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A mostrar mensagens de 2017

Cinzas e dor

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Na viagem que fiz esta manhã, entre Coimbra e Feirão, o que vi foi desolador. O que poderia ser uma manhã de nevoeiro era um pesado fumo que, nuns lados, já era só o que restava do rescaldo. Ao longo da estrada árvores queimadas e postes caídos. Do pensamento só me saía a expressão “Meu Deus”. Paro em Tondela para fazer umas compras e parece que as pessoas são mudas. Ninguém fala, os ares sombrios, talvez de noites mal dormidas ou de propriedades queimadas. O fumo arde nos olhos e nas gargantas. As faúlhas são impertinentes, condensando-lhe nos sítios onde as chamas ainda moem o pouco que de verde se pode ver. Em Mortágua, aquela serração, que tinha à entrada troncos empilhados, que sempre que passo lá digo: um dia hei-de parar para tirar uma fotografia, não passava hoje de um monte de brasas já em fim de vida. O sol é só um pequeno círculo laranja, doente, sem beleza nem calor; os pássaros voam, tentando pousar em alguma réstia de verde que não há. Saio em Castro Daire para vir pela…

As contas do meu rosário

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Sempre gostei da expressão despachada, que significa "não te metas na minha vida", mas com tom de subtileza: "não são contas do teu rosário". Para um dominicano vem mesmo a calhar, uma vez que trazemos o rosário no cinto do hábito! Hoje os dominicanos celebram com festa e alegria Nossa Senhora do Rosário. A tradição diz - porque a história não consegue chegar lá - que Nossa Senhora entregou o Rosário a São Domingos para que ele o rezasse e pregasse. Por esse motivo, como disse acima, trazemos o rosário no cinto do hábito. A História diz-nos que o terço ou rosário como o temos é posterior a São Domingos, mas a mesma História diz-nos que São Domingos rezava muitas Avé-Marias ao longo do dia, lembrando-se assim de Nossa Senhora, como forma de oração e como meio de pregação junto dos hereges do seu tempo. Por isso, uma coisa é certa: foi no berço dominicano que se gerou o rosário! São Domingos, como já disse, valia-se de Nossa Senhora para o seu apostolado. Séculos ma…

Os bons não morrem

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Morreu mais uma pessoa boa. Esta pessoa, que eu hoje quero lembrar é D. Manuel Martins, primeiro bispo da diocese de Setúbal. Na minha vida cruzei-me duas com ele, em momentos circunstanciais, o que não deu para ele se lembrar de mim mas de eu me lembrar dele. Como Bispo de Setúbal foi duplamente incompreendido: de uma parte algumas correntes políticas que o apelidaram de "bispo vermelho", e também pela própria Igreja, a hierárquica, que achava que ele defendia demasiado os pobres e os trabalhadores, naqueles tempos quentes e problemáticos da outra margem. Mas o tempo, que tudo cura e reabilita, fez deste homem uma voz libertadora e ousada, sem medo dos "castigos" e represálias que pudessem vir contra ele. Como crente, como bispo, não ficou nas teorias do púlpito ou da Cátedra, não se limitou a dizer que era preciso ajudar os pobres e marginalizados, os desempregados e explorados. D. Manuel dizia e fazia. Era exemplo e dava exemplo. E assim conquistou não só o car…

Erguer o trigo

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Ia eu a caminho de Lamego, onde estive nos últimos dias, quando no Mezio vi uma coisa que há décadas não via, e que só as mulheres faziam que era "erguer o trigo". Esta expressão era dita pelas mulheres quando iam purificar os grãos de centeio ou de trigo. A técnica não podia ser mais simples e prática: num dia de vento brando, estendia-se no chão uma manta e a mulher pegava numa bacia com os grãos de trigo que tinha malhado e erguia-o mais alto que a cabeça e deixava ir caindo os grãos enquanto o vento se encarregava de levar com ele as praganas e outras impurezas leves. Como dizia, ha pelo menos mais de 20 anos que não via nenhuma mulher fazer este trabalho tão puxado e tão elegante. Mas, desta vez, apesar da técnica ser a mesma daqueles tempos, alguma coisa mudou: a senhora estava em cima do telhado plano da casa e o marido ajudava-a, ao seu lado. E ficou-me esta imagem, não sabendo eu quando é que volto a ver, se é que voltarei ver, mas deu para voltar atrás e matar a s…

Paciência e oração

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Paciência não é a minha maior virtude. Há o ditado que diz que quem espera sempre alcança, mas não me serve. Mais bem me serviria o "quem espera desespera". Mas a vida é feita de trabalho: manual, mental e também interior. Ir-se conquistando aos poucos, ter paciência com os outros (há até uma obra de misericórdia espiritual que nos pede que soframos com paciência as fraquezas do nosso próximo!), esperar para alcançar mesmo que não seja no tempo por nós estabelecido. Quando há um ano me pediram para ser Mestre dos noviços, as pessoas mais ligadas a mim e outras do âmbito religioso/eclesiástico diziam-me: tenha paciência... Certamente que não era a paciência de ter que aceitar mas sim a paciência de levar a bom termo o que nos pedem. E ao longo do ano era o que me diziam: tenha paciência. Ao que parece, este pedido vai prolongar-se nos anos. Mas agora o discurso mudou: as pessoas dizem "vou rezar por si". Estranho. Em vez de me apoiarem na paciência que bem falta me…

