São Francisco de Assis


Hoje é dia de São Francisco.
São Francisco e São Domingos foram contemporâneos. Coincidiram no tempo e na opção de vida. Mas a popularidade de São Francisco é muito maior que a de São Domingos. São Francisco continua a ser um grande exemplo para o mundo de hoje, e tem a capacidade de juntar várias sensibilidades das nossas sociedades como a paz, o diálogo inter-religioso, a ecologia… é capaz até de ser admirado por algumas pessoas mais afastadas da religião. Miguel Torga, por exemplo, Tinha uma grande admiração por São Francisco. Uma vez escreve assim: “S. Francisco de Assis, o meu santo. E louvei-o mais uma vez como pude. Chamei-lhe o Cristo da bem-aventurança terrena. Um Cristo poeta, sem o dramatismo árido do deserto e da expiação, a pregar transparências num cenário de branduras idílicas. Um Cristo que integrou o próprio demónio na fraternidade cósmica. Um Cristo humilde, sem a vocação do mando, alérgico à propriedade privada, fundador do sufrágio universal por voto secreto, anarquista, possesso da alegria da vida. Um Cristo a abrir o caminho do Renascimento só por acreditar no homem e na natureza. Um Cristo do mundo à medida do mundo”.
Um Cristo do mundo à medida do mundo. Talvez poucos santos, como São Francisco, souberam ser Cristo no mundo. Porquê? Porque perceberam que vivendo o Evangelho nas suas vidas não só se salvariam como salvariam o mundo.
O século de São Francisco e de São Domingos é um século de sonhos. Sonhos que se interpretam. Sonhos que mudam vidas e sonhos que iluminam. O papa Inocêncio III é um bom exemplo. Sonha que a igreja de São João de Latrão está prestes a cair mas que está um pobre frade a sustentá-la. No dia seguinte, numa audiência, aparece-lhe Francisco a pedir-lhe que confirme o seu propósito de viver a regra do Evangelho. Inocêncio reconhece em São Francisco o homem dos sonhos que sustentava a basílica.
Anos depois, o mesmo papa irá ter o mesmo sonho com São Domingos.
São Domingos não vai ter um sonho mas uma visão muito parecida. fr. Gerardo de Franchet, autor de um dos livros muito querido pelos Dominicanos, a Vitae Fratrum, recolheu o testemunho de um franciscano sobre esta visão em que a Virgem Maria apresenta a Jesus São Domingos e são Francisco, os que poderiam ajudar na salvação das almas. E continua o relato: "O bem-aventurado Domingos ficou a contemplar o seu companheiro e, embora o não tivesse visto anteriormente reconheceu-o imediatamente no dia seguinte quando por casualidade o encontrou na igreja. Dirigiu-se a ele, beijou-o, abraçou-o e disse-lhe: «Tu és meu companheiro; irás sempre comigo; permaneçamos juntos»".
São Francisco e São Domingos, duas colunas da Igreja. Como é que eles vão conseguir que ela não caia? Pelo seu exemplo de vida. E em especial pela pobreza. É com estes dois fundadores que nascem as Ordens mendicantes. A conversão dos hereges e da própria Igreja – um dos entraves à aprovação das Ordens franciscanas e dominicanas era exactamente o excesso da radicalidade na vivência do Evangelho - vai conseguir-se pela vida autêntica do Evangelho. No seu Diálogo com Deus, de Santa Catarina de Sena, Deus explica-lhe que a pobreza e a humildade hão-de ser o sinal distintivo de quem o quiser seguir. E diz assim a propósito de São Francisco: “São Francisco de Assis, com que virtude fundou a sua (Ordem)! Ele, ao orientar seus frades para a perfeição, escolheu a mais austera pobreza e pessoalmente a viveu com simplicidade. Francisco procurou a humilhação, desprezou-se a si mesmo, não se preocupou em agradar aos outros contrariando a minha vontade, quis ser desprezado pelo mundo, mortificou o seu corpo, destruiu o egoísmo. Francisco cercou-se de dores, afrontas e infâmias por amor do humilde Cordeiro, com o qual viveu crucificado. A tal ponto chegou que, por graça singular, viam-se no seu corpo as chagas do meu Filho. Foi assim que orientou seus frades. (…) O ideal particular de Francisco foi a pobreza; foi orientado no amor a ela que organizou sua ordem com extrema severidade. Iniciou-a com homens já perfeitos, não com pessoas comuns. Eram poucos, mas bons. Eu disse “poucos”, porque não são numerosos os que atingem a perfeição. Com o passar do tempo aumentou o número dos seus frades e, por causa das imperfeições, decaiu a prática da pobreza. Isso aconteceu não por defeito da ordem, mas porque apareceram súbditos desobedientes e superiores maus”.
A pobreza e a cruz. As duas grandes loucuras do mundo e as duas grandes paixões de São Francisco.
Termino com Miguel Torga, num poema que escreveu a São Francisco de Assis, que diz bem o que foi a sua vida e a referência que continua a ser para os nossos dias:
Louvado sejas, meu irmão poeta,
Pela beleza excelsa do teu canto,
O mais singelo,
Singular
E santo
De quantos se entoaram neste mundo.
Louvado sejas pelo profundo
Sentimento de paz
Que nele nos dás, cego a exaltar o sol,
Podre a exaltar a vida,
E até rendido aos pés da própria morte,
Nossa nocturna irmã sem caridade.
E louvado também pela humildade
Tutelar
Da tua inspiração,
Que soube, humanamente, ser do chão,
Mesmo erguida nas asas e a voar…

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