97 anos


Lembro hoje a minha avó paterna, de quem nunca aqui escrevi, que se fosse viva faria hoje 97 anos. O meu lado paterno nunca foi muito explorado. Ao contrário dos meus avós maternos, que vieram para Lisboa nos meados dos anos 60, os meus avós paternos viveram, morreram e lá estão sepultados. Por isso, o contacto era praticamente anual, por ocasião das férias grandes, eles em Cotelo e nós em Feirão.
Quando chegávamos era das primeiras coisas que fazíamos - visitar os avós e os tios -, e depois mais umas quantas vezes, duas por semana, talvez, e a visita da despedida, a minha avó sempre com lágrima no olho, a dizer que era o último ano, que estava para breve "passar o monte de Gosende" (significava morrer).
A ela e ao meu avô, e a muitos mais da aldeia, a vida foi dura. Os filhos rapazes trabalhavam com o pai nas terras; as filhas trabalhavam em casa, com a mãe, fosse na lida, fosse no tear, fosse ainda com o levar a casa ao campo (o almoço ou a merenda a quem estava nas terras a trabalhar).
Tudo se criou, refrão que se diz sempre naquelas zonas quando se fala do passado, para dizer que apesar da fome e da dureza da vida, ninguém morreu à fome nem foi destratado. O filho mais velho deu o toque de saída para Lisboa. A terra não era vida. E um puxou o outro e todos vieram e ficaram na cidade excepto um, que não se habituou nem aos ares nem à vida de Lisboa e que ainda hoje vive em Cotelo, com a mulher e uma filha, gado e terras, trabalho não falta, vão faltando é as forças.
E o casal lá ficou: Acácio Monteiro e Ilda Rodrigues (o meu Rodrigues vem daqui), no cimo do povo, onde a casa ainda vai resistindo e se vai impondo, embora fechada, o que é uma pena.
As recordações da minha avó não são muitas. À medida que fui crescendo fui-me aproximando dela, ou percebendo-a melhor, sendo que o seu feitio - e cada um tem o seu - contrabalançava com o do meu avô. Alguma coisa terei herdado do feitio da minha avó, pelo menos era o que dizia o lado materno, mas conservo na memória uma mulher que nunca se resignou diante das dificuldades, mas sempre fez tudo para tocar a vida, arregaçando as mangas para tirar as pedras pesadas do caminho da vida e continuar a andar, que não nascemos para estar parados.
Aqui fica hoje a minha lembrança da minha avó paterna. Para Agosto ficarão as recordações do meu avô materno, que é quem fica a faltar.

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