A ponte de Reconcos

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Feirão está a acabar. Começam os dias mais outonais, com trovoada, frio, chuva e nevoeiro. Em Lisboa estaríamos num rigoroso Inverno! Nestes dias, apesar de poucos (para mim, Feirão sabe sempre a pouco), vieram as histórias e as memórias, o conforto da família que não se consegue ao longo do ano, com mãe, irmão, cunhada e sobrinhas. Uma das coisas de que se falou nas histórias do serão, tentando contrariar a televisão foi da ponte de Reconcos, onde passei esta manhã, a caminho de Lamego. A ponte de Reconcos era a penúltima etapa de quem vinha da cidade. De Lamego trazia-se muitas coisas, para manter e para cultivar. Chegar à ponte de Reconcos era o suspiro de chegar a casa. Fazia-se a pausa para tirar as coisas que se traziam às costas ou à cabeça. Parava-se para rir, descontrair mas, sobretudo pegar no molho e dizer: vamos lá que breve chegamos a casa. Depois de passar a ponte de Reconcos entrava-se na serra das Meadas, deixava-se Fazamões para a direita e as pessoas lá iram para Fe…

Em Feirão

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Estou em Feirão desde Domingo. Eu sonhei, Deus quis... e aconteceu. Hoje fiquei sozinho com a minha mãe e fizemos uma comidinha de tacho como mandam as leis antigas da região: massa com feijão e chouriça, feita ao lume num tacho de barro. Só posso partilhar a imagem que o cheiro e o sabor são contingentes neste mundo informático. Penso muito no que seria a minha vida aqui por estes lados... não como futuro nem como possibilidade mas so como projecção. Uma coisa é certa: o silêncio a solidão são o meu ar e mar de descanso. 

Não dar lugar ao medo

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Há uns anos, numa celebração da Palavra nos Maristas, encontrei esta reflexão, que vim hoje a descobrir ser do José Luís Nunes Martins. O nome do texto é "A razão da minha esperança". O texto não está completo mas a melhor parte, que pode ajudar à reflexão do Evangelho de hoje, deixo-a para percebermos que o medo não nos pode tirar a confiança que temos em Deus e devemos ter em nós.
Caro amigo, São muitas as provas que na vida servem para testar quem somos, a força que temos em nós e o nosso valor. Algumas vezes uma pedra gigante vem cair mesmo diante de nós... outras vezes são séries infindáveis de pequenos obstáculos no caminho... longas etapas que nos obrigam a seguir adiante sem descansar, em percursos onde quase nunca se vê o horizonte. A agitação permanente em que vivemos leva muitos a desistir de encontrar referências mais adiante, mas é preciso que nos afastemos do tempo para assim encontrarmos a posição mais segura, elevando-nos acima dos momentos passageiros para os…

Em dia de São Domingos

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Vim a Lamego com os noviços celebrar o dia de São Domingos com as nossas monjas dominicanas. Este dia de família dominicana tem várias celebrações e motivos de festa. Um deles, que cada vez mais está presente, é trocarmos SMS com mensagens dominicanas. Eu enviei a minha, manhã cedo, e recebi uma resposta que me agradou pelo conteúdo e pela ligação. Respondeu-me assim um frei de Angola: Feliz dia de São Domingos para si também Frei. Obrigado pelas vezes que comigo falou de Deus; Não se esqueça de mim quando falar com Deus!Este "trocadilho" espiritual está ligado ao que se dizia de São Domingos que só falava de Deus ou com Deus. E isto peço neste dia tão Dominicano: que saibamos falar de Deus aos outros e não os esqueçamos de falar dos outros com Deus.

Uma avó comum

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Nós, dominicanos, celebramos hoje a memória da beata Joana de Aza, mãe de São Domingos. É como uma avó comum de todos os dominicanos. Talvez se possa achar que esta mãe é santa por causa do filho mas, a verdade é que a mãe, de certa maneira, é que santificou o filho. Em Caleruega, terra onde nasceu São Domingos, diz-se que São Domingos é o santo que tornou conhecida a terra, mas a Beata Joana é que é a santa do coração. A Beata Joana distinguiu-se pela sua dedicação aos filhos e uma grande caridade para com os pobres, doentes e mutilados das guerras das conquistas e reconquistas do século XII. Por isso, faço hoje aqui memória de tão ilustre avó, pedindo-lhe que nos deixemos contagiar com a sua caridade e alegria de servir os mais pobres e necessitados.

