Um Diário


Há muitos anos ofereceram-me o Livro em Branco. Adoptei-o como Diário. Ainda o tenho, misturado com os outros livros. A ideia que então tinha de Diário era ir todos os dias deixar por escrito o que me tinha acontecido. Depressa desisti porque não havia matéria e poderia tornar-se aborrecido. Retomei o Diário quando entrei no Seminário. Numa outra concepção, tornou-se o Livro das Emoções. Escrevia o que a alma me dizia e o que o pensamento me ditava.
O primeiro Diário que li foi o de Florbela Espanca. O que se conhece é o do seu último ano de vida, 1930. Dramático, neurasténico, nostálgico, depressivo, porque não?... mas verdadeiro. A partir de Agosto entra-lhe a ideia da morte. Em Novembro pensa no suicídio, que o concretiza no próprio dia de anos, 8 de Dezembro. Dia trágico aquele. O do seu nascimento, o do seu casamento, o da sua morte. Seis dias antes escrevia uma só frase, terrível, sobre o sentido da vida: "E não haver gestos novos nem palavras novas!". Mais tarde, comecei a ler o Diário de Miguel Torga. E dei-me conta que ainda não tinha acertado. A ideia de que um Diário é uma coisa privada é um engano. Quando escrevemos ficamos sempre com medo de que nos leiam o que escrevemos mas, ao mesmo tempo, temos a certeza de que não vamos ter tempo - e não queremos - de o queimar ou de o apagar no computador. Quem escreve um Diário sabe que um dia outros irão encontrá-lo e ficarão a conhecer não só os dias do escritor mas as suas emoções e a sua maneira de ver os acontecimentos do mundo e da sua história. Com o a exposição da Internet, muitos blogues tornaram-se verdadeiros Diários. O meu é. Mas, porque está mais exposto, não é o que devia ser. Aqui as emoções são filtradas, algumas omitidas. Não é por mal nem é para proteger o escritor; é sobretudo para proteger os outros, porque não vivemos sozinhos no mundo e a nossa vida toca na dos outros. Miguel Torga, no seu Diário, logo nas primeiras páginas escrevia assim: "Um Diário não é isto. Diário é o daquele inglês que, para que ninguém o lesse, até uma cifra inventou. O que eu diria aqui se soubesse escrever em cifra!".
E, curiosamente, actualmente acontece-me o contrário do que se passava nos meus primeiros passos da escrita privada. Se então não tinha matéria para escrever, hoje tenho matéria que não pode ser aqui escrita. Fica num outro Diário, num outro blogue, este de um só leitor: Deus que tudo conhece e tudo sabe.
Há mais de um ano que escrevo neste Diário. Preenche a minha solidão, palavra que a uns dá medo mas que a mim dá calma. É na solidão, sem música nem conversas que partilho as emoções da vida. Estou consciente de que me exponho, tento não expor os outros. Mas o que é a vida senão um corpo aberto a tudo e a todos?

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