Unção de Betânia

Depois da celebração dos ramos, nesta santa semana, escutamos hoje, no evangelho da Missa, um dos gestos mais belos do Evangelho, que jamais será esquecido: uma mulher, que na versão de São João é Maria, irmã de Marta e de Lázaro, aproxima-se de Jesus, unge os seus pés com um perfume de alto preço e enxuga-lhos com os cabelos.
Para mim, a beleza deste gesto está no silêncio em que se faz, na delicadeza do momento, apesar da reação de Judas que diz que era preferível ter dado o dinheiro do perfume aos pobres, e do significado atual desta unção.
Diz o relato que a casa encheu-se com o perfume de puro nardo. Não é difícil imaginar este gesto corrente da hospitalidade judaica nos tempos de Jesus. À entrada da casa, antes de se sentar à mesa, o chefe da casa ou um dos seus principais criados, lavava os pés ao convidado. Mas este gesto não é só de hospitalidade mas também de agradecimento. Jesus tinha ressuscitado Lázaro, o irmão de Maria. E esta mulher faz o que lhe dita o seu coração: mais do que lavar os pés de Jesus ela unge-os com um perfume caro e enxuga-os com os seus cabelos.
A quebrar o silêncio está o comentário que se faz ao gesto. Não pela excentricidade do ato mas pelo excesso de dinheiro investido para o realizar. Em todas as versões - exceto na de Lucas - se coloca esta questão: para quê este desperdício? Porque é que não se aproveitou o dinheiro do perfume para dar aos pobres?
Infelizmente é uma questão atual. Mas contraditória. Porque usamos para nos desculparmos mas que acaba por nos culpar ainda mais. Quantas vezes não dizemos o mesmo? O que interessa é a intenção... É só uma lembrança... É um detalhe... Eu até fazia mas para não ser mal interpretado... ora, para esta mulher, era importante que não fosse um perfume qualquer ou uma boa refeição de agradecimento. Para ela não foi excessivo, foi o que lhe ditou o coração. E Jesus defende-a. Desmascarando-nos, porque embora sempre tenhamos pobres entre nós - e não é uma fatalidade! - nem sempre canalizamos o que poderíamos poupar em luxos e desvairos em alimento para os pobres, e também interpretando o gesto profético de Maria: ela antecipa o gesto da sepultura que Jesus não vai ter.
Este relato diz-me que o que queremos fazer por amor não deve ser reprimido. Devemos fazer sempre o que nos diz o coração, seja para Deus seja para o próximo. E que os gestos puros se devem sempre fazer, mesmo que mal interpretados, porque, as boas ações ficam em quem as praticam e o mau julgador por si se julga.
(imagem: Philippe Lejeune, A unção de Betânia, 1992)

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