Terreno, semente e semeador

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No Evangelho deste 15º Domingo do Tempo Comum escutaremos a muito conhecida e explicada parábola do semeador. O que para nós hoje é fácil de entender foi, no tempo de Jesus, mais incompreensível a ponto de Jesus lhes ter de explicar a parábola. Os pregadores têm que ter imaginação para não repetir o evangelho, para não serem aborrecidos e para que a semente seja hoje lançada nos corações dos que escutam a Palavra de Deus e a querem por em prática. Um dos pregadores bem imaginativos e concretos foi o P. António Vieira. Para quem tiver tempo e gosto de leitura pode hoje entreter-se espiritualmente com a leitura do sermão da Sexagésima. Eu só irei deixar aqui um parágrafo que achei curioso: "Começou ele a semear (diz Cristo), mas com pouca ventura. “Uma parte do trigo caiu entre espinhos, e afogaram-no os espinhos”. “Outra parte caiu sobre pedras, e secou-se nas pedras por falta de humidade”. “Outra parte caiu no caminho, e pisaram-no os homens e comeram-no as aves”. Ora vede como …

Justiça e misericórdia

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Não tenho andado desaparecido. Tenho andado com outras ocupações e situações que me dificultam a vinda aqui para escrever. E o que quero hoje aqui deixar escrito, sem muitos pormenores porque os não posso revelar, é que hoje senti na Ordem Dominicana, que se fez justiça e se praticou a misericórdia. E mais não posso escrever. Mas queria aqui dizer que hoje vou dormir mais feliz porque se salvou uma vocação que todos consideravam perdida. Bendito seja Deus!

Tudo e nada

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No sábado passado celebrei missa na igreja do mosteiro das monjas dominicanas de Olmedo. Na sacristia encontrei sobre a mesa um texto de São Norberto (sec. XI) sobre o sacerdote. Li-o na Missa do Campo Grande, a propósito do Evangelho que falava da nomeação dos Doze e do seu envio. Deixo-o aqui como partilha: "Sacerdote, tu não é tu porque és Deus.
Tu não és para ti porque és servo e ministro de Cristo.
Tu não és teu porque és para a Igreja.
Tu não és para ti porque és o mediador entre Deus e os homens.
Tu não te bastas porque és pecador.
Tu não és para ti mesmo porque não és nada.
Oh sacerdote! Quem és, então?
Tudo e nada!
Tem cuidado contigo, para que não se diga de ti
o que disseram de Cristo na Cruz:
«salvou os outros e não pode salvar-se a si mesmo
»".

A infância de São Domingos

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Estive em Caleruega na semana passada com os noviços. A última vez que tinha estado foi em 1999, como noviço. Para dos dominicanos há três lugares "dominicanos": Caleruega, lugar do nascimento de São Domingos, Toulouse, lugar da pregação de São Domingos, e Bolonha, onde está sepultado. Caleruega é uma pequena aldeia que pertence a Burgos. Não tem muito que ver para se estar uma semana. Tem o convento dos frades, o mosteiro das monjas e a igreja paroquial. Mas tem história e espiritualidade. A história contam-na as pedras e as construções; a espiritualidade conta o coração de quem lá vive e de quem visita. O que me fica desta viagem é a infância de São Domingos. Uma infância que explica a sua vida adulta. Uma infância envolvida por um bom ambiente familiar em que todos sobressaem pelas virtudes humanas e cristãs, em especial a atenção aos doentes e aos pobres. Perguntando a um frade que nos fez a explicação de Caleruega, sobre quem tinha mais devoção, se a mãe se o filho, el…

Frei Francolino Gonçalves - um irmão

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Estou em Caleruega com os noviços a visitar os lugares dominicanos. O tempo é pouco e, consequentemente, os acessos à internet limitados. Mas recebi ontem, manhã cedo, a notícia da morte do frei Francolino Gonçalves, dominicano e biblista.Dos frades mais velhos era o único a quem tratava por tu. E isso mostra a simplicidade e proximidade nas relações fraternas. A primeira vez que estive com ele foi numa ida a pé à universidade católica, talvez pelo ano 1998, era eu postulante, ceio. E foi a primeira vez que, destemido, fiz as minhas perguntas "escondidas" sobre a Bíblia. E ele, com simplicidade, - nem todas as perguntas seriam adequadas a um grande exegeta - foi respondendo. É assim foi até ao fim quando vinha a Portugal. Eu ou outro irmão íamos fazendo perguntas que ele respondia e acrescentava com outros contornos mas sempre com muita simplicidade. Falávamos da terra. De forma apaixonada, dos seus montes e das suas histórias, da inquietude em ir para a terra, do dizer-me qu…

As cerejas!

