O negócio de Judas

Nesta quarta-feira santa, o Evangelho, retirado do Evangelho de Mateus, conta-nos o negócio de Judas com os príncipes dos sacerdotes, na venda de Jesus, por trinta moedas de prata. Neste Evangelho, o negócio acontece depois da unção de Betânia mas antes da Última Ceia. A Igreja, na sua pedagogia litúrgica, colocou este relato na véspera de quinta-feira santa.
Mas não só por isso. É que, entre o o negócio de Judas e o anúncio da sua traição, relatam-se também os preparativos da que ia ser a última e definitiva Páscoa de Jesus.
É onde estamos: nos preparativos para a Páscoa. Os últimos dias para a confissão pascal, as preparações nas igrejas para as próximas solenidades, a interiorização do mistério que se vai celebrar.
São dias também de grandes movimentos, mesmo sem tolerâncias de ponto. Viagens, deslocações, algumas por motivos religiosas, outras nem por isso.
Mas a pergunta que fazem a Jesus: onde queres que façamos os preparativos para a Páscoa, poderá ser uma pergunta que nos seja colocada a cada um de nós: como vamos preparar-nos para celebrar a Páscoa?
Dias de Páscoa sem Deus não são dias pascais. São dias de comércio, que, muitas vezes, se aproveitam para tudo menos para o que foram criados: o encontro com Deus.
Como vou preparar a Páscoa? Como vou perceber o alcance da Última Ceia se não participo na Celebração comunitária da Eucaristia? Como vou sentir o amor de Deus se não olho para a Cruz? Como posso sentir-me libertado se não acendo a vela da minha fé, símbolo da luz que ilumina o corpo e a alma de quem caminha, por vezes, nas encruzilhadas da vida? Quando é que a Páscoa de Cristo será a nossa Páscoa?
Trago aqui uma reflexão de Miguel Torga - o que dizia que Deus era o pecado dos seus dias porque tinha tido sempre a coragem de o negar, mas nunca a força de o esquecer - escrita em sexta-feira santa de 1986: "Sexta-Feira Santa. A Paixão de Cristo rememorada de várias maneiras. A ler, a ver e a ouvir. Não há evento do mundo tão belo e profusamente celebrado. A cegueira do povo, a ambiguidade dos governantes, o sectarismo religioso, a via-sacra da injustiça, a exaustão do sofrimento, o semelhante solidário, a ternura feminina, a crucificação e o medo da morte. A história agónica de todos os homens, vivida simbólica e paroxisticamente por um só. A verdade e profundidade das alegorias! Espelhos ao mesmo tempo fiéis e mágicos, é nelas que a nossa condição se reflecte trivial e sublimada. E encontra conivência ou lenitivo nas horas felizes ou infelizes. Nas de provação, as mais amiudadas, é o absoluto que dá conforto ao relativo. Nunca nenhuma desgraça que nos aflige atinge a dimensão trágica do mito".
Cada ano, quando celebramos a Páscoa, vemos que pouco mudou porque nós mudamos pouco. Como iremos celebrar a Páscoa?

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