Cronoterapia (terapia do tempo)

Diz o livro do Eclesiastes que há um tempo para tudo e tudo tem o seu tempo. Também para calar e para falar. Nas minhas caminhadas, nestes primeiros dias, paro várias vezes para falar com as pessoas. Atrás do bom dia, senhor padre Filipe, vem sempre uma história. Muitas vezes as histórias vividas, do passado ou do presente. De um passado duro porque difícil, e de um presente calcado pela idade e pelas dificuldades que traz. Perguntamos como vai a vida e a resposta é “vai como Deus quer”; se se fala de doenças termina-se com o “temos de aceitar o que Deus nos manda e, ele na cruz, sofreu bem mais que nós”; se o tema é a morte de alguém vai o desabafo de que “não somos deste mundo e andamos aqui enquanto Deus quiser”; se perguntamos a idade vem o desfiar das penas e trabalhos da vida, o marido e os filhos e termina-se com o “e tudo se criou, senhor padre”.
Longe da neurastenia do Qohelet, possível autor do livro do Eclesiastes, estes finais de conversa são, de certa maneira, o final feliz possível para um ás vezes tão negro cenário. Deus aparece sempre no limite do que dizemos ou que nos acontece. Não como causador mas como referência.
Mas isto não se diz a correr nem com pressa. O parar para falar, mais escutar que falar, é o modo de socializar nestas terras do interior. Aqui as redes são mesmo sociais, de rua, do “entre para dentro”, “sente-se um bocadinho” ou do “obrigado por me ter ouvido”.
A cidade apressa o tempo. Estranhamos o ter de parar para falar quando tudo se poderia resolver a um texto ou fotografia colocado numa das ditas redes sociais, para ser comentado ou apreciado com gosto ou não gosto, ou então, como já nos desculpamos com a pressa, “depois ligo-te, “mande-me um mail ou um sms”. Tudo tão redutor comparado com o dar o tempo ao outro, o tempo da minha atenção, o tempo que não é perdido mas entregue e criar assim, verdadeiras redes sociais.
Dar valor ao tempo é uma boa terapia para as férias. Senão estragam-se e regressamos ainda mais cansados.
(Fotografia; vista da serra das meadas, a partir de um monte de Feirão)

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