O pecado da omissão

No próximo domingo escutaremos o Evangelho do juízo final, na versão de São Mateus. Resume-se às duas frases de Jesus: a mim o fizestes, a mim o deixastes de fazer.
O P. António Vieira, que muito e bem pregou, fez um sermão sobre este capítulo 25 de São Mateus, na perspectiva do Advento, quando o Senhor vier separar os bons dos maus. Todo o sermão vai sobre a separação em classes sociais, havendo muito que separar, até na cova dos eclesiásticos!
Mas, ao rematar o sermão, op P. António Vieira fala de uma espécie de pecados, que me aflige muito, que é o pecado de omissão. Na perspectiva dele é o pior dos pecados porque é um bem que se deixou de fazer.
Deixo aqui parte do sermão em que se refere a este pecado. O segundo parágrafo é muito esclarecedor e o terceiro diz o óbvio que muitos cristãos não querem ler nem saber: primeiro a obrigação e depois a devoção.

Sabei, cristãos, sabei, príncipe, sabei, ministros, que se vos há-de pedir estreita conta do que fizestes, mas muito mais estreita do que deixastes de fazer. Pelo que fizeram, se hão-de condenar muitos; pelo que não fizeram, todos. As culpas por que se condenam os reis são as que se contêm nos relatórios das sentenças; lede agora o relatório da sentença do dia do Juízo, e notai o que diz: Discedite a me maledicti in ignem aeternum (Mt. 25, 41): Ide, malditos, ao fogo eterno. - E por quê? Non dedistis mihi manducare, non dedistis mihi potum, non collegistis me, non cooperuistis me, non visitastis me (Mt. 25, 42 s). Cinco cargos e todos omissões: porque não destes de comer, porque não destes de beber, porque não recolhestes, porque não visitastes, porque não vestistes. - Em suma, que os pecados que ultimamente hão-de levar os condenados ao inferno são os pecados de omissão. Não se espantem os doutos de uma proposição tão universal como esta, porque assim é verdadeira em todo o rigor da teologia. O último pecado e a última disposição por que se hão-de condenar os precitos é a impenitência final, e a impenitência final é pecado de omissão. Vede que coisas são omissões, e não vos espanteis do que digo. Por uma omissão, perde-se uma inspiração, por uma inspiração, perde-se um auxílio, por um auxílio, perde-se uma contrição, por uma contrição, perde-se uma alma. Dai conta a Deus de uma alma, por uma omissão.
(…)
A omissão é o pecado que com mais facilidade se comete, e com mais dificuldade se conhece, e o que facilmente se comete e dificultosamente se conhece, raramente se emenda. A omissão é um pecado que se faz não fazendo; e pecado que nunca é má obra, e algumas vezes pode ser obra boa; ainda os muito escrupulosos vivem muito arriscados em este pecado. Estava o profeta Elias em um deserto, metido em uma cova; aparece-lhe Deus e diz-lhe: Quid hic agis, Elia (3 Rs. 19, 9)? E bem, Elias, vós aqui? - Aqui, Senhor! Pois aonde estou eu? Não estou metido em uma cova? Não estou retirado do mundo? Não estou sepultado em vida? Quid hic agis? E que faço eu? Não me estou disciplinando, não estou jejuando, não estou contemplando e orando a Deus? - Assim era. Pois se Elias estava fazendo penitência em uma cova, como o repreende Deus e lhe estranha tanto? Porque, ainda que eram boas obras as que fazia, eram melhores as que deixava de fazer. O que fazia era devoção, o que deixava de fazer era obrigação. Tinha Deus feito a Elias profeta do povo de Israel, tinha-lhe dado ofício público; e estar Elias no deserto, quando havia de andar na corte, estar metido em uma cova, quando havia de aparecer na praça, estar contemplando no céu, quando havia de estar emendando a terra, era muito grande culpa.
A razão é fácil, porque no que fazia Elias, salvava a sua alma; no que deixava de fazer, perdiam-se muitas. Não digo bem: no que fazia Elias, parecia que salvava a sua alma; no que deixava de fazer, perdia a sua e a dos outros: as dos outros, porque faltava à doutrina; a sua, porque faltava à obrigação. É muito bom exemplo este para a corte e para os ministros que tomam a ocupação por escusa da salvação. Dizem que não tratam de suas almas, porque se não podem retirar. Retirado estava Elias, e perdia-se; mandam-no vir para a corte para que se salve. Não deixe o ministro de fazer o que tem de obrigação, e pode ser que se salve melhor em um conselho que em um deserto. Tome por disciplina a diligência, tome por cilício o zelo, tome por contemplação o cuidado, e tome por abstinência o não tomar, e ele se salvará.
Mas, por que se perdem tantos? Os menos maus perdem-se pelo que fazem, que estes são os menos maus; os piores perdem-se pelo que deixam de fazer, que esses são os piores: por omissões, por negligências, por descuidos, por desatenções, por divertimentos, por vagares, por dilações, por eternidades. Eis aqui um pecado de que não fazem escrúpulo os ministros, e um pecado por que se perdem muitos. Mas percam-se eles embora, já que assim o querem. O mal é que se perdem a si, e perdem a todos; mas de todos hão-de dar conta a Deus. Uma das coisas de que se devem acusar e fazer grande escrúpulo os ministros é dos pecados do tempo. Porque fizeram o mês que vem o que se havia de fazer o passado; porque fizeram amanhã o que se havia de fazer hoje; porque fizeram depois o que se havia de fazer agora; porque fizeram logo o que se havia de fazer já. Tão delicadas como isto hão-de ser as consciências dos que governam em matérias de momentos. O ministro que não faz grande escrúpulo de momentos, não anda em bom estado: a fazenda pode restituir; a fama, ainda que mal também se restitui; o tempo não tem restituição alguma.
E a que mandamento pertencem estes pecados do tempo? Pertencem ao sétimo, porque ao sétimo mandamento pertencem os danos que se fazem ao próximo e à república, e a uma república não se lhe pode fazer maior dano que furtar-lhe instantes. Ah! omissões, ah! vagares, ladrões do tempo!

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