Memórias de Feirão: a casa

Vou dedicar alguns textos das férias às memórias que guardo de Feirão e Cotelo. Certamente serão coisas muito dispersas e vistas a partir de alguém que é residente só três semanas ou um mês nas férias.
Hoje começo pela casa de Feirão.
A casa da minha família aqui em Feirão é uma casa grande. Aliás, grande parte delas são grandes porque grande era a família. Esta, tem praticamente a mesma idade que eu, construída com o suor do meu avô e do seu genro, o meu pai. Gente pobre, que trabalhava em Lisboa mas que juntava uns dinheiros para construir uma casa na terra. Quando nos anos sessenta foram para Lisboa, não tinham nenhum terreno nem casa. A casa onde vivia o meu avô, com a minha avô e, à data da saída de Feirão, cinco raparigas e um rapaz recém-nascido, não era deles. Era da minha bisavó, mãe da minha avó, que lha emprestou enquanto não arranjasse casa própria. Uma cozinha e um quarto e assim era lar, doce lar daquela pobre família. A minha avó vendia sardinhas, como outras mulheres aqui de Feirão, e o meu avô trabalhava nas terras dos outros, ao dia, porque não tínhamos terras próprias. A fome era muita, as pequenas iam à escola e tratavam do gado miúdo, as ovelhas, e uns tomavam conta dos outros e cuidavam da casa.
De modo que saíram daqui porque não havia condições para cá continuar. Não tivesse sido isso e teria nascido cá e talvez por cá tivesse também eu ficado. Às vezes,molhando para os que são da minha idade pergunto-me o que teria sido da minha vida. Mas nada é por acaso na nossa vida.
De modo que o tio Zé, decidido, foi para Lisboa, arranjou emprego e veio buscar a família.
Mas nunca desistiu da ideia de ter cá uma casa. Aliás, se a temos, é porque foi sempre ele o mentor da sua construção. Sem grandes ambições, limitados ao terreno, a casa é grande porque muitos foram os seus filhos. Aliás tem dez quartos, pequenos, diga-se de passagem, com a ideia de ser um quarto por filho.
Foi construída sobre uma antiga fonte. Ninguém se lembra desse tempo a não ser a minha avó, a minha mãe, filha mais velha e a sua irmã. Há uns dez anos, quando ainda a água da companhia não tinha chegado a esta pequena aldeia perdida na serra, e o método de ir à fonte buscar água para tudo e para nada se tornou cansativo, é que se lembraram que talvez tivéssemos água cá em casa. Comprovou-se. Chamou-se o vedor, com uma cana começou a sondar, a cana vibrou, pode-se fazer o furo que há cá água, concluiu. Fez-se o furo e sim, há água da boa e da fresca. Como não há fome que não dê em fartura, agora temos os dois tipos de água: ou do poço ou da companhia.
Mas volto às origens da casa. Até há uns vinte anos atrás, a casa, apesar de ter a mesma estrutura, era mais pequena. Dois andares, no de cima quatro quartos, uma sala e uma casa de banho e, no de baixo, dividido ao meio, cozinha e sala de jantar. Uma casa muito engraçada, como se pode ver. Nas minhas mais antigas recordações, para mais de trinta anos, lembro-me de uma casa sem luz e sem água, como quase todas daqui. Havia, sim, luz nas ruas. À semana apagavam-se às dez da noite e aos fins-de-semana duas horas depois. Em casa havia umas maquinetas a gás (já não sou do tempo do petróleo, embora, nos quartos, fosse tudo à luz da vela.
Desde sempre que eu vinha de férias em Agosto. Em 1980, ano em que faleceu o meu avô aqui em Feirão, estávamos de férias em Agosto. Mas, com a mudança de empregos dos meus pais, passámos a vir em Julho, quinze dias. Mas era um sortudo. Porque ia ficando até quase começarem as aulas. Ficava com os meus tios, vinham uns e iam outros, e eu, com a minha tia mais nova, íamos ficando.
Até que nos emancipámos. Começámos a vir juntos e sozinhos. Não podíamos estar condicionados a quem vinha ou quem não vinha. Ela teria uns quinze anos e eu onze, passamos o primeiro mês de Agosto sozinhos. Eram tempos divertidos, bem mais do que estes. A nossa diversão era ir trabalhar com os da nossa idade: calcar feno nos palheiros, ajudar nas malhas, ir buscar lenha ou as batatas, aproveitar boleias dos carros de vacas, apanhar amoras... Agora, além de estar tudo reduzido na quantidade, é tudo virtual.
Só há vinte anos é que se arranjou a casa como está hoje. Na parte de cima não se mexeu mas, na de baixo, fizeram-se seis quartos e, num jardim que tínhamos em frente à casa, acrescentámos a cozinha, a sala de jantar e outra casa de banho. Cumpriu-se, enfim, a vontade do meu avô, com uma casa com um quarto para cada filho. A casa não está pronta, vai-se melhorando aos poucos. Mas dá para viver. O que a casa tem de melhor é a varanda. Situada no cimo do povo, tem-se uma visão panorâmica do nascente, com o Penedo Gordo a pontificar.
Com a ida para o seminário e a minha tia a trabalhar voltei ao Julho: a segunda quinzena era para a minha família é um primo, que vinha quase sempre connosco. Até que morreu o meu pai, numas férias de Julho, há onze anos. Férias interrompidas, passei a vir em Agosto, com tios. E este ano, cá estou eu, em Julho.
Pergunto-me o que será desta casa no futuro. Aqui em Feirão, construir uma casa sempre foi um sinal de independência e de ligação às origens. Como se Lisboa ou a Marinha Grande, para onde foram muitos daqui, fosse uma terra estrangeira. Como eu, às vezes, sinto.

PS: Diz-me a minha mãe que, afinal, aqui não havia nenhuma fonte. Que eram uns lameiros sempre com muita água e, a zona do terreno onde foi construída a casa chamava-se o Quinchoso, que outra coisa não era o que o nome significa: um pequeno quintal. Pertencia à minha bisavó, Custódia se chamava, e que o deu ao meu avô para construir a casa.

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