Bodas de estanho

Descobri há anos atrás que, no casamento, cada ano se fazem bodas. As primeiras são de algodão, as décimas são de estanho. O significado é que o estanho é maleável e que, numa relação de dez anos, para durar tem que haver maleabilidade. Não sendo casado, são as bodas que hoje faço: dez anos de padre. É uma data que me diz muito, e em cada ano me vai dizendo mais. Não penso nos dez anos, penso no último: o que vivi, os amigos que ganhei e os que perdi, as exigências da vida dominicana e da vida pastoral, dimensões da vida de um padre que vão desabrochando, como uma semente que é lançada à terra e tem o seu tempo para germinar e dar fruto. Este ano, sem dúvida, descobri o que significa ser padre (pai). Uma quase paternidade biológica. A proximidade com os mais pequenos fez-me sorrir mais, ser mais descontraído, dar mais importância aos infantes (infante significa não-falante) e aos que precisam do amor de um pai e que um padre pode dar em nome de Cristo.
Este dia é verdadeiramente de acção de graças. Pela primeira vez passo-o em Roma, numa mistura de sentimentos. De manhã, ao passar num corredor do convento, li uma frase que acompanhava a imagem de um quadro: "a minha alma está agradecida ao Senhor como o perfume das flores e a pureza das açucenas". E é isso mesmo: uma vida perfumada e, tanto quanto possível, pura, ou seja, sem maldade, se algum isso poderá ser possível.
Hoje foi um dia de várias situações como a de, sem querer e certamente sem o saberem, me ofereceram um terço do Papa Francisco (o Papa quando vai a algum sítio ou se encontra com alguém oferece um terço). Foi um dia em que, mesmo sem estar ainda nomeado, já tive que assumir alguma liderança da Comissão à qual vou presidir. É também um dia de despedidas de Roma porque amanhã, se Deus quiser, regresso a Lisboa, para a "faina da vida".
Dia de agradecer a Deus e de agradecer a quantos vão enchendo e preenchendo a minha vida. De me serviria ser padre se não tivesse pessoas a quem servir? Que seria de um pastor se não tivesse rebanho? Ou de um Professor se não tivesse alunos? Ou de um agricultor se não tivesse terras para cultivar? A vida de um padre é tudo isto e muito mais, porque um padre não pode viver para si mas terá sempre de viver para Deus e para os irmãos. Por isso, caro leitor, hoje dê graças a Deus comigo. E reze por mim, nas suas orações, para que a minha vida seja como o perfume das flores e como a pureza das açucenas. E, que em cada dia me vá tornando como as crianças, para poder entrar no Reino dos Céus. 

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