Homilia do XXX Domingo do Tempo Comum (24 de Outubro)


A parábola contada hoje no Evangelho que, acabámos de escutar, pode ser entendida como uma provocação. Provocação para os ouvintes de Jesus, provocação para as primeiras comunidades cristãs e hoje provocação a cada um de nós. E é uma grande provocação que se pode desfragmentar em várias provocações.
A primeira provocação é a dos actores da parábola. Um fariseu e um publicano. Um fariseu que fazia da aparência a sua vida, que tinha que ser reconhecido pela comunidade porque era exemplar e um publicano que era excluído pela comunidade pelo seu trabalho: era tido como um ladrão, como um explorador, dava-se com os inimigos do povo.
Outra provocação é a do tipo de oração que estes dois homens fazem: ambas sinceras. O fariseu assume uma atitude normal do seu modo de rezar: está de pé. A sua oração é sem hipocrisia: é um homem recto, observa a lei – ainda que só na sua exterioridade –, evita os pecados, não rouba nem é injusto como o publicano que estava também a rezar. Ele até faz mais que o que está prescrito. A lei mandava jejuar um dia por ano e o fariseu jejuava duas, pagava o dízimo. Era um judeu exemplar. O outro extremo é a oração do publicano. Carregado de pecados. Sabendo a dificuldade de aceitação por parte da comunidade a sua oração é simples: “Meu Deus, tem piedade de mim, que sou um pobre pecador”. Então, se estas duas orações eram sinceras, porque é que só o publicano ficou justificado? Jesus não disse que o fariseu era mau e mentiroso e que o publicano era o bom da história… Em que é que o fariseu errou? O grande erro está na atitude que ele assumiu. E creio que esta é a grande provocação de Jesus nesta parábola. O fariseu não precisava de Deus para nada, mais – quase o encurralou -, porque, pensava ele, ao que fazia, Deus só o podia salvar; salvação garantida. A sua ida ao Templo foi com a atitude de simplesmente impressionar a Deus, para que Deus o reconhecesse: aqui estão as minhas obras, reconhece que sou justo. Somadas as parcelas dá resultado positivo, está justificado.
O publicano não tinha boas obras. Não era modelo de virtudes como o fariseu. Só queria a misericórdia de Deus. E é o que pede.
Podemos então concluir que não são só as boas obras que justificam. As boas obras são, antes, sinal de que o Senhor nos tornou justos. São, na nossa vida, o resultado, os frutos que se colhem de uma árvore.
Outra grande provocação - e esta para nós - é a de que, inocentemente, na nossa oração, nos identificarmos facilmente com o publicano: é um tipo humilde, simples, que reconheceu as suas faltas… mas quantas vezes não somos como o fariseu? Quantas vezes a nossa oração, o nosso discurso, o nosso modo de vida não é farisaico: cumprir, fazer ver a Deus que cumprimos, que rezamos, que jejuamos, orgulhosos da nossa rectidão? Fechamo-nos nos nossos méritos e julgamos que nos salvamos, quando, como bem teve consciência o publicano, a salvação é sempre dom de Deus.
A Deus não o compramos nem se deixa impressionar com orações simpáticas. Deus não é fariseu nem actua como os fariseus. Pelo contrário, a Deus vai-se com o coração, vai-se com a simplicidade e a verdade que é a nossa vida. Não faz o muro da separação entre justos e injustos. Jesus veio derrubar esse muro, esse fosso de separação. Por isso foi contada esta parábola. Jesus contou-a, ouvíamos nós na introdução à parábola, para alguns que se consideravam justos e desprezavam os outros. Deus gosta de todos, não tem preferências, mas compadece-se de quem não tem méritos a mostrar, de quem se reconhece pecador diante da Sua santidade, como vimos nesta parábola.
Dois homens diferentes, duas orações diferentes. A oração como ligação com Deus, como relação, deve dizer a nossa vida. Não para fazermos ver a Deus os nossos méritos - ele conhece-os -, não para que Deus acerte contas connosco, mas a oração de um pobre que só tem para oferecer a Deus o seu coração.
Que Deus no dê este espírito de oração, nos ensine a rezar com a verdade do nosso coração, com a nossa vida; e, como dizia Santa Teresa de Ávila, “de devoções tontas, livre-nos Deus”.

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