Os braços da minha mãe

Estar de férias com a minha mãe e, pela primeira vez, só os dois, é o melhor presente que se pode ter. Há onze anos, neste dia, morria o meu pai, aqui em Feirão, o último dia em que estivemos os três. De lá para cá as férias foram sempre com tios, irmão, sobrinhas...
Com a minha mãe falo do passado e do presente, contam-se as histórias dos lugares e dela nos lugares.
Passeia-se e descansa-se na varanda da casa: eu leio ela faz croché. Sem ela dar conta, olho muitas vezes para ela, calado, como quem contempla a natureza, ou a mais bela estátua esculpida na pedra.
Como estas pedras ou casas ou árvores antigas de Feirão, a minha mãe também faz parte do seu património: é de Feirão.
Hoje fomos fazer uma caminhada a pé até ao monte de São Cristóvão onde, sábado, se fará uma grande feira. Subimos a um monte e ela sentou-se no cimo de um penedo. Calada, a ver. Depois de um tempo de silêncio, quase religioso, disse: sempre gostei de subir aos penedos.
No regresso, passámos no cemitério novo: "tudo na terra da verdade", disse ela. E ela, que não gosta de falar da morte, disse que quando morrer, que não quer fazer viagens, que onde morrer quer ficar sepultada. E que, se morrer em Feirão, não quer campas ornamentadas; só uma placa com o nome, para saberem que era daqui e que aqui ficou, também ela, na terra da verdade.
As mães, ao longo da vida, tornam-se as mulheres da nossa vida. Sempre foram, mas a passagem de mãe para mulher acontece mais tarde. Passamos do colo para os braços. E essa passagem é importante. Para mim, agora, a minha mãe é, como é bom de ver a única mulher da minha vida. Admirou outras mulheres, pelo bem que me fazem e que fazem no mundo. Mas a minha mãe é especial. Que Deus a conserve e eu saiba aproveitar a sua presença.
Ontem, quando regressávamos de Lamego, a rádio passou uma canção de Pedro Abrunhosa com Camané, "Para os braços da minha mãe". E fui trauteando a música e ela ouvindo. No final, comentou: quem não gosta do colo de uma mãe?
Aqui deixo a música, pela ternura que transmite e pelos muitos emigrantes que agora regressam aos braços e aos colos das suas mães.


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