O Pão nosso


Leio um artigo da revista "Pública", sobre o pão, de autoria de David Lopes Ramos, que vou transcrever de seguida.
O pão que, como sempre me ensinaram, não se pode estragar. Nestes tempos de consumismo, em que o pão se tornou banal, que nos desfazemos dele como se de lixo se tratasse, aqui deixo a minha veneração ao pão, maravilhosa invenção humana, fruto da sua inteligência e, ao mesmo tempo, fruto dos quatro elementos do universo.
"O pão é muito mais novo do que a humanidade. Só tem uns dez mil anos. Antes de descobrirem as técnicas de farinação, os homens comiam os cereais em grão. Os citadinos tendem a esquecer-se de que o pão se faz, não nasce da terra como o arroz, a batata, as maçãs ou as cerejas, que consumimos tal como os colhemos. Com o pão, não basta colher a espiga e já está. 0 pão sua-se – “Comerás o pão com o suor do teu rosto”, sentenciou o Criador a Adão, quando ele não resistiu à maçã do Paraíso –, confecciona-se à força de braços. 0 pão semeia-se, sega-se, colhe-se, debulha-se, mói-se, amassa-se, molda-se, forneia-se e, só então, o podemos comer.

Nós, os da cultura greco-romana e judaico-cristã, conhecemos o contributo dos gregos e dos romanos no aperfeiçoamento das técnicas de elaboração do pão, sabemos que em Roma, onde a profissão alcançou grande peso social, a primeira escola para padeiros foi fundada 500 anos antes de Cristo. A religião católica faz do pão o protagonista do seu momento mais marcante, o Mistério da Eucaristia. E o tema da sua oração mais significativa, o Pai Nosso, a quem se pede a graça do pão de cada dia. Os judeus têm o pão ázimo, ou seja, não levedado, como símbolo de um dos seus momentos decisivos como povo, que foi o da fuga precipitada da escravatura no Egipto para a Terra Prometida, sob a direcção de Moisés. Tão precipitada que não deu tempo sequer para o pão levedar.
Há muitos outros episódios bíblicos em que o pão surge como protagonista. O da multiplicação dos peixes e dos pães é um deles. Já no nosso imaginário português avulta o da transformação do pão em rosas por Dona Isabel, mulher de D. Dinis, rei que, ao que consta, apreciava pouco as inclinações caritativas da rainha, feita santa pela Igreja Católica.
Apesar de ser presença diária e obrigatória em todas as mesas do Ocidente e de ser encarado em praticamente toda a humanidade como um elemento fundador e fundamental, os que o temos em abundância não lhe damos muitas vezes a atenção que merece. Há quem, esquecendo que há quem chore por o não ter, o rejeite em nome de estereotipados conceitos de elegância. 0 pão não engorda. 0 pão é um alimento rico e nutritivo. O que pode fazer mal são as companhias.
Há uma infinita variedade de pães conforme as regiões em que é produzido e as matérias-primas a que se recorre. Em Portugal, o pão faz parte da trilogia da dieta mediterrânica, de mãos dadas com o azeite e o vinho, e conhecem-se mais de 100 variedades. O pão é um alimento suficiente. Havendo pão, não há fome que meta medo. Há dois provérbios portugueses que ilustram esta realidade: “Para boa fome, não há ruim pão” e “com pão e vinho, já se anda o caminho”. O pão dos pães em Portugal é o de trigo. Historicamente não foi sempre assim, com o trigo a conhecer o seu apogeu durante a presença romana, tendo decaído drasticamente com as invasões dos bárbaros, principalmente dos suevos e visigodos, em que se voltou a recorrer às bolotas e outros produtos para matar a fome.
A civilização europeia assenta os seus fundamentos na cultura agrícola dos cereais: trigo, centeio, aveia e cevada. Em Portugal, os dois primeiros e, mais tarde, com a chegada à América, o milho, são as matérias-primas dos pães mais saborosos. O trigo a sul, com destaque para o Alentejo; o centeio no Nordeste Transmontano e Beira Interior; o milho no Norte e litoral. A situação mantém-se até aos dias de hoje".

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