Os desafetos

Comecei ontem a escrever sobre este assunto mas as horas não chegaram para o acabar. Sai com um dia de atraso.
Celebra hoje o nosso mundo o dia dos namorados, evocando São Valentim. Mas uma vez um investimento comercial, que dá para ver como o lucro às vezes se apoia na religião para comercializar. Mas é bom que hoje se celebre o dia dos que amam.
O amor é extremamente estruturante na construção da personalidade humana. Trazemos em nós a necessidade de afectos e demonstramo-los com os valores bonitos e nobres da amizade e do amor puros, sem medidas nem contrapartidas. A gratuitidade do amor.
Se a felicidade passa pelo amor, devemos então amar e ser amados. A psicologia fez-nos ver isso com uma grande lucidez: os filhos não se amam só a partir do momento em que nascem mas o desejo de os ter já deve estar carregado de amor. Sentir-se amado é condição para um dia poder vir a amar.
Ora, este "fogo que arde sem ver", segundo Camões, "é um não querer mais que bem querer". E aqui se joga tudo. Não se ama porque se quer ser feliz mas ama-se para fazer feliz o outro. O tal bem querer.
Ora, as nossas sociedades, tão civilizadas, sofrem a meu ver do síndrome do desafecto. A começar pelo amor egoísta de querer ser feliz, mesmo se não se faz feliz o outro, o amor que só dura enquanto eu sou feliz, o amor canalizado para os animais que, aos poucos, vão tendo um estatuto acima de muitos humanos, o amor que não se manifesta frente a frente, na relação directa, mas através das redes e circulações cibernéticas, que são mais frias que o frio do Pólo Norte.
Este síndrome é preocupante. Porque manifesta o grande sintoma de que alguém devia ter sido amado e não foi e, que por falta desse amor, passou-se a amar a quem responde a estímulos que lhes vamos dando. Sim, é mais fácil canalizar o amor para um animal. Responde aos estímulos, obedece-nos, quando não o queremos perto de nós conseguimos isolá-lo, quando estamos tristes e deprimidos podemos recorrer a ele que terá sempre um afago a dar-nos. Mas duvido que seja saudável trocar um amigo por um animal, que seja saudável distrair a solidão com um animal de companhia, que seja saudável canalizar as nossas energias e economias em tratamentos de luxo com animais quando seres humanos muitas vezes não têm que comer.
Mas, então, os animais não são nossos amigos? Não. Os animais são nossos animais. Nós é que queremos ser amigos dos animais, por isso os compramos, aprisionamos no nosso andar, compramos comida gourmet, oferecemos a quem padece de solidão para se distrair. Nós, humanos, ainda não percebemos a diferença entre amar e domesticar. Não se ama um animal, nunca será "o nosso filho", nunca poderá suprir a ausência de alguém. Um animal só se pode domesticar.
Note-se que eu sou o primeiro a defender os direitos dos animais. Acho tremendamente injusto ter um animal fechado numa casa o dia todo, dependente da saída e chegada do dono e de quem o queira levar a passear. Até já os animais têm psicólogos para os tratar do mal da solidão! O que lhes fizemos.
Mas tudo isto por causa do amor. O amor tem que ser correspondido, não em estímulos mas em amor. Os animais não substituem pessoas, os amigos virtuais não substituem os reais. E, por favor, não me convidem para um café virtual. Gosto de sentir a presença do outro, a voz de quem fala e o aroma do café. E viva o São Valentim.

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