Memórias de Feirão: os dias tristes

Dias tristes em Feirão, antes de eu nascer, eram os da partida para longe (sair da terra já era ir para longe), para a tropa ou a morte de alguém. Feirão, entre os anos 50 e 70, teve um grande fluxo migratório. Para o estrangeiro: Brasil, França e Alemanha, e cá em Portugal, o Porto, a Marinha Grande (“descoberta” por uma minha tia-avó) e para Lisboa. À noite, ao toque do sino, quem tivesse os seus longe da casa, marido, filhos, sobrinhos, rezava à Senhora da Guia “Que os alumiasse e guiasse nos seus caminhos”. Eram nomeados, um a um, e cada um tinha o seu pai-nosso e a sua ave-maria. Só depois se jantava o caldo triste e amargo, porque triste e amarga era também a vida. Não adiantava escrever cartas porque poucos as saberiam ler. A minha mãe, por exemplo, lia as cartas à minha tia-avó, e estamos nos anos 60.
Quem ia para a tropa ficava entregue à Senhora dos Milagres, que sempre teve uma grande devoção aqui em Feirão. Se não acontecesse nada ao filho, ou se ela o livrasse da tropa, teria as suas orações a as suas ofertas. A fé sustentava estas ausências, os corações não estavam tranquilos, nem de quem partia nem de quem ficava.
Mas a morte era a mais sentida, mesmo que as lágrimas e os sentimentos não fossem tão exteriorizados. Chorar tinha que se chorar. Apesar da vida difícil, de algum mau-trato e alguma, para não dizer muita violência doméstica, as lágrimas e a tristeza eram notórias e não eram fingidas.
Primeira coisa que se fazia era manda tocar o sino a sinais. Toque distinto, se fosse homem ou mulher. Quem ouvia perguntava e rapidamente se sabia quem era. Nos anos quarenta, uma peste dizimou Feirão. Os registos não dizem a causa da morte mas, sobretudo em 1943, morreu muita gente e, os mais pequenos, eram os que mais morriam. Se, em 1942 morreram só adultos entre os sessenta e os setenta anos, no ano seguinte a morte fartou-se de ceifar: crianças foram 10, entre Janeiro e Setembro, o mais velho de11 anos e o mais novo de 13 dias. Eram duas e três pessoas por família (aos meus bisavós morreram três filhas em pouco mais de um mês…) não havia força para lágrimas e para tanto sofrimento: entre Agosto e Setembro, havia funerais em dias seguidos e, em alguns casos, dois no mesmo dia. Não sou eu quem o digo, o livros de óbito lá estão e dizem por mim.
A resignação era muita. Aos adultos a causa era quase sempre a mesma: uma coisa ruim, ficou-se, já tinha a sua idade… Aos pequeninos havia o conforto de “serem anjinhos”. Eram sepultados à parte, num talhão para eles reservados.
Mas, voltando ao ritual, o sino tocava a sinais. Os corpos eram velados na sala da sua casa, (ainda hoje, em alguns casos é assim) enquanto se ia a Resende ou a Rossas buscar o caixão, que se trazia às costas e, à noite, as pessoas passavam pela casa do defunto para rezar e, depois, para falar da vida dele as histórias vinham e, rapidamente se ria, apesar da tristeza, lembrando as mais engraçadas histórias; bem verdade diz o ditado: se alguém quiser ser bem falado ou tem de morrer ou de mudar de terra. Raramente se falava mal do defunto. Uma das orações que fazia parte das várias que se rezavam no velório era esta: Salve Rainha/Rosa divina/Cravo de Amor/Mãe do Senhor. Dai glória aos defuntos/E a nós entendimento/Para podermos receber/O Santíssimo Sacramento. Se souberdes quem Ele é/É o menino Jesus/Que está pregado na Cruz/Com três cravos/Uma coroa de espinhos/Feita de juncos marinhos. Quem esta oração disser/Um ano de continuação/Tem tantos anos de perdão/Como o mar tem de areias/Um campo de flores/Um prado de erva. Quem a sabe não a diz/Quem a ouve não a aprende/No dia do Juízo/Saberá o que pretende.
Os da família tiravam as guisas ao gado e as mulheres vestiam-se de preto. Ano e meio de luto, pelo menos, em que não se cantava nem na igreja, e abstinência de festas e de bailes. Quebrar as regras era sinal de que não se gostava do defunto. Nos meios pequenos, a pressão social fazia-se sentir. E, a partir daqui já me lembro. O corpo era velado até que chegasse o caixão e o padre viesse levantar o corpo. Da casa da pessoa ia para a igreja, com três paragens para os responsórios e, depois da missa de corpo presente, procissão até ao cemitério, onde o defunto descansaria em paz até ao fim do mundo.
Os anjinhos eram sempre excepção. O consolo era alegre. Se a vida corria um bocado melhor à família enlutada, vinha o carinho: tens sorte, tens lá um anjinho a olhar por ti…
Excepção também era feita a quem morresse na véspera do dia de festa, que foi o caso da tia Maria Coelha, casada com o já nomeado João de Deus. A história aqui já é verdadeira, num parêntesis a conto, por ser breve. Ele casou com ela e, depois de uns anos, foi também tentar melhor vida para o Brasil. Adoeceu, meteu-se no barco para regressar mas morreu pelo caminho. A tia Maria Coelha, viúva, morreu de velha no sábado de festa. A banda que veio tocar na Missa foi também acompanhar ao cemitério. Inesquecível, porque até se sabe que a banda era de São Cipriano.
Por estas serras a morte é tida como inevitável. Todos temos de ir, por muito bons ou maus que sejamos e, como me disse hoje de manhã um senhor no fim de Missa, o que é preciso nesta vida é saúdinha e andarmos na graça de Deus.

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