A preocupação de uma pastora

Venho de fazer o funeral da senhora Natália, de Cotelo. Morreu na quinta-feira, ao final do dia. A senhora Natália era pastora. Vinha do monte. E trazia a preocupação de não ter onde levar as ovelhas e as cabras por causa dos fogos. Encontrou um senhor, e era a conversa e a preocupação que trazia. As ovelhas vinham á frente e esperavam pela dona, à porta da loja, mas ela, ao chegar, disse que não se estava a sentir bem. Sentou-se numa pedra e ficou-se.
As mortes repentinas assustam muita gente. Aqui no norte, à noite, quando se reza, ou de dia, quando se fala da morte, frequentemente se diz: Nosso Senhor nos dê uma horinha de arrependimento á hora da nossa morte. Uns dizem que é uma morte santa, outros que não.
Na missa exequial, rezou-se o salmo 23: O Senhor é meu pastor nada me faltará. Na homilia falei da sua preocupação de pastora em relação com as suas ovelhas. Como esta mulher deveria perceber tão bem as palavras do salmo e de Jesus quando diz: Eu sou o bom pastor. As amigas pastoras choravam.
Vivia sozinha, já muito curvada, mas gostava de ajudar na capela. Aos domingos de manhã acordava cedo para limpar os "caminhos que levam ao Senhor". Muito generosa, pobre, alegre e simples, vivia para as suas ovelhas e as ovelhas davam-lhe vida.
Hoje a senhora Natália passou o Alto de Gosende (expressão de Cotelo para falar da morte: "Estou breve a passar o Alto de Gosende"). Que o Bom Pastor a leve hoje aos seus ombros, às pastagens refrescantes, depois de ela ter passado pelos seus vales tenebrosos.

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