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Não tive tempo e já vai tarde a minha homenagem às cerejas! Em Resende vão fazê-la no próximo fim-de-semana. Estive na semana passada em Lamego, onde as cerejas, boas, rijas e abundantes, se colhiam e vendiam por todo o lado. Uma monja ao olhar para as cerdeiras, dizia-me: pára, frei, que elas estão a pedir misericórdia! De facto, estavam as cerdeiras carregadas na estrada de Bigorne para Lamego. Provei as de Sucres e as de Lamego (da cidade e do mosteiro). Não tive oportunidade de ir às de Resende...  Em Feirão não há cerdeiras. Ou pelo clima ou sem motivo aparente válido, aquele enclave não produz cerejas. Temos as amoras e muitas graças a Deus. Mas veio-me à mente que há uma zona agrícola em Feirão que tem o nome de "Sardeiras". Lá a terra é fértil, numa pequena colina, haviam umas pequenas hortas, perto da aldeia, com abundância água, onde as pessoas iam (agora está tudo praticamente abandonado) buscar os produtos da época desde as batatas às cebolas e couves e coisas a…

Um caminho de silêncio

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A obrigação foi o motivo a necessidade uma utilidade. Consegui ter um dia mais livre e fui a Fátima. Saí cedo para chegar cedo e aproveitar a manhã para a necessidade de estar só e em silêncio. Fiz o caminho dos pastorinhos, que nós conhecemos como o caminho da Via Sacra e do Calvário Húngaro. Alguns grupos estavam a fazer a Via Sacra - espanhóis, canadianos, polacos, italianos -, outros no desporto, uma senhora sentada no muro a rezar devotamente o seu terço, e eu. Eu em silêncio, apesar do que se ouvia cantar e rezar em línguas que não a minha. E também eu fiz a Via Sacra, em silêncio, lembrando-me de quando era criança e da maneira como fazíamos a Via-Sacra, e também dos próprios quadros das estações. Sem muito sol lá fiz o meu caminho, em silêncio e com calma. Terminada a Via Sacra fui aos Valinhos onde há dois monumentos, não menos importantes, e que nos convidam à oração: a loca do cabeço, onde se diz o anjo ter aparecido aos pastorinhos e o lugar da aparição de Agosto. Dois lu…

O bom odor de Cristo

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Desde o ano de 1233 que este dia 24 de Maio ficou gravado na memória dos frades que viviam naquela altura e na história da Ordem Dominicana. O frades tinham decidido, com alguma pressão do Papa Gregório IX, que tinha convivido com São Domingos, levantar o corpo de São Domingos do primitivo túmulo, que estava meio abandonado e entregue às intempéries, para um novo túmulo no novo convento. Os frades queriam fazer a trasladação meio em segredo, por não saberem em que estado estava o corpo de Domingos. Naquela Idade Média um corpo incorrupto era sinal de santidade. Mas o Papa Gregório, impossibilitado de estar presente, mandou uma comitiva, o que fez com que o segredo se tornasse numa solenidade. E conta a memória deste dia que, mal retiraram a lápide, saiu do corpo de São Domingos uma fragrância muito suave que ficava agarrada às mãos ou às roupas de quem tocava no corpo de São Domingos. Este foi um sinal medieval da santidade de São Domingos que fez com que este mesmo papa o canonizasse…

Fátima descaracterizada

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Há muitos anos atrás, um dominicano português que usou o pseudónimo "João Ilhargo", escreveu um livro a que deu o título de "Fátima desmascarada". O título era excessivo - talvez por isso tivesse usado o pseudónimo - mas era um rebate às memórias de Lúcia, tentando descobrir o que era inventado por parte dela e não condizia com as aparições. Cem anos depois das aparições volta o mesmo rebate, já não só criticando os exageros da Lúcia que transformou uma mensagem simples e concreta num vale de devoções e visões, complicando e exagerando e, claro está, interpretando tantos anos depois a simplicidade das aparições. Basta comparar as singeleza das respostas ao interrogatório com as memórias e os seus acrescentos posteriores. Mas eu não quero tornar-me numa réplica de João Ilhargo. Para mim é claro e transparente que uma coisa é o fenómeno de Fátima (sejam aparições ou visões) e outra é a excessiva mensagem com os seus apelos e repiques. Chamei a este post "Fátima…

Emaús

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O caminho da tristeza
Torna-se mais longo e sem rumo.
Os olhos, embargados e sem luz,
Os pés, pesados e cansados
A cabeça curvada e confusa
Impedem os dois companheiros
De ver Jesus.

Ele caminha com eles
Abre-lhes as Escrituras e o coração
Lentamente tudo muda
E tudo faz sentido
Ao partir do pão.

Regressam à cidade
Com uma alegria incontida.
É verdade, está vivo,
E nós somos testemunhas
Que a morte foi vencida.

O caminho da vida
É o caminho de Emaús.
Quem o percorre sozinho
Não encontra destino nem meta.
Mas uma coisa é certa
Nesse caminho anda Jesus.

