Conversas de sacristia

Aqui no Norte, as sacristias são tudo menos lugar de recolhimento. Além de pequenas – obedecem ao princípio antigo de ser o lugar de guardar as coisas e de o padre se “vestir” – são sempre lugar de marcações de Missa, recados, combinações e de conversa.
Hoje foi a minha primeira missa dominical em Feirão. No domingo passado celebrei noutra paróquia, perto do rio Douro. No fim da Missa, alguns dos anciãos do povo (homens experientes e educados apesar de lavradores) vieram falar-me. Conversa que pode ser de circunstância, mas que são de verdadeiro interesse, pelo menos entre os interlocutores. Senhor padre Filipe, mais um ano e cada vez mais novo, o tio Manuel é que está rijo, a idade não lhe passa pelas costas, sim, caminho já para os oitenta e cinco, e não passa pelas costas mas pelos dentes, que já poucos tenho. O tio Domingos, aqui, é que está bom. Sim, o Domingos bebe boa pinga, anda bem cuidado. Conversa para lá e para cá, entre dois anciãos e este que escreve estas linhas que, de ancião só tem o título eclesiástico (presbítero, é a palavra grega equivalente a ancião). Retoma o tio Manuel, o Senhor padre Filipe bem falou e as Escrituras é que estão bem: anda-se um homem a cansar para cá deixar tudo. Eu, com a minha idade, já trabalhei. Agora só espero. Como se diz: quando o sol bate à Portela, tem o homem de ir para casa.
A Portela é uma zona aqui de Feirão, imediatamente antes das pedras que formam o Penedo Gordo. Quando não havia relógios, se trabalhava de sol a sol e ele é que ditava o início e o fim do dia, a regra para quem andava no monte era a de que quando a sombra empurrasse a luz do sol e ele batesse a Portela, deviam descer com o gado porque o dia tinha chegado ao fim. Imagem bela para falar do fim da vida: Quando o sol bate à Portela, tem o homem de ir para casa.
Sem saber deste refrão, lembrei-me de um texto que escrevi no ano passado, por esta altura, sobre a morte e o que ela significava para mim, texto esse que só está na minha memória e na deste computador. Nesse texto, escrito no final da tarde, enquanto ouvia Bach – hoje oiço Mozart – usava a mesma imagem que o tio Manuel: para mim a morte é como a luz do sol, ao fim do dia, que chega lentamente às pedras do Penedo Gordo.
Depois da luz do sol passar estas pedras é noite em Feirão. Acabam-se os trabalhos, regressamos a casa. Parece que a sombra venceu, mas não. No dia seguinte, no mesmo lugar, o sol volta a nascer, para iluminar, orientar e aquecer.
(fotografia: final de tarde em Feirão, o sol ou a sombra desce sobre a aldeia até bater nas pedras do Penedo Gordo)

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