Pobres e humildes
A Igreja fez ontem memória de São Martinho, uma dos mais ilustres santos da nossa Europa. Na liturgia há uma antífona que me impressiona sempre que a rezo e muitas vezes vem à minha mente: Martinho, pobre e humilde, entrou rico no céu.

Pobres e humildes. Uma pobreza que não é uma condição forçada de quem não tem alternativa, mas própria de quem quer ter a maior riqueza deste mundo e do outro: Deus.
Pobres e humildes. Uma pobreza que é opção de vida, tantas vezes contradição, mal compreendida por um mundo de consumo e de fartura. Uma pobreza que é irmã, partilha e solidariedade, apelo a procurarmos e desejarmos o pão de cada dia, que nos sustenta no essencial e nos liberta do excesso e do acumular de bens.
Humildes e pobres. Uma humildade verdadeiramente humilde, pese a redundância. Humildade que é morrer para o desejo de dar nas vistas, de ser conhecido e reconhecido, de ser protagonista e ter os focos para si apontados.
Humildes e pobres. Uma humildade que é simples no trato, nas palavras e nas acções. Uma humildade que não é fingida, em que a ocupação no último lugar é mesmo verdadeira porque sabe que aquele é o seu lugar e não ambiciona o primeiro. Uma humildade prática que não se escusa a trabalhos simples e às vezes humilhantes, os trabalhos que muitos se tentam esquivar e ninguém quer agarrar.
Humildes e pobres. Uma humildade intelectual também necessária para que se perceba que a Sabedoria é dom de Deus e a inteligência é um investimento de Deus para que, com humildade, elevemos este mundo criado por Deus.
Humildes e pobres. Uma humildade espiritual que é virtude em acção, base de uma vida em Deus. Uma humildade que esvazie para que o barro se possa encher da riqueza de Deus. Uma humildade que não é orgulhosa e que não gasta tempo a mostrar a Deus o bom que somos comparando-nos sucessivamente com os outros.
Martinho, pobre e humilde, entrou rico no céu. E eu, se não for pobre e humilde, São Martinho para os outros, como poderei entrar no céu?