Indecisão

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Passei o dia com a vontade de escrever mas não atinei com o assunto: sobre a intolerância de alguns diante da tolerância de ponto ou sobre Santa Cataria de Sena que hoje se comemorou. Mas não me decidi. Sobre a tolerância de ponto a minha opinião não iria certamente trazer qualquer benefício nem prejuízo a ninguém e sobre Santa Catarina, depois de ler episódios e orações dela, acabei por não me decidir por nenhuma. Durante a tarde outros assuntos me surgiram para escrever: um poema de Daniel Faria, o artigo do P. Anselmo Borges sobre Fátima (bastante interessante, até) ou um comentário ao artigo sem sal do Professor João César das Neves, também sobre Fátima. O autor parece o Quixote a defender Nossa Senhora e Fátima e os Pastorinhos, querendo corrigir as afirmações que D. Carlos Azevedo e o P. Anselmo Borges fizeram nos dias passados. Li o artigo, ia caindo na tentação de publicar um pequeno comentário - ainda o escrevi - somente com esta frase: aqui está um mais papista que o Papa. …

Vidas contemplativas

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Tenho vivido dias pouco contemplativos mas ligados a pessoas contemplativas. Vidas que me têm impressionado por aquilo que, de certa maneira, poderia ter sido também a minha vida mas que hoje reconheço que não foi a vontade de Deus. Na terça-feira depois da Páscoa o noviciado foi a Évora, com o principal objectivo de visitar a Cartuxa. Para mim a quarta ou quinta visita, sendo que as últimas já não são de curiosidade mas sim de admiração pela vida simples e austera, aparentemente vazia mas sem dúvida homens cheios de Deus. A visita foi de certa maneira rápida, uma vez que coincidiu com o passeio pascal da comunidade. Passámos nas partes principais da Cartuxa: igreja, capela da comunidade, claustro, cela, biblioteca e cemitério. As perguntas iam surgindo naturalemente, ao mesmo tempo que se tiravam algumas fotografias. Ao meio dia rezámos as Ave-Marias (na Cartuxa o Regina Caeli só se reza depois de Laudes), ao mesmo tempo que os sinos tocavam. Aliás, na cartuxa superabunda o silêncio…

Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito

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Última palavra de Cristo na Cruz antes entregar a sua vida. Não sabemos se foi propositado ou não mas, quer a primeira quer a última palavra de Cristo foram orações ao Pai. Nas duas chama a Deus de Pai, como sempre Jesus chamou e nos ensinou a chamar. Também duas das frases são citações de salmos; Jesus personaliza o salmo 31, que é um salmo indicado para as horas de tribulação. Este grito de Jesus ao Pai, é uma entrega a Deus da sua vida: Jesus, no fim da sua vida e nós, em cada dia, numa entrega de confiança e de amor. Este grito é também o grito dos que, no meio do desespero, se entregam a Deus, as suas horas e dores, as suas angustias e os seus desesperos. Jesus dá-nos uma última lição antes de morrer: unidos ao Pai os vales tenebrosos da vida passam-se na calma e na confiança.

A paixão do Senhor

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Ao ler a Tua Paixão, Senhor, eu te peço:
Que me livres do farisaísmo cego e insensível
Que tantas vezes trai e mói
Que contradiz e argumenta sem argumentos
Que vive da aparência e do agradar aos outros.

Ao ler a Tua paixão, Senhor, eu te peço:
Que me faças compreender o gesto acolhedor
Da Tal pessoa que o Evangelho não nomeia
Mas que ficou guardado na memória da fé.
O gesto solidário do Cireneu, que cansado
e talvez até contrariado foi revelador de proximidade na dor;
O gesto de misericórdia de José de Arimateia,
Que cedeu o seu próprio túmulo para que o teu corpo
Pudesse ter a dignidade que o sofrimento e a injustiça tiraram.

Ao ler a tua Paixão, Senhor, eu te peço:
Que me faças seguir o teu exemplo de humildade
Que tantas vezes passa pelo silêncio:
Silêncio diante da traição de um amigo
Silêncio diante da incompreensão, em que qualquer palavra
Gera ainda mais violência
Silêncio diante dos ultrajes e das mentiras que afogam e matam

Ao ler a tua Paixão, Senhor, eu te peço:
Que eu sa…

Tudo está consumado

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Sexta palavra de Cristo na cruz. Não se trata de uma rendição ou de um deixar de querer viver. O tudo está consumado que sai da boca de Jesus é o anúncio de que tudo se completou e até ao fim da vontade de Deus e da salvação do homem. Tudo está consumado. Jesus, cansado, não de viver mas sim de sofrer, entrega ao Pai toda a humanidade por quem deu a vida. No entanto, a obra de Deus continua a precisar de homens e mulheres que prolonguem a consumação do mundo. Homens e mulheres que ajudem outros a perceber o sentido da vida e das coisas. Homens e mulheres que pensem as questões existenciais da vida e os modos de agir. Cabe agora, a cada um de nós, continuar a obra de salvação iniciada por Deus, consumada na Cruz por Jesus, entregue a cada um de nós na busca do sentido da vida e do amor.

