Assinalar Miguel Torga

Às 9 horas, depois da Missa e do pequeno almoço, liguei a rádio, na Antena 2, minha companhia de trabalho nestes dias de férias. Mal aparece o som, o locutor fala de Miguel Torga. Aniversário de nascimento. Passam poemas - o da estrela de papel dito várias vezes por pessoas diferentes - músicas calmas e reflexões tiradas do seu Diário.
Também eu, humildemente, presto a minha homenagem ao grande Miguel Torga. faço-do, deixando o que ele escreveu no dia de anos de 1967: "Comecei mal e tarde. Enquanto outros partiram do saber, eu parti do sofrimento. Nenhuma porta se me abriu sem eu a arrombar. Lutei contra a pobreza, lutei contra a ignorância, lutei contra a idade, lutei contra os homens, lutei contra Deus, lutei contra mim. Uma infância rolada, de bola à mercê dos pontapés do mundo, uma juventude esfalfada, de estafeta atrasado na maratona da cultura, uma maturidade crispada, de indesejável na pátria. A criança desaninhada e perplexa nas encruzilhadas do destino, o rapaz a tentar a ferro e fogo fazer-se gente, o homem cercado de incompreensões. De maneira que era praticamente impossível que a árvore desse outros frutos. Tudo se conjugou nela e fora dela para um Outono sáfaro, que verifico nesta singeleza despida de ilusões. É triste, mas não há voltas a dar-lhe. Resta-me apenas uma consolação: embora derrotado, consegui chegar ao fim da aventura na pureza com que a iniciei, a remir pela consciência dum velho poeta a sangrar a inocência dum jovem poeta de versos de pé quebrado".
(Imagem: pintura de Ana Afonso, alusiva ao livro "Bichos", Miguel Torga)

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