Domingos e Diários


Aqui fica o que tenho vivido nestes últimos dias.
1. Domingo. Ontem senti o que é a vida de um pároco de aldeia. Porque estou a substituir o de Feirão, que aproveitou eu estar cá para fazer uns dias de férias, ontem celebrei em três das quatro paróquias que lhe estão confiadas: Feirão, às 8.45h, Oliveira do Douro, às 10.15h e Ramires, às 11.30h. Estas duas últimas são vizinhas, mas ir de Feirão a Oliveira do Douro são simplesmente 24 km em curvinhas atrás de curvinhas e meia-hora, bem medida, de caminho. Feirão pertence ao concelho de Resende e Oliveira ao de Cinfães. A ponte do rio Cabrum, que vai afluir ao Douro, faz a passagem dos concelhos. Oliveira do Douro fica num alto, mas faz jus ao nome: vê-se o lindo Douro, manso, no seu leito. Celebrei as três Missas, todas seguidas e confesso que, quando me sentei para almoçar, estava cansado. É ainda de registar a imagem de São Domingos que lá encontrei. Ainda tive de explicar a uns senhores o significado do cão aos pés de São Domingos.
2. Fogos. Perguntam-me se não há fogos por aqui. Esta fotografia foi tirada enquanto escrevo. Do terraço de minha casa vejo três fogos. Há bastantes fogos por aqui. A maior parte nos montes. Às vezes vemos as cinzas as pairar sobre nós e o cheiro da lenha a queimar.
3. Como um cordeiro levado ao matadouro. Esta manhã vi matar um cordeiro. Fui visitar uns pastores que fazem criação de ovelhas e cordeiros. Sempre tive curiosidade em ver matar os cordeiros. E é bem verdadeira a profecia de Isaías que ouvimos em sexta-feira santa: “Foi maltratado, mas humilhou-se e não abriu a boca, como um cordeiro que é levado ao matadouro, ou como uma ovelha emudecida nas mãos do tosquiador”. De facto, elas não reagem. Ao contrário dos outros animais, este cordeiro que vi hoje, parecia que sabia ao que ia: deixou-se apanhar, deixou-se sangrar e morreu sem qualquer violência.
4. Diário. Terminei de ler, esta manhã, o terceiro volume do Diário de Miguel Torga. Poemas sempre belos, reflexões inteligentes. Partilho convosco o que ele escreveu sobre o Diário que escrevia: “A ideia de um diário íntimo, de tripas na mão, é uma ideia romântica. (…) Um diário não é necessariamente um perpétuo ma culpa. Pode ser um simples memento, um exercício espiritual, um caderno de apontamentos, tudo o que se queira. Que nele haja sempre um derrame de pecados e maceração, parece-me absurdo. Pela minha parte, não sou delator, nem meu, nem dos outros. Não tenho nada a esconder do leitor, a quem nunca vendo gato por lebre, mas quero ter mão em mim, evitando-lhe o espectáculo de uma exibição confrangedora. Há recantos do ser e da vida que precisam de silêncio”. Sensato.

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