Via Sacra

O meu amigo António Saiote ofereceu ao Convento um quadro com as estações da Via Sacra. O meu confrade, fr. José Manuel fotografou e fez este vídeo que partilho, desejando uma Boa Páscoa, meditando em todo o amor de Cristo por nós.

Tenho sede

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Quinta palavra de Cristo na Cruz. Não tem nenhum sentido espiritual, mas sim o que um homem cansado e agonizante sente depois de tantos tormentos: sede. Nos Evangelhos não é primeira vez que Jesus sente sede. Quando entra em Sicar e se senta à beira do poço, na hora mais quente do dia, Jesus também pede à Samaritana que lhe dê de beber. A sede, uma das primeiras necessidades humanas, tem na Bíblia uma outra dimensão mais espiritual: a sede de Deus, a sede de Jesus. Mas Jesus também tem sede de nós. Deseja-nos, quer-nos, ama-nos. A humanidade deseja Deus, mesmo que por vezes o negue e lhe vire costas. Este grito/pedido de Jesus de Cristo na Cruz, não é só dele mas de todos os crucificados da história e do mundo que, continuam hoje a gritar que têm sede: sede de pão, sede de água, de roupa e de casa; de dignidade e trabalho justo, de reconhecimento e de atenção. A sede é grande neste muito, a material e a espiritual. Mas assim como do rochedo do Antigo Testamento brotou água, assim tam…

Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?

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Quarta palavra de Jesus na cruz. Desta vez uma oração, o salmo 21, que Marcos só cita mas que talvez Jesus terá rezado pelo menos uma parte dele. Por um lado, algumas pessoas dizem que Jesus, na cruz, sentiu o abandono de Deus; mas não terá sido isso, terá sido a oração de confiança dirigida Aquele em quem Jesus entrega a sua vida. Mas sim, na boca de muita gente esta palavra de Cristo, é mesmo uma palavra de abandono em Deus. Uma cama de hospital, uma doença incurável e progressiva, um desespero, torturas, mortes injustas... Quem reza sente a presença de Deus. Mesmo se há abandono de saúde ou de pessoas. E Deus responde ao grito: Eu não te abandono,meu filho. Ainda que uma mãe se esqueça do filho que traz no seu seio eu nunca te abandonarei.

Mulher, eis o teu filho... Filho, eis a tua mãe

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Terceira palavra de Cristo na Cruz, exclusiva de São João. Numa visão mais afectiva e devota poderia pensar-se que Maria seria uma preocupação para Jesus e, antes de morrer, entregava a sua mãe a João e João a sua mãe para que um guardasse o outro. De facto, ainda hoje em Éfeso, cidade onde se diz ter morrido São João, existe uma casa visitável, em que se diz que foi onde Nossa Senhora viveu os seus últimos anos, na companhia de São João. Mas a leitura interpretativa é bem mais teológica que afectiva. Maria é agora não só a mãe de Jesus mas a Mãe do Messias; por isso, esta entrega é simbólica de uma outra entrega, da Igreja a cada um de nós, simbolizado no discípulo amado, mas de nós a Maria, à Igreja, a Esposa, a Mãe.
Junto à cruz começa uma nova maternidade: sem deixar de ser mãe de Jesus passa a ser, também, mãe da Igreja. Hoje, quero também entregar um rapaz aos cuidados de Maria. Irá precisar deles. E vou rezar por ele, para que encontre sempre na Igreja uma Mãe.

Hoje estarás comigo no paraíso

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A segunda frase de Cristo na Cruz, é uma resposta a um pedido de um dos que foram crucificado com Jesus. A tradição atribuiu-lhe o nome de Dimas. Mais que uma palavra de conforto ou de ânimo é uma palavra de salvação: Hoje estarás comigo no paraíso. Esta atitude de Jesus, outra não seria de esperar, mostra-nos que é sempre tempo e ocasião de voltarmos para Deus. Dimas, que não deve ter tido muitos encontros com Jesus, ao vê-lo crucificado, tudo suportando em silêncio e oração a Deus, pede para ser admitido no Reino de Deus. A resposta de Jesus a este ladrão é a aplicação prática do que Jesus havia dito às multidões: há mais alegria no céu por um só pecador que se arrepende do que por noventa e nove justos que não precisam de arrependimento. O P. António Vieira, num sermão que pregou sobre esta frase termina com esta oração: Rei dos reis e Senhor dos senhores, que morrestes entre ladrões para pagar o furto do primeiro ladrão, e o primeiro a quem prometestes o Paraíso foi outro ladrão,…

