver gestos novos nem palavras novas !". Mais tarde, com...

Uma surpresa

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Hoje, na sacristia, tive uma surpresa: ofereceram-me os dois primeiros volumes do Diário de Miguel Torga! Andava à procura deles há tanto tempo e hoje, quase miraculosamente, foram-me oferecidos por uma amiga. E com os dois volumes ainda uma antologia poética de Miguel Torga, organizado pelo próprio. Trazer este tema para aqui não é para agradecer publicamente a esta amiga a prenda - muito lhe tenho a agradecer! - mas é reparar na atenção e na dedicação que os amigos nos têm e que muitas vezes não damos conta. Para mim, este primeiro volume de Miguel Torga, que ainda se tem de abrir à moda antiga, há-de ficar marcado como a "prenda da sacristia". Partilho com ela e convosco a dedicatória deste primeiro volume e a sua primeira página que é um poema. Diz assim a dedicatória: " Cada dia deixamos uma parte de nós próprios no caminho ". O poema chama-se "santo e senha": " Deixem passar quem vai na sua estrada. Deixem passar Quem vai cheio de noite e de lu...

O catolicismo

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Não venho aqui falar do credo a que pertenço. Vim deixar o que Miguel Torga escreveu em Coimbra, no dia 8 de Maio de 1974: " Sim, apesar da sedução que no meu espírito exercem outros credos, se tivesse de me converter, seria ao catolicismo. É, afinal, a única religião compatível com a minha natureza torrencial, terrosa, pecadora. Uma religião que sagra de tal modo o profano que nele se fazem agentes demiúrgicos a água, o azeite, o pão e o vinho. A água e o sal do baptismo, o azeite da unção, e o pão e o vinho da Eucaristia. A imanência e a transcendência tão medularmente conjugadas, que a realidade tangível se paradigmatiza no prodigioso mistério da encarnação e no escândalo bárbaro e sublime de um Deus consubstanciado a quem antropofagicamente o devoto devora a carne e bebe o sangue." Às vezes quem vê de fora vê melhor e vê diferente dos que estão dentro e a quem tudo parece uma repetição aborrecida de gestos, rituais e fórmulas.

Sol e Sombra

No dia 12 de Agosto de 1965 escrevia Miguel Torga este poema no seu Diário: " Na sina que me foi lida / Este dia é sempre assim: / Sol na paisagem da vida, / E sombra dentro de mim ." Com Deus partilho, hoje, as palavras mais secretas e mais silenciosas; convosco partilho estas letras. E fica esta música, como lembrança deste dia, que não é nem dia doze nem mês de Agosto nem ano de mil novecentos e sessenta e cinco.

Diário de Miguel Torga II

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Lisboa, 14 de Maio de 1986 - Corrupção. O cancro que rói o corpo e ameaça contaminar a alma de Portugal.