As contas do meu rosário

Sempre gostei da expressão despachada, que significa "não te metas na minha vida", mas com tom de subtileza: "não são contas do teu rosário". Para um dominicano vem mesmo a calhar, uma vez que trazemos o rosário no cinto do hábito!
Hoje os dominicanos celebram com festa e alegria Nossa Senhora do Rosário. A tradição diz - porque a história não consegue chegar lá - que Nossa Senhora entregou o Rosário a São Domingos para que ele o rezasse e pregasse. Por esse motivo, como disse acima, trazemos o rosário no cinto do hábito.
A História diz-nos que o terço ou rosário como o temos é posterior a São Domingos, mas a mesma História diz-nos que São Domingos rezava muitas Avé-Marias ao longo do dia, lembrando-se assim de Nossa Senhora, como forma de oração e como meio de pregação junto dos hereges do seu tempo.
Por isso, uma coisa é certa: foi no berço dominicano que se gerou o rosário! São Domingos, como já disse, valia-se de Nossa Senhora para o seu apostolado.
Séculos mais tarde, um outro dominicano, o Beato Alano de la Roche, vai "organizar" as Ave-Marias dispersas de São Domingos. Como as pessoas iam ouvir os frades rezar aos conventos, sem perceber o seu latim, trocavam os Salmos pelas Ave-Marias. Então, o Beato Alano, estipula que se devem rezar o mesmo número de Avé-Marias que o número de salmos que os frades rezavam: 150. E para que não fosse só debitar orações, instituiu os mistérios de Cristo e de sua Mãe, que serviam de meditação e contemplação, como Nossa Senhora o fez: meditava e contemplava os mistérios do seu Filho. Rapidamente se divulgou esta forma de oração, o Rosário ou uma parte dele, o Terço, de tal forma que rapidamente se chamou a esta forma de oração "A Bíblia dos pobres".
E dois séculos mais tarde, outro dominicano deu outro enlevo ao Rosário: O Papa São Pio V. Este Papa, dominicano, viu-se aflito com uma Batalha que se travava no Mar da Grécia entre cristãos e muçulmanos. Invocou Nossa Senhora, prometendo-lhe que instauraria uma Festa em sua Honra, com o título de Nossa Senhora da Vitória. E pediu a toda a Europa, ameaçada pela invasão turca, que rezasse o terço para alcançar a paz. Estando ele na nossa basílica de Santa Sabina, reunido com os cardeais, teve uma visão de que a guerra teria acabado e os cristãos teriam paz. Cumpriu o prometido e instituiu a Festa de Nossa Senhora da Vitória.
E há cem anos, em Fátima, Nossa Senhora aparece aos Pastorinhos pedindo-lhes que rezassem o Terço todos os dias para alcançar a paz e que em Outubro diria quem era. Uma pergunta que me fazia, em novo, era como é que as crianças já rezavam o terço antes de Nossa Senhora aparecer. Ou seja, como é que a devoção do terço entrou na zona de Leiria, onde Nossa Senhora apareceu. Há uns anos tive duas respostas sem ter feito a pergunta directamente. Uma delas foi um frade ter-me dito, com naturalidade, que a devoção do terço naquelas terras, se tinha espalhado por nós, dominicanos, que tínhamos convento na Batalha. Naturalmente os frades dominicanos, encarregados por difundir o Rosário, nas pregações que faziam e nas igrejas onde passavam, deixavam este modo de oração, simples e rico, que ajudaria na nossa caminhada para o céu. E a outra resposta foi a de outro frade que me falou um dia no Alqueidão das contas. Trata-se da aldeia de Alqueidão da Serra, e era lá que os frades iam buscar as contas para os terços e rosários. Os Monges de Alcobaça tinham lá uma granja de plantação das contras e vendiam-nas.
Por estes motivos e outros, o terço estava difundido em Fátima e nos seus arredores. Mas Nossa Senhora, quando disse quem era, disse ser Nossa Senhora do Rosário.
E passo agora às contas do nosso Rosário. Algumas pessoas dizem que o Terço é uma oração ultrapassada, que não lhes diz nada, que distrai, que é repetitiva... não faltam desculpas para não rezar o terço.
Não seria mal nenhum se começássemos a meter a nossa vida nas contas do Rosário. Assim meditaríamos nos mistérios de Cristo e também nos nossos mistérios e passaríamos a rezar a nossa vida.
Nossa Senhora garante-nos a paz se a pedirmos. E o terço é um meio de alcançarmos a paz. Os senhores deste mundo usam as armas para uma paz forçada; nós cristãos temos uma arma poderosíssima, o Rosário, que nos faz trazer a verdadeira paz.

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