Em domingo de Ramos

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"Hossana... Bendito o que vem o nome do Senhor (Mt 21, 9), diziam as crianças. Cantemos com elas e celebremos hoje a festa, não de maneira pomposa, mas divina; não só levando nas mãos os ramos de palmeira, mas também na alma, e branqueando-a mais que a neve. O rei dos anjos não vem em carros e com exército, mas montado num pobre jumentinho, para te ensinar a ti que não deves querer ser levado em cavalos e jumentos sem entendimento. Portanto, cultivemos a humildade com Cristo em nós, para subir com ele; cantemos hinos com os anjos, glorifiquemo-lo com as crianças, gritemos com a multidão, exultemos com Lázaro em Betânia, ressuscitemos das obras mortas, com os habitantes de Sião cantemos em coro, clamemos com os cegos a quem ele deu a vista; louvemos com as crianças e com os velhos, preguemos com os seus discípulos e, a exemplo das crianças, estendamos ramos de oliveira no caminho da vida."
(São Cirilo de Alexandria, Homilia 4, pronunciada no concílio de Éfeso)

Pai, perdoa-lhes que não sabem o que fazem

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(No tempo da Semana Santa há uma tradição da pregação sobre as sete palavras de Cristo na Cruz. Hoje faço uma pequena reflexão sobre a primeira frase de Cristo na Cruz.) "Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem" (Lucas 23, 34). Depois de grandes precipitações e injustiças, condenação e violência, depois de crucificado Jesus reza ao Pai. Não por ele mas por aqueles que, não atingindo o alcance da maldade cometida, não sabiam o que estavam a fazer. E não sabiam mesmo. Por um lado não sabiam que estavam a matar o autor da vida e, por outro, não sabiam que aquela desgraça nos trazia a Salvação. A primeira palavra de Jesus é uma oração de perdão. Aquele que tinha explicado a Pedro que o perdão teria de ser infinito, como infinito é o amor, aquele que solenemente dizia às multidões para amar os inimigos e rezar por aqueles que nos odeiam é o mesmo que agora, em atitude reconciliadora, pede perdão a Deus por eles. Grandes palavras e grande exemplo o de Cristo na Cruz. Nas di…

Domingo de Lázaro

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No próximo Domingo celebraremos o "Domingo de Lázaro". No século IV, Santo Ambrósio usou a imagem da ressurreição de Lázaro para falar da Penitência, comparando a ressurreição ao perdão dos pecados. Diz ele assim: "Cristo virá ao teu sepulcro e, se vir Marta chorar por ti, a mulher que cumpria bem o seu ministério; se vir chorar a Maria, que escutava atentamente a palavra de Deus, como a Santa Igreja, que escolheu a melhor parte, vai encher-se de misericórdia. Quando na tua morte vir as lágrimas de muitos, dirá: Onde o pusestes? Quero ver aquele por quem vós chorais, para que ele mesmo me comova com as suas lágrimas. Quero ver se está morto para o pecado, cujo perdão se pede."

Dia mundial do Teatro: uma honra e um privilégio

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Hoje celebra-se em todo o mundo o dia mundial do teatro. E há três anos que, na Missa do Campo Grande, no domingo mais próximo deste dia 27, se celebra a Missa dos Artistas. No primeiro ano o Patriarca de Lisboa enviou uma mensagem, no ano passado foi o Presidente da Republica que enviou uma mensagem, mas ontem fez questão de estar presente, juntando-se a alguns dos artistas do nosso Portugal. Mas este ano, a festa prolongou-se para o dia de hoje. Fui convidado a ir almoçar com os artistas, à Casa do Artista. Uma honra poder estar com mais de cem artistas (actores, actrizes, maquilhadoras, bailarinos e bailarinas, fadistas...), alguns residentes e outros convidados. Além da honra de poder associar-me a todos estes homens e mulheres das artes, tive o privilégio de conhecer algumas pessoas e de lhes agradecer fazerem parte da minha adolescência e juventude: Maria Ema, Laura Soveral, São José Lapa, Pedro Lima, Lourdes Norberto, Manuela Maria, Glória de Matos, Ada de Castro, Catarina Ave…

A água

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A água acompanhou sempre a Cristo. Ele também foi baptizado na água; convidado às bodas, é com a água que ele inaugurou a primeira prova do seu poder de fazer milagres; enquanto pregava, convidava os sedentos a beber a sua água da eternidade; quando falava da caridade, assinalava como obra de amor em tão-somente dar um copo de água a um dos seus semelhantes; descansou um pouco junto a um poço; caminhou sobre as águas; gostava de passar de uma à outra margem do lago; serve água aos seus discípulos. Até na paixão se podem encontrar testemunhos favoráveis ao baptismo; quando é condenado à crucifixão, aparece também a água, desta vez para lavar as mãos de Pilatos; quando é trespassado, do seu lado sai sangue e água, quando a lança o atravessa. Tertuliano, o baptismo

Transfigurados

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Hoje, na liturgia, escutámos a passagem da transfiguração do Senhor, na versão de São Mateus. A narração é lisa mas o episódio deve ter sido esplêndido. Muitas interpretações se fizeram e fazem ainda hoje na linha da fé e da espiritualidade. Em 1994, o Papa João Paulo II usava este mesmo episódio para falar da vida consagrada. É uma possibilidade e, no caso, foi conseguida. Mas não deixa de ser uma interpretação da vida e existência humana. O que seremos só conseguimos antecipar em glória e deve ser para nós o ânimo e a esperança para perceber que os embates da vida precisam também eles de ser transfigurados. Aqui no Convento cantamos neste dia o coral da transfiguração. Uma das estrofes canta assim: Senhor, pesa tanto a vida quando /Quando o amor abandona a casa. As vias de acesso ao Rosto / não as sabe a paixão sem asa. Tu de Deus a porta, a Páscoa /o pulsar que move o escuro. Tu que conheceste a morte transfigura a noite, / O muro.
 É Cristo quem transfigura a nossa noite e derrub…

Sermão da primeira dominga da Quaresma

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P. António Vieira, no ano de 1653, pregou no Maranhão os sermões da Quaresma. O do primeiro domingo começa assim: O Domingo das tentações e das vitórias. As ofertas, conselhos e petições que faz o demónio a Cristo para tentá-lo. Assunto do sermão: a última tentação do demónio a Cristo. Oh! que temeroso dia! Oh! que venturoso dia! Estamos no dia das tentações do demónio, e no dia das vitórias de Cristo. Dia em que o demónio se atreve a tentar em campo aberto ao mesmo Filho de Deus: Si Filius Dei es (Se és Filho de Deus) - oh! que temeroso dia! Se até o mesmo Deus é tentado, que homem haverá que não tema ser vencido? Dia em que Cristo com três palavras venceu e derrubou três vezes ao demónio - oh! que venturoso dia! A um inimigo três vezes vencido, quem não terá esperanças de o vencer? Três foram as tentações com que o demónio hoje acometeu a Cristo: na primeira ofereceu, na segunda aconselhou, na terceira pediu. Na primeira ofereceu: Dic ut lapides isti panes fiant - que fizesse das ped…

Elogio do peixe

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Numa visita mais ou menos relâmpago a Lamego, levei para escutar no caminho dois sermões do P. António Vieira. Uma coisa é ler e outra ouvir. No Sermão de Santo António aos peixes, o P. António Vieira faz elogios aos peixes e um deles é o de ajudarem nas penitências da Quaresma. Ora vejam que interessante o pensamento e a retórica: "Mas ainda que o Céu e o Inferno se não fez para vós, irmãos peixes, acabo, e dou fim a vossos louvores, com vos dar as graças do muito que ajudais a ir ao Céu e não ao Inferno, os que se sustentam de vós. Vós sois os que sustentais as Cartuxas e os Buçacos, e todas as santas famílias, que professam mais rigorosa austeridade; vós os que a todos os verdadeiros cristãos ajudais a levar a penitência das quaresmas; vós aqueles com que o mesmo Cristo festejou a sua Páscoa, as duas vezes que comeu com seus discípulos depois de ressuscitado. Prezem-se as aves e os animais terrestres de fazer esplêndidos e custosos os banquetes dos ricos, e vós gloriai-vos de …

A grande vitória da Igreja Católica

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A princípio não li mas depois voltei a trás e tive que ler. O artigo opinião de Fernanda Câncio, no DN de domingo passado. O título que deu ao artigo foi: A grande derrota da Igreja Católica. Aliás, creio que a religião que ela pratica é a anti-católica. Não me vou demorar na explicação do artigo porque não vale mesmo a pena ler. Para verem o estilo, ela faz o elogio das filhas, mães e avós que, apesar das proibições e penalizações, decidiram abortar:"Pensem na coragem dessas mulheres - as nossas avós, as nossas mães, as nossas filhas. E pensem que perante essa coragem, esse desespero, essa determinação, houve décadas de decisores políticos, médicos e clérigos a dizer que não era assunto, que não tinha importância, que estava bem assim". Parece-me surreal. Segundo o seu pensar, a minha avó (e muitas outras avós, mães e filhas) foi tudo gente infeliz, desavergonhada, inculta e fraca porque que tiveram muitos filhos e, apesar do número, o aborto foi sempre uma não-opção. Glór…

Os desafetos

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Comecei ontem a escrever sobre este assunto mas as horas não chegaram para o acabar. Sai com um dia de atraso.
Celebra hoje o nosso mundo o dia dos namorados, evocando São Valentim. Mas uma vez um investimento comercial, que dá para ver como o lucro às vezes se apoia na religião para comercializar. Mas é bom que hoje se celebre o dia dos que amam.
O amor é extremamente estruturante na construção da personalidade humana. Trazemos em nós a necessidade de afectos e demonstramo-los com os valores bonitos e nobres da amizade e do amor puros, sem medidas nem contrapartidas. A gratuitidade do amor. Se a felicidade passa pelo amor, devemos então amar e ser amados. A psicologia fez-nos ver isso com uma grande lucidez: os filhos não se amam só a partir do momento em que nascem mas o desejo de os ter já deve estar carregado de amor. Sentir-se amado é condição para um dia poder vir a amar. Ora, este "fogo que arde sem ver", segundo Camões, "é um não querer mais que